Ou
o Poema Contínuo, de Herberto Helder (A Girafa; 536 páginas;
49 reais) Considerado por muitos como o maior poeta português contemporâneo,
Herberto Helder é um criador obsessivo, que revisa incessantemente as obras
que já produziu. Reunindo títulos que vão de A Colher
na Boca, de 1961, a Do Mundo, de 1994, Ou o Poema Contínuo
é o mais recente resultado dessa revisão sem fim. Em verso geralmente
livre, seus poemas cultivam imagens que se aproximam daquele clima de sonho típico
do surrealismo: "As pedras cantavam e os mitos davam / a forma das coisas". Mas
a poesia vigorosa de Helder não se enquadra completamente em nenhuma escola
ou rótulo.
Leia
trecho TRÍPTICO I Transforma-se
o amador na coisa amada com seu feroz sorriso, os dentes, as mãos
que relampejam no escuro. Traz ruído e silêncio. Traz o barulho
das ondas frias e das ardentes pedras que tem dentro de si. E cobre esse
ruído rudimentar com o assombrado silêncio da sua última
vida. O amador transforma-se de instante para instante, e sente-se o espírito
imortal do amor criando a carne em extremas atmosferas, acima de todas as
coisas mortas. Transforma-se
o amador. Corre pelas formas dentro. E a coisa amada é uma baía
estanque. É o espaço de um castiçal, a coluna vertebral
e o espírito das mulheres sentadas. Transforma-se em noite extintora. Porque
o amador é tudo, e a coisa amada é uma cortina onde o vento
do amador bate no alto da janela aberta. O amador entra por todas as janelas
abertas. Ele bate, bate, bate. O amador é um martelo que esmaga. Que
transforma a coisa amada. Ele
entra pelos ouvidos, e depois a mulher que escuta fica com aquele grito
para sempre na cabeça a arder como o primeiro dia do verão. Ela
ouve e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito do amador. Depois
acorda, e vai, e dá-se ao amador, dá-lhe o grito dele. E o
amador e a coisa amada são um único grito anterior de amor. E
gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito de amador. E ela é
batida, e bate-lhe com o seu espírito de amada. Então o mundo
transforma-se neste ruído áspero do amor. Enquanto em cima o
silêncio do amador e da amada alimentam o imprevisto silêncio do
mundo e do amor. II Não
sei como dizer-te que minha voz te procura e a atenção começa
a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta. Não sei
o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e
estremeces como um pensamento chegado. Quando, iniciado o campo, o centeio
imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante, e na terra crescida
os homens entoam a vindima - eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro
de mim, te procuram. Quando
as folhas da melancolia arrefecem com astros ao lado do espaço e
o coração é uma semente inventada em seu escuro fundo
e em seu turbilhão de um dia, tu arrebatas os caminhos da minha solidão como
se toda a casa ardesse pousada na noite. - E então não sei o
que dizer junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio. Quando
as crianças acordam nas luas espantadas que às vezes se despenham
no meio do tempo - não sei como dizer-te que a pureza, dentro de
mim, te procura. Durante
a primavera inteira aprendo os trevos, a água sobrenatural, o leve e
abstracto correr do espaço - e penso que vou dizer algo cheio de
razão, mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios,
sinto que me faltam um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer coisa extraordinária. Porque
não sei como dizer-te sem milagres que dentro de mim é o sol,
o fruto, a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, o
amor, que
te procuram. III Todas
as coisas são mesa para os pensamentos onde faço minha vida de
paz num peso íntimo de alegria como um existir de mão fechada
puramente sobre o ombro. - Junto a coisas magnânimas de água e
espíritos, a casas e achas de manso consumindo-se, ervas e barcos
altos - meus pensamentos criam-se com um outrora lento, um sabor de terra
velha e pão diurno. E
em cada minuto a criatura feliz do amor, a nua criatura da minha história
de desejo, inteiramente se abre em mim como um tempo, uma pedra simples, ou
um nascer de bichos num lugar de maio. Ela
explica tudo, e o vir para mim - como se levantam paredes brancas ou se
dão festas nos dedos espantados das crianças - é a vida
ser redonda com seus ritmos sobressaltados e antigos. Tudo é trigo
que se coma e ela é o trigo das coisas, o último sentido do
que acontece pelos dias dentro. Espero cada momento seu como se espera o
rebentar das amoras e a suave loucura das uvas sobre o mundo. - E o resto
é uma altura oculta, um leite e uma vontade de cantar. O
AMOR EM VISITA Dai-me
uma jovem mulher com sua harpa de sombra e seu arbusto de sangue. Com ela encantarei
a noite. Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. Seus ombros beijarei,
a pedra pequena do sorriso de um momento. Mulher quase incriada, mas com
a gravidade de dois seios, com o peso lúbrico e triste da boca. Seus
ombros beijarei. Cantar?
