Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

Revolução Difícil, de George Pelecanos (tradução de Beth Vieira; Companhia das Letras; 416 páginas; 41 reais) – Ao lado de Dennis Lehane, George Pelecanos é o mais aclamado escritor da literatura policial contemporânea nos Estados Unidos. Revolução Difícil, seu 12º livro – e o primeiro publicado no Brasil –, é um exemplo de sua habilidade em cruzar enredos criminais com temas políticos e sociais. O livro se centra nos distúrbios que se seguiram ao assassinato do líder negro Martin Luther King, em 1968. O policial negro Derek Strange, o herói da história, caça um assassino ligado a uma gangue e enfrenta, ao mesmo tempo, o preconceito racial de seus colegas e o repúdio de sua comunidade, que o vê como traidor.

Leia trecho

Capítulo 1

Derek Strange curvou-se em ângulo reto. Respirou fundo, com calma, como o pai lhe ensinara, e sentiu o cheiro gostoso de abril. Magnólias, cornisos e cerejeiras floriam pela cidade inteira. E o perfume dessas flores, além do cheiro forte dos lilases crescendo na cerca de alguma casa ali perto, enchia de aromas o ar em volta.

"Você precisa manter as costas retas, feito uma mesa", disse ele, "como se fosse pôr a janta em cima. E não pode empinar a bunda. Desse jeito, você tá preparado. Aí é partir pras brechas do adversário. E tentar invadir."

Derek e seu companheiro dos sábados, Billy Georgelakos, estavam no beco atrás do Three-Star Diner, uma lanchonete no comecinho da Kennedy Street, no extremo leste da Zona Noroeste de D. C. Tinham ambos doze anos de idade.

"Igual ao seu grande ídolo", disse Billy, sentado num engradado de leite, com o gibi Nosso exército em guerra enrolado na mão carnuda, bem apertado.

"Isso mesmo. E lá vai Jim Brown no ataque de novo."

Derek saiu da posição em que estava e avançou, palmas das mãos sobrepostas, juntinhas ao peito. Pegou uma bola imaginária enquanto corria alguns passos, reduziu a velocidade, virou-se e caminhou de volta até o companheiro.

Ele tinha um jeito especial de andar. Confiante, mas sem arrogância, de peito aberto, gingando de leve os quadris. Copiara do irmão mais velho, Dennis. Derek tinha a altura normal para a idade, mas, como todo menino e a maioria dos homens, gostaria de ser mais alto. Nos últimos tempos, já na cama, à noite, tinha a impressão de sentir o corpo espichar. Sobre a penteadeira da mãe, o espelho lhe dizia que estava engrossando da cintura para cima também.

Billy, apesar dos ombros largos e do peito maior que o normal, não era nenhum atleta. Jogava nos times do bairro, mas suas paixões eram outras. Billy gostava de fliperama, espingarda de espoleta e gibi.

"Foi assim que o Brown conseguiu as doze jardas dele contra os Redskins?", disse Billy.

"Ô Billy, vamos mudar de assunto."

"Don Bosseler fez mais do que o Brown naquele jogo."

"Naquele jogo. Na maior parte do tempo, o Bosseler não chega nem nos pinos da chuteira do Brown. Duas semanas antes, lá no Griffith? Ele percorreu cento e cinqüenta e duas jardas. O cara bateu o recorde de jardas corridas de todos os tempos nesse jogo, Billy. Que Don Bosseler que nada."

"Tá bom, tá bom", disse Billy, com um sorriso se formando na cara larga. "Seu ídolo joga bem."

Derek sabia que Billy só estava querendo provocá-lo, mas assim mesmo se agitava todo, era inevitável. Não que não torcesse pelos Redskins. Escutava todos os jogos do time no rádio. Lia as colunas de Shirley Povich e Bob Addie sempre que apareciam no Post. Acompanhava tudo o que saía sobre o quarterback Eddie LeBaron, sobre o defensor Chuck Drazenovich, sobre o halfback Eddie Sutton e vários outros. Acompanhava inclusive o número de jardas que Bosseler fazia. Na verdade, ele só ficava contra os Redskins duas vezes por ano, e mesmo assim com uma pontada de culpa, quando o jogo era contra o Cleveland.

