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A Fazenda Africana, de Karen Blixen (tradução de Claudio Marcondes; Cosac Naify; 448 páginas; 59 reais) – A dinamarquesa Karen Blixen (1885-1962) compôs a maior parte de sua obra em inglês, assinando com pseudônimos masculinos como Isak Dinesen. O autobiográfico Fazenda Africana narra os anos que a escritora passou no Quênia, de 1914 a 1931, à frente de uma fazenda de café. Karen atuou como uma espécie de antropóloga intuitiva, registrando os hábitos dos nativos africanos e dos colonizadores europeus e descrevendo as assombrosas paisagens da região. A nova tradução busca exprimir as particularidades "nórdicas" da prosa da autora, especialmente nos capítulos mais fragmentários em que ela reproduz anedotas locais e trechos de seu diário.

Leia trecho

CAPÍTULO 4 - Das anotações de uma imigrante

Do orgulho

A vizinhança da Reserva de Caça e a presença, além da divisa, de animais de grande porte conferiam à fazenda um caráter peculiar, como se fôssemos vizinhos de um grande soberano. Havia por lá seres muito orgulhosos e dava para sentir sua proximidade.

O bárbaro tem em alta conta o próprio orgulho, e odeia, ou vê com desconfiança, o orgulho nos outros. Eu serei uma criatura civilizada, vou amar o orgulho de meus adversários, de meus criados e de meu amante; e minha casa será, com toda a humildade, um local civilizado no meio do deserto.

Orgulho é a fé na idéia que tinha Deus ao nos conceber. Um homem orgulhoso tem consciência dessa idéia e procura realizá-la. Não luta para obter a felicidade ou o conforto, talvez irrelevantes para a concepção que Deus tem a nosso respeito. Seu êxito está na bem-sucedida realização da idéia divina e é alguém apaixonado por seu destino. Assim como o bom cidadão encontra a felicidade no cumprimento de seu dever para com a comunidade, do mesmo modo o homem orgulhoso encontra a felicidade no cumprimento de seu destino.

Aqueles que não possuem orgulho não reconhecem nenhuma idéia de Deus em sua própria criação, e por vezes nos levam a duvidar da existência de tal idéia, ou então a achar que esta se perdeu, e quem irá encontrá-la de novo? Tiveram de aceitar como êxito o que os outros lhe asseguraram ser assim, e fundamentam sua felicidade, e até mesmo seus próprios eus, nas idéias em voga. Tremem, com razão, diante do próprio destino.

Temos de amar o orgulho divino acima de todas as coisas, assim como o orgulho de nosso vizinho, tanto quanto o nosso orgulho. O orgulho dos leões: não os prendam em zoológicos. O orgulho de nossos cães: não deixemos que engordem. Vamos amar o orgulho de nossos companheiros, e não lhes permitir nenhuma piedade consigo mesmos.

Vamos amar o orgulho das nações conquistadas, e deixá-las que honrem seus pais e suas mães.


 
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