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Mestre dos Mares, de Patrick O'Brian (tradução de Domingos Demasi; Record; 430 páginas; 45 reais) – O inglês Richard Patrick Russ – mais conhecido por seu pseudônimo, Patrick O'Brian – publicou, a partir de 1969, vinte livros de aventuras navais que se tornaram um dos grandes fenômenos editoriais da Inglaterra nas últimas décadas. As peripécias do capitão Jack Aubrey, oficial da Marinha britânica durante as guerras napoleônicas, deram origem ao filme Mestre dos Mares, que traz o ator Russell Crowe no papel principal e recebeu dez indicações ao Oscar. Aproveitando a deixa, a obra de O'Brian – que morreu em 2000, aos 85 anos – começa a ser publicada no país. Nesse primeiro livro, Aubrey conhece seu fiel companheiro de viagens, o cirurgião Stephen Maturin. Em alto-mar, eles enfrentam batalhas descritas de maneira espetacular pelo autor.

Leia trecho do livro

Capítulo 1

O salão de música da Governor’s House em Port Mahón, uma alta e vistosa estrutura octogonal, estava repleto com o triunfante primeiro movimento do quarteto em dó maior de Locatelli. Os músicos, italianos encurralados contra a parede mais afastada por fileiras e fileiras de redondas cadeirinhas douradas, tocavam com apaixonada convicção ao se encaminharem para o penúltimo crescendo, em direção à extraordinária pausa e ao profundo e libertador acorde final. E, nas cadeirinhas douradas, pelo menos parte da platéia acompanhava a ascensão com igual intensidade: havia dois, na terceira fila, do lado esquerdo; e, por acaso, estavam sentados um ao lado do outro. O ouvinte da extrema esquerda era um homem entre vinte e trinta anos, cujo corpo imenso transbordava do assento, deixando apenas aqui e ali um vestígio visível de madeira dourada. Ele vestia o seu melhor uniforme - o casaco azul com lapelas brancas, colete branco, calções e meias de ­capitão-tenente da Marinha Real, com a medalha de prata do Nilo na botoeira - e o punho, de um branco profundo, de sua manga com abotoadura de ouro marcava o compasso, ao mesmo tempo em que os brilhantes olhos azuis, mirando do que poderia ser um rosto rosado e branco se não estivesse tão intensamente bronzeado, olhavam fixamente para o arco do primeiro-violino. Surgiu a nota alta, a pausa, a resolução: e, com a resolução, o punho do marinheiro baixou fortemente até o joelho. Recostou-se na cadeira, fazendo-a desaparecer totalmente, suspirou contente e, com um sorriso, virou-se na direção do vizinho. As palavras “Muito bem executado, senhor, na minha opinião” formaram-se em sua garganta, mas não inteiramente na boca, quando percebeu o olhar frio e até mesmo hostil, e ouviu o sussurro:

- Se tem mesmo que marcar o compasso, senhor, rogo que o faça no ritmo certo, e não meia cadência adiante.

Instantaneamente, o rosto de Jack Aubrey mudou do ingênuo e amistoso prazer comunicativo para uma expressão de hostilidade um tanto quanto desconcertante: ele não conseguia nada além de admitir que estivera marcando o ritmo certo; e, embora o tivesse certamente feito com perfeita exatidão, a coisa em si estava errada. Sua cor aumentou; fixou por um momento os olhos claros do vizinho e falou:

- Creio... - e as notas de abertura do movimento lento o interromperam.

O violoncelo ruminante proferiu sozinho duas frases, e então começou um diálogo com a viola. Apenas parte da mente de Jack prestava atenção, pois o restante estava fundeado no homem a seu lado. Uma olhadela dissimulada revelou que se tratava de uma criatura pequena, cabelos negros e rosto pálido, metida num casaco preto desbotado - um civil. Era difícil determinar a sua idade, pois ele não apenas tinha aquele tipo de rosto que nada denuncia, como também usava peruca, uma peruca parcialmente grisalha, feita aparentemente de retículo de fios cruzados e bastante desprovida de pó: ele poderia ter qualquer idade entre vinte e sessenta. “De fato, aliás, mais ou menos a minha idade”, pensou Jack. “Que filho da puta feio, cheio de pose.” Com isso, quase toda a sua atenção voltou para a música; encontrou o seu lugar na pauta e a seguiu através dos serpeios e arabescos bastante encantadores, até a conclusão lógica e satisfatória. Não voltou a pensar no vizinho até o final do movimento, e então evitou olhar na direção dele.

