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livros
Estado do Mundo 2001
Bíblia do Meio Ambiente

Relatório Anual do Worldwatch Institute
em Direção a uma Sociedade Sustentável

www.worldwatch.org.br

Capítulo 1

PLANETA RICO, PLANETA POBRE

Christopher Flavin
Presidente do Worldwatch Institute

Uma visita ao Estado da Bahia, Brasil, proporciona visões contrastantes do estado do mundo na aurora do novo milênio. Situada 13 graus ao sul do Equador, Salvador, sua capital, tem uma população de mais de 3 milhões de habitantes e uma aparência totalmente moderna. O centro ostenta grandes prédios comerciais e muitas construções em andamento e suas rodovias repletas de veículos utilitários esportivos. O estado também é rico em recursos naturais: a riqueza proporcionada pelo ouro e cana-de-açúcar fizeram de Salvador o local óbvio para ser o principal porto e capital do Brasil colônia durante dois séculos.

Durante um período estagnada - a escravidão só foi abolida no final do século XIX, uma das últimas regiões a acabar com esta prática - a economia da Bahia, hoje, está em rápida expansão. O estado possui um próspero setor industrial e se tornou atraente para muitas das principais multinacionais, inclusive montadoras que lá implantaram algumas das suas unidades mais avançadas. A informática está num frenesi particularmente competitivo. Os provedores da Internet no Brasil estão conectando consumidores de graça, e telefones celulares são quase tão comuns como em muitas cidades européias.

Entretanto, se nos detivermos um pouco mais, veremos que outra Bahia ainda está presente. As grandes favelas que cercam a periferia de Salvador estão abarrotadas de milhares de pessoas pobres, carentes de muito mais que celulares e computadores: sanitários, água corrente e livros escolares estão entre os serviços básicos e produtos indisponíveis a muitos dos pobres da Bahia. Carências semelhantes podem ser notadas ao sul de Salvador, ao longo do litoral agreste da Bahia: o colapso de muitas das ricas fazendas de cacau causado por uma praga devastadora, a "vassoura de bruxa", juntamente com um declínio agudo nos preços mundiais de cacau, deixaram milhares de trabalhadores agrícolas sem emprego nem condições de sustentar suas famílias.

A situação ambiental da Bahia está igualmente desequilibrada. Considerada por ecólogos como um dos " hot-spots"(áreas críticas, com maior densidade de vida do mundo), a Mata Atlântica cobre mais de 2.000 quilômetros do litoral subtropical do Brasil. Em 1993, biólogos, trabalhando numa área ao sul de Salvador, identificaram um número recorde mundial de 450 espécies de árvores em um único hectare. (Um hectare de floresta no nordeste dos Estados Unidos contém caracteristicamente 10 espécies.) Na última década, os líderes políticos e empresariais da Bahia reconheceram a riqueza extraordinária de seu patrimônio biológico - áreas silvestres estão sendo protegidas, instalações de pesquisa ecológica estão sendo implantadas e resorts ecoturísticos surgem por todos os lados. Um aviso no aeroporto chega até a alertar os viajantes que a remoção de espécies endêmicas é um crime.

Todavia, sinais de destruição abundam: a pecuária se espalha onde outrora vicejavam as florestas mais ricas do mundo; 93 porcento da Mata Atlântica já se foi, e o que resta está fragmentada em pequenos lotes. A pressão nestes últimos pedaços de floresta é gigantesca - tanto de corporações e latifundiários poderosos, ávidos para vender produtos florestais e agrícolas nos mercados mundiais, quanto de famílias pobres, desesperadas em busca de sustento.

Este quadro da Bahia no ano 2000 é replicado em dezenas de locais em todo o mundo. É o quadro de um mundo que passa por mudanças extraordinariamente rápidas, entre disparidades imensas e cada vez maiores. A prosperidade econômica sem precedentes, o surgimento de instituições democráticas em muitos países e o fluxo quase instantâneo de informações e idéias através de um mundo recém-interligado, nos permitem enfrentar desafios negligenciados durante décadas: atender às necessidades materiais de todos os 6 bilhões de membros da raça humana e restaurar um equilíbrio sustentável entre a humanidade e os sistemas ecológicos da Terra.

