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Pedro
Páramo & Chão em Chamas,
de Juan Rulfo (tradução de Eric Nepomuceno; Record;
400 páginas; 44,90 reais) O mexicano Juan Rulfo (1917-1986)
publicou apenas dois livros de ficção, reunidos agora
em volume único o romance Pedro Páramo e
a coletânea de contos Chão em Chamas. Essa obra
exígua, no entanto, bastou para consagrá-lo como um
clássico da literatura latino-americana moderna, com reconhecida
influência sobre autores como o paraguaio Augusto Roa Bastos,
o mexicano Carlos Fuentes e o colombiano Gabriel García Márquez.
Pedro Páramo, sua obra mais conhecida, mistura o mundo
dos vivos e o dos mortos para narrar a história de um homem
que viaja a um vilarejo abandonado para encontrar o pai que não
conheceu.
Leia
trecho
A
noite em que deixaram ele sozinho
-
Por que tão devagar? - Feliciano Ruelas perguntou aos dois
que iam na frente. - Desse jeito a gente vai acabar dormindo. Será
que vocês não têm pressa de chegar logo?
- A gente vai chegar amanhã de manhãzinha - responderam.
Foi a última coisa que ouviu dos dois. Suas últimas
palavras. Mas disso se lembraria depois, no dia seguinte.
Lá iam os três, olhando o chão, tratando de
aproveitar a pouca claridade da noite.
"É melhor estar escuro. Assim, não verão
a gente." Também tinham dito isso, um pouco antes, ou
talvez na noite anterior. Não se lembrava. O sono nublava
seu pensamento.
Agora, na subida, viu que lá vinha o sono de novo. Sentiu
quando chegou perto, rodeando-o como se buscasse a sua parte mais
cansada. Até que caiu em cima dele, sobre suas costas, onde
levava os rifles cruzados.
Enquanto o terreno esteve regular, caminhou depressa. Ao começar
a subida, atrasou-se; sua cabeça começou a se mover
devagar, mais lentamente conforme seus passos se encurtavam. Os
outros passaram ao seu lado, agora iam muito adiante e ele continuava
balançando a cabeça adormecida.
Foi ficando para trás. Tinha o caminho à sua frente,
quase na altura de seus olhos. E o peso dos rifles. E o sonho trepado
ali, onde suas costas se encurvavam.
Ouviu quando perdia seus passos: aquelas pisadas ocas que vinha
ouvindo sabe lá desde quando, durante quem sabe quantas noites:
"Da Magdalena para cá, a primeira noite; depois de lá
para cá, a segunda, e esta é a terceira. Não
seriam muitas" pensou "se tivéssemos pelo menos
dormido de dia. Mas eles não quiseram: 'Podem pegar a gente
enquanto a gente dorme' disseram. 'E isso seria a pior coisa.'"
- Pior para quem?
Agora o sono o fazia falar. "Eu disse a eles que esperassem:
vamos deixar este dia para descansar. Amanhã a gente caminha
direto e com mais gana e com mais força, se precisarmos correr.
Pode acontecer, se for o caso."
Parou, com os olhos fechados. "É muito" disse.
"O que é que a gente ganha com a pressa? Uma jornada.
Depois de tantas que perdemos, não vale a pena." Em
seguida gritou: "Onde é que vocês andam?"
E quase em segredo: "Vão embora, então. Vão!"
Encostou-se no tronco de uma árvore. Lá estava a terra
fria e o suor convertido em água fria. Esta devia ser a serra
de que tinham falado. Lá embaixo o tempo morno, e agora aqui
este frio que se enfiava por baixo do capotão: "Como
se me levantassem a camisa e manuseassem minha pele com mãos
geladas."
Foi sentando sobre o musgo. Abriu os braços como se quisesse
medir o tamanho da noite e encontrou uma cerca de árvores.
Respirou o ar cheirando a terebintina. Depois deixou-se deslizar
no sono, sobre as ramas secas, sentindo como seu corpo ia se intumescendo.
Foi despertado pelo frio da madrugada. A umidade do orvalho.
Abriu os olhos. Viu estrelas transparentes num céu claro,
por cima dos galhos escuros.
"Está escurecendo", pensou. E tornou a dormir.
Levantou-se ao ouvir gritos e o apertado golpear de cascos sobre
a argila seca do caminho. Uma luz amarela beirava o horizonte.
Os arrieiros passaram ao lado dele, olhando-o. Cumprimentaram: "Bom
dia", disseram. Mas ele não respondeu.
Lembrou-se do que tinha de fazer. Já era de dia. E ele devia
ter atravessado a serra de noite para evitar os vigias. Aquele passo
era o mais guardado. Tinham dito a ele.
Tomou o cesto com as carabinas e jogou-as nas costas. Fez-se a um
lado do caminho e cortou pelo monte, até onde o sol estava
saindo. Subiu e desceu, cruzando colinas empedradas.
Parecia ouvir os arrieiros, que diziam: "Vimos ele lá
em cima. É assim e assado, e carrega muitas armas."
Jogou os rifles fora. Depois se desfez das cartucheiras. Então
sentiu-se levinho e começou a correr como se quisesse ganhar
dos arrieiros na descida.
Era preciso "subir lá no alto, rodear a meseta e depois
descer". Estava fazendo isso. Deus mediante. Estava fazendo
o que lhe disseram que fizesse, embora não nas horas indicadas.
Chegou na beira do barranco. Olhou lá longe a grande planície
cinzenta.
"Eles devem estar lá. Descansando ao sol, já
sem nenhuma ladeira", pensou.
E deixou-se cair barranco abaixo, rodando e correndo e tornando
a rodar.
"Deus mediante!", dizia. E rodava cada vez mais em sua
correria.
Parecia continuar ouvindo os arrieiros quando disseram a ele: "Bom
dia!" Sentiu que seus olhos eram enganadores. Chegarão
ao primeiro vigia e dirão: "Vimos ele em tal e tal lugar.
Não vai demorar para estar por aqui."
De repente ficou quieto.
"Cristo!", disse. E já ia gritar: "Viva Cristo
Rei!", mas se conteve. Tirou a pistola do embornal e acomodou-a
debaixo da camisa, para sentir que estava pertinho de sua carne.
Isso deu coragem a ele. Foi se aproximando até os ranchos
de Água Zarca em passos silenciosos, olhando o bulício
dos soldados que se esquentavam perto de grandes fogueiras.
Chegou até as grades do curral e pôde vê-los
melhor; reconhecer suas caras: eram eles, seu tio Tanis e seu tio
Librado. Enquanto os soldados davam a volta ao redor do lume, eles
se balançavam, dependurados de um tronco alto, no meio do
curral. Não pareciam mais estar percebendo a fumaça
que subia das fogueiras, e que enevoava seus olhos vidrosos e enegrecia
suas caras.
Não quis continuar vendo os dois. Arrastou-se ao longo da
cerca e encolheu-se numa esquina, descansando o corpo, embora sentisse
que uma minhoca se retorcia em seu estômago.
Acima dele, ouviu que alguém dizia:
- O que estão esperando para baixar esses dois?
- Estamos esperando o outro chegar. Dizem que eram três, então
tem de ser três. Dizem que o que está faltando é
um rapazinho; mas rapazinho e tudo, foi quem armou a emboscada para
o tenente Parra e acabou com seu pessoal. Tem de cair por aqui,
como caíram esses outros que eram mais velhos e mais bravos.
Meu major diz que se não vier de hoje para amanhã,
inteiramos a conta com o primeiro que passar, e assim as ordens
terão sido cumpridas.
- E por que a gente não sai buscando? Vai ver a gente se
distrai um pouco.
- Não carece. Tem de vir. Estão todos bandeando para
a serra de Comanja para se juntar com os cristeiros do Catorze.
Esses aí já são dos últimos. Bom mesmo
seria deixá-los passar para que dessem guerra aos companheiros
de Los Altos.
- É, isso sim, seria bom. Vamos ver se por causa disso também
não enfileiram a gente para aqueles rumos.
Feliciano Ruelas esperou um pouco mais que o bulício que
arranhava seu estômago se acalmasse. Depois sorveu um bocadinho
de ar como se fosse mergulhar na água e, agachado até
se arrastar pelo chão, foi caminhando, empurrando o corpo
com as mãos.
Quando chegou ao rés do arroio, ergueu a cabeça e
desandou a correr, abrindo caminho no pasto. Não olhou para
trás nem parou em sua corrida até sentir que o arroio
se dissolvia na planície.
Então parou. Respirou forte e tremulamente.
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