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Páginas
de Sombra (Casa
da Palavra; 167 páginas; 28 reais) A literatura fantástica,
aquela que explora as fronteiras entre o real e o insólito,
nunca foi uma vertente dominante na literatura brasileira. Apesar
disso, os autores nacionais produziram algumas narrativas instigantes
no gênero. Essa antologia é prova disso. Organizada
por Braulio Tavares, ela reúne dezesseis contos produzidos
entre o fim do século XIX e os anos 90. Inclui textos de
especialistas dessa seara, como o mineiro Murilo Rubião,
e também trabalhos de autores como Machado de Assis, Lygia
Fagundes Telles e Aluísio Azevedo, que ocasionalmente fizeram
incursões nela. É curioso um conto pouco conhecido
de Carlos Drummond de Andrade, no qual uma alma penada se comunica
com o mundo dos vivos pelo telefone.
Leia
trecho do livro
As
Academias de Sião, de Machado de Assis
Conhecem
as academias de Sião? Bem sei que em Sião nunca houve
academias: mas suponhamos que sim, e que eram quatro, e escutem-me.
As
estrelas, quando viam subir, através da noite,muitos vaga-lumes
cor de leite, costumavam dizer que eram os suspiros do rei de Sião,
que se divertia com as suas trezentas concubinas. E, piscando o
olho umas às outras, perguntavam:
-
Reais suspiros, em que é que se ocupa esta noite o lindo
Kalaphangko?
Ao
que os vaga-lumes respondiam com gravidade:
-
Nós somos os pensamentos sublimes das quatro academias de
Sião; trazemos conosco toda a sabedoria do universo.
Uma
noite, foram em tal quantidade os vaga-lumes, que as estrelas, de
medrosas, refugiaram-se nas alcovas,e
eles tomaram conta de uma parte do espaço, onde se fixaram
para sempre com o nome de Via Láctea.
Deu
lugar a essa enorme ascensão de pensamentos o fato de quererem
as quatro academias de Sião resolver este singular problema:
- por
que é que há homens femininos e mulheres másculas?
E o que as induziu a isso foi a índole do jovem rei. Kalaphangko
era virtualmente uma dama. Tudo nele respirava a mais esquisita
feminidade: tinha os olhos doces, a voz argentina, atitudes moles
e obedientes e um cordial horror às armas. Os guerreiros
siameses gemiam, mas a nação vivia alegre,tudo eram
danças, comédias e cantigas, à maneira do rei
que não cuidava de outra coisa. Daí a ilusão
das estrelas.
Vai
senão quando, uma das academias achou esta solução
ao problema:
Umas
almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se
observa é uma questão de corpos errados.
Nego,
bradaram as outras três; a alma é neutra; nada tem
com o contraste exterior. Não foi preciso mais para que as
vielas e águas de Bangkok se tingissem de sangue acadêmico.
Veio primeiramente a controvérsia, depois a descompostura,
e finalmente a pancada. No princípio da descompostura tudo
andou menos mal; nenhuma das rivais arremessou um impropério
que não fosse escrupulosamente derivado do sânscrito,
que era a língua acadêmica, o latim de Sião.
Mas dali em diante perderam a vergonha. A rivalidade desgrenhou-se,
pôs as mãos na cintura, baixou à lama, à
pedrada, ao murro, ao gesto vil, até que a academia sexual,
exasperada, resolveu dar cabo das outras, e organizou um plano sinistro...
Ventos que passais, se quisésseis levar convosco estas folhas
de papel, para que eu não contasse a tragédia de Sião!
Custa-me
(ai de mim!), custa-me escrever a singular desforra. Os acadêmicos
armaram-se em segredo, e foram ter com os outros, justamente quando
estes, curvados sobre o famoso problema, faziam subir ao céu
uma nuvem de vaga-lumes. Nem preâmbulo, nem piedade. Caíram-lhes
em cima espumando de raiva. Os que puderam fugir, não fugiram
por muitas horas; perseguidos e atacados, morreram na beira do rio,
a bordo das lanchas, ou nas vielas escusas. Ao todo, trinta e oito
cadáveres.
Cortaram
uma orelha aos principais, e fizeram delas colar e braceletes para
o presidente vencedor, o sublime U-Tong. Ébrios da vitória,
celebraram o feito com um grande festim, no qual cantaram este hino
magnífico: "Glória a nós, que somos o
arroz da ciência e a luminária do universo".
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