Este é um momento histórico, talvez até mesmo evolucionário. Tragicamente, não está sendo aproveitado. Apesar do incremento no crescimento econômico nos últimos anos e de ganhos significativos nos níveis de saúde e educação em muitos países em desenvolvimento, o número de pessoas sobrevivendo com menos de US$ 1 por dia - o limiar da pobreza utilizado pelo Banco Mundial - foi de 1,2 bilhão em 1998, quase inalterado desde 1990. Em algumas partes do mundo, incluindo a África subsaariana, sul da Ásia e a antiga União Soviética, o número dos que vivem na pobreza é substancialmente maior do que as cifras registradas há uma década.

A luta para recuperar a saúde ecológica do planeta revela um quadro semelhante: algumas poucas batalhas foram ganhas, mas ainda estamos perdendo a guerra propriamente dita. Taxas de crescimento de dois dígitos nos mercados de energia renovável, mais o segundo ano de declínio em emissões globais de carbono, por exemplo, foram insuficientes para reduzir o ritmo da mudança climática mundial. Na realidade, evidências recentes do rápido degelo das geleiras e a saúde declinante dos recifes de coral, sensíveis ao calor, indicam que a mudança climática está se acelerando. O mesmo padrão pode ser notado no compromisso maior com a proteção de áreas silvestres e diversidade biológica: novas leis estão sendo promulgadas, consumidores estão exigindo produtos de madeira benéficos à ecologia e resorts ecoturísticos estão surgindo quase tão rapidamente quanto as empresas ponto-com. Todavia, silvicultores e biólogos informam que estas ocorrências encorajadoras não reverteram a perda maciça de florestas ou a maior crise de extinções que o mundo já testemunhou em 65 milhões de anos.

Considerados há muito como questões distintas, consignados a órgãos governamentais independentes, os problemas ecológicos e sociais são, na realidade, interligados e se reforçam mutuamente. O ônus da sujeira no ar e na água e dos recursos naturais dizimados invariavelmente recai nos menos favorecidos. E os pobres, por sua vez, são freqüentemente compelidos a derrubar a árvore mais próxima ou a poluir o córrego local, a fim de sobreviver. A solução de um problema sem cuidar do outro é simplesmente inviável. A pobreza e o declínio ambiental estão profundamente incorporados aos sistemas econômicos modernos. Nenhum é um problema periférico que pode ser considerado isoladamente. O que é preciso é o que Eduardo Athayde, Diretor Geral da UMA - Universidade Livre da Mata Atlântica, na Bahia, denomina "econologia," uma síntese de ecologia, sociologia e economia, que pode ser utilizada como base para a criação de uma economia social e ecologicamente sustentável - o principal desafio que a humanidade enfrentará ao se iniciar um novo milênio.

O desafio é ainda maior pelo fato de ter de ser enfrentado simultaneamente em nível nacional e global, requerendo não apenas cooperação mas parceria entre o Norte e o Sul. A responsabilidade pela saúde atual do planeta e de seus habitantes humanos é dividida desigualmente entre países ricos e pobres, mas para resolver estes problemas os dois grupos de nações precisarão fazer valer suas respectivas forças e capacidades. Isto exigirá uma nova forma de globalização - que vá além dos elos comerciais e fluxos de capital até ligações políticas e sociais fortalecidas entre governos e grupos de cidadãos.

Um grupo seleto de grandes países industrializados e em desenvolvimento - um grupo que pode ser chamado de E-9, considerando que são atores-chave tanto ambientais quanto econômicos - poderá desempenhar um papel central para eliminar o distanciamento Norte-Sul. Em conjunto, este grupo de países representa 57 porcento da população mundial e 80 porcento da produção econômica total (Ver Tabela 1-1). Este capítulo utiliza os dados destes nove países e regiões para esclarecer tendências econômicas, sociais e ecológicas, porém este agrupamento não tem apenas um valor analítico. Como discutido no final do capítulo, a cooperação do grupo E-9 poderá ser a chave para se atingir um progresso econômico e ambiental acelerado no novo século.

Tabela 1-1. Perfil Populacional e Econômico do Grupo E-9

País ou Grupo População, 2000
(milhões)
Produto Interno Bruto, 1998
(bilhões de dólares)
China
1.265
924
Índia
1.002
427
União Européia
1 375
8.312
Estados Unidos
276
7.903
Indonésia
212
131
Brasil
170
768
Rússia
145
332
Japão
127
4.089
África do Sul
43
137

Dados não incluem Luxemburgo.
FONTES: Banco Mundial, World Development Indicators 2000 (Washington, DC: 2000), 10-12; Population Reference Bureau, "2000 World Population Data Sheet," wall chart (Washington, DC: junho de 2000).

UM CONTO DE DOIS MUNDOS

Em meados do ano 2000, duas notícias das Filipinas chegaram às manchetes de todo o mundo. Em junho, um vírus de computador, apelidado de lovebug [vírus do amor], apareceu quase que simultaneamente em todos os continentes, destruindo os sistemas de dezenas de corporações multinacionais e órgãos governamentais, desde o Pentágono até o Parlamento Britânico. Custo total estimado da destruição: US$ 10 bilhões. Especialistas em segurança de computadores e agentes do FBI rapidamente rastrearam o vírus diabólico até uma pequena escola técnica de Manila e um estudante de 24 anos chamado Onel de Guzman. Para os especialistas, isto pode ter sido uma indicação da vulnerabilidade da Internet global, mas nas Filipinas tornou-se rapidamente um motivo de orgulho nacional. As pessoas consideravam o debacle do vírus um sinal encorajador que sua nação em desenvolvimento estava dando um salto para os escalões superiores do setor mais "quente" da economia global.


Sucessos econômicos e fracassos sociais
são vistos hoje lado a lado em todo o
mundo, nesta época de suposta abundância


Do outro lado da cidade, um bairro de Manila chamado Terra Prometida foi alvo de notícias bem mais sérias um mês depois: mais de 200 pessoas foram mortas num imenso deslizamento de terra seguido de incêndio. Embora esta tragédia tenha sido provocada pelo Tufão Kai-Tak, foi tudo menos um desastre natural. A Terra Prometida, como se viu, é um misto de lixão/favela abrigando 50.000 pessoas, a maioria das quais ganha a vida como badameiros dos alimentos e materiais descartados pela crescente classe média de Manila. Após dois dias de chuvas intensas, a montanha de lixo despencou em cima de centenas de casas e dos cabos de energia, causando um incêndio de grandes proporções. Dezenas de pessoas foram soterradas, outras queimadas vivas e outras tantas envenenadas por produtos químicos tóxicos liberados pelo fogo.

Sucessos econômicos e fracassos sociais são vistos hoje lado a lado, não apenas nas Filipinas mas em todo o mundo, nesta época de suposta abundância. A produção anual da economia mundial cresceu de US$ 31 trilhões em 1990, para US$ 42 trilhões em 2000; comparativamente, a produção total da economia mundial em 1950 foi de apenas US$ 6,3 trilhões. E em 2000, o crescimento da economia mundial disparou para uma taxa anual de 4,7 porcento, a maior da última década. Este aumento da atividade econômica permitiu a bilhões de pessoas adquirirem novos refrigeradores, televisores e computadores, criando milhões de empregos. Ligações telefônicas globais cresceram de 520 milhões em 1990 para 844 milhões em 1998 (um aumento de 62 porcento), e os assinantes de celulares aumentaram de 11 para 319 milhões neste período (um aumento de 2.800 porcento). Enquanto isto, o número de computadores "anfitriões," uma medida da expansão da Internet, cresceu de 376.000 em 1990 para 72.398.000 em 1999 - um aumento de 19.100 porcento.

A prosperidade econômica da última década não ficou restrita aos países ricos do Norte. A maior parte do crescimento está ocorrendo nas nações em desenvolvimento da Ásia e da América Latina, onde reformas econômicas, redução de barreiras comerciais e um incremento de capital estrangeiro alimentaram investimentos e consumo. Entre 1990 e 1998, a economia brasileira cresceu 30 porcento, a da Índia expandiu em 60 porcento e a da China disparou em notáveis 130 porcento. A China, hoje, possui a terceira economia mundial (segunda, se for medida em termos de paridade de poder de compra) e uma próspera classe média que trabalha em escritórios, se alimenta de fast food, assiste TV a cores e surfa na Internet. A China, sozinha, tem hoje 420 milhões de rádios, 344 milhões de televisores, 24 milhões de telefones celulares e 15 milhões de computadores.

Mesmo assim, a economia global continua maculada por grandes disparidades. (Ver Tabela 1-2.) O Produto Interno Bruto (PIB) per capita varia de US$ 32.350 no Japão para US$ 4.630 no Brasil, US$ 2.260 na Rússia e apenas US$ 440 na Índia. Mesmo quando medido em termos de poder de compra, o PIB por pessoa nestes países varia por um fator de 10. A renda per capita aumentou 3 porcento ao ano em 40 países, desde 1990, porém mais de 80 nações têm rendas per capita inferiores à de uma década atrás. Dentro dos países, as disparidades são ainda mais surpreendentes. Nos Estados Unidos, os 10 porcento mais ricos da população têm seis vezes a renda dos 20 porcento mais pobres; no Brasil a relação é de 19 para 1. Cerca de 12 porcento das pessoas que vivem em países "ricos" ainda estão abaixo da linha da pobreza e, em muitos, a desigualdade aumentou durante a última década.


Tabela 1-2. Tendências Econômicas nas Nações E-9

País PIB per Capita, 1998 Poder de Compra per Capita, 1998 Pop. com Renda Abaixo de US$2 por Dia, 1993-99

Participação na Renda ou Consumo (percentual)

(dólares)
(dólares)
(percentual)
20 % mais pobre, 1993-98 10% mais rico, 1993-98
Japão
32.350
23.592
-
10,6
21,7
Estados Unidos
29.240
29.240
-
5,2
30,5
Alemanha
26.570
22.026
-
8,2
23,7
Brasil
4.630
6.460
17,4
2,5
47,6
África do Sul
3.310
8.296
35,8
2,9
45,9
Rússia
2.260
6.180
25,1
4,4
38,7
China
750
3.051
53,7
5,9
30,4
Indonésia
640
2.407
66,1
8,0
30,3
Índia
440
2.060
86,2
8,1
33,5

Dados de um único ano dentro do período. 2Dados comparativos para a União Européia indisponíveis; A Alemanha é o país mais populoso da UE.
FONTE: Banco Mundial, World Development Indicators 2000 (Washington, DC: 2000), 10-12, 62-64, 66-68.


A expansão do consumo global durante a última década foi acompanhada por melhoria nos padrões de vida em muitos países e declínios em outros. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) calcula que a parcela da população mundial sofrendo o que chama de "baixo desenvolvimento humano" caiu de 20 porcento em 1975 para 10 porcento em 1997. Entretanto, dados do Banco Mundial indicam que 2,8 bilhões de pessoas, quase a metade da população mundial, sobrevivem com uma renda inferior a US$ 2 por dia, enquanto um quinto da humanidade - 1,2 bilhão de pessoas - vive com menos de US$ 1 por dia. Cerca de 291 milhões de africanos subsaarianos - 46 porcento da população da região - hoje vivem com menos de US$ 1 por dia, enquanto no sul da Ásia, este número é de 522 milhões. Este é um número assustador de pessoas que entram no novo século sem a renda necessária para suprir suas necessidades básicas, como alimento, água potável e tratamento de saúde.

Em todo o mundo, cerca de 1,1 bilhão de pessoas estão hoje subnutridas. A maioria é composta de pobres em áreas rurais, com terra insuficiente para cultivar o alimento necessário e renda insuficiente para comprá-lo de outros. Muitas destas pessoas vivem em países com excedentes alimentícios, mas enquanto agricultores abastados vendem seus produtos a consumidores da classe média em nações distantes, as receitas não beneficiam milhões de crianças famintas. Em alguns países africanos, como Quênia, Zâmbia e Zimbábue, até 40 porcento da população é subnutrida.

Aproximadamente 1,3 bilhão de pessoas não têm acesso à água potável. Na China, a parcela que se enquadra nesta categoria é de 10 porcento (125 milhões de pessoas); na Índia é de 19 porcento e na África do Sul, 30 porcento. Sanitários são ainda mais raros em muitos países: 33 porcento da população do Brasil não dispõe deles; 49 porcento da Indonésia e 84 porcento da Índia.

A água poluída contribui em grande parte para uma das maiores disparidades que o mundo hoje enfrenta: a saúde. Embora as taxas de mortalidade infantil tenham caído de 25 a 50 porcento em muitos países na última década, ainda permanecem em 43 por mil nascimentos na China e 70 por mil na Índia. (Ver Tabela 1-3.) A maior parte da grande diferença neste número em todo o mundo resulta da subnutrição e doenças infecciosas comuns, que continuam generalizadas em muitos países pobres. Doenças mais intratáveis, como o cólera e a tuberculose, também estão se tornando epidêmicas em muitas regiões.

Tabela 1-3. Indicadores da Saúde nas Nações E-9

País Dispêndios na Saúde per Capita, 1990-98 Mortalidade Infantil (por mil nascimentos) Incidência de Tuberculose, 1997 Predomínio do HIV Entre Adultos, 1997
(dólares de poder de compra)
1980
1998
(por 100.000)
(percentual)

Estados Unidos

4.121

8

4

7

0,76

Alemanha2

2.364

12

5

15

0,08

Japão

1.757

13

7

29

0,01

África do Sul

571

42

31

394

12,91

Brasil

503

70

33

78

0,63

Rússia

404

22

17

106

0,05

China

142

90

43

113

0,06

Índia

73

115

70

187

0,82

Indonésia

38

67

51

285

0,05

Dados do ano mais recente disponível. 2Dados comparativos para União Européia indisponíveis; A Alemanha é o país mais populoso da UE.
FONTE: Banco Mundial, World Development Indicators 2000 (Washington, DC: 2000), 90-92, 102-04, 106-08.


Mais alarmante ainda é o fato da AIDS, controlada em alguns dos países ricos, estar se alastrando rapidamente em muitas nações em desenvolvimento. A crise é particularmente aguda no sul da África que, há uma década, tinha taxas relativamente baixas de infecção. Em 2000 as taxas de infecção do HIV já haviam atingido cifras espantosas de 20 porcento na África do Sul, 25 porcento em Zimbábue e 36 porcento em Bostwana. Décadas de crescimento na expectativa de vida estão revertendo em questão de anos, quando centenas de milhares de jovens adultos e crianças sucumbem à doença. Orçamentos de saúde estão sendo estourados e a educação solapada pelas mortes prematuras de muitos professores. Não é acidental que os países mais devastados pela AIDS sejam aqueles com altos índices de distúrbios sociais e serviços médicos limitados. Na China, os pobres que vendem seu sangue para equilibrar o orçamento doméstico, pagam um alto preço, sob a forma de infecção do HIV de agulhas contaminadas. Ironicamente em partes da África, são justamente aqueles que mal saíram da pobreza que estão sendo mais atacados - devastando uma geração de jovens trabalhadores educados, um cataclisma que poderá impedir o crescimento de uma classe média economicamente segura..

Um dos principais ingredientes do progresso econômico é a educação, e nesta frente o mundo está se saindo melhor do que há duas décadas. (Ver Tabela 1-4.) Na Índia, a parcela de crianças em escolas secundárias elevou-se de 41 porcento para 60 porcento; na China, foi de 63 para 70 porcento; e na África do Sul, de 62 para 95 porcento. Mesmo com este progresso, muitos países deixam de investir adequadamente em sua juventude, que provavelmente não participará ou se beneficiará dos setores econômicos mais vibrantes de hoje, e requerem não apenas a alfabetização básica mas, freqüentemente, treinamento especializado. As jovens, especialmente, recebem educação inadequada em muitos países. As taxas de analfabetismo adulto feminino continuam em níveis altos, como 25 porcento na China e 57 porcento na Índia, níveis que praticamente garantem uma gama de problemas sociais e econômicos - e que tornam as ameaças ambientais mais difíceis de equacionar.

Tabela 1-4. Educação nas Nações do Grupo E-9

País

Taxa de Analfabetismo Adulto

Parcela de Crianças em Escola Secundária

 
Feminino
Masculino
   

1980

1998

1980

1998

1980

1997

(percentual)

(percentual)

(percentual)

Alemanha

-

-

-

-

82

95

Japão

-

-

-

-

93

100

Estados Unidos

-

-

-

-

94

96

Rússia

2

1

1

0

98

88

Brasil

27

16

23

16

46

66

África do Sul

25

16

22

15

62

95

Indonésia

40

20

21

9

42

56

China

48

25

22

9

63

70

Índia

74

57

45

33

41

60

Dados comparativos para a UE indisponíveis; A Alemanha é o país mais populoso da UE.
FONTE: Banco Mundial, World Development Indicators 2000 (Washington, DC: 2000), 74-76, 82-84.


TESTANDO OS LIMITES

Quando o navio quebra-gelo Yamal chegou ao Pólo Norte, em julho de 2000, os cientistas a bordo viram algo ao mesmo tempo comum e inesperado: uma área de mar aberto e calmo em lugar da massa de gelo, de dois a três metros de espessura, característica da região, mesmo no pico do verão. Nos 91 anos, desde que Robert Peary e Matthey Henson chegaram ao Pólo Norte em trenós puxados por cachorros, em 1909, nada igual havia sido registrado. Mas a memória humana não é a escala adequada para mensurar esta ocorrência: os cientistas calculam que a última vez que a região polar esteve totalmente livre de gelo foi 50 milhões de anos atrás.

A natureza dinâmica, mutante, da massa de gelo do Ártico indica que o mar aberto no pólo era, por ora, um fenômeno passageiro, porém registros científicos recentes confirmam a tendência subjacente. A capa de gelo da Terra está derretendo em um ritmo extraordinário. Medições por sonar realizadas por submarinos revelam um declínio de 40 porcento na espessura média no gelo polar do verão, desde a década de 50, excedendo, em muito, a taxa de degelo estimada anteriormente. Baseados nessas observações, os cientistas hoje calculam que até meados do século XXI todo o Ártico poderá estar sem gelo no verão.

Entre as miríades de sinais de mudança climática causada pela atividade humana - a queima de combustíveis fósseis foi estimada recentemente como sendo a responsável pela elevação das concentrações atmosféricas de dióxido de carbono aos seus níveis mais altos em 20 milhões de anos - este degelo do Ártico pode ter sido o mais dramático. No final de 2000, o Painel Internacional sobre Mudança Climática (IPCC), o órgão científico de consultoria para os negociadores governamentais, publicou seu último relatório. Incluiu a declaração consensual mais incisiva até hoje, que a liberação de dióxido de carbono e outros gases de estufa pela humanidade "contribuiu substancialmente para o aquecimento observado durante os últimos 50 anos." Até o final do século, concluiu o IPCC, as temperaturas podem estar 5 graus centígrados mais altas que em 1990 - um aumento maior do que a mudança de temperatura entre a Era Glacial e os tempos modernos.

Enquanto a indústria naval já começa a considerar o degelo ártico como uma oportunidade potencial de curto prazo - poderia reduzir a distância de viagem entre a Europa e o Extremo Oriente em até 5.000 quilômetros - as conseqüências ecológicas e econômicas de longo alcance seriam muito mais extensas e difíceis de prever. Os cientistas recentemente verificaram que o gelo ártico é uma peça-chave do "motor" que move a poderosa esteira rolante oceânica - a Corrente do Golfo - que proporciona ao norte da Europa o clima relativamente temperado e estável que tem permitido às sociedades européias florescerem. Sua desativação alteraria o clima da Europa mais do que em qualquer tempo desde a última Era Glacial. E como a Corrente do Golfo é um fator dominante do sistema circulatório oceânico, qualquer alteração significativa em seu curso impactaria todo o mundo. Ademais, com menos gelo para refletir os raios solares, o aquecimento global que causou o degelo aceleraria.

Cerca de 10.000 quilômetros ao sul do Pólo Norte encontra-se um meio ambiente muito diferente - os oceanos tropicais do mundo e seus abundantes recifes de coral, um ecossistema biologicamente rico que tem sido descrito como as florestas tropicais dos oceanos (65 porcento das espécies de peixes habitam os recifes). Um dos mais ricos é o Recife de Barreira de Belize, na Península de Yucatan, no Caribe, local de uma expedição de mergulho recente do biólogo marinho Jonathan Kelsey e do jornalista Colin Woodard. O que começou como uma emocionante exploração da vida marinha espetacular e multicor da região se transformou num desapontamento perturbador. "Pedras arredondadas, brilhantes e brancas pontuavam a paisagem marinha em todas as direções, um sinal de grave distúrbio do coral," relatou Woodard. "Uma região secular de corais "chifre de alce," do tamanho de um elefante, estava agora morta e coberta por uma camada de algas marrons, já por dois anos. Por todos os lados, os corais agonizavam."

Em todo o mundo, do Caribe ao Oceano Índico e até o Great Barrier Reef da Austrália, chegaram relatos de observações semelhantes nos últimos dois anos. Os pólipos dos corais são sensíveis à temperatura, adoecendo ou morrendo sempre que as temperaturas oceânicas sofrem qualquer elevação. O aquecimento temporário das águas que acompanha as anomalias do El Niño no Pacífico é mais danoso para os recifes de coral, porém o El Niño de 1998 foi algo diferente: informações sobre corais afetados logo chegavam de biólogos marinhos em todo o mundo, calculando que mais de um quarto dos recifes de coral estava doente ou morrendo. Em algumas áreas do Pacífico, a cifra atinge 90 porcento. Para muitas pequenas ilhas-nações, a perda de receita da pesca e do turismo, como também os maiores danos causados por ressacas resultantes da perda dos recifes de coral, podem ser suficientes para provocar o colapso de suas economias.

