O
Sonho Mais Doce,
de Doris Lessing (tradução de Beth Vieira; Companhia das Letras;
448 páginas; 56,50 reais) Com dois livros de memórias, a
escritora britânica Doris Lessing, de 85 anos, decidiu que não iria
escrever um terceiro, para não ferir "pessoas vulneráveis". Ela
preferiu examinar os anos 60, 70 e 80 nesse romance desiludido. A história
começa em Londres, onde o comunista John acalenta sonhos grandiosos de
solidariedade universal mas esquece de pagar a pensão alimentícia
dos próprios filhos. As ilusões do feminismo, do movimento antinuclear
e até das organizações humanitárias também
são devastadas nessa obra, que se encerra numa miserável república
africana no tempo em que a epidemia da aids está começando.
Leia
trecho Um
final de tarde de outono e, lá embaixo, a rua era um cenário de
luzinhas amarelas que davam a sensação de intimidade, todo mundo
já agasalhado para o inverno. Atrás dela, uma penumbra fria permeava
o aposento, mas nada seria capaz de intimidá-la: flutuava tão alto
quanto uma nuvem de verão, tão feliz quanto uma criança que
tivesse acabado de aprender a andar. O motivo dessa leveza de espírito
inusitada era um telegrama do ex-marido, Johnny Lennox — camarada Johnny —, enviado
três dias antes. ASSINEI CONTRATO PARA FILME FIDEL DOMINGO MANDO PENSÃO
DEVIDA ATRASADOS INCLUSIVE. Domingo chegara. A razão do "atrasados
inclusive" fora, e ela tinha consciência disso, algo semelhante à
exultação que ela sentia no momento: não havia como Johnny
pagar os "atrasados inclusive", que àquela altura deviam significar
tanto dinheiro que Frances nem se dava mais ao trabalho de calcular. Mas com certeza
ele devia estar esperando uma boa quantia, para soar tão confiante. Nesse
ponto, uma ligeira brisa — melhor dizendo, apreensão — atingiu-a em cheio.
Confiança era — não, ela não deve dizer a ferramenta
de ofício de Johnny, ainda que várias vezes na vida tivesse achado
que sim; por acaso se lembrava de algum dia tê-lo visto contrariado ou mesmo
desanimado pelas circunstâncias? Na
escrivaninha atrás dela havia duas cartas lado a lado, como uma lição
sobre as improváveis mas freqüentes justaposições dramáticas
da vida. Uma delas lhe oferecia um papel numa peça. Frances Lennox era
uma atriz menor, ainda que sólida e confiável, que jamais fora convidada
para fazer nada além de papéis secundários. Tratava-se de
uma peça nova, brilhante, para dois atores apenas, e o papel masculino
seria interpretado por Tony Wilde, que, até então, lhe parecera
estar num plano tão superior que ela jamais nutrira qualquer ambição
de imaginar seu nome e o dele aparecendo em pé de igualdade num programa.
E fora ele quem pedira para que lhe oferecessem o papel. Dois anos antes,
tinham atuado juntos, ela como sempre num papel funcional e secundário.
Ao final de uma curta temporada — a peça não fizera sucesso — ouvira,
enquanto entravam e saíam, alternando coxia e palco, para receber os aplausos:
"Muito bem, foi muito bom". Sorrisos do Olimpo, tinha pensado, ciente
de que Tony dera sinais de interesse por ela. Agora, se via numa efervescência
de sonhos febris, sem que isso a pegasse propriamente de surpresa: sabia melhor
que ninguém quão assentada estava, quão controlado se achava
seu eu erótico. Só que era impossível deixar de imaginar
como seria bom ter um certo espaço para desenvolver seu talento para a
alegria (ela ainda o tinha, não tinha?), até mesmo para o prazer
inconseqüente, e, ao mesmo tempo, mostrar no palco do que era capaz, havendo
uma brecha. Entretanto não iria ganhar grande coisa, num teatro pequeno,
com uma peça que era uma incógnita. Sem aquele telegrama de Johnny,
não poderia se dar ao luxo de dizer sim. A
outra carta oferecia uma coluna (nome ainda por definir) de conselhos pessoais
no jornal The Defender, emprego seguro e bem pago. Isso seria uma continuação
da outra vertente de sua vida profissional como jornalista free-lance, justamente
a que lhe rendia algum dinheiro. Escrevia
sobre uma variedade de assuntos havia anos. De início, testara seus horizontes
em pequenos jornais e tablóides locais, qualquer lugar que lhe pagasse
um pouquinho. Depois passou a pesquisar para escrever artigos sérios que
começaram a aparecer em periódicos nacionais. Ganhou nome como articulista
sólida e equilibrada que muitas vezes lançava uma luz inesperada
e original sobre um tema da época. Ela
se sairia bem. Para o que mais a experiência a equipara, se não para
uma olhada isenta nos problemas dos outros? Mas aceitar esse emprego não
traria prazer nenhum, nenhuma sensação de estar testando novos horizontes.
