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O Pio da Coruja, de Carl Hiaasen (tradução de Maria Ignez França; Companhia das Letras; 246 páginas; 33 reais) – Conhecido principalmente por Strip-Tease, que virou filme com Demi Moore, Carl Hiaasen é o grande cronista da Flórida, que ele sabe retratar em toda a sua despudorada breguice. A degradação ecológica do estado americano é um de seus temas favoritos – já foi explorado, por exemplo, em A Ponte da Ilha do Sapo. Em O Pio da Coruja (destinado aos leitores adolescentes), ele conta a divertida história de Roy Eberhardt, um garoto que, recém-chegado a uma pequena cidade da Flórida, se vê envolvido em uma campanha para salvar uma espécie ameaçada de coruja cujo território está prestes a se transformar em estacionamento para um restaurante de panquecas.

Leia trecho

Se não fosse Dana Matherson, Roy não teria notado aquele menino estranho, porque normalmente ele não olhava pela janela do ônibus escolar. Roy preferia ler gibis e livros de mistério nos trajetos matinais até a escola.

Mas naquele dia, uma segunda-feira (Roy jamais se esqueceria disso), Dana Matherson agarrou a cabeça de Roy por trás e pressionou os polegares nas têmporas dele, como se estivesse espremendo uma bola de futebol. Os meninos mais velhos deviam ficar no fundo do ônibus, mas Dana esgueirou-se por trás do assento de Roy e atacou-o de emboscada. Quando ele se retorceu para tentar se libertar, Dana comprimiu o rosto de Roy contra a janela.

Foi nesse instante que, espiando com os olhos semicerrados através do vidro embaçado, Roy avistou o menino estranho correndo para alcançar o ônibus escolar, parado na esquina para pegar mais crianças.

O menino tinha cabelos encaracolados loiro palha e a pele escurecida pelo sol. A expressão de seu rosto era atenta e séria. Ele vestia um agasalho de basquete desbotado do Miami Heat e short cáqui sujo; e aí vinha a parte mais estranha: estava sem sapatos. As solas de seus pés descalços, de tão pretas, pareciam carvão de churrasco.

A escola Trace Middle não tinha um código de vestimenta dos mais rigorosos do mundo, mas Roy estava quase certo de que exigiam algum tipo de calçado. O menino poderia levar um par de tênis na mochila, caso estivesse carregando uma mochila. Sem sapatos, sem mochila, sem livros… Estranho, realmente, para um dia de aula.

Roy podia apostar que o menino descalço sofreria todo tipo de maldade nas mãos de Dana e dos outros meninos maiores na hora em que subisse no ônibus. Mas isso não aconteceu…

Pois o menino continuou a correr: passou a esquina, passou a fila de estudantes à espera do ônibus, passou o próprio ônibus. Roy teve vontade de gritar "Ei! Vejam aquele menino!", mas sua boca não estava se movendo bem. Dana Matherson ainda o segurava por trás, empurrando seu rosto contra a janela.

Assim que o ônibus ultrapassou o cruzamento, Roy esperava dar mais uma espiada no garoto, um pouco distante rua acima. No entanto, ele tinha feito a volta na calçada e estava atravessando um jardim particular; corria a toda, muito mais rápido do que Richard, o melhor amigo de Roy lá em Montana. Richard era tão veloz que tinha de treinar com a equipe de atletismo do segundo grau, embora estivesse apenas na sétima série.

Dana Matherson enterrou as unhas no couro cabeludo de Roy, tentando fazer com que ele gritasse, mas Roy quase não sentia nada. Ele estava dominado pela curiosidade de ver o menino, que ia correndo e se movendo de um jardim para outro, ficando menor aos olhos de Roy conforme ia aumentando a distância do ônibus escolar.

Roy viu um cachorro grande de orelhas pontudas, provavelmente um pastor alemão, pular de uma varanda e avançar no garoto. Incrível, o menino não desviou de seu caminho. Saltou sobre o cachorro, colidiu com uma cerca viva de cerejeiras e sumiu.

Roy suspirou.

"Que é que há, cowgirl? Já teve o bastante?"

Esse era Dana, sibilando na orelha direita de Roy. Sendo o garoto novo no ônibus, Roy não esperava ajuda dos outros. Chamá-lo de cowgirl era tão inadequado que não valia a pena ficar furioso com isso. Dana era um notório imbecil e além do mais ultrapassava o peso de Roy em mais de vinte quilos. Reagir seria uma completa perda de energia.

"Já teve o bastante? Não consigo ouvir você, Tex." O hálito de Dana tinha cheiro de cigarro velho. Fumar e atacar de surpresa os meninos menores eram seus dois passatempos preferidos.

"Tá, tá bom", disse Roy impaciente. "Já tive o suficiente."

Assim que foi liberado, Roy baixou o vidro da janela e espichou a cabeça para fora. O menino estranho havia ido embora.

Quem seria ele? Do que ele estava correndo?

Roy se perguntou se alguma outra criança no ônibus havia visto o que ele tinha visto. Por algum momento ele se perguntou se ele mesmo havia visto aquilo.

 

Naquela mesma manhã, um agente de polícia chamado David Delinko foi mandado para o terreno de uma futura Casa das Panquecas Americanas da Mamãe Paula. Era um terreno vago na esquina da avenida East Oriole com a Woodbury, na extremidade leste da cidade.

Um homem numa picape azul-escura recebeu o agente Delinko. O sujeito, que era tão careca quanto uma bola de frescobol, se apresentou como Crespo. O policial achou que o homem careca tinha senso de humor por escolher tal apelido, mas ele estava enganado. Crespo era desagradável e sisudo.

"Você deveria ver o que eles fizeram", disse ele ao policial.

"Quem?"

"Siga-me", disse o homem chamado Crespo.

O agente Delinko caminhou atrás dele. "O informe dizia que você queria denunciar um ato de vandalismo."

"É isso", resmungou Crespo por cima do ombro.

O policial não conseguia ver o que poderia ser vandalizado na propriedade, que basicamente se resumia a alguns hectares de ervas daninhas de vários formatos. Crespo parou de andar e apontou para um pequeno pedaço de estaca de madeira jogada no chão. Uma tira de plástico rosa estava amarrada numa das pontas do pau. A outra extremidade, pontuda, estava empastada de terra cinzenta.

"Eles arrancaram", disse Crespo.

"É uma estaca de levantamento topográfico?", perguntou o policial Delinko.

"É. Eles puxaram do chão, cada uma daquelas pragas."

"Crianças, provavelmente."

"E aí eles espalharam tudo", disse Crespo, erguendo o braço musculoso, "e depois taparam os buracos."

"Isso é um pouco estranho", observou o policial. "Quando aconteceu?"

"A noite passada ou hoje cedo", disse Crespo. "Talvez não pareça um grande problema, mas vai levar um tempão para marcar o terreno de novo. Enquanto isso, não podemos começar a limpar, nem nivelar, nem nadica de nada. Nós já temos tratores e escavadeiras alugados, e agora vão ficar aí chocando. Eu sei que não é o crime do século, mas mesmo assim…"

"Eu entendo", disse o policial Delinko. "Qual é a sua estimativa dos danos?"

"Danos?"

"É. Assim posso colocar no meu relatório." O policial apanhou a estaca e examinou-a. "Na verdade, não está quebrada, certo?"

"Bem, não…"

"Alguma foi destruída?", perguntou o policial Delinko. "Quanto custa uma dessas? Um ou dois dólares?"

O homem chamado Crespo estava perdendo a paciência. "Eles não quebraram nenhuma estaca", disse rispidamente.

"Nem umazinha?" O policial fechou a cara. Ele estava tentando imaginar o que iria colocar em seu relatório. Não existe vandalismo sem danos materiais, e nada na propriedade havia sido quebrado ou danificado…

"O que eu estou tentando explicar", disse Crespo com irritação, "não é o tanto que eles bagunçaram as estacas de marcação topográfica, é o quanto eles atrapalharam todo o nosso planejamento de construção. É isso que vai custar muita grana."

O policial Delinko tirou o quepe e coçou a cabeça. "Deixe-me pensar a respeito", disse ele.

Caminhando até a viatura, o policial tropeçou e caiu. Crespo agarrou-o por um braço e colocou-o em pé. Ambos estavam levemente embaraçados.

"Corujas estúpidas", disse Crespo.

O policial sacudiu a sujeira e os vestígios de grama do uniforme. "Você disse corujas?"

Crespo fez um gesto em direção ao buraco no chão. Era um círculo tão grande quanto uma das famosas panquecas de buttermilk da Mamãe Paula. Um montículo de areia, branca e solta, era visível na entrada.

"Foi nisso que você tropeçou", informou Crespo ao policial Delinko.

"Uma coruja vive aí?" O policial se agachou e estudou o buraco. "Elas são grandes?"

"Mais ou menos da altura de uma lata de cerveja."

"Tá brincando?", disse o policial Delinko.

"Mas eu nunca vi uma, oficialmente falando."

De volta à viatura, o patrulheiro pegou sua prancheta e começou a escrever o relatório. Descobriu então que o verdadeiro nome de Crespo era Leroy Branitt, e que era o "engenheiro supervisor" da construção do projeto. Ele fechou a cara quando o policial, em vez disso, escreveu "contramestre".

O policial Delinko explicou a Crespo o problema para preencher a queixa como vandalismo. "O meu sargento vai chutá-la de volta para mim porque, do ponto de vista técnico, nada foi vandalizado. Algumas crianças aparecem numa propriedade e arrancam um punhado de estacas do chão."

"Como você sabe que eram crianças?", resmungou Crespo.

"Bem, e quem mais poderia ter sido?"

"E o fato de terem enchido os buracos e atirado as estacas, só para refazermos todo o traçado a partir do zero? O que me diz disso?"

Isso também intrigou o policial. Crianças normalmente não criam esse tipo de problema quando aprontam travessuras.

"Você tem algum suspeito em especial?"

Crespo admitiu que não tinha. "Está bem, digamos que foram crianças. Isso significa que não é um crime?"

"É claro que é um crime", respondeu o policial Delinko. "Estou dizendo que tecnicamente não é um ato de vandalismo. É invasão de propriedade e estrago criminoso."

"Isso serve", disse Crespo erguendo os ombros. "Assim que tiver uma cópia do seu relatório para a companhia de seguros. Ao menos seremos cobertos por perda de tempo e despesas."

O policial Delinko deu a Crespo um cartão com o endereço do setor de administração da polícia e o nome do escrivão encarregado de preencher os relatórios de incidentes. Crespo enfiou o cartão no bolso de sua camisa de contramestre.

O policial colocou os óculos escuros e entrou na viatura, que estava quente como um forno. Rapidamente virou a chave de ignição e pôs para funcionar o ar-condicionado no máximo. Assim que afivelou o cinto de segurança, disse: "Senhor Branitt, tem mais uma coisa que eu gostaria de perguntar. Apenas por curiosidade".

"Manda", disse Crespo, limpando a testa com um lenço amarelo.

"É sobre essas corujas."

"Certo."

"O que vai acontecer com elas?", perguntou o policial Delinko. "Quero dizer, assim que vocês começarem a terraplenagem."

Crespo, o contramestre, riu entredentes. Ele achou que o policial estava brincando.

"Que corujas?", disse ele.

 

O dia todo Roy não conseguiu parar de pensar no menino estranho. Nos intervalos de aula, ele esquadrinhava os rostos nos corredores, podia ser que o garoto tivesse chegado na escola mais tarde. Talvez ele estivesse correndo rumo à sua casa, pensou Roy, para mudar de roupa e calçar sapatos.

Mas Roy não viu nenhum menino que se parecesse com aquele que havia saltado sobre o cachorro grande de orelhas pontudas. Talvez ele ainda estivesse correndo, pensou Roy enquanto comia seu almoço. A Flórida foi feita para correr; Roy nunca havia visto um lugar tão plano. Em Montana você tem montanhas altas e escarpadas que se erguem a uns três mil metros em direção às nuvens. Aqui, as únicas colinas são as pontes das auto-estradas feitas pelo homem, ladeiras de concreto lisas e suaves.

Aí Roy se lembrou do calor e da umidade, que em alguns dias pareciam sugar toda a substância de seus pulmões. Uma longa corrida sob o sol da Flórida seria uma tortura, pensou ele. Um cara precisaria ser muito durão para ter um hábito desses.

Um menino chamado Garrett sentou-se do outro lado da mesa de Roy. Este o saudou com a cabeça, e o garoto respondeu da mesma forma, e os dois voltaram a comer o macarrão grudento em suas bandejas de almoço. Como era novo na escola, toda vez que ia à lanchonete Roy se sentava sozinho, na ponta da mesa. Já era um especialista nessa história de ser o novato; a Trace Middle era a sexta escola que ele freqüentava desde que começara a estudar. Coconut Cove era a décima cidade em que sua família morava, que ele se lembrasse.

O pai de Roy trabalhava para o governo. Sua mãe dizia que eles se mudavam tanto porque o pai de Roy era muito bom no seu trabalho (fosse lá qual fosse) e era freqüentemente promovido. Aparentemente era assim que o governo recompensava seu trabalho, transferindo-o de um lugar para o outro.

"Oi", disse Garrett. "Você tem um skate?"

"Não, mas tenho um snowboard."

Garrett assobiou. "Para quê?"

"Onde eu morava nevava muito", explicou Roy.

"Você precisa aprender a andar de skate. É o máximo, cara."

"Mas eu sei andar de skate. Só que não tenho um."

"Então arranje", disse Garrett. "Eu e meus amigos andamos nos maiores shopping centers. Você podia vir com a gente."

"Seria legal." Roy procurou se mostrar entusiasmado. Ele não gostava de shopping centers, mas gostou de Garrett ter tentado uma aproximação.

Garrett era um aluno medíocre, mas era popular na escola porque ficava de bobeira nas aulas e fazia barulho de peido toda vez que o professor o chamava. Garrett era o rei das imitações de peido da Trace Middle. Seu truque mais famoso era imitar um peido assim que terminava o primeiro verso da saudação à bandeira feita antes da chamada.

Ironicamente, a mãe de Garrett era a orientadora educacional da Trace. Roy ficava imaginando se, por usar suas habilidades de orientadora todo dia na escola, ela não tinha disposição para lidar com Garrett quando voltava para casa.

"É, nós ficamos andando de skate até os guardas botarem a gente pra correr", dizia Garrett, "e aí a gente vai pro estacionamento até ser expulso de lá também. É o máximo."

"Gostoso", disse Roy, embora achasse que ir a um shopping parecesse um jeito bem chato de passar uma manhã de sábado. Ele estava esperando pelo seu primeiro passeio num aerobarco pelo Everglades. Seu pai tinha prometido levá-lo em um dos próximos fins de semana.

"Existem outros colégios por aqui?", perguntou a Garrett.

"Por quê? Você já está cheio deste?", gargalhou Garrett e mergulhou a colher no montão pegajoso de torta de maçã.

"De jeito nenhum. A razão da pergunta é que vi um garoto estranho hoje em um dos pontos em que o ônibus pára. Como ele não subiu no ônibus nem está aqui na escola", disse Roy, "imaginei que ele não freqüenta a Trace Middle."

"Não conheço ninguém que não estude na Trace", disse Garrett. "Tem uma escola católica lá em Fort Myers, mas é bem longe. Esse menino estava de uniforme? Porque as freiras fazem todo mundo usar uniforme."

"Não, ele não estava mesmo de uniforme."

"Você tem certeza de que ele está no segundo grau? Talvez ele estude no Graham", sugeriu Garrett. O Graham era o colégio público mais próximo de Coconut Cove.

"Ele não parecia grande para freqüentar o colegial", disse Roy.

"Talvez seja anão", disse Garrett arreganhando os dentes e simulando um sonoro peido com uma das bochechas.

"Eu não acho."

"Você disse que ele era estranho."

"Ele estava sem sapatos", disse Roy, "e corria feito louco."

"Talvez tivesse alguém atrás dele. Ele parecia assustado?"

"Não exatamente."

Garrett balançou a cabeça. "É do colegial. Aposto cinco pratas com você."

Para Roy, aquilo ainda não fazia sentido. As aulas no colégio Graham começavam cinqüenta e cinco minutos mais cedo do que na Trace; os garotos do colegial estavam longe das ruas muito antes de os ônibus do primeiro grau terminarem suas rotas.

"Então ele estava matando aula. Os garotos fazem isso o tempo todo", disse Garrett. "Você vai querer a sua sobremesa?"

Roy empurrou a bandeja para o outro lado da mesa. "Você sempre mata aula?"

"Ô", Garrett disse com sarcasmo. "Um montão de vezes."

"Sozinho?"

Garrett pensou por um momento. "Não. Sempre com meus amigos."

"Isso. Foi o que eu pensei."

"Então o garoto pode ser apenas um maluco. E quem está interessado?"

"Ou um fora-da-lei", disse Roy.

Garrett parecia cético. "Um fora-da-lei? Você quer dizer como um Jesse James?"

"Não, não exatamente isso", disse Roy, embora existisse algo de selvagem nos olhos do garoto.

Garrett riu novamente. "Um fora-da-lei… essa é forte, Eberhardt. Você tem uma imaginação perigosamente exagerada."

"É", disse Roy, já pensando em um plano. Ele estava determinado a encontrar o menino.

 


 
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