Longamente cantar. Uma mulher com quem beber e morrer. Quando fora se abrir
o instinto da noite e uma ave o atravessar trespassada por um grito marítimo e
o pão for invadido pelas ondas - seu corpo arderá mansamente
sob os meus olhos palpitantes. Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo
pensamento de alegria e de impudor. Seu corpo arderá para mim sobre
um lençol mordido por flores com água. Em
cada mulher existe uma morte silenciosa. E enquanto o dorso imagina, sob os
dedos, os bordões da melodia, desfaz-se em embriaguez dentro do coração
faminto. - Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob as mãos, mulher
de ventre escarlate onde o sal põe o espírito, mulher de pés
no branco, transportadora da morte e da alegria. Dai-me
uma mulher tão nova como a resina e o cheiro da terra. Com uma flecha
em meu flanco, cantarei. E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue, cantarei
seu sorriso ardendo, suas mamas de pura substância, a curva quente
dos cabelos. Beberei sua boca, para depois cantar a morte e a alegria da
morte. Dai-me
um torso dobrado pela música, um ligeiro pescoço de planta, onde
uma chama comece a florir o espírito. À tona da sua face se moverão
as águas, dentro da sua face estará a pedra da noite. - Então
cantarei a exaltante alegria da morte. Nem
sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela despenhada de sua órbita
viva. - Porém, tu sempre me incendeias. Esqueço o arbusto
impregnado de silêncio diurno, a noite imagem pungente com seu deus
esmagado e ascendido. - Porém, não te esquecem meus corações
de sal e de brandura. Entontece meu hálito com a sombra, tua boca
penetra a minha voz como a espada se perde no arco. E quando gela a mãe
em sua distância amarga, a lua estiola, a paisagem regressa ao ventre,
o tempo se desfibra - invento para ti a música, a loucura e o mar. Toco
o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso, a inspiração. E
eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa. Vou para ti com a beleza
oculta, o corpo iluminado pelas luzes longas. Digo: eu sou a beleza, seu
rosto e seu durar. Teus olhos transfiguram-se, tuas mãos descobrem a
sombra da minha face. Agarro tua cabeça áspera e luminosa, e
digo: ouves, meu amor?, eu sou aquilo que se espera para as coisas, para o
tempo - eu sou a beleza. Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem teus
olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza. Então
sento-me à tua mesa. Porque é de ti que me vem o fogo. Não
há gesto ou verdade onde não dormissem tua noite e loucura, não
há vindima ou água em que não estivesses pousando o silêncio
criador. Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos originais. Tu
dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra a carne transcendente.
E em ti principiam o mar e o mundo. Minha
memória perde em sua espuma o sinal e a vinha. Plantas, bichos, águas
cresceram como religião sobre a vida - e eu nisso demorei meu frágil
instante. Porém teu silêncio de fogo e leite repõe a força maternal,
e tudo circula entre teu sopro e teu amor. As coisas nascem de ti como as
luas nascem dos campos fecundos, os instantes começam da tua oferenda como
as guitarras tiram seu início da música nocturna. Mais
inocente que as árvores, mais vasta que a pedra e a morte, a carne
cresce em seu espírito cego e abstracto, tinge a aurora pobre, insiste
de violência a imobilidade aquática. E os astros quebram-se em
luz sobre as casas, a cidade arrebata-se, os bichos erguem seus olhos dementes, arde
a madeira - para que tudo cante pelo teu poder fechado. Com minha face cheia
de teu espanto e beleza, eu sei quanto és o íntimo pudor e
a água inicial de outros sentidos. Começa
o tempo onde a mulher começa, é sua carne que do minuto obscuro
e morto se devolve à luz. Na morte referve o vinho, e a promessa
tinge as pálpebras com uma imagem. Espero o tempo com a face espantada
junto ao teu peito de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade uma
ideia de pedra e de brancura. És tu que me aceitas em teu sorriso, que
ouves, que te alimentas de desejos puros. E une-se ao vento o espírito,
rarefaz-se a auréola, a sombra canta baixo.
