O
Funeral de Chopin,
de Benita
Eisler (tradução de Ana Olga de Barros Barreto; Planeta; 264 páginas;
37,50 reais) Um dos mais importantes compositores do romantismo, o pianista
Frédéric Chopin (1810-1849) deixou sua Polônia natal aos 21
anos, para conquistar os círculos artísticos de Paris, onde morreria
menos de vinte anos depois, de tuberculose. Esse ensaio biográfico concentra-se
nos anos finais de Chopin e examina sua tempestuosa relação
com a escritora francesa George Sand. Conhecida pelos trajes masculinos que usava,
a contestadora Sand parecia o oposto do retraído Chopin. O livro mostra
que essa união não foi um equívoco: algumas das melhores
obras dos dois foram criadas quando estavam juntos.
Leia
trecho Um Lacrymosa
dies illa "Quantas
lágrimas naquele dia" Numa
reluzente manhã parisiense, na quinta-feira, 30 de outubro de 1849, multidões
acorreram à praça defronte da igreja da Madeleine. O motivo era
o funeral de Frédéric Chopin, e, por isso, toda a fachada do grande
tempo neoclássico estava ornamentada com festões de veludo negro
em cujo centro havia uma cártula com as iniciais FC bordadas em prata. A
admissão só se fazia mediante convite: entre três e quatro
mil haviam recebido os cartões com tarja preta. Ao ver a praça apinhada
de carruagens, os criados de libré e os cavalos luzidios, a quantidade
de gente que convergia para o pórtico, Hector Berlioz relatou: "toda
a Paris artística e aristocrática estava ali." Mas outro que
estava atento à multidão, o crítico musical do Times
de Londres, suspeitava que dos quatro mil que enchiam os bancos, muitos tinham
sido admitidos pouco antes do meio-dia, seriam estranhos ao morto, quem sabe até,
meros passantes, "muitos dos quais, talvez, nunca tivessem ouvido falar nele." Se
a morte é um espelho da vida, o funeral de Chopin refletia todas as separações
de sua breve existência. Sendo o mais privado dos artistas, seu gênio
foi chorado num acontecimento público digno de um chefe de estado. Canonizado
como "angélico", "um poeta do teclado" à Shelley,
Chopin parecia personificar o romantismo, e antes de ser enterrado, os mitos deste
já o tinham embalsamado: uma vida curta e trágica; um papel heróico
de polonês patriota e exilado; condenado a ser amante da mulher mais notória
do século; e, por fim, a morte pela tuberculose, a assassina da juventude,
da beleza e do gênio, e dos cortesãos tolos o bastante para se apaixonar.
Na
realidade, ele foi o menos romântico dos artistas. Enquanto a geração
que atingira a maioridade imediatamente antes da dele, na França, incluindo
o olímpico Victor Hugo, tinha definido o romantismo como uma guerra santa
dos "modernos" (eles próprios) contra os "antigos"
(seus predecessores), provocando distúrbios nos teatros para dar o seu
recado, Chopin se apegava ao passado. Suas pedras de toque na música eram
Haydn, Mozart -- e, especialmente, Bach. Ele nutria dúvidas sobre o que
considerava momentos de falta de gosto em Beethoven, se mostrava desinteressado
da música de Schubert, e em geral desdenhava seus outros contemporâneos:
Schumann, Berlioz e Liszt, com quem, mais tarde, manteria uma complicada relação
de amizade e rivalidade. Na arte, ele preferia o neoclassicismo marmóreo
de Ingres e dos discípulos deste às invenções radicais
de cor e forma do seu amigo Delacroix. Social e politicamente, Chopin era ainda
mais conservador. Os
mesmos círculos aristocráticos que tinham acolhido Chopin, o menino
prodígio, em Varsóvia, estavam à espera, de braços
abertos, daquele que era a sensação de vinte e um anos de Paris.
