O
General do Exército Morto, de Ismail Kadaré (tradução
de Rejane Janowitzer; Objetiva; 312 páginas; 44,90 reais) O albanês
Kadaré colocou seu país natal no mapa da literatura contemporânea.
Mas a Albânia não ganha um retrato lisonjeiro nesse livro de 1970,
só agora lançado no Brasil. O general referido no título
é um italiano que recebe a missão de rastrear o território
albanês em busca dos restos de seus compatriotas mortos durante a II Guerra
Mundial. A guerra, porém, acabou há mais de vinte anos, e a tarefa
é árdua, quase impossível. Munido de mapas e registros e
acompanhado de um padre, o general enfrenta o tempo permanentemente ruim e a resistência
da população. Seu fracasso é uma poderosa alegoria da violência
e da futilidade da guerra.
Leia
trecho Uma
chuva misturada com flocos de neve caía sobre a terra estrangeira. A pista
de cimento, as construções e os guardas do aeroporto estavam encharcados.
A neve derretida banhava a planície e as colinas circundantes, fazendo
brilhar o asfalto negro do calçamento. Em qualquer outra estação
aquela chuva monótona pareceria a alguém uma triste coincidência.
Mas o general não estava nada surpreso. Vinha à Albânia a
fim de assegurar o repatriamento dos restos de seus compatriotas tombados em todos
os cantos do país durante a última guerra mundial. As negociações
entre os dois governos tinham sido iniciadas na primavera e os contratos definitivos
assinados somente no final do mês de agosto, quando, justamente, os primeiros
dias cinzentos começam a aparecer. Agora era o outono. Era a estação
das chuvas, o general sabia. Antes da partida informara-se a respeito do clima
do país. Aquele período do ano era úmido e chuvoso. Mas mesmo
que o livro que lera sobre a Albânia tivesse lhe informado que, lá,
o outono era seco e ensolarado, essa chuva não lhe pareceria insólita.
Ao contrário. Ele sempre pensara, na verdade, que sua missão só
poderia ser cumprida com mau tempo. É possível que suas leituras
e os filmes que lhe voltavam à memória não tivessem relação
com sua melancolia, mas a viagem de avião e o dia enfadonho a haviam acentuado. Através
da janelinha observava longamente o aspecto ameaçador das montanhas. A
todo instante seus cumes agudos pareciam prontos a rasgar o ventre do aparelho.
Por todo lado um relevo recortado, pensava o general. Naquele solo, parecia não
haver um único lugar onde colocar o pé. Era dentro daqueles abismos
e sobre aquelas escarpas, sucessivamente encobertos e revelados pela bruma, sob
aquela chuva, que jaziam os soldados que tinha vindo buscar. Por um momento tivera
o sentimento de que seria impossível cumprir sua missão. Em seguida
fizera um esforço para se recompor. Ao aspecto ameaçador e hostil
daquelas montanhas opusera o sentimento de orgulho que ela lhe inspirava. Milhares
de mães aguardavam os despojos de seus filhos. E era ele quem iria lhes
trazer. Faria tudo que estivesse ao seu alcance para executar dignamente aquela
sagrada tarefa. Nenhum de seus compatriotas deveria ser esquecido, nenhum deveria
ser abandonado naquela terra estranha. Oh! Era uma nobre missão. Durante
a viagem, freqüentemente repetira as palavras que uma grande dama lhe pronunciara
antes da partida: "Como um pássaro soberbo e solitário, voareis
sobre aquelas montanhas silenciosas e trágicas, para arrancar de suas gargantas
e garras nossos infelizes meninos." E
agora a viagem se aproximava do fim. Depois que deixaram para trás as montanhas
e sobrevoaram vales e planícies, o general se sentiu um pouco aliviado. O
avião aterrissou sobre a pista inundada. Sinais luminosos vermelhos, em
seguida verdes; depois novamente vermelhos, depois verdes. Um soldado de capote.
