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Banquete, de Roy Strong (tradução de Sergio Goes de Paula; Jorge Zahar; 300 páginas; 42 reais) – Nos banquetes da corte francesa, em Versalhes, havia desfiles alegóricos em que o rei Luís XIV era apresentado como o deus Apolo e se serviam mais de cinqüenta pratos diferentes. A festa acabou depois da Revolução Francesa. O imperador Napoleão Bonaparte costumava fazer suas apressadas refeições em pé. O historiador inglês Roy Strong, que já dirigiu o National Portrait Gallery e o Museu Victoria e Albert, relata essas curiosas diferenças nos costumes à mesa para mostrar como os hábitos alimentares espelham a estrutura social. Dos antigos babilônios até os dias atuais, esse livro é um delicioso passeio por 5.000 anos de história culinária.

Leia trecho

DAS BOAS MANEIRAS À ETIQUETA

Até o cataclisma de 1789, as boas maneiras relacionavam-se às regras observadas nas cortes42. O que começou na Renascença como um sistema de comportamento levando homens de diferentes classes sociais a partilharem um padrão de intercâmbio social tornou-se, nos séculos XVII e XVIII, um meio de preservar as castas. As boas maneiras não eram mais um veículo de inclusão, mas de exclusão. A aristocracia, é claro, estava sob a permanente pressão das classes comerciais e profissionais em expansão e do acesso à torrente de livros que descreviam os labirintos dos comportamentos na corte. A maior parte desses livros era, já no século XV, pouco mais que tratados de cortesia, longas listas de proibições e recomendações, tais como se lembrar de sentar-se empertigado e não colocar os cotovelos à mesa. Mas embutidas nelas havia nuances que apontavam para mudanças no mores do jantar, decorrentes tanto da nova culinária como da multiplicação dos talheres e do uso cada vez mais difundido do garfo. A mudança prática mais significativa foi a individualização do ato de comer. Pela primeira vez cada comensal formava uma unidade com seu próprio prato, guardanapo e talheres; já não tinha que dividi-los. Mas podemos perceber uma transformação ainda maior, embora menos tangível: o aparecimento do gosto como novo indicador de status social. O que definia o gosto era o discernimento estético e intelectual, o que, por sua vez, era visto como um atributo inato que encontrava expressão numa sociedade cada vez mais orientada para o consumo. O gosto, além do mais, englobava o julgamento sobre a comida.

Tais mudanças são confirmadas pelo Nouveau traité de la civilité (1671), de Antoine de Courtin, que depois do livro de Erasmo é o mais influente guia de boas maneiras jamais escrito, tendo inúmeras edições. Nele aprendemos que no final do século XVII as abluções cerimoniais antes das refeições passaram a envolver apenas os principais convidados; cuspir já não era aceitável; os homens tiravam o chapéu quando se davam graças, quando serviam uma dama ou um superior lhes fazia um brinde. Os garfos passaram a ser considerados imprescindíveis: "Deve-se cortar a carne no prato e levá-la à boca com o garfo. Digo com o garfo porque é ... muito indecente tocar alguma coisa gordurosa, ou com molho, ou no xarope etc., com os dedos; além do mais, isso obriga-nos a cometer mais duas ou três indecências." Estas "indecências" incluíam limpar os dedos no guardanapo, deixando-o como uma "toalha de cozinha", no pão ou, pior ainda, lamber os dedos, "que é a maior das impropriedades".

Mas o que o livro dizia que devia fazer e o que realmente se fazia eram duas coisas muito diferentes. Luís XIV continuava a usar os dedos para comer carne. Ainda em 1737 um livro holandês de boas maneiras, De hofsche Wellevenntheid, incorporava o que Courtin escrevera sobre maneiras à mesa, mas substituía as referências de Courtin sobre a faca e o garfo por "faca, colher ou outro". Um estudo revelou que em meados do século XVIII, na área de Gand, Flandres, os garfos eram usados até pela pequena burguesia, ainda que apenas aos domingos, mas sua ausência na tradução do livro indica que não era certo que existissem43. Facas e garfos aparentemente eram a norma nas classes altas, mas entre as classes médias os garfos continuaram sendo peças de prestígio guardadas junto à prataria, tirados e usados apenas em ocasiões especiais. Sua adoção em toda a Europa foi um processo lento, que só aos poucos desceu a escala social, e mesmo assim apenas até as classes médias. No entanto, à medida que o século XVIII avançava, seu domínio significou um declínio no número de guardanapos, pois já não era necessário sujar os dedos. Portanto, a afirmação de Jean-Baptiste de la Salle em Lês règles de la bien-séance et de la société chrestienne (1729), de que "é completamente contrário às boas maneiras tocar a carne e, pior ainda, a 'sopa' com os dedos", podia fazer sentido na sociedade da corte, mas não fora dela.

Havia, é claro, variações na prática dos diferentes países: o que era considerado boa educação num país podia ser grosseria em outro. Jean Gailhard, em The Complete Gentleman (1678), observa algumas diferenças entre a França e a Inglaterra:

Na Inglaterra é de bom-tom o dono da casa entrar antes do estranho. Isso passaria por grave incivilidade na França. Aqui a senhora da casa costuma sentar-se à parte banquete superior da mesa, que na França é reservada aos estranhos; se somos muitos à mesa, não temos escrúpulos de beber todos de um copo ou caneca, o que os franceses não costumam fazer; e se um criado lhes oferecer um copo sem ser lavado a cada vez que bebem, eles fi cam muito aborrecidos.

 


 
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