Chopin chegou à França em 1831. Um ano antes, a revolução
tinha substituído a Restauração dos Bourbon pelos orleanistas,
que chegaram impetuosamente com Luís Felipe e a Monarquia de Julho. Era
um mundo de hierarquias fixas, determinadas por títulos, berço e
educação, sustentado por dinheiro novo cunhado por financistas e
industriais cujos divertimentos ultrapassavam os do Rei Sol não só
em esplendor, como em estilo. Chopin fez alguns amigos entre os profissionais
da classe média -- um banqueiro não demasiadamente importante, alguns
músicos. Ele tinha horror ao "Povo" como força de sublevação
e até de mudança (que ele temia acima de tudo) e desconfiava dos
que defendiam a causa popular. Sentia-se intimidado diante da crença essencialmente
romântica, cuja proponente mais ardente era George Sand, de que a arte devia
servir à causa da justiça social -- ou na realidade, a qualquer
outra causa senão a da própria arte. Como
muitos que tiveram de lutar, como "exceções" de origens
modestas, por um lugar entre os privilegiados, Chopin era repelido pela marginalidade:
pelos poloneses pobres, pelos judeus, pelos mal-vestidos e mal-educados, pela
grosseria ou desleixo, na arte ou na vida. A
maioria das imagens do compositor sugere que ele estava longe de ser belo. Seu
cabelo era descorado, pálido, o nariz, fino e adunco, a boca, contraída,
e os olhos como os de um coelho, sem pestanas. Nessas imagens, há apenas
um vislumbre do que se vê de Chopin no famoso retrato pintado por Delacroix
-- o retrato do próprio gênio romântico, com a cabeleira castanha
despenteada e o olhar ardente voltado para o interior. O famoso dandismo de Chopin,
deve ser compreendido como mais um esforço de criação, com
a mesma busca imperiosa de perfeição que há em sua música.
O dândi exibe distinção -- na roupa, na fala, nos modos --
tanto quanto distância, para que possa criar uma obra-prima: ele mesmo. O
que parecia a muitos -- então e agora -- o esnobismo de um aristocrata
e esteta provinciano, que se auto-inventava, tinha origens mais profundas. Chopin
precisava da reafirmação que uma ordem social fixa propicia. Dependente
e infantil em muitos aspetos, ele se aferrava à segurança de instituições
protetoras -- a monarquia, a Igreja e a família -- que se definem orgulhosamente
como patriarcais, que representavam pais severos mas amorosos que cuidam dos filhos,
dedicados a exaltar um passado ideal e a manter o caos daquele momento afastado. Dois
anos e apenas dois concertos após sua chegada a Paris, Chopin estava entre
aqueles poucos artistas que freqüentavam todos os círculos que importavam.
Desconsiderando o protocolo, os músicos mais velhos e já reconhecidos
o visitavam. Ele era um acessório indispensável nas casas mais importantes,
aonde, chegando em sua carruagem, era recebido como a celebridade que nunca deixava
de encantar e divertir; e caso conseguissem persuadi-lo a tocar, hipnotizava qualquer
ouvinte. Os iniciados em música se aproximavam do piano para aprender a
magia da técnica e as famosas invenções chopinianas no modo
de dedilhar, o terceiro dedo cruzando o quarto, que faziam suas composições
absurdamente difíceis parecer fáceis. Seus compatriotas exilados
ouviam lamentos por uma terra natal distante no rubato langoroso das mazurcas,
em que se dava a passagem brusca e cativante das notas maiores para as menores,
mas a elegia podia também, muitas vezes, ser sacudida por salvas dissonantes
de uma fúria incontida. Mesmo aqueles convidados cuja presença era
apenas um motivo para exibir os novos diamantes, para depois comentar casualmente
na bolsa de valores que a recepção da noite anterior na casa do
barão James tinha sido mais agradável do que de costume, permaneciam
até bem depois da meia-noite, esforçando-se para ouvir a nota final,
quando o pianista, pálido e exausto, levantava-se fatigado e agradecia
os aplausos. Era estranho perceber como a música de Chopin falava intimamente
aos pensamentos e lembranças mais particulares e há muito sepultados,
evocando a felicidade infantil e o amor perdido; ao âmago de pessoas inocentes
e mais nobres maltratadas pelos duras leis da vida. Dezessete
anos depois, ele morria, na penúria, num apartamento pago pelos amigos
no endereço mais elegante do bairro mais caro de Paris. Naquele
momento, no funeral, os enlutados que provinham da classe dos ricos e nobres excediam
em número os emissários do mundo musical. A aristocracia polonesa
emigrada e seus congêneres franceses dentre a velha noblesse encontravam-se
ali eclipsados pelo dinheiro novo: banqueiros e especuladores cujas mulheres e
filhas também tinham sido alunas de Chopin. Algumas das elegantes, relatou
um repórter, apareceram vestidas de cores brilhantes, reluzentes de jóias.
Enquanto
a multidão atravessava o portal, enfileirada, o caixão fechado era
transportado do santuário até um catafalco ornamentado ("extremamente
pretensioso", no dizer do principal crítico musical de Paris) no transepto.
O corpo embalsamado de Chopin tinha permanecido na cripta quase duas semanas desde
sua morte no dia 17 de outubro, aos trinta e nove anos. O momento da morte tinha
sido longo e terrível, e não se tinha certeza quanto ao diagnóstico
da doença que o matara: tuberculose da laringe, fibrose cística,
estenose mitral ou uma rara infecção viral? Com
a disciplina de um dândi, na lenta sufocação de sua agonia,
Chopin tinha planejado o programa musical cujo número principal seria o
Réquiem de Mozart. O que o moribundo desconhecia era que as mulheres não
tinham permissão para cantar nas paróquias da cidade; o que fez
com que os amigos poderosos de Chopin levassem dias para obter uma licença
especial do arcebispo de Paris. O decreto permitia a participação
das mulheres desde que permanecessem invisíveis; assim, as cantoras, incluindo
a amiga de Chopin, Pauline Viardot, entre as solistas que se apresentaram, tiveram
de se esconder atrás de uma cortina de veludo negro. Enquanto
os enlutados ocupavam seus lugares, o organista tocou a marcha fúnebre
da Sonata em Si bemol menor do próprio Chopin. Depois, o coro do Conservatório
de Paris entoou as notas de abertura do Intróito do Réquiem, seguidas
do primeiro solo -- "Te decet hymnus, Deus", cantou Viardot, o seu glorioso
meio-soprano pairando acima do coro e da orquestra. Em seguida, vozes e instrumentos
se calaram enquanto o padre entoava a Missa Solene para os mortos. Os
carregadores do caixão saíram de seus bancos. Dois príncipes,
Adam e Alexandre Czartoryski, representavam a comunidade de exilados poloneses.
O pintor Eugène Delacroix pranteou o amigo que ele não só
amara como reverenciara, chamando-o de "o artista mais verdadeiro dentre
nós". O compositor Giacomo Meyerbeer, do mundo da música, com
as condecorações brilhando contra o traje escuro de luto, parecia
a personificação do êxito. Ele não fora senão
um mero conhecido, mas Chopin, apaixonado por ópera, tinha sido seu fã,
como milhões de outros que fizeram de Meyerbeer um homem rico. Em compensação,
poucos conheciam o violoncelista e compositor Auguste Franchomme. Mas o professor
do Conservatório, modesto e erudito, tinha servido de inspiração
para a única música escrita por Chopin para um instrumento que não
fosse o piano. Acompanhando Franchomme, via-se um colaborador de outro tipo, Camille
Pleyel, fabricante dos pianos que Chopin, mais do que qualquer outro compositor,
transformara no instrumento próprio do gênio. Carregando
o pesado ataúde nos ombros, os seis homens caminharam pela nave ao som
dos órgãos que tocavam os prelúdios em Mi menor e em Si menor
de Chopin. Muitos dos que então saíam tinham ouvido o compositor
tocar essas peças -- suas favoritas -- nas casas deles, nos salões
de amigos, ou em salas de concerto da Pleyel. As notas familiares no instrumento
sombrio falavam da voz que nunca mais ouviriam, e eles choraram. Fora
da igreja, os enlutados se reuniram em volta do corbillard, o coche fúnebre
especial de Paris. Puxado por cavalos, emplumados de negro, o coche provocava
não só arrepios de pavor como de excitação: os parisienses
gostavam muito de funerais. A essa altura, a maioria dos presentes se dispersara;
Chopin proibira qualquer cerimônia à beira do túmulo. Com
exceção dos carregadores do esquife, então livres do fardo,
os que permaneciam eram mulheres. Eles rodearam a pequena figura da irmã
mais velha do compositor. Ludwika, chamada de Varsóvia pelo moribundo no
final de junho. "Venha, por favor, se puder", implorara-lhe o irmão,
mesmo que tivesse de pedir dinheiro emprestado, o que ele, infelizmente, não
podia adiantar. "Solicite um passaporte imediatamente", insistiu ele,
e temendo que pudesse parecer o hipocondríaco que habitualmente era, recorreu
ao conselho dos que lhe eram próximos, e se preocupavam com sua saúde,
e estes concordaram com a idéia de que não haveria nenhum remédio
melhor do que a presença da irmã. Ao mesmo tempo, Chopin tentou
negar a gravidade do seu estado. "Não sei por que anseio ver Ludwika,"
escreveu, com recato doentio, para os outros membros da família. "É
como se fossem aqueles desejos que sentem as mulheres grávidas." Chopin
podia ter passado os últimos vinte anos na companhia das pessoas mais emancipadas
de Paris, mas mesmo assim era natural que pedisse permissão ao cunhado
para que Ludwika fizesse a viagem: "Uma mulher deve obedecer ao marido,"
escreveu. "Por isso, estou lhe pedindo que como marido acompanhe a sua esposa."