Começa
o tempo onde a boca se desfaz na lua, onde a beleza que transportas como um
peso árduo se quebra em glória junto ao meu flanco martirizado
e vivo. - Para consagração da noite erguerei um violino, beijarei
tuas mãos fecundas, e à madrugada darei minha voz confundida
com a tua. Oh teoria de instintos, dom de inocência, taça para
beber junto à perturbada intimidade em que me acolhes. Começa
o tempo na insuportável ternura com que te adivinho, o tempo onde a
vária dor envolve o barro e a estrela, onde o encanto liga a ave ao
trevo. E em sua medida ingénua e cara, o que pressente o coração engasta
seu contorno de lume ao longe. Bom será o tempo, bom será o espírito, boa
será nossa carne presa e morosa. - Começa o tempo onde se une
a vida à nossa vida breve. Estás
profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna salina, imagem fechada
em sua força e pungência. E o que se perde de ti, como espírito
de música estiolado em torno das violas, a morte que não beijo, a
erva incendiada que se derrama na íntima noite - o que se perde de ti,
minha voz o renova num estilo de prata viva. Quando
o fruto empolga um instante a eternidade inteira, eu estou no fruto como sol e
desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada matriz de sumo e
vivo gosto. - E as aves morrem para nós, os luminosos cálices das
nuvens florescem, a resina tinge a estrela, o aroma distancia o barro vermelho
da manhã. E estás em mim como a flor na ideia e o livro no
espaço triste. Se
te aprendessem minhas mãos, forma do vento na cevada pura, de ti viriam
cheias minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses em minha espuma, que
frescura indecisa ficaria no meu sorriso? - No entanto és tu que te
moverás na matéria da minha boca, e serás uma árvore dormindo
e acordando onde existe o meu sangue. Beijar
teus olhos será morrer pela esperança. Ver no aro de fogo de
uma entrega tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus será
criar-te para luz dos meus pulsos e instante do meu perpétuo instante. -
Eu devo rasgar minha face para que a tua face se encha de um minuto sobrenatural, devo
murmurar cada coisa do mundo até que sejas o incêndio da minha
voz. As
águas que um dia nasceram onde marcaste o peso jovem da carne aspiram
longamente a nossa vida. As sombras que rodeiam o êxtase, os bichos
que levam ao fim do instinto seu bárbaro fulgor, o rosto divino impresso
no lodo, a casa morta, a montanha inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo -
aspiram longamente a nossa vida. Por
isso é que estamos morrendo na boca um do outro. Por isso é que nos
desfazemos no arco do verão, no pensamento da brisa, no sorriso, no
peixe, no cubo, no linho, no mosto aberto - no amor mais terrível
do que a vida. Beijo
o degrau e o espaço. O meu desejo traz o perfume da tua noite. Murmuro
os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua e branca das mulheres. Correm
em mim o lacre e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca ao
círculo de meu ardente pensamento. Onde está o mar? Aves bêbedas
e puras que voam sobre o teu sorriso imenso. Em cada espasmo eu morrerei
contigo. E
peço ao vento: traz do espaço a luz inocente das urzes, um silêncio,
uma palavra; traz da montanha um pássaro de resina, uma lua vermelha. Oh
amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos, casa de madeira do planalto, rios
imaginados, espadas, danças, superstições, cânticos,
coisas maravilhosas da noite. Ó meu amor, em cada espasmo eu morrerei
contigo. De
meu recente coração a vida inteira sobe, o povo renasce, o
tempo ganha a alma. Meu desejo devora a flor do vinho, envolve tuas ancas com
uma espuma de crepúsculos e crateras. Ó pensada corola de
linho, mulher que a fome encanta pela noite equilibrada, imponderável
- em cada espasmo eu morrerei contigo. E
à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se entre a nuvem e o
arbusto o cheiro acre e puro da tua entrega. Bichos inclinam-se para dentro
do sono, levantam-se rosas respirando contra o ar. Tua voz canta o horto
e a água - e eu caminho pelas ruas frias com o lento desejo do teu corpo. Beijarei
em ti a vida enorme, e em cada espasmo eu morrerei contigo. |