Contos
de Horror do Século XIX (vários tradutores; Companhia das
Letras; 528 páginas; 39,50 reais) O argentino naturalizado canadense
Alberto Manguel é uma autoridade mundial em história da leitura.
Em paralelo à atividade como ensaísta, ele também devota
seu tempo à criação de antologias. Nesse lançamento,
Manguel não renega os autores fundamentais do gênero, mas vai às
obras menos óbvias do americano Edgar Allan Poe, por exemplo, escolheu
o pouco conhecido Os Fatos no Caso do Sr. Valdemar. Sua seleção
de 33 contos é generosa com a literatura latino-americana. Dois de seus
maiores expoentes no século XIX figuram nela: o nicaragüense Rubén
Dario e o uruguaio Horácio Quiroga.
Leia
trecho A
mão do macaco W.
W. Jacobs "A
mão do macaco", do inglês w. w. Jacobs, é o conto mais
antologiado da literatura de horror, em todos os tempos. Obteve grande sucesso
logo que foi editado, tendo sido teatralizado e adaptado para o cinema inúmeras
vezes. Peças e filmes não obtiveram êxito. Mas o conto mantém,
até hoje, o mesmo poder de atração alcançado em 1902,
ocasião em que foi publicado. Quando
meus filhos eram pequenos, gostavam que eu lhes contasse histórias de terror.
Algumas eram inventadas por mim, outras eu havia lido, e entre estas a que eles
mais queriam ouvir era "A mão do macaco". Ficavam de olhos arregalados,
ouvindo minha interpretação da história, que sempre era contada
à noite, num lugar em penumbra — cenário e iluminação
escolhidos por eles. Cada
vez que eu narrava, de memória, "A mão do macaco", introduzia
uma modificação. O visitante que chegava com a mão do macaco
deixava de ser um primeiro-sargento do Exército britânico na Índia
para se tornar um peregrino que pedia abrigo na casa da família White devido
a um temporal de neve, um velho sinistro, com barbas compridas e olhar esgazeado.
E o sr. White, na minha história, queria ficar rico, e não apenas
pagar a hipoteca de sua casa, conforme w. w. Jacobs. Ao sr. White não se
aplica, como eu dava a entender, a fala de Timóteo, no Novo Testamento,
"o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males" — nem merece
ele a maldição dos deuses por ter tentado interferir no destino.
E o final da minha versão era ainda mais terrível, pois, enquanto
contava a história, eu emitia sons assustadores e andava de um lado para
o outro, fazendo gestos e caretas aterradores. Mas
o conto não é meu, melhor passar a palavra ao Jacobs. Fora
da casa era uma noite fria e úmida, mas na pequena sala de visitas da Vila
Laburnam as cortinas estavam cerradas e o fogo ardia na lareira. Pai e filho jogavam
xadrez. O primeiro possuía idéias sobre o jogo que envolviam jogadas
radicais, expondo o rei a perigos desnecessários, o que provocava comentários
da velha senhora que calmamente fazia tricô perto do fogo. "Ouça
esse vento", disse o sr. White, que, notando um erro fatal cometido quando
já era tarde demais, queria evitar que o filho o percebesse. "Estou
ouvindo", disse o filho, observando atento o tabuleiro, enquanto estendia
a mão. "Xeque." "Não
imaginei que ele viesse esta noite", disse o pai, a mão erguida sobre
o tabuleiro. "Mate",
respondeu o filho. "Não
há nada pior do que esta vida, tão afastada de tudo", exclamou
o sr. White, com inesperada irritação. "Dentre todos os lugares
desagradáveis, lamacentos e fora de mão para se viver, este é
o pior. O caminho é um atoleiro e a estrada uma torrente. Não sei
o que as pessoas estão pensando. Suponho que, como na estrada somente duas
casas estão alugadas, acham que isso não tem importância." "Não
se preocupe, querido", confortou-o a esposa. "Talvez você ganhe
a próxima partida." O
sr. White ergueu a vista subitamente, a tempo de interceptar um olhar de entendimento
entre mãe e filho. As palavras morreram em seus lábios e ele escondeu
na rala barba grisalha um sorriso constrangido. "Lá
vem ele", disse Herbert White, quando o portão bateu com estrondo
e passos pesados se dirigiram para a porta. O
velho se levantou com presteza hospitaleira e, ao abrir a porta, foi possível
ouvir como ele se lamentava com o visitante. Este também se queixou do
tempo, o que levou a sra. White a lançar, em voz baixa, uma interjeição
de desdém. Depois tossiu levemente assim que o marido entrou na sala, seguido
por um homem alto e robusto, com olhos grandes e rosto corado. "Primeiro-sargento
Morris", disse, apresentando-se. O
sargento trocou apertos de mão e, aceitando a cadeira que lhe foi oferecida
junto ao fogo, observou, satisfeito, o anfitrião trazer uísque e
copos e colocar uma pequena chaleira de cobre no fogo. Ao
terceiro copo seus olhos se tornaram mais brilhantes e ele começou a falar,
enquanto o pequeno grupo familiar olhava com grande interesse aquele visitante
de terras distantes, que, sentado com os largos ombros numa postura ereta, discorria
sobre acontecimentos estranhos e feitos valorosos, sobre guerras e pestes e povos
exóticos. "Vinte
e um anos disso", disse o sr. White, fazendo um gesto com a cabeça
para a esposa e o filho. "Quando ele partiu era um garoto magro de uma loja
de varejo. Agora, olhem só para ele." "Não
parece ter sofrido muito", disse a sra. White delicadamente. "Eu
gostaria de ir à Índia", disse o marido, "apenas para
dar uma olhada, entendem?" "Melhor
onde você está", disse o sargento, abanando a cabeça.