Derek tinha uma foto de jornal de Jim Brown grudada na parede do quarto que dividia com o irmão. Para ele, tirando o pai, não existia herói maior neste mundo. Jim Brown era um sujeito forte que impunha respeito, e não só entre sua própria gente, ele impunha respeito à gente de todas as cores. O cara jogava muito.

"Don Bosseler", repetiu Derek, com um risinho de troça. Depois levou a mão de dedos finos, compridos, até o alto da cabeça e esfregou o coco quase rapado. Era um gesto que seu irmão Dennis fazia quando queria troçar dos amigos durante alguma conversa. Derek tinha copiado o gesto, assim como o jeito de andar, do irmão.

"Foi só uma brincadeira, Derek." Billy levantou-se do engradado e pôs o gibi no alpendre da porta dos fundos da lanchonete. "Vem, vamos sair."

"Onde?"

"Lá pras minhas bandas. Quem sabe tem algum jogo no Fort Stevens."

"Tá bom." Billy morava a uns dois quilômetros do diner e a vários da casa de Derek. Os garotos do bairro de Billy eram quase todos brancos. Porém Derek não tinha objeções. A verdade é que achava emocionante sair de seu território.

Quase todos os sábados, os dois matavam o tempo rodando pela cidade, enquanto os pais trabalhavam no diner. Eram meninos; fazia parte dos ensinamentos da vida ir para a rua e passar por algumas aventuras, inclusive por formas brandas de encrenca. Claro que havia violência em algumas áreas da cidade, mas isso era coisa de adulto, normalmente ocorria entre os criminosos mesmo, e quase sempre à noite. De modo geral, os jovens saíam ilesos.

Entrando na rua do comércio, Derek reparou que no cinema local, o Kennedy, continuava passando Fibra de herói, com Randolph Scott no papel principal. Ele já tinha assistido com o pai. O velho prometera levá-lo à U Street para ver a nova fita de John Wayne, Onde começa o inferno, que vinha dando o que falar na cidade. O filme estava passando no Republic. Assim como o Lincoln e o Booker T, que também ficavam na U, o cine Republic era quase que só para gente de cor, e Derek se sentia à vontade lá. O pai, Darius Strange, adorava filme de bangue-bangue e Derek Strange acabara se apaixonando também.

Eles caminhavam no sentido leste. No trajeto, passaram por dois meninos que Derek conhecia da igreja e um deles disse: "O que é que você tá fazendo com um branco, hein?", ao que ele respondeu: "Não se meta na minha vida". Encarou o outro apenas tempo suficiente para que o garoto soubesse que falava sério, e depois todo mundo seguiu seu caminho.

Billy era o primeiro e o único branco com quem Derek se dava. Os pais trabalhavam no mesmo lugar e eles haviam começado a sair juntos, aos sábados. Caso contrário, jamais teriam se conhecido, porque na maior parte do tempo, descontados os eventos esportivos e os primeiros empregos, os garotos negros não se misturavam com os garotos brancos, e vice-versa. Não que houvesse algo exatamente errado em se misturar, mas é que parecia bem mais natural que cada qual ficasse no seu lugar. De vez em quando, sair com Billy deixava Derek em má situação — por ali, tinha gente que o questionava quando o via com um branco. No entanto, chegara à conclusão de que era preciso confiar nas pessoas, a menos que elas dessem algum motivo para suspeitas, e achava que tinha de opinar quando surgia um desentendimento. Seria errado ficar quieto. Verdade que muitas vezes Billy dizia a coisa errada, e que às vezes essa coisa doía, mas era só porque ele não sabia agir diferente. Era um ignorante, porém sua ignorância jamais fora proposital.

Depois de cruzar o parque Manor a noroeste, atravessaram o gramado do Fort Slocum e em pouco tempo estavam na Georgia Avenue, que, para muitos, continuava sendo a "rua principal". Era a avenida mais longa de Washington e sempre fora a via de acesso e de saída mais importante do norte da cidade, desde os tempos em que se chamava 7th Street Pike. Ali havia todo tipo de comércio, além de gente passeando nas calçadas a qualquer hora do dia ou da noite. Vivia animada, a Georgia Avenue.