Ao contrário, teria de endireitar os ombros com aquele enrijecimento interno
proposital que é quase um bocejo reprimido. Estava
farta de problemas, de almas machucadas, dos extraviados e perdidos, que delícia
seria dizer "Certo, vocês podem se virar sozinhos por uns tempos que
eu estarei no teatro todas as noites e grande parte do dia também".
(Lá vinha mais uma cutucada meio gelada: você perdeu o juízo?
Sim, e estava adorando cada minuto.) O
topo de uma árvore ainda com suas folhas de verão, mesmo que já
um tanto esgarçadas, brilhava: a luz de dois andares acima, vinda dos aposentos
da velha, arrebatara a folhagem do escuro, lançando-a num movimento animado,
quase verde: a cor era implícita. Julia estava em casa, portanto. Readmitir
a sogra — a ex-sogra — nos pensamentos provocou nela uma apreensão bem
familiar, devido ao peso da desaprovação que escorria pela casa,
até atingi-la, e também a um outro motivo, algo do qual só
se dera conta nos últimos tempos. Julia fora internada, poderia ter morrido,
e Frances teve de reconhecer finalmente quanto dependia dela. Supondo que não
houvesse mais Julia, o que faria ela, o que fariam eles? Entretanto,
todos costumavam chamá-la de a velha, inclusive Frances, até
bem pouco tempo antes. Mas Andrew não. E ela havia reparado que Colin já
começara a chamá-la de Julia. Os três aposentos do andar acima
do seu — onde estava agora — e abaixo do de Julia eram habitados por Andrew, o
filho mais velho, e Colin, o caçula, filhos dela e de Johnny Lennox. Frances
tinha três aposentos para si, um quarto, um escritório e um outro
quarto sempre em uso por alguém de passagem, e uma vez escutara Rose Trimble
dizer: "Para que ela precisa de três quartos, é puro egoísmo". Ninguém
perguntava: por que Julia precisa de quatro quartos? A casa era dela. Uma casa
barulhenta e repleta de gente entrando e saindo, dormindo no chão, levando
amigos cujos nomes muitas vezes Frances nem sabia, que possuía no topo
uma zona estrangeira, que era toda ordem, onde o ar parecia delicadamente cor
de malva, perfumado com violetas, cheia de armários contendo chapéus
de várias décadas enfeitados com véus, pedrarias e flores,
e tailleurs de um corte e tecido que não existiam mais em lugar nenhum.
Julia Lennox descia as escadas e saía, as costas eretas, as mãos
enluvadas — havia gavetas de luvas —, sapatos impecáveis, chapéus
e mantôs nas cores violeta ou malva e, à volta dela, uma aura de
essências florais. "Onde ela arruma essas roupas?", Rose
perguntara antes de se dar conta daquela verdade pertencente ao passado, de que
certas roupas podiam ser guardadas durante anos e anos, e não precisavam
ser descartadas uma semana depois de compradas. Na
casa, abaixo da porção que Frances ocupava, havia uma sala de estar
que ia da frente aos fundos, e ali, em geral num enorme sofá vermelho,
os adolescentes trocavam suas confidências intensas, dois a dois; ou, se
abrisse a porta de manso, veria "as crianças" enroscadas em cima
dele, às vezes bem uma meia dúzia, qual uma ninhada de filhotes. A
sala não era usada o suficiente para justificar tamanho espaço tirado
do miolo da casa. A vida transcorria na cozinha. Apenas quando davam uma festa,
ela recebia os méritos devidos, mas as festas eram poucas, já que
os jovens preferiam as discotecas e os concertos de rock; ainda que, pelo visto,
achassem difícil se ausentar da cozinha e da grande mesa comprida que já
fora usada por Julia, com uma das abas baixadas, para jantares formais, quando
ainda "recebia". Como dizia ela. Agora
a mesa vivia em sua capacidade máxima, às vezes com dezesseis ou
vinte cadeiras e banquetas em volta. O
apartamento no subsolo era amplo, e Frances nem sempre sabia quem acampava por
lá. Sacos de dormir e acolchoados se amontoavam no chão, como detritos
depois da borrasca. Ela se sentia uma espiã quando descia para conferir
a situação. Exceto por fazer questão de que o mantivessem
limpo e arrumado — eles eram tomados por acessos ocasionais de "arrumação"
que pouca diferença faziam no estado geral das coisas —, preferia não
interferir. Julia não tinha tais inibições. Costumava descer
os poucos degraus, parava para supervisionar a cena de dorminhocos que de vez
em quando se prolongava até o meio-dia ou mais tarde ainda, xícaras
sujas pelo chão, pilhas de discos, rádios, roupas largadas em volta,
amarfanhadas, em seguida dava as costas muito lentamente, uma figura severa apesar
de seus veuzinhos e das luvas que, às vezes, ostentavam uma rosa presa
ao pulso, e, tendo notado, pela rigidez de um dorso ou por uma cabeça nervosamente
erguida, que sua presença fora percebida, voltava a subir devagar as escadas,
deixando atrás de si, no ar estagnado, aromas de flor e pó-de-arroz
caro. Frances
se debruçou na janela para ver se havia luz saindo da cozinha: sim, havia,
portanto estavam todos lá, à espera do jantar. Quem, esta noite?
