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A Praga Escarlate, de Jack London (tradução de Roberto DeNice; Conrad; 104 páginas; 23 reais) O ano é 2073. Num cenário primitivo, em que se distinguem na paisagem apenas as ruínas do que um dia foi São Francisco, um ancião relata aos jovens como a civilização foi destruída por uma epidemia. O americano Jack London, autor do clássico Caninos Brancos, concebeu essa história em 1912, poucos anos antes de morrer. Trata-se de uma fábula pessimista e cuja futurologia ficou algo datada (fala de telégrafo no século XXI, por exemplo). Mas, no essencial, continua impressionante: é uma espécie de matriz da ficção-catástrofe que mais tarde faria sucesso na literatura e no cinema. Uma curiosidade: ao descrever os surtos que precederam a grande praga, London cita uma hipotética Peste Pantoplástica, que teria surgido no Brasil.

Leia trechos do primeiro capítulo

O caminho seguia pelo que um dia fora o leito de uma estrada de ferro. Mas, havia muitos anos, nenhum trem passava por ali. Pelos dois lados, a floresta já tinha se infiltrado nos aclives e transformado a ferrovia num mar verde de árvores e arbustos. A via era estreita e não passava de um atalho para algum animal selvagem. De vez em quando, um pedaço de ferro oxidado, exposto por entre a densa vegetação, anunciava que o trilho e os dormentes ainda se encontravam no lugar. Em determinado ponto, uma árvore de vinte e cinco centímetros de diâmetro, irrompendo na conexão, havia suspendido a ponta do trilho claramente à vista. Era óbvio que o dormente fora levado junto, preso ao trilho pela cavilha longa o suficiente para ter a base coberta de cascalhos e folhas em decomposição -, de modo que agora a madeira podre e caindo aos pedaços se encontrava de pé num ângulo curioso. Velha como era a estrada, sem dúvida havia sido um monotrilho.

Um senhor e um menino seguiam pelo caminho. Andavam devagar, pois o senhor era muito velho - com uma leve paralisia a lhe deixar os movimentos trêmulos - e se apoiava com dificuldade no cajado. Um gorro malfeito de pele de cabra protegia sua cabeça dos raios de sol. E, por baixo, caía a franja rala do cabelo branco, sujo e manchado. A viseira, criada com engenho a partir de uma folha grande, protegia os olhos, e então o velho podia examinar a marcha dos pés caminho afora. A barba, que provavelmente fora branca como a neve, mas de algum modo apresentava o mesmo desgaste pelo tempo e manchas iguais às do cabelo, descia quase até a cintura, num grande emaranhado. Dos ombros pendia a vestimenta única e esfarrapada, também de pele de cabra. As pernas e os braços, magros e ressequidos, denunciavam a idade avançada, da mesma forma que a queimadura de sol, as cicatrizes e os arranhões denunciavam os muitos anos de exposição às forças da natureza.

O menino, que caminhava à frente, refreando a avidez dos músculos ao ritmo lento do homem mais velho, também usava uma veste única - a peça maltrapilha de pele de urso com um buraco ao meio, por onde metia a cabeça. Não tinha mais de doze anos. Preso por brincadeira sobre uma orelha, estava o rabo recém-cortado de um porco. Numa das mãos, o garoto carregava o arco de tamanho médio e uma flecha; nas costas, a aljava cheia de setas. Da bainha pendurada ao pescoço pela correia sobressaía o cabo carcomido da faca de caçar. O menino era moreno feito jam­bo e andava com leveza, quase como um gato. Em contraste flagrante à pele queimada de sol, havia os olhos azuis - de um azul profundo, mas pungentes e incisivos como um par de estiletes. Pareciam penetrar em tudo à volta com naturalidade. À medida que andava, ele também sentia o cheiro das coisas, com as narinas dilatadas e vibrantes, a enviar ao cérebro uma infinidade de mensagens vindas do mundo exterior. Da mesma forma, a audição se mostrava aguçada e tão bem treinada que agia de modo automático. Sem qualquer esforço consciente, ele ouvia os menores ruídos no silêncio aparente - ouvia, distinguia e classificava esses ruídos -, fossem das folhas farfalhando ao vento, do zumbido de abelhas e mosquitos, do estrondo distante do mar que lhe chegava apenas em intervalos, ou do roedor logo abaixo do pé, forçando passagem pelo buraco na areia.


 
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