A pista de concreto branco continuava riscada pelos trilhos do bonde. Num lugar ou outro, ainda se viam as antigas plataformas de madeira onde outrora os passageiros esperavam a chegada do bonde; mas agora a principal forma de transporte público eram os ônibus da D. C. Transit. Umas poucas gamelas de aço — usadas para dar água aos cavalos que puxavam as carroças dos catadores de lixo e dos vendedores de legumes e frutas — permaneciam espalhadas pela avenida, mas em pouco tempo tudo aquilo teria o mesmo fim que os vendedores ambulantes. Dizia-se que a rua seria asfaltada em breve e que os trilhos, plataformas e bebedouros sumiriam dali para sempre.

Billy morava em Brightwood, um bairro quase só de brancos de classe média, com um forte elemento étnico: gregos, italianos, irlandeses católicos e todos os tipos de judeu. Eram famílias que haviam saído de Petworth, da 7th Street, de Columbia Heights, do corredor da H Street na Zona Nordeste, de Chinatown, e que, com a súbita prosperidade dos anos subseqüentes à Segunda Guerra, avançaram mais para o norte. Estavam em busca de casas mais bonitas, com quintal para os filhos, com espaço para guardar o carro. E também queriam certa distância da população negra, que tinha aumentado muito depressa na cidade, na esteira da dessegregação forçada e da reurbanização.

No entanto, essa mudança também seria temporária. Imobiliárias do tipo "arrasa-quarteirão" já estavam providenciando a mudança de famílias de cor para as ruas de Brightwood com o único e exclusivo intuito de levar os mais receosos a vender barato seu imóvel. A próxima parada para os brancos que moravam no Upper Northeast, a leste do parque, seriam os subúrbios de Maryland. Àquela altura, ninguém sabia que os acontecimentos dos próximos nove anos acelerariam esse passo final, embora existisse um pressentimento de que havia algum tipo de mudança no ar, e de que essa mudança teria de acontecer — era uma sensação do inevitável por vir que não encontrava palavras para se articular. Apesar disso, alguns negavam essa mudança iminente com a mesma veemência com que negavam a morte.

Derek morava em Park View, ao sul de Petworth, já então uma região sobretudo de negros com alguns brancos da classe operária. Estudava na Backus Junior e dali iria para o Colégio Roosevelt. Billy estava na Paul Junior e depois passaria para o Coolidge, onde havia poucos negros e quase todos eram atletas. Muitos alunos do Coolidge iriam para a faculdade; do Roosevelt seriam bem menos. O Roosevelt tinha gangues; o Coolidge, fraternidades. Derek e Billy moravam a uns poucos quilômetros um do outro, mas eram espantosas as diferenças em suas vidas e perspectivas futuras.

Na calçada leste da quadra 6200 da Georgia, passaram pelas portas escancaradas da tinturaria Arrow, que funcionava desde 1929, sempre sob a gerência de seu proprietário, Bill Caludis. Deram uma parada para cumprimentar o filho de Caludis, Billy, que Billy Georgelakos conhecia da igreja. Na esquina ficava a loja Clark, perto do Marinoff-Pritt & Katz, o mercado judeu, onde vários açougueiros tinham números de campo de concentração tatuados nos braços. Ali perto ficava o cine Sheridan, onde estava passando Entardecer sangrento, mais um filme com Randolph Scott. Derek já tinha visto com o pai.

Atravessaram para o outro lado da Georgia. Passaram diante da Vince’s Agnes Flower Shop, onde Billy parou para trocar umas palavrinhas com uma balconista bem jeitosa chamada Margie, e depois em frente à Sheridan Waffle Shop, também conhecida como John’s Lunch, de propriedade de John Deoudes. Em seguida havia um boteco chamado Sue’s 6210, uma lavanderia chinesa, uma barbearia e, na esquina, outro bar, chamado 6200. "Stagger Lee" tocava na jukebox e suas batidas chegavam até a rua pela porta aberta do 6200.

Na calçada em frente ao bar, um grupo de adolescentes brancos se revezava entre as tarefas de falar, fumar e passar o pente no cabelo. Um deles provocava o outro, perguntando se fora a namorada que o deixara de olho roxo e cara inchada. "Que nada", disse o rapaz com o hematoma no olho, "isso daqui foi um bando de pretos que partiu pra cima de mim no estádio Griffith", acrescentando que estava com eles na mira, queria vê-los de novo para "dar o troco", conforme suas palavras. O grupo silenciou na hora em que Derek e Billy passaram. Ninguém abriu a boca, ninguém olhou feio para ninguém, não houve o menor problema. Derek, com uma espiada para o fracote todo prosa, pensou: provavelmente não teve "bando de pretos" nenhum nessa história; um só foi o suficiente.