O minueto fez a cabeça de Jack menear com a sua insistente cadência,­ mas ele se encontrava totalmente inconsciente disso; e, quando sentiu a mão se agitar sobre os calções e ameaçar decolar, enfiou-a sob a dobra do joelho. Tratava-se de um minueto agradável, gracioso, nada mais; a ele, porém, sucedeu-se um curiosamente difícil, quase estridente, último­ movimento, uma parte que parecia estar prestes a provar algo da maior das importâncias. O volume do som foi baixando até o único sussurro de um violino, e o constante zunido de conversas em voz baixa, vindo do fundo da sala e que não havia cessado, ameaçou abafá-lo: um soldado irrompeu numa risada contida, e Jack, irritado, olhou em volta. Em seguida, o restante do quarteto juntou-se­ ao violino, e todos foram seguindo de volta ao ponto do qual podiam­ fazer ressurgir o tema: era essencial retornar direto ao fluxo, e quando surgiu o violoncelo com a sua previsível e necessária contribui­ção de pom, pom-pom-pom, poom, o queixo de Jack afundou no pei­to e, em uníssono com o violoncelo, ele fez pom, pom-pom-pom, poom. Um cotovelo atingiu suas costelas, e o som de um shshsh sibilou em seu ouvido. Descobriu que a sua mão estava levantada bem alto, marcando o compasso; baixou-a, cerrou a boca bem fechada e ficou olhando para baixo, em direção aos pés, até a música acabar. Ouviu a admirável conclusão e reconheceu que foi muito mais além do desfecho sem rodeios que ele previra, mas não conseguiu tirar prazer algum­ disso. Durante os aplausos e o alarido geral, o seu vizinho olhou para ele, não tanto desafiador, mas com uma total e profundamente sentida desaprovação: não se falaram e permaneceram sentados com uma rígi­da consciência um do outro, enquanto a sra. Harte, a esposa do oficial-comandante, efetuava uma longa e tecnicamente difícil peça em sua harpa. Jack Aubrey olhou para a noite através das janelas compridas e elegantes: Saturno se elevava no su-sudoeste, uma bola incandescente no céu minorquino. Uma cotovelada, uma estocada daquela espécie, tão maldosa e proposital, era quase como um soco. Nem o seu temperamento nem o seu código profissional podiam sofrer pacientemente uma afronta: e que afronta era maior do que a de um soco?

Como não era possível, por causa do momento, exteriorizar qualquer expressão, sua ira assumiu a forma da melancolia: ele pensou em sua situação, marinheiro sem navio, nas meias e nas inteiras promessas que lhe foram feitas e não cumpridas, e nos muitos projetos que desenvolvera para estabelecimentos visionários. Devia ao seu agente de apresamento de navios, o seu homem de negócios, umas 120 libras; e o prazo dos juros de 15% estava vencendo; e o pagamento mensal era de cinco libras e doze xelins. Pensou nos homens que conhecia, mais modernos do que ele, na hierarquia naval, mas com muito mais sorte ou maiores lucros, que agora eram capitães-tenentes no comando de ­brigues ou escunas, ou até mesmo tinham sido promovidos a mestre e comandante: e todos eles designados para trabaccalos no Adriático, tartanas no golfo de Lyon, xavecos e settees ao longo de toda a costa espanhola. Glória, progresso profissional, dinheiro de presas.

A tempestade de aplausos indicou-lhe que a apresentação chegara ao fim e, diligentemente, bateu as mãos, distendendo a boca numa expressão de arrebatado deleite. Molly Harte fez uma reverência e sorriu, captou o seu olhar e sorriu de novo; ele aplaudiu mais intensamente, mas ela notou que ele ou não estava satisfeito, ou não tinha prestado atenção, e o seu prazer ficou sensivelmente reduzido. Contudo, continuou a agradecer os cumprimentos de sua platéia com um sorriso radian­te­ e a bela aparência com o vestido azul-claro de cetim e uma grande vol­ta dupla de pérolas - pérolas do Santa Brigida.

Jack Aubrey e o vizinho metido no casaco preto desbotado levantaram-se ao mesmo tempo e se entreolharam: Jack deixou o rosto retornar à expressão de fria antipatia - ao se extinguirem, os morredouros vestígios de seu arrebatamento artificial pareceram peculiarmente desagradáveis - e, em voz baixa, disse:

- Eu me chamo Aubrey, senhor; estou hospedado na Crown.

- O meu, senhor, é Maturin. Posso ser encontrado, todas as manhãs, no Café Joselito. Pode fazer o favor de se afastar?

Por um momento, Jack sentiu a mais forte propensão de agarrar a sua cadeirinha dourada e golpear com ela o homem de rosto pálido; mas deu passagem com uma tolerável demonstração de civilidade - ele não tinha escolha, a não ser que fosse agredido - e, pouco depois, abriu caminho pela multidão abarrotada de casacos azuis ou vermelhos com os ocasionais pretos de civis que rodeava a sra. Harte, gritou “Encantador... sublime... maravilhosamente executado” sobre três fileiras de cabeças, acenou e deixou o aposento. Caminhando através do salão, trocou cumprimentos com dois outros oficiais de marinha, um deles um ex-companheiro de praça d’armas do Agamemnon, que comentou: “Está parecendo muito deprimido, Jack”, o outro um aspirante alto, hirto com o senso da ocasião e o rigor de sua camisa engomada de babados, que fora seu subordinado durante o seu quarto de serviço no Thunderer; e, finalmente, fez uma mesura para o secretário do comandante, que retribuiu a reverência com um sorriso, as sobrancelhas levantadas e um olhar bastante significativo.

“O que será que esse grosseiro abominável anda tramando?”, pensou Jack, ao caminhar em direção ao porto. À medida que caminhava, vieram-lhe à mente as lembranças da duplicidade do secretário e de sua própria submissão ignóbil àquele personagem influente. Uma pequena e bela nau corsária francesa, recém-revestida de cobre e recém-­apresada, fora-lhe praticamente prometida; o irmão do secretário tinha aparecido de Gibraltar - e adieu ao comando, que se dane. “Que se foda”, exclamou Jack bem alto, lembrando a dócil obediência com que recebera a notícia, junto com a reafirmação da boa vontade do secretário em relação aos não especificados bons serviços que ele prestaria no ­futuro. Então se lembrou da própria conduta naquela noite, principalmente o seu recuo para deixar o homenzinho passar, e a incapacidade de encontrar qualquer comentário, qualquer resposta pronta que fosse ao mesmo tempo arrasadora e desprovida de grosseria. Estava profundamente descontente consigo mesmo, com o homem de casaco preto e com o serviço naval. E com a suavidade aveludada da noite de abril, com o coro de rouxinóis nas laranjeiras e com a chusma de estrelas, pendendo tão baixo, que quase tocavam nas palmeiras.

A Crown, onde Jack estava hospedado, possuía uma certa semelhança com o seu famoso homônimo em Portsmouth: tinha a mesma imensa tabuleta dourada e escarlate pendurada do lado de fora, uma relíquia das antigas ocupações britânicas, e a casa fora construída por volta de 1750 no mais puro gosto inglês, sem uma concessão sequer ao estilo mediterrâneo, exceto pelos azulejos; mas a semelhança parava por aí. O estalajadeiro era de Gibraltar, e os ajudantes, espanhóis, mais exatamente minorquinos; o lugar cheirava a azeite, sardinha e vinho; e não havia a mínima possibilidade de uma torta Bakewell, de um bolo Eccles, ou mesmo de um decente pudim de gordura de rins. Contudo, por outro lado, nenhuma estalagem inglesa seria capaz de apresentar uma camareira tão parecida com um pêssego moreno como Mercedes. Ela ­saltitou no sombrio patamar, enchendo-o com vitalidade e uma espécie de incandescência, e gritou escada acima:

- Uma carta, teniente. Vou levá-la... - Um instante depois, estava ao seu lado, sorrindo com um encanto inocente; mas ele sabia bem demais o que podia conter qualquer carta endereçada a ele, e respondeu com nada além de um gracejo mecânico e uma olhadela rápida e imprecisa para os seios da moça.

- E o comandante Allen esteve à sua procura - acrescentou ela.

- Allen? Allen? Que diabos ele pode querer comigo? - O comandante Allen era um homem tranqüilo e mais velho; tudo o que Jack sabia dele era que se tratava de um legalista americano, considerado muito conservador em seus hábitos - invariavelmente virando por d’avante rapidamente, colocando firme o seu leme a ló, e vestia um longo colete do comprimento de uma saia. - Ah, o enterro, sem dúvida - disse. - Uma subscrição.

- Triste, teniente, triste? - observou Mercedes, afastando-se pelo corredor. - Pobre teniente.

Jack pegou a vela da mesa e seguiu direto para o seu quarto. Só foi se preocupar com a carta depois de tirar o casaco e desatar o lenço do pescoço; em seguida, olhou desconfiado para a parte externa dela. Notou que estava endereçada, com uma letra que desconhecia, ao Comandante Aubrey, M.R.: franziu o cenho, exclamou “Maldito idiota”, e virou a carta. O brasão preto no lacre tinha sido borrado na impressão, e por mais que ele o colocasse perto da vela e inclinasse a luz sobre a superfície, não conseguiu distingui-lo.

- Não consigo distingui-lo - falou. - Mas, pelo menos, não é o velho Hunks. Ele sempre lacra com obréia. - Hunks era o seu agente, seu abutre, seu credor.


 
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