Em seguida a outro episódio grave de branqueamento de coral uma década antes, esta epidemia recente de doenças nos corais é outra indicação forte que o mundo está aquecendo. Mas é também mais do que isto: os recifes de coral são uma versão marinha do famoso canário numa mina de carvão - vulneráveis a muitos estresses ambientais, hoje desenfreados, incluindo o esgoto urbano, o escoamento agrícola e a sedimentação que advêm do desflorestamento. A dizimação recente dos recifes de coral e a crescente freqüência destes eventos indicam que o equilíbrio ecológico do planeta foi profundamente afetado.

Seja o gelo ártico, corais tropicais, pesqueiros oceânicos ou florestas seculares, as forças que conduzem à destruição ecológica são variadas, complexas e, muitas vezes, perigosamente sinérgicas. A população é um fator. A expansão quase quádrupla da humanidade durante o último século aumentou drasticamente as demandas sobre os recursos naturais. A combinação de crescimento populacional com desmatamento, por exemplo, reduziu a quantidade de hectares de florestas "per capita" pela metade, desde 1960 - aumentando as pressões sobre as florestas remanescentes e incentivando a rápida expansão de florestas cultivadas. A demanda pela água, energia, alimentos e materiais foi exacerbada pela expansão sem precedentes da população mundial. E, cada vez mais, é nos países em desenvolvimento que os sistemas naturais estão declinando mais rapidamente e as pessoas enfrentando as maiores pressões ambientais. (Ver Tabela 1-5.)

Tabela 1-5. Saúde Ecológica das Nações do Grupo E-9

País

Parcela de Terra que está Floresta-
da, 19951

Mudança no Desfloresta-
mento Médio Anual, 1990–95

Parcela de Mamíferos Ameaçados, 1996

Parcela de Plantas em Flor Ameaçadas, 1997

Parcela de Terra sob Proteção Nacional,
1996

(percentual)

Rússia

22

0

11,5

-

3,1

Brasil

16

0,5

18,0

2,4

4,2

Estados Unidos

6

-0,3

8,2

4,0

13,4

China

4

0,1

19,0

1,0

6,4

Alemanha2

3

0

10,5

0,5

27,0

Indonésia

3

1

29,4

0,9

10,6

Índia

2

0

23,7

7,7

4,8

Japão

0,7

0,1

22,0

12,7

6,8

África do Sul

0,2

0,2

13,4

9,5

5,4

Dados podem se referir a anos anteriores. 2Dados comparativos para a UE indisponíveis;
A Alemanha é o país mais populoso da UE.
FONTE: Banco Mundial, World Development Indicators 2000 (Washington, DC: 2000), 126-28.


Entretanto, o crescimento populacional por si só não poderia ter testado os limites ambientais tão fortemente. As pressões que impõe foram aumentadas pelos níveis crescentes de consumo, à medida que cada indivíduo exige mais do planeta. A industrialização, dietas à base de carne e sistemas de transportes centrados no automóvel estão entre as práticas altamente consumistas adotadas originalmente pelo bilhão de pessoas que vivem em países ricos, práticas estas que hoje proliferam em muitas partes do mundo em desenvolvimento. Enquanto isto, regulamentos governamentais e tecnologias de controle de emissões não acompanharam o mesmo ritmo dos países mais ricos. Conseqüentemente, a poluição atmosférica mais grave está hoje em cidades como Jacarta e São Paulo. (Ver Tabela 1-6.)

Tabela 1-6. Poluição Atmosférica nas Nações do Grupo E-9

País

Dióxido de Enxofre, 1995

Particulados em Suspensão, 1995

Dióxido de Nitrogênio, 1995

(microgramas por metro cúbico)

Alemanha (Frankfurt)

11

36

45

Japão (Tóquio)

18

49

68

A. do Sul (Cidade do Cabo)

21

-

72

EUA. (Nova York)

26

-

79

Índia (Mumbai)

33

240

39

Brasil (São Paulo)

43

86

83

China (Xangai)

53

246

73

Rússia (Moscou)

109

100