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Cartas de Viagem e Outras Crônicas, de Campos de Carvalho (José Olympio; 126 páginas; 25 reais) – Pouco lido em vida, o mineiro Walter Campos de Carvalho (1916-1998) foi uma dessas figuras marginais da literatura – e que às vezes transformam a margem em um lugar mais interessante do que o centro. Autor de livros irônicos como Vaca de Nariz Sutil, ele praticamente abandonou a literatura depois de lançar O Púcaro Búlgaro, em 1964. As cartas e crônicas contidas nesse pequeno livro são suas últimas produções. As cartas são uma narrativa delirante de suas andanças pela Europa. As crônicas, publicadas em O Pasquim, incluem definições como "a bicicleta é um boi volátil cujo epicentro se encontra sob o esfíncter anal do pedalante".

Leia trechos

CENAS LONDRINAS

"Pois Keats vivia no final da rua na pequena casa branca por trás de uma cerca de madeira. Nada mudou muito desde sua época. Mas quando entramos na casa em que Keats viveu, uma sombra de luto parece descer sobre o jardim. Uma árvore caiu e está escorada. Galhos fazem dançar sua sombra oscilante nas brancas paredes da casa. Ali, em que pese toda a alegria e serenidade da vizinhança, cantava o rouxinol; e se havia um lugar onde a febre e a angústia faziam sua morada era aquele, envolvendo o opresso territoriozinho verde com uma sensação de morte próxima, de brevidade da vida, da paixão do amor e sua infelicidade. (...) A sala está vazia a não ser pelas duas cadeiras, pois Keats tinha poucos bens, pouca mobília e não mais, dizia ele, que 150 livros. (...) Ali, sentou-se na cadeira junto à janela e escutou sem se mover, e viu sem sobressaltos, e virou a página sem pressa, embora seu tempo fosse tão curto."

 

CARTAS DE VIAGEM E OUTRAS CRÔNICAS

"Se Lisboa logo à primeira vista parece tipicamente lisboeta, Londres, então, é você vê-la e exclamar: "Isto sim é uma cidade londrina!"

Tive sorte em enxergá-la logo no segundo dia, pois tenho um amigo que ficou aqui três semanas e só conseguiu ver neblina, neblina, neblina: acabou indo ao oculista pensando que estava com catarata. Aliás, diga-se a meu favor que tenho carregado o SOL comigo por tudo quanto é lugar por onde passe: dos 70 dias que fiquei em Paris, Paris me ficou devendo exatamente 65 dias de sol: recorde absoluto. Um frio de rachar — mas sol. (...) O trânsito, como se sabe, é aqui invertido, vai-se pela esquerda e volta-se pela direita — e o chofer guia junto à porta da direita, que ele não é besta nem nada. Já fui atropelado três vezes. Os ônibus têm dois andares mas parecem ter 20, e seu equilíbrio é tão instável quanto a atual situação política argentina: acho que exagero um pouco."


 
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