Pousou o copo vazio e, suspirando, meneou a cabeça outra vez. "Gostaria
de ver aqueles velhos templos e faquires e malabaristas", disse o velho.
"O que foi que você começou a me contar outro dia, sobre uma
mão de macaco ou coisa parecida, Morris?" "Nada",
respondeu o soldado depressa. "Pelo menos nada que valha a pena ouvir."
"Mão
de macaco?", perguntou a sra. White, curiosa. "Bem,
apenas o que se poderia chamar de magia, talvez", respondeu o sargento de
maneira vaga. Seus
três ouvintes curvaram-se para a frente, ansiosos. O visitante levou aos
lábios o copo vazio, distraído, e depois tornou a baixá-lo.
O anfitrião encheu-o novamente. "Olhando
para ela, não passa de uma mão comum, seca e mumificada", disse
o sargento, mexendo no bolso. Tirou algo e mostrou. A sra. White recuou com uma
careta, mas o filho pegou aquilo e examinou com curiosidade. "E
o que há de especial nela?", perguntou o sr. White, tomando o objeto
das mãos do filho e colocando-o sobre a mesa, após examiná-lo. "Possui
um encantamento que lhe foi conferido por um velho faquir", disse o sargento,
"um homem muito santo. Ele queria mostrar que o destino rege a vida das pessoas
e que aqueles que interferem nele correm o risco de se arrepender amargamente.
De acordo com o encantamento, três pessoas diferentes podem ter, cada uma,
três desejos atendidos." Seu
modo de falar era tão impressionante que os ouvintes tiveram consciência
de que seus risinhos divertidos haviam sido, de alguma forma, inoportunos. "Bem,
por que não faz os seus três pedidos?", perguntou Herbert White,
espertamente. O
soldado olhou-o da maneira que uma pessoa de meia-idade olha para uma criança
presunçosa. "Já
fiz", disse em voz baixa, e seu rosto corado empalideceu. "E
conseguiu que os três desejos fossem concedidos?" "Consegui",
disse o soldado, e ouviu-se o barulho de seu copo indo de encontro a seus dentes
fortes. "E
alguém mais já teve seus três desejos atendidos?", perguntou
a velha senhora. "A
primeira pessoa teve os três desejos atendidos, sim. Não sei quais
eram os dois primeiros, mas o terceiro era a morte. Foi desse modo que consegui
a mão do macaco." Sua
voz era tão grave que um silêncio caiu sobre o grupo. "Se
já obteve seus três desejos, Morris, de que ela lhe serve agora?",
perguntou o velho. "Por que ainda está com ela?" O
soldado balançou a cabeça: "Um
capricho, suponho", disse lentamente. "Se
pudesse obter três pedidos mais", perguntou o velho, olhando-o de maneira
sagaz, "você os faria?" "Não
sei, não sei." O sargento pegou a mão do macaco e balançou-a
entre o dedo indicador e o polegar. Subitamente, jogou-a às chamas que
crepitavam na lareira. White,
com um leve grito, curvou-se e arrancou-a do fogo. "Melhor
deixá-la queimar", disse o soldado em tom solene. "Se
não a quer, Morris, dê para mim", disse o velho. "Não",
respondeu o amigo com firmeza. "Eu a atirei no fogo. Se ficar com ela, não
me culpe pelo que acontecer. Jogue-a novamente no fogo, como um homem sensato." O
outro sacudiu a cabeça e examinou detidamente a nova aquisição. "Como
se faz isso?" "Segure-a
levantada com a mão direita e faça o pedido em voz alta", disse
o soldado. "Mas saiba que haverá conseqüências." "Parece
as Mil e uma noites", disse a sra. White, levantando-se e começando
a preparar a ceia. "Você não poderia desejar quatro pares de
mãos para mim?" O
marido tirou o talismã do bolso, e os três estavam rindo quando o
sargento, com uma expressão de advertência no rosto, agarrou-o pelo
braço. "Se
quer formular um pedido", disse asperamente, "peça algo que faça
sentido." O
sr. White recolocou o talismã no bolso e, dispondo as cadeiras em volta
da mesa, convidou todos a sentar-se. Durante a ceia, a mão do macaco foi
parcialmente esquecida. Depois, os três ficaram ouvindo, enlevados, uma
segunda parte das aventuras do soldado na Índia. "Se
a história da mão do macaco for tão verdadeira quanto aquelas
que ele nos contou", disse Herbert, assim que o soldado se retirou, em cima
da hora para pegar o trem, "não conseguiremos grande coisa com ela." "Você
deu a ele algo em troca?", perguntou a sra. White, olhando firme para o marido.
"Uma
ninharia", ele disse, ruborizando um pouco. "Não queria aceitar,
mas eu o obriguei. E mais uma vez insistiu para que eu a jogasse fora." "Como
se isso fosse possível", disse Herbert, com fingida indignação.
"Ora essa, vamos ser ricos, famosos, felizes. Deseje ser um imperador, papai,
só para começar. Então não será mais dominado
por nenhuma esposa." Herbert
correu em volta da mesa, perseguido pela injuriada sra. White, armada de uma vassoura. O
sr. White retirou a mão de macaco do bolso e olhou-a, indeciso. "Não
sei o que desejar, isso é um fato", disse devagar. "Creio que
tenho tudo o que quero." "Se
você apenas liquidasse a hipoteca da casa, já seria muito feliz,
não seria?", disse Herbert, pousando a mão no ombro do pai.
"Deseje duzentas libras, então. É só o que falta." O
pai, sorrindo, envergonhado da própria credulidade, ergueu o talismã
enquanto o filho, com um olhar solene de certa forma adulterado por um piscar
de olhos para a mãe, sentou-se ao piano e tocou alguns acordes solenes.
"Eu
desejo duzentas libras", disse o velho em voz alta e clara. Um
agradável acorde de piano saudou as palavras, interrompido por um grito
assustador do velho. A esposa e o filho correram para junto dele. "Ela
se moveu", exclamou, olhando com asco para o objeto que deixara cair no chão.
"Quando fiz o pedido, ela se contorceu na minha mão como uma cobra."
"Bem,
não estou vendo dinheiro nenhum e creio que nunca vou ver", disse
o filho, enquanto pegava a mão de macaco e a colocava em cima da mesa.
"Deve
ter sido imaginação sua", disse a mãe, olhando ansiosa
para o velho. "Não
importa", disse ele sacudindo a cabeça. "Nada de grave aconteceu,
mas mesmo assim levei um susto." Sentaram-se
novamente junto ao fogo enquanto os dois homens terminavam de fumar seus cachimbos.
Lá fora, o vento estava mais forte do que nunca, e o velho sobressaltou-se
ao ouvir uma porta bater no andar de cima. Um silêncio incomum e opressivo
envolveu os três, e durou até que o velho casal se retirou para dormir. "Espero
que encontre o dinheiro em um pacote bem no meio da cama", disse Herbert,
ao desejar boa-noite aos dois, "e que alguma coisa horrível agachada
em cima do guarda-roupa observe você embolsar os ganhos obtidos dessa maneira
maligna." Herbert
permaneceu sentado no escuro, contemplando o fogo se extinguir, vendo rostos nas
chamas. A última face era tão horrenda e simiesca que ele a contemplou
assombrado. Surgiu tão expressiva que, com um riso nervoso, procurou na
mesa um copo com água para jogar sobre ela. Agarrou a mão do macaco
e, com um leve calafrio, limpou a mão no casaco e foi para a cama. II. Na
manhã seguinte, enquanto a claridade do sol de inverno iluminava a mesa
do café, Herbert riu dos próprios receios. Havia na sala um ar sadio
de normalidade, ausente na noite anterior; a pequena, suja e enrugada mão
do macaco estava jogada no aparador de maneira descuidada, indicando falta de
crença em suas virtudes. "Suponho
que todos os soldados sejam iguais", disse a sra. White. "Que idéia
a nossa, dar ouvidos a essa bobagem! Como seria possível, nos dias de hoje,
que tais desejos fossem concedidos? E, se fosse possível, como duzentas
libras poderiam trazer algum mal?" "Podem
cair do céu sobre a cabeça dele", gracejou Herbert. "Morris
disse que as coisas acontecem tão naturalmente", disse o pai, "que,
se quisermos, podemos atribuí-las à coincidência." "Não
vá gastar todo o dinheiro antes de eu voltar", disse Herbert, levantando-se
da mesa. "Fico com medo que se transforme em um avarento mesquinho e tenhamos
que repudiá-lo." A
mãe riu e acompanhou o filho até a porta. Olhou-o afastar-se pela
estrada e voltou para a mesa do café, feliz às custas da credulidade
do marido. Tudo isso não a impediu de correr para a porta ao ouvir o carteiro
chegar nem de se referir, rapidamente, aos sargentos de hábitos etílicos
quando notou que o carteiro trouxera uma conta do alfaiate. "Herbert
vai fazer mais um dos seus comentários jocosos, creio, ao chegar em casa",
ela disse, quando sentaram para o jantar. "Certamente",
concordou o sr. White. "Seja como for, a coisa se mexeu na minha mão,
posso jurar." "Você
pensou que se mexeu", disse a velha senhora, suavemente. "Ela
se mexeu", replicou o outro. "Não foi imaginação,
eu... O que foi?" A
esposa não respondeu. Ela observava a misteriosa movimentação
de um homem que espreitava a casa, parecendo indeciso se devia ou não entrar.
Pensou nas duzentas libras, e notou que o estranho estava bem vestido e usava
uma cartola de seda nova e brilhante. Por três vezes ele parou diante do
portão e se afastou. Na quarta vez, depois de uma pausa, abriu resolutamente
o portão e caminhou em direção à casa. A sra. White,
no mesmo instante, desamarrou depressa os cordões do avental que usava,
escondendo-o sob a almofada da cadeira. Ela
conduziu o estranho até a sala. Ele parecia pouco à vontade, olhando-a
furtivamente e ouvindo, apreensivo, a velha senhora se desculpar pela aparência
da sala e pelo casaco do marido largado ali, o qual costumava usar quando cuidava
do jardim. Então, com a paciência que seu sexo permitia, aguardou
que o homem explicasse o motivo da visita. Mas, durante algum tempo, ele permaneceu
em silêncio. "Pediram-me...
que eu viesse aqui", ele disse, afinal. E parou para tirar um fiapo de linha
da calça. "Venho da parte da Maw and Meggins." A
velha senhora assustou-se. "Qual
é o assunto?", perguntou, aflita. "Aconteceu alguma coisa com
o Herbert?" O
marido interveio. "Calma,
calma", disse. "Sente-se e não tire conclusões apressadas.
O senhor não trouxe más notícias, tenho certeza", disse,
olhando ansioso para o outro. "Sinto
muito...", disse o visitante. "Ele
está ferido?", perguntou a mãe. O
visitante assentiu com um movimento de cabeça. "Muito
ferido", disse delicadamente, "mas já não sofre mais." "Ah,
graças a Deus", exclamou a velha senhora, apertando as mãos.
"Graças a Deus. Obrigada..." Calou-se
de súbito, ao perceber o significado funesto do que ouvira e ver seus receios
confirmados no rosto do visitante. Ofegante, voltou-se para o marido, que nada
entendera ainda, e colocou as mãos trêmulas sobre a dele. Houve um
longo silêncio. "Ele
ficou preso na maquinaria", disse o visitante, em voz baixa. "Preso
em uma máquina", repetiu o sr. White, aturdido. Sentou-se,
olhando absorto pela janela e apertando a mão da esposa entre as suas,
como costumava fazer no tempo em que a cortejava, quase quarenta anos antes. "Era
o único que nos restava", disse ele, voltando-se gentilmente para
o visitante. "É difícil." O
outro tossiu, levantou-se e caminhou devagar até a janela. "A empresa
encarregou-me de transmitir nossas condolências pela grande perda que sofreram",
disse, sem olhar à sua volta. "Espero que entendam que sou apenas
um empregado cumprindo ordens." Não
houve resposta. A face da velha senhora estava lívida, o olhar atônito,
a respiração quase inaudível. No rosto do marido, uma expressão
decerto parecida com a de seu amigo sargento ao entrar em ação pela
primeira vez. "Devo
dizer que a Maw and Meggins se exime de qualquer responsabilidade", continuou
o outro. "Não admite nenhuma obrigação pecuniária,
mas, em agradecimento aos serviços prestados por seu filho, deseja oferecer-lhes
uma certa soma em dinheiro como compensação." O
sr. White soltou as mãos da mulher e, levantando-se, olhou com horror para
o visitante. Seus lábios secos conseguiram articular a palavra: "Quanto?". "Duzentas
libras", foi a resposta. Sem
notar o grito de sua mulher, o velho sorriu de leve, estendeu as mãos como
um cego e abruptamente caiu ao chão, desfalecido. III. No
vasto cemitério novo, distante cerca de três quilômetros, os
velhos enterraram seu morto e voltaram para casa, mergulhada em sombras e silêncio.
Tudo acontecera tão depressa que, a princípio, mal podiam entender
o que se passara, e permaneceram em estado de expectativa, como se algo mais fosse
acontecer — algo que aliviasse o sofrimento que seus velhos corações
já não podiam suportar. Mas
os dias passaram e a expectativa deu lugar à resignação —
a resignação sem esperança dos velhos, algumas vezes chamada
erroneamente de apatia. Às vezes eles mal trocavam palavras, porque agora
nada tinham para conversar, e seus dias eram longos e entediantes. Cerca
de uma semana depois, o velho acordou no meio da noite, estendeu a mão
e notou que estava sozinho. O quarto estava escuro e da janela vinha o som de
soluços abafados. Sentou-se na cama e ficou ouvindo. "Volte
para a cama", disse carinhosamente. "Você vai ficar com frio." "Mais
frio está sentindo o meu filho", disse a velha, soluçando.
O
som dos soluços foi morrendo aos poucos nos ouvidos dele. A cama estava
quente e seus olhos pesados de sono. Ele cochilou e logo dormiu, até que
um grito exaltado da mulher o fez acordar-se sobressaltado. "A
mão do macaco!", ela gritou freneticamente. "A mão do
macaco!" "Onde?
Onde? O que está acontecendo?", perguntou ele, alarmado. Ela
veio cambaleando pelo quarto, na direção dele. "Eu quero a
mão", ela disse em voz baixa. "Você não a destruiu,
não é?" "Está
na sala, na prateleira", ele respondeu, admirado. "Por quê?" Ela
chorava e ria ao mesmo tempo e, curvando-se, beijou o rosto dele. "Só
pensei nisso agora", ela disse histericamente. "Por que você não
se lembrou?" "Lembrar
do quê?", ele perguntou. "Dos
outros dois desejos", ela respondeu. "Só fizemos um pedido." "E
não foi o bastante?", ele respondeu, com veemência. "Não",
ela gritou, exultante. "Nós faremos mais um. Vá lá embaixo,
pegue a mão do macaco e manifeste o desejo de que nosso filho esteja vivo
de novo." O
homem sentou-se na cama, afastando bruscamente os lençóis de cima
das pernas trêmulas. "Meu
Deus, você está louca", exclamou, horrorizado. "Vá
buscá-la, rápido", ela disse, ofegante, "e faça
o pedido. Ah, meu filho, meu filho." O
marido riscou um fósforo e acendeu a vela. "Volte
para a cama", falou, vacilante. "Você não sabe o que está
dizendo." "Nosso
primeiro desejo foi satisfeito. Por que não fazer o segundo?", disse,
a mulher, exaltada. "Uma
coincidência", gaguejou o velho. "Vá
buscá-la e peça", gritou a velha, tremendo de excitação. O
velho olho para ela. "Ele
está morto há dez dias", falou, hesitante. "Além
disso... não sei como dizer... mas eu só conseguiria reconhecê-lo
pelas roupas. Se antes ele já estava horrível de se ver, imagine
agora." "Traga-o
de volta", gritou a velha, empurrando o marido na direção da
porta. "Acha que posso temer o filho que criei?" Ele
desceu, tateando na escuridão, procurando o caminho para a sala e, em seguida,
foi até o aparador. O talismã estava no mesmo lugar e o velho foi
dominado por um medo horrível de que o pedido talvez trouxesse o filho
mutilado de volta antes que pudesse fugir do aposento. Prendeu a respiração,
quando viu que havia perdido a direção da porta. Com a fronte coberta
por um suor frio, achou o caminho e, tateando pela parede, alcançou o estreito
corredor com a mórbida coisa na mão. O
rosto de sua mulher lhe pareceu mudado quando entrou no quarto. Estava pálida
e sôfrega, e, para aumentar sua inquietação, tinha um aspecto
sobrenatural. Sentiu medo dela. "Ande,
faça o pedido", ela ordenou, com voz forte. Ele
hesitou. "É
loucura, uma crueldade." "Peça",
a mulher repetiu. Ele
ergueu a mão do macaco. "Eu
peço que o meu filho viva novamente." O
talismã caiu ao chão e o velho olhou para ele assustado. Em seguida,
sentou-se trêmulo em uma cadeira enquanto a esposa, os olhos como brasas,
ia até a janela e abria as cortinas. Ficou
sentado até sentir muito frio, espiando, de vez em quando, a figura da
velha mulher olhando atenta pela janela. A vela, que ardera até embaixo
da borda do castiçal de porcelana, lançava sombras bruxuleantes
no teto e nas paredes; depois, com uma cintilação mais forte, se
apagou. O velho, com uma inexprimível sensação de alívio
pelo insucesso do talismã, voltou para a cama. Um minuto ou dois mais tarde,
a mulher foi para perto dele, silenciosa e apática. Nenhum
dos dois falou; ficaram ambos deitados em silêncio, ouvindo a batida cadenciada
do relógio. Um degrau da escada rangeu e um rato correu ao longo da parede,
emitindo um guincho agudo. A escuridão era opressiva e, depois de permanecer
algum tempo deitado, o marido, enchendo-se de coragem, pegou a caixa de fósforos,
riscou um e desceu a escada em busca de outra vela. No
fim da escada o fósforo apagou. Ele parou para riscar outro e, nesse momento,
uma batida, tão leve e furtiva que mal se ouvia, soou na porta da rua.
Os
fósforos caíram de suas mãos. Ele permaneceu imóvel,
a respiração presa, até que a batida se repetiu. Então
correu de volta para o quarto, fechando a porta atrás de si. Uma terceira
batida ressoou pela casa. "O
que foi isso?", exclamou a velha senhora, sobressaltada. "Um
rato", disse o velho com voz trêmula. "Um rato. Ele passou por
mim na escada." Sua
esposa sentou-se na cama, escutando. Uma batida mais forte tornou a ressoar pela
casa. "É
o Herbert!", ela gritou. "É o Herbert!" Correu
para a porta, mas o marido agarrou-a pelo braço e a segurou com força. "O
que você vai fazer?", sussurrou em tom rouco. "É
o meu menino, é o Herbert!", ela gritou, lutando para se livrar. "Esqueci
que eram três quilômetros de distância. Por que está
me agarrando? Me largue, tenho que abrir a porta." "Pelo
amor de Deus, não o deixe entrar", disse o velho, atemorizado. "Você
está com medo do seu próprio filho", ela gritou, debatendo-se.
"Me largue. Já vou, Herbert, já estou indo." Ouviu-se
outra batida, e mais outra. A velha, num arranco súbito, soltou-se e saiu
do quarto. O marido seguiu-a até o patamar da escada, chamando-a, suplicante,
enquanto ela descia correndo. Ele ouviu a corrente da porta ser retirada e a chave
girando com dificuldade na fechadura. Depois a voz da velha, tensa e arquejante. "O
ferrolho", ela gritou. "Desça, não consigo alcançá-lo." Mas
o marido estava de joelhos, as mãos apoiadas no chão, procurando,
desesperado, a mão do macaco. Se ao menos pudesse achá-la antes
de aquela coisa lá fora entrar. Uma saraivada de batidas ecoou pela casa
e ele ouviu a cadeira ser arrastada; era a mulher aproximando-a da porta. Ouviu
o ferrolho correndo devagar, e nesse instante achou a mão do macaco. Freneticamente
expressou seu terceiro e último desejo. As
batidas cessaram de súbito, embora o eco ainda ressoasse pela casa. Ouviu
a cadeira ser afastada e a porta abrir-se. Um vento frio subiu pela escada, e
o longo e alto gemido de desapontamento e angústia da mulher deu-lhe coragem
para descer correndo até a porta. Depois, foi até o portão
e olhou. A luz do lampião em frente brilhava numa estrada calma e deserta.
Apresentação
e tradução de Rubem Fonseca |