Um outro. Do edifício do aeroporto, vinham alguns homens de impermeável
na direção do avião que terminava sua corrida. O
general foi o primeiro a descer. O padre que o acompanhava seguiu-o. Um vento
úmido bateu-lhes violentamente no rosto e eles levantaram as golas dos
casacos. Um
quarto de hora mais tarde, seus automóveis corriam rapidamente em direção
a Tirana. O
general virou a cabeça na direção do padre sentado a seu
lado, o qual, com o rosto desprovido de qualquer expressão, olhava em silêncio
através do vidro da porta. Sentiu que nada tinha a lhe dizer e acendeu
um cigarro. Em seguida, dirigiu de novo o olhar para o lado de fora. Os contornos
daquela terra estrangeira pareciam-lhe refratados, distorcidos pela água
que escorria serpenteando sobre o vidro. Uma
locomotiva apitou ao longe. Como a via férrea estava escondida por um talude,
o general se perguntou de que lado passaria o trem. Viu a composição
desembocar, lentamente superar a velocidade do carro, e seguiu-a com os olhos
até que o último vagão se perdesse dentro do nevoeiro. Virou-se
em seguida na direção do companheiro, mas seu rosto lhe pareceu
ainda sem expressão. Percebeu que continuava sem ter nada a lhe dizer.
Notou, por outro lado, que não lhe restara nenhum tema para meditação.
Esgotara-os todos durante a viagem. No fundo, valia mais a pena não se
entregar a novas reflexões. Estava cansado. Já era o bastante. Melhor
verificar pelo espelho se seu uniforme estava em ordem. A
noite caía quando entraram em Tirana. Um espesso nevoeiro parecia suspenso
acima dos edifícios, dos lampadários e das árvores desfolhadas
dos parques. O general havia se recomposto um pouco. Através do vidro enxergava
numerosos passantes andando depressa sob a chuva. "Há muitos guarda-chuvas
neste país!", observou. Teria adorado trocar algumas impressões,
pois o silêncio começava a incomodá-lo, mas não sabia
como proceder para quebrar o mutismo de seu companheiro. Ao longo da calçada,
do seu lado, viu uma igreja, depois uma mesquita. Do outro, erguiam-se edifícios
em construção cercados por andaimes. Os guindastes, com os faróis
acesos, tinham o aspecto de monstros de olhos vermelhos movendo-se dentro do nevoeiro.
O general chamou a atenção do padre para a igreja e a mesquita.
Este não mostrou o menor interesse. O general concluiu que, no momento,
nada seria suscetível de arrancá-lo de sua apatia. Quanto a si próprio,
sentia-se de melhor humor, mas com quem poderia conversar? O funcionário
albanês que os acompanhava estava sentado no assento dianteiro, bem na frente
do padre. O deputado e o representante do ministério que os recepcionaram
no aeroporto seguiam-nos em um outro carro. Chegando
ao hotel Dajti, o general se sentiu imediatamente à vontade. Foi para o
quarto que lhe haviam reservado, barbeou-se e trocou de uniforme. Depois pediu
à mesa telefônica que o pusesse em comunicação com
os seus. Foi
juntar-se em seguida ao padre e aos três albaneses, que haviam-se instalado
no hall em torno de uma mesa. A conversação versava sobre
assuntos variados mas indiferentes. Cada um evitava abordar questões políticas
e sociais. O general estava ao mesmo tempo amável e grave. O padre falava
pouco. O general deu a entender que era o mais importante dos dois enviados, muito
embora a reserva do padre deixasse pairar alguma dúvida a esse respeito.
Evocou as belas tradições de que se orgulhava a humanidade quanto
às sepulturas dos combatentes. Citou os gregos e os troianos, que concluíam
tréguas para inumar seus mortos com solenidade. O general mostrou-se muito
entusiasmado com o objeto de sua missão. Era uma tarefa piedosa e pesada
que iria realizar com sucesso. Milhares de mães esperavam seus filhos.
Desesperavam-se havia mais de vinte anos. Mesmo que, é verdade, essa espera
tivesse mudado um pouco de natureza. Hoje não eram mais os filhos vivos
que estavam esperando. Mas também se pode, do mesmo modo, esperar por mortos!
Era ele quem levaria a essas mães inconsoláveis as cinzas de seus
filhos, que parvos generais não souberam conduzir com habilidade em combate.
Estava orgulhoso disso e faria tudo que estivesse ao seu alcance para não
decepcioná-las. —
General, a ligação... Ele
se levantou com presteza. —
Desculpem-me, senhores — disse, e se dirigiu aos escritórios do hotel com
um passo largo e majestoso. Voltou
com a mesma postura altaneira. Estava radiante. Seus companheiros haviam pedido
conhaque e café. A conversação animara-se. O general novamente
deu a entender que era ele quem dirigia a missão, pois o padre, embora
graduado coronel, era, naquela circunstância, apenas um representante espiritual.
Ele era o chefe e, como tal, cabia-lhe o privilégio de orientar a conversação
sobre os temas de sua escolha, como as marcas de conhaque, as diferentes capitais,
os cigarros. Sentia-se como um peixe dentro d’água naquele salão,
atrás das pesadas cortinas, ao som daquela música estranha, talvez
mesmo mais do que estranha. Sempre apreciara o conforto e as vantagens materiais;
também experimentava bastante atração por viagens ao exterior,
que lhe evocavam, pelo contraste, toda a calma e a doçura do lar. Havia
algo de inebriante no luxo dos grandes hotéis internacionais, nas grandes
linhas ferroviárias ou aéreas longínquas, nos aeroportos
embandeirados com os pavilhões de dezenas de países, nas línguas
estrangeiras. O
general estava encantado. Ele mesmo não tinha explicação
para aquela baforada imprevista de bem-estar. Era a alegria do viajante ao encontrar
um refúgio após uma estrada perigosa em meio ao mau tempo. O conhaque
naquele pequeno copo cor de âmbar expulsava cada vez mais de sua memória
o aspecto ameaçador das montanhas que, por momentos, mesmo agora que se
achava sentado àquela mesa, vinha-lhe, inquietante, ao espírito.
"Como um pássaro soberbo e solitário!..." Teve de repente
o sentimento de seu poderio. Os corpos de dezenas de milhares de soldados ocultos
sob a terra esperaram sua vinda por tantos anos, e eis que ele finalmente chegou,
como um novo Messias, abundantemente munido de mapas, de listas e de indicações
infalíveis para retirá-los da lama e devolvê-los a suas famílias.
Foram outros generais que conduziram aquelas intermináveis colunas de soldados
à derrota e à destruição. Ele viera arrancar do esquecimento
e da morte o pouco que subsistira. Correria de cemitério em cemitério,
procuraria em todos os campos de batalha até encontrar os desaparecidos.
Em sua luta contra a lama ele não conheceria revés; tinha a seu
favor a força mágica concedida pelas estatísticas exatas. Representava
um grande país civilizado e sua obra tinha de ser plena de grandeza. Na
tarefa que iria desempenhar havia algo da majestade dos gregos e troianos, da
solenidade dos funerais homéricos. O
general bebeu uma nova dose. E a partir daquela noite, todos os dias, todas as
tardes, lá longe, em seu país, todos os que esperavam iriam dizer
ao pensar nele: "Neste momento, ele está procurando. E aqui estamos
nós passeando, indo ao cinema, ao restaurante, enquanto ele percorre em
todos os sentidos aquela terra desconhecida, para encontrar nossos infelizes rapazes.
Oh! É um trabalho bem pesado o dele! Mas ele vai conseguir. Não
foi enviado em vão. Que Deus o ajude!" |