Na esquina da Georgia com a Rittenhouse, Billy apontou todo animado para um homem de chapéu de aba mole, atravessando a rua no sentido leste. Com ele ia uma jovem cujo rosto não dava para ver, mas cujo traseiro se mexia de um jeito muito agradável.

"Aquele ali é o Bo Diddley", disse Billy.

"Pensei que ele morasse na Rhode Island Avenue."

"Isso é o que todo mundo diz. Mas ultimamente ele não sai daqui. Dizem que tá numa boate aí na Rittenhouse."

"Bo Diddley é um pistoleiro", Derek cantarolou baixinho, repetindo o refrão da música de Bo Diddley e sentindo um calor lhe subir pelas pernas ao ver o conteúdo da saia da moça.

Seguiram até a Quackenbos e cortaram caminho pela Nativity School, um convento católico com um belo ginásio de esportes. As freiras viviam espantando Billy e os amigos dele. Atrás do terreno ficava o Fort Stevens, onde, em julho de 1864, os canhões e mosquetes dos soldados da União repeliram as forças confederadas. O forte fora reconstruído e preservado na forma original, mas recebia pouquíssimas visitas. O terreno em volta acabou virando campo esportivo para a garotada das redondezas.

"Não tem ninguém por aqui", disse Derek, com um olhar de relance para o campo cheio de mato e para a bandeira norte-americana hasteada num mastro branco que lançava uma sombra ondulada no gramado.

"Vou apanhar um pouco de porichia pra minha mãe", disse Billy.

"Como é que é?"

Derek e Billy subiram a rampa íngreme até onde os vários canhões se enfileiravam lado a lado, bem no topo. Do outro lado, a rampa descia até uma vala funda que percorria a divisa norte do forte. Ao lado de um dos canhões, cresciam uns chumaços de plantas espigadas, de caule rígido. Billy arrancou algumas e sacudiu a terra das raízes.

"Pensei que sua mãe gostasse é daquele outro mato, dente-de-leão."

"Aquele chama rodichia. Estes aqui também são muito gostosos. Mas tem que pegar antes que dêem flor, porque senão ficam amargos demais. Vamos levar pra ela, assim a gente aproveita pra matar a sede."

Billy morava numa casa de tijolos, com telhado de ardósia e calhas de cobre na quadra 1300 da Somerset, alguns quarteirões a oeste do parque. Ao contrário das casas de Park View e Petworth, ali elas não eram geminadas, tinham espaço dos dois lados e gramados bem cuidados na frente. E havia muito italiano e grego por lá. Os Deoudes moravam na Somerset, assim como os Vondas, e na Underwood morava um magricela chamado Bobby Boukas, cujos pais tinham uma floricultura. Todos freqüentavam a mesma igreja de Billy, a St. Sofia. Na Tuckerman ficava a casa onde o ator anão Johnny Puleo, que trabalhou no filme Trapézio, com Burt Lancaster e Tony Curtis, passava boa parte do ano. Puleo tinha um Dodge personalizado, com blocos de madeira adaptados ao acelerador e ao breque. As ruas estavam cheias de italianos e gregos.

A caminho da casa dos Georgelakos, Derek parou para fazer afago num boxer musculoso, cor de mostarda, que costumava ficar acorrentado na frente da residência dos Deoudes. O nome do cachorro era Greco. Às vezes, Greco saía junto com o policial da noite para fazer a ronda, e era conhecido por ser um animal rápido, leal e enfezado.

Derek se agachou e deixou que Greco cheirasse sua mão. O cachorro enfiou o focinho entre os dedos dele, enquanto o garoto lhe fazia carinho na barriga e atrás das orelhas.

"Que gozado", disse Billy.

"O quê?"

"Em geral ele se arrepia todo e mostra os dentes."

"Para quem é de cor, certo?"

"Bom, é."

"De mim ele gosta." O olhar de Derek abrandou-se, ao contemplar o animal. "Um dia ainda arranjo um igualzinho pra mim."

 


 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio