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Abel Sánchez: uma História de Paixão (tradução de Luís Carlos Cabral e Eric Nepomuceno; Record; 224 páginas; 34,90 reais) – Na apresentação do livro, o próprio Miguel de Unamuno (1864-1936) – um dos nomes mais importantes da literatura espanhola no século passado – diz que sua obra leva "um bisturi a abismos hediondos da alma humana" e faz "jorrar o pus". Abel Sánchez é uma poderosa história de amizade – e de inveja. O protagonista casa-se com Helena, despertando um trágico ressentimento no amigo de infância Joaquín Monegro, que desejava a mesma mulher. Considerada a obra mais sombria de Unamuno, Abel Sánchez revisita a história bíblica de Abel e seu irmão Caim.

Leia trecho

Capítulo I

Abel Sánchez e Joaquín Monegro não se lembravam de desde quando se conheciam. Eram conhecidos desde antes do princípio, desde sua primeira infância, pois suas duas amas-de-leite eram muito unidas e os uniam quando eles ainda nem sabiam falar. Cada um deles aprendeu a se conhecer conhecendo o outro. E assim viveram e se tornaram amigos desde que nasceram; era quase como se fossem irmãos de criação.

Nos passeios, nas brincadeiras, nas relações com outros amigos comuns, Joaquín, o mais voluntarioso, parecia iniciar e dominar tudo; no entanto era Abel quem, parecendo ceder, fazia sempre o que queria. É que gostava mais de não obedecer do que de mandar. Quase nunca brigavam. "Por mim, como você quiser!", dizia Abel a Joaquín, e este às vezes se exasperava porque, com aquele "como você quiser!", Abel evitava as brigas.

- Você nunca diz não! - exclamava Joaquín.

- E para quê? - replicava o outro.

- Bem, esse aí não quer que a gente vá ao Pinar - disse uma vez Joaquín, quando vários companheiros se preparavam para fazer um passeio.

- Eu? Como não iria querer! - exclamou Abel.- Sim, Joaquín, sim: como você quiser. Vamos até lá!

- Não, como eu quiser, não! Já disse outras vezes que assim, não! Como eu quiser, não! Você não quer ir!

- Mas eu quero ir...

- Pois então quem não quer sou eu...

- Eu também não...

- Isso não vale! - gritou logo Joaquín. - Ou com ele ou comigo!

E todos seguiram Abel, deixando Joaquín sozinho.

Ao comentar esse acontecimento da infância em sua Confissão, Joaquín escreveu: "Já então era ele o simpá-tico, não sabia por quê, e eu o antipático, sem que entendesse bem a causa disso, e me deixavam sozinho. Desde pequeno fui ilhado pelos meus amigos."

Durante o colégio, que fizeram juntos, Joaquín era o esforçado, o que caçava os prêmios, o primeiro da classe; Abel era o primeiro fora dela, no pátio da escola, na rua, nos campos, nas gazetas, entre os companheiros. Abel era o que fazia rir com suas graças, e triunfava, recebendo aplausos, com as caricaturas que fazia dos professores. "Joaquín é muito mais aplicado, mas Abel é mais inteligente... se estudasse..." Este juízo comum dos companheiros, que Joaquín conhecia bem, não fazia mais do que envenenar seu coração. Chegou a se sentir tentado a negligenciar os estudos para tentar vencer o outro no campo do outro; mas dizendo "Ora, o que é que eles sabem?", permaneceu fiel ao seu propósito natural. Além do mais, por mais que procurasse superar o outro em engenho e elegância, não conseguia. Ninguém ria de suas piadas; era considerado uma pessoa fundamentalmente séria. "Você é fúnebre", costumava ouvir de Federico Cuadrado. "Suas piadas são piadas de luto."

Os dois concluíram o colégio. Abel foi ser artista, estudar pintura. Joaquín matriculou-se na Faculdade de Medicina. Viam-se com freqüência, e cada um contava ao outro os progressos que faziam em seus respectivos estudos. Joaquín empenhava-se em provar a Abel que a Medicina também era uma arte, e até uma bela arte, na qual havia espaço para a inspiração poética. Outras vezes, para variar, manifestava desprezo pelas belas-artes, que enervariam o espírito, e exaltava a ciência, que elevaria, fortificaria e ampliaria o espírito através da verdade.-

- Mas a medicina também não é ciência - dizia Abel. - Não passa de uma arte, de uma prática derivada das ciências.

- É que eu não vou me dedicar ao ofício de curar enfermos - respondia Joaquín.

- Um ofício muito honrado e muito útil... - acrescentava o outro.

- Sim, mas não para mim. Pode ter toda a honra e toda a utilidade que você quiser, mas eu detesto essa honradez e essa utilidade. Que outros se dediquem a ganhar dinheiro tomando o pulso, olhando a língua e receitando qualquer coisa. Eu aspiro a mais.

- Mais?

- Sim; eu quero abrir novos caminhos. Penso em dedicar-me à pesquisa científica. A glória médica é dos que descobrem os segredos de alguma doença, e não dos que aplicam as descobertas com maior ou melhor êxito.

- Gosto de ver você assim, tão idealista.

- Pois então você acredita que só vocês, artistas, pintores, sonham com a glória?

- E quem disse que eu sonho com tal coisa...

- Então não? Pois, se não é por isso, por que foi se dedicar à pintura?

- Porque, quando se acerta, é um ofício que promete...

- Promete o quê?

- Vamos lá... Sim, dá dinheiro.

- Esse osso é para outro cão, Abel... Eu o conheço quase desde que nascemos. A mim você não engana. Conheço você.

- E eu alguma vez pretendi enganar você?

- Não, mas engana mesmo sem querer. Apesar desse ar de que nada importa, de levar a vida na brincadeira, de não dar valor a nada, você é um tremendo ambicioso...

- Ambicioso, eu?

- Sim, ambicioso de glória, de fama, de renome... Sempre foi, desde que nasceu. Só que você disfarça.

- Mas venha cá, Joaquín, me diga: alguma vez disputei prêmios com você? Você não foi sempre o primeiro da classe? O menino que prometia?

- Sim, mas o galinho, o menino mimado pelos companheiros, era você...

- E o que eu deveria fazer?

- Então você agora está querendo me dizer que não procurava esse tipo de popularidade?

- Você é que devia estar procurando...

- Eu? Eu? Mas eu desprezo a massa!

- Bom, bom: deixe essas besteiras de lado e veja se consegue sarar delas. É melhor me falar de novo sobre sua namorada.

- Namorada?

- Bem, dessa sua priminha que você está querendo namorar.

É que Joaquín estava querendo abrir à força o coração de sua prima Helena, e colocara em seu esforço amoroso todo o afinco de seu ânimo reconcentrado e desconfiado. Seus desabafos, os inevitáveis e saudáveis desabafos de um apaixonado em luta, eram feitos com seu amigo Abel.

E como Helena o fazia sofrer!

- Cada vez a entendo menos - costumava dizer a Abel. - Essa jovem é uma esfinge para mim...

- Você sabe o que dizia Oscar Wilde ou seja lá quem for? Toda mulher é uma esfinge sem segredo.

- Pois Helena parece ter um. Deve amar outro, ainda que ele não saiba. Estou certo de que ela ama outro.

- E por quê?

- Porque senão eu não consigo explicar a atitude comigo.

- Quer dizer que porque ela não quer amar você... ou não quer você de namorado, pois como primo ela deve querer...

- Não caçoe!

- Está bem, então porque ela não quer você de namorado ou, mais claro ainda, como marido tem de estar apaixonada por outro? Bonita lógica!

- Eu entendo o que estou dizendo!

- Sim, e eu também entendo você.

- Você?

- Você não acha que é quem mais me conhece? Então onde está o problema no fato de que eu pretenda conhecer você? Já nos conhecemos há muito tempo.

- Pois eu digo que essa mulher me deixa louco e vai me fazer perder a paciência. Está brincando comigo. Se me tivesse dito desde o princípio que não, tudo estaria bem, mas me deixar assim, dizendo que vai ver, que vai pensar... Essas coisas não se pensam... Coquete!

- É que está examinando você.

- Examinando? Ela? O que existe em mim para ser examinado? O que ela entende de examinar?

- Joaquín, Joaquín, você está se rebaixando e está rebaixando a moça! Ou então você acha que basta vê-lo e ouvi-lo e saber que você a ama para que ela se atire aos seus pés?

- Pois é, eu sei, sempre fui antipático...

- Vamos, não fique assim...

- É que essa mulher está brincando comigo! É que não é correto brincar assim com um homem como eu, franco, leal, aberto... Mas se você visse como ela é bonita! E quanto mais fria e desdenhosa se põe, mais bela fica! Às vezes não sei se a amo ou a detesto mais! Quer que eu apresente você a ela?

- Bem, se você...

- Vou apresentá-lo.

- E se ela quiser...

- O quê?

- Posso pintar o retrato dela.

- Ah, isso sim!

Mas naquela noite Joaquín dormiu mal, ruminando a história do retrato, pensando que Abel Sánchez, o que era simpático sem querer, o mimado pelos favores alheios, retrataria Helena.

O que sairia dali? Helena também acharia, como os companheiros deles, Abel mais simpático? Pensou em recuar, em não apresentá-los, mas, como já havia prometido...



 
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