Saberia logo mais. Foi então que o fusca de Johnny dobrou a esquina, estacionou
com precisão e, de dentro, saiu o próprio. Na hora, três dias
de sonhos tolos se dissolveram, enquanto pensava: Eu fui uma louca, eu estava
maluca. O que me fez imaginar que alguma coisa mudaria? Se houvesse de fato um
filme, então não haveria dinheiro nenhum para ela e os meninos,
como sempre... mas ele não dissera que o contrato tinha sido assinado? No
tempo que levou para atravessar sem pressa o escritório, parando na escrivaninha
para olhar as duas cartas fatídicas, chegar à porta, ainda se demorando,
e então descer as escadas, foi como se os três últimos dias
nunca tivessem acontecido. Ela não iria fazer a peça, não
iria gozar da perigosa intimidade do tablado ao lado de Tony Wilde, e tinha certeza
absoluta de que no dia seguinte escreveria ao Defender aceitando o emprego. Com
vagar, recobrando a compostura, desceu a escada e, depois, sorridente, parou na
porta aberta da cozinha. De encontro à janela, com os braços esparramados
para espalhar o peso do corpo no parapeito, estava Johnny, só bravatas
e — ainda que não se desse conta disso — desculpas. Em volta da mesa, uma
variedade de jovens; Andrew e Colin estavam ambos presentes. Todos olhavam para
Johnny, que pregava sobre algum assunto, todos com admiração, exceto
os filhos. Sorriam, como os outros, mas eram sorrisos ansiosos. Eles, como ela,
sabiam que o dinheiro prometido para aquele dia desaparecera na terra dos sonhos.
(Por que diabos fora contar? Era mais do que previsível!) Já acontecera
tudo isso antes. E eles, como ela, sabiam que Johnny chegara naquele momento,
quando a cozinha estava cheia de gente jovem, para não ser recebido com
ira, lágrimas, censuras — mas isso pertencia ao passado, fazia já
muito tempo. Johnny
abriu bem os braços, palmas viradas para ela, sorrindo dolorosamente, e
disse: "O filme gorou... a CIA...". A um olhar de Frances, desistiu,
calou a boca e se virou inquieto para os dois filhos. "Não
se incomode", disse Frances. "Na verdade eu não esperava outra
coisa." Os meninos estavam de olho nela; a preocupação deles
a fez se censurar ainda mais. Parou
à beira do fogão, onde vários pratos iriam muito em breve
passar pela hora da verdade. Johnny, como se as costas de Frances o absolvessem,
começou um velho discurso sobre a cia, cujas maquinações
dessa vez eram responsáveis pela não-realização do
filme. Colin,
precisando de alguma âncora dos fatos, interrompeu para perguntar: "Mas,
pai, eu pensei que o contrato...". Johnny
foi rápido. "Muita chateação. Você não
entenderia... o que a CIA quer, a CIA consegue." Um
olhar cauteloso por cima do ombro mostrou a Frances o rosto de Colin retesado
num nó de raiva, perplexidade e ressentimento. Andrew, como de hábito,
parecia despreocupado, achando graça até, mas ela sabia quão
distante estava disso. Essa cena, ou algo parecido, se repetira durante toda a
infância dos meninos. |