Devido à intervenção do embaixador do czar junto à
França, cuja mulher era polonesa, o infindável processo de obtenção
de passaporte se abreviou e Ludwika, acompanhada do marido. Josef Kalasanty Jedrzejewicz,
e da filha de quinze anos do casal, chegou a Paris em Agosto. Mas o amuado Kalasanty
voltou à Polônia em setembro; apenas a irmã de Chopin e a
jovem sobrinha Louisette permaneceram com ele até o fim. Outro
jovem enlutado, Adolf Gutmann, de trinta anos de idade, era um dos poucos alunos
de Chopin que estudava com o propósito de ser músico profissional.
Outras, incluindo pianistas reputadas como mais talentosas, não poderiam
se apresentar por causa da origem; eram mulheres e aristocratas portadoras de
título ou de riqueza; na realidade, a mais bem dotada de todos os alunos
de Chopin era uma princesa, Marcelina Czaratoryska, que foi ao cemitério
acompanhada da condessa Delfina Potocka. Magnificamente bela de rosto e corpo,
o cabelo dourado tão cativante quanto a voz de soprano, Delfina, há
muito separada do marido, era tão pródiga em conceder favores sexuais
que a chamavam de "a Grande Pecadora" -- o que não era uma distinção
menor na Paris da Monarquia de Julho. Dizia-se que Chopin tinha sido um dos seus
muitos amantes. Ela se precipitara de sua vila em Nice ao ter notícias
de que ele estava à morte. Tendo apenas algumas horas de vida, ele implorou
que Delfina tocasse e cantasse para ele. Transportou-se um piano até a
porta aberta do quarto dele. Mas os sons da voz que lhe era tão querida
ou a música tocada ou cantada por Delfina lhe causaram acessos de sufocação
e ele fez sinal para que ela parasse. Mandando
suas carruagens seguir na frente, as nobres polonesas percorreram quase cinco
quilômetros a pé, na direção leste, ao longo dos grandes
bulevares que margeavam as favelas de Paris até o cemitério de Père
Lachaise. Outros, tendo chegado mais cedo em seges de aluguel, estavam à
espera, de pé, junto ao túmulo aberto: um escultor ruivo e forte,
Auguste Clésinger, e sua jovem esposa, Solange, filha de George Sand. Clésinger
tinha sido chamado à cabeceira do moribundo para moldar a máscara
mortuária, cujo resultado, pela semelhança -- a cabeça careca,
os olhos caídos, a boca agonizante, contorcida pelos esforços feitos
para respirar -- fez com que a horrorizada Ludwika o recusasse. Trabalhando com
presteza, o escultor aplicou outra camada de gesso úmido, que, depois de
removida, foi de novo trabalhada. Ele foi então eliminando todo indício
de contorção e de dor até conseguir que as feições
do morto mostrassem uma expressão de paz cristã. A recompensa dada
a Clésinger foi a encomenda de um monumento funerário, e naquele
momento ele estudava o lugar em que, acima de um pequeno perfil oval do compositor,
seria erguida a sua homenagem em mármore: uma Musa segurando uma lira. Destacando-se
dos Clésinger, de Ludwika, do padre, das nobres polonesas, e dos carregadores
do caixão, via-se a figura angulosa de miss Jane Stirling, herdeira
escocesa, aluna e benfeitora de Chopin, que o sustentara no último ano
de vida dele. Foi Stirling quem pagou a conta do funeral -- cinco mil libras --
das quais duas mil foram gastas apenas na orquestra e no coro. No
silêncio que o morto impusera, baixou-se o seu caixão. Os enlutados
se juntaram para um último olhar. Mas também pareciam estar cerrando
fileiras, preenchendo um lugar vazio entre eles. Do
pequeno círculo dos que tinham sido os mais íntimos do morto, George
Sand estava ausente. |