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Planos de Fuga e Outros Poemas, de Tarso de Melo (Cosac Naify; 88 páginas; 20 reais) – Um dos mais talentosos poetas da nova geração, Tarso de Melo desenvolveu uma sensibilidade aguda para as paisagens urbanas, que já figuravam na sua obra anterior, Carbono. Planos de Fuga, poema em prosa que abre esse seu terceiro livro, é uma descrição ao mesmo tempo minimalista e vigorosa do barulho e da desolação de uma grande cidade (talvez São Paulo, que é referida de passagem). Nos poemas que se seguem, Melo mostra seu apuro técnico no verso contorcido e cheio de arestas que marca seu estilo – mas também se aventura em tercetos mais expansivos, como no belo Crônica, e em homenagens a poetas como Carlos Drummond de Andrade.

Leia trecho

7.

o assunto parece ser política, o que se espera do outro, se superáveis os limites, o que representa isto, isso, aquilo. De repente, muda. Certo apego pela dúvida, um inconstante visitar a margem das palavras, do que imaginávamos ser o sentido delas. E das coisas através delas, do constrangimento a elas, dos contextos a que estão submetidas. Mas não se aproxima do ponto, o vento canta nas frestas, a única ração já não é mais suficiente – e o dicionário é um estranho. Já não há sombra dos poemas, a cada certeza que os desescreve. A amizade e a melancolia roubadas dos livros de séculos passados, alguma outra medida, o inviável.

16.

como se a cor de tudo fosse, como se agora tudo em cinza. O sol se foi mais cedo, os carros se condensam. Em cinza: não o que se vê por entre os prédios, acima deles, eles. Ou o que queima lente adentro o olho do fotógrafo. Não é este o cinza daqui, suspeito. A cadeira sem ninguém ou os pneus da bicicleta murchando, tudo vai ficando cinza. Os livros já fechados, teclas ainda quentes, o rádio mais e mais mudo. A noite não sabe por onde começar.

"Papéis"

Primeiro papel
tarefa simples, aquela
deixar o mar onde está
ficar assim à distância
às voltas, ver
mas não, outra cena
entra (estanca,
estaca) e assim se complica
entrementes o ato
– cenário de placas,
pode, deve, não pode,
cenário de chagas – (o
mar onde está) no
fim,
finge o crime (lixo,
cotidiano) de não
saber aonde ir


 
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