Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

Fazer Amor, de Jean-Philippe Toussaint (tradução de Ana Ban; Globo; 120 páginas; 29 reais) – Fotógrafo, escritor e cineasta, o belga Toussaint, de 47 anos, é um dos melhores nomes da literatura contemporânea em francês. Nesse seu segundo livro publicado no Brasil – o primeiro foi A Televisão, um irônico retrato do intelectual europeu atual –, ele faz um exame impiedoso do fim de uma relação amorosa. A história se passa no Japão – um casal francês se encontra em Tóquio, para fazer amor pela última vez antes da separação. Toussaint não faz nenhuma concessão romântica: o sexo entre seus personagens é brutal. Pontuando a ação, há pequenos abalos sísmicos em Tóquio, como anúncios de que algo está se rompendo entre os dois amantes.

Leia trecho

Tinha mandado encher um frasco com ácido clorídrico e o carregava sempre comigo, achando que um dia o jogaria na cara de alguém. Bastaria abrir o frasco, que era de vidro escuro e parecia conter água oxigenada, olhar nos olhos e sair correndo. Eu me sentia curiosamente calmo depois de tocar o frasco de líquido amarelado e corrosivo, que apimentava minhas horas e aguçava meus pensamentos. Mas Marie ficava imaginando, com preocupação possivelmente justificada, se não seria nos meus próprios olhos, no meu próprio olhar, que aquele ácido terminaria. Ou então na cara dela, em seu rosto coberto de lágrimas já havia tantas semanas. Não, acho que não, dizia a ela com um sorriso simpático de negação. Não, acho que não, Marie, e, com a mão, sem tirar os olhos dela, eu acariciava bem de leve o volume do frasco no bolso do paletó.

Mesmo antes de nos beijarmos pela primeira vez, Marie já tinha começado a chorar. Tinha sido em um táxi, havia mais de sete anos, ela estava sentada ao meu lado, com o rosto coberto de lágrimas, na penumbra do veículo que atravessava as sombras fugidias das margens do Sena e os reflexos amarelos e brancos dos carros com que cruzávamos. Àquela altura, ainda não nos tínhamos beijado, eu ainda não tinha pegado na mão dela, não lhe tinha feito a mínima declaração de amor — mas será que algum dia eu já lhe fiz alguma declaração de amor? —, e fiquei lá olhando para ela, comovido, desamparado, por vê-la chorar daquele jeito ali ao meu lado.

A mesma cena se reproduziu em Tóquio, há algumas semanas, mas dessa vez nos separaríamos para sempre. Não dizíamos nada naquele táxi que nos conduzia ao grande hotel de Shinjuku, aonde tínhamos chegado naquela manhã mesmo, e Marie chorava em silêncio ao meu lado, fungava e soluçava bem de levinho, apoiada no meu ombro, enxugando as lágrimas com gestos exagerados com as costas das mãos, pesadas lágrimas de tristeza que a enfeavam e faziam com que a maquiagem de seus cílios escorresse, ao passo que sete anos antes, quando nos encontramos pela primeira vez, as lágrimas tinham sido de pura alegria, leves como espuma que escorriam sobre suas bochechas parecendo não sofrer o efeito da gravidade. O táxi estava abafado, e Marie sentia muito calor, passava mal, e acabou por tirar o sobretudo de couro preto, com dificuldade, contorcendo-se ao meu lado sobre o banco traseiro do táxi, fazendo careta e com ar de quem me odiava; e eu, claramente, não estava nem aí, merda, se estava tão quente assim dentro do táxi, ela que reclamasse ao motorista, o nome e a foto de identificação dele estavam sobre o painel. Ela me empurrou para acomodar o casaco entre nós dois, no banco, tirou o suéter, que enrolou como uma bola a seu lado. Tinha ficado só com uma camisa branca desengonçada e amarrotada que se abria sobre seu sutiã preto e saía um pouco da calça. Não dizíamos nada dentro do táxi, e o rádio transmitia, sem parar, na penumbra, canções japonesas enigmáticas e alegres.

O táxi nos deixou na entrada do hotel. Em Paris, sete anos antes, eu tinha proposto a Marie que fôssemos beber alguma coisa em algum lugar que ainda estivesse aberto na Bastille, ou na rue de Lappe, ou na rue de la Roquette, ou na rue Amelot, ou na rue de Pas-de-la-Mule, não lembro mais. Tínhamos caminhado muito tempo naquela noite, vagando de café em café, de rua em rua, para chegar ao Sena e à ilha Saint-Louis. Não tínhamos nos beijado de imediato naquela noite. Não, não tinha sido imediatamente, não mesmo. Mas quem é que não gosta de prolongar aquele momento delicioso que precede o primeiro beijo, quando dois seres que sentem um pelo outro qualquer inclinação amorosa já decidiram que vão se beijar, os olhos sabem, o sorriso adivinha, os lábios e as mãos pressentem, mas continuam adiando o momento de tocar a boca na outra boca com afeição pela primeira vez?

Em Tóquio, subimos diretamente para o quarto, sem trocar uma única palavra, atravessamos o grande hall de entrada deserto com lustres de cristal iluminados, um trio de lustres deslumbrantes dispostos como que se observando uns aos outros e que balançavam suavemente sob nosso olhar no exato momento em que retornamos ao hotel, os lustres tinham começado a balançar sozinhos, como sinos de catedral, sacudindo-se lentamente enquanto passávamos, com um tilintar de vidro e de cristal que acompanhou o rangido irresistível do desespero da matéria que fez o chão tremer e as paredes vibrarem. Depois que a onda passou, a luz vacilou no teto, mergulhando o hotel por um instante na escuridão; os lustres, ainda em movimento, se reacenderam cada um a seu tempo no hall e voltaram a seu lugar no leve estremecimento combinado de milhares de laminazinhas de vidro transparente que iam reencontrando pouco a pouco a imobilidade. A recepção do hotel estava deserta, o elevador, deserto, subia lentamente pela nave central do átrio, e nós estávamos em silêncio dentro da cabine transparente, lado a lado, Marie em prantos, com o sobretudo de couro preto e o suéter em um braço, observando os lustres que não terminavam de se estabilizar no final daquele abalo sísmico de magnitude tão ínfima que eu me perguntei se ele não tinha se produzido apenas em nosso coração. O corredor do andar estava em silêncio, era interminável, carpete bege, bandeja de serviço de quarto abandonada na frente de uma porta com vestígios esparsos de uma refeição, um guardanapo jogado atravessado em cima de um prato sujo. Marie caminhava na minha frente, as costas curvadas, os braços sem forças, deixando uma mão se arrastar atrás dela pelas paredes do corredor. Eu me juntei a ela junto à porta e introduzi o cartão magnético na fechadura para entrar no quarto. E, mais uma vez, naquelas duas noites, em Paris e em Tóquio, faríamos amor, a primeira vez, pela primeira vez — e a última, pela última.


 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio