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Eu S/A, de Max Barry (tradução de Alves Calado; Record; 352 páginas; 39,90 reais) – Em Eu S/A, o australiano Max Barry fala de um futuro próximo dominado pelas grandes empresas multinacionais. Mas nada aqui é para ser levado a sério: trata-se de uma sátira escrachada do mundo corporativo. Os despersonalizados funcionários das companhias são até obrigados a adotar marcas como sobrenome. É o caso de Hack Nike, ambicioso mas ingênuo vendedor da grande indústria de artigos esportivos. Para promover um novo e caríssimo tênis produzido pela Nike, Hack tem de participar de um plano de marketing muito agressivo, que envolve até o assassinato de jovens como peça publicitária. E é então que ele começa a ser investigado pela detetive Jeniffer Governo.

Leia trecho

PRIMEIRA PARTE

Nike

Hack ouviu falar em Jennifer Governo pela primeira vez junto ao bebedouro. Só estava ali porque o do seu andar não tinha água; o Jurídico iria cair sobre a Fontes da Natureza como uma tonelada de merda, pode apostar. Hack era funcionário da Distribuição de Merchandising. Isso significava que quando a Nike fazia um punhado de cartazes, bonés ou toalhas de praia Hack tinha de mandá-los ao lugar certo. Além disso, se alguém reclamasse da falta de cartazes, bonés ou toalhas de praia, Hack tinha de atender ao telefonema. Não era tão empolgante como antigamente.

— É uma calamidade — disse um homem perto do bebedouro. — Faltam quatro dias para o lançamento, e Jennifer Governo está pegando no meu pé.

— Meu Deus — disse seu companheiro. — Deve ser um saco.

— Significa que temos de andar rápido. — Ele olhou para Hack, que estava enchendo seu copo. — Ei, você.

Hack levantou os olhos. Os dois estavam sorrindo como se ele fosse um igual — mas, claro, Hack estava no andar errado. Eles não sabiam que ele era apenas um funcionário do Merch.

— Oi.

— Não vi você aqui antes — disse o cara da calamidade. — É novo?

— Não. Trabalho no Merch.

— Ah. — O nariz dele torceu.

— Nosso bebedouro está vazio. — Hack se virou rapidamente para ir embora.

— Ei, espere — disse o executivo. — Você já fez algum trabalho de marketing?

— Ahn... — disse ele, sem saber se era uma piada. — Não.

Os dois executivos se entreolharam. O cara da calamidade deu de ombros. Depois eles estenderam a mão.

— Eu sou John Nike, Agente de Marketing de Guerrilha, Produtos Novos.

— E eu sou John Nike, vice-presidente de Marketing, Produtos Novos — disse o outro executivo.

— Hack Nike — disse Hack, apertando a mão deles.

— Hack, eu tenho o poder de tomar decisões de contratação de empregados de nível médio — disse o vice-presidente John. — Está interessado num trabalho?

— Num... — Ele sentiu a garganta ficar apertada. — Trabalho de marketing?

— A continuidade será avaliada caso a caso, claro — disse o outro John.

Hack começou a chorar.

— Pronto — disse um John, entregando um lenço. — Está se sentindo melhor?

Hack confirmou com a cabeça, sentindo vergonha.

— Desculpe.

— Ei, não fique preocupado com isso — disse o vice-presidente John. — Mudança de carreira pode ser uma coisa muito bem-sucedida. Li isso em algum lugar.

— Aqui está a papelada. — O outro John lhe entregou uma caneta e um maço de papéis. Na primeira página estava escrito contrato para realização de serviço, e as outras eram em letras muito pequenas para serem lidas.

— Querem que eu assine isso agora? — indagou Hack, hesitante.

— Não precisa se preocupar. São só os acordos usuais relativos a não-realização e não-revelação.

— É, mas...

Hoje em dia as empresas estavam ficando muito mais duras nos contratos de trabalho; Hack tinha ouvido histórias. Na Adidas, se um cara largasse o trabalho e o substituto dele não fosse tão competente, eles o processavam por perdas de lucros.

— Hack, precisamos de alguém que possa tomar decisões rápidas. Alguém que tenha pique.

— Alguém que possa realizar coisas. Com um mínimo de embromação.

— Se não é o seu estilo... vamos esquecer esta conversa. Sem problema. Você continua no Merchandising.

O vice-presidente John estendeu a mão para pegar o contrato de volta.

— Posso assinar agora — disse Hack, segurando com mais força.

— Isso é totalmente com você — disse o outro John. Em seguida ocupou a cadeira ao lado de Hack, cruzou as pernas e pousou as mãos sobre elas, sorrindo. Os dois John tinham sorrisos bons, notou Hack. Ele imaginou que todo mundo no Marketing era assim. Os rostos também eram bem parecidos. — Só aqui embaixo.

Hack assinou.

— E ali também — disse o outro John. — E na próxima página... e uma aqui. E ali.

— É bom ter você a bordo, Hack. — O vice-presidente John pegou o contrato, abriu uma gaveta e o largou lá dentro. — Bom. O que sabe sobre os Nike Mercury?

Hack piscou.

— É o nosso último produto. Eu não vi um par, mas... ouvi dizer que é fantástico.

Os John sorriram.

— Começamos a vender os Mercury há seis meses. Sabe quantos pares já vendemos?

Hack balançou a cabeça. Cada par custava milhares de dólares, mas isso não impediria as pessoas de comprá-los. Eram os tênis mais maneiros do mundo.

— Um milhão?

— Duzentos.

— Duzentos milhões?

— Não. Duzentos pares.

— O nosso John aqui — disse o outro John — foi pioneiro no conceito de marketing por recusa de vender produtos. Isso deixa o mercado louco.

— E agora está na hora de tirar proveito. Na sexta-feira vamos jogar quatrocentos mil pares no mercado a dois mil e meio cada.

— O que... já que eles custam... quanto mesmo?

— Oitenta e cinco.

— Já que eles custam oitenta e cinco dólares para ser fabricados, nos dá um lucro bruto de aproximadamente um bilhão de dólares. — Ele olhou para o vice-presidente John. — É uma campanha brilhante.

— Na verdade não passa de bom senso — disse John. — Mas o negócio é o seguinte, Hack; se as pessoas perceberem que cada shopping center do país tem os Mercury, vamos perder todo o prestígio que nos deu tanto trabalho para montar. Estou certo?

— Está. — Hack esperava parecer confiante. Realmente não entendia de marketing.

— Então sabe o que vamos fazer?

Ele balançou a cabeça.

— Vamos atirar neles — disse o vice-presidente John. — Vamos matar todos os que comprarem um par.

Silêncio.

— O quê? — perguntou Hack.

O outro John disse:

— Bem, não todo mundo, obviamente. Achamos que só temos de apagar... o que foi que decidimos? Cinco?

— Dez — disse o vice-presidente John. — Para segurança.

— Certo. Apagamos dez clientes, fazemos com que pareça coisa de garotos do gueto e teremos a credibilidade das ruas entrando sem parar. Aposto que vamos acabar com o estoque em vinte e quatro horas.

— Me lembro que a gente sempre podia contar com aqueles garotos de rua para matar algumas pessoas para pegar os últimos Nike — disse o vice-presidente John. — Agora as pessoas são mortas por Reeboks, Adidas... até por tênis sem marca, pelo amor de Deus.

— Os guetos não têm mais nenhum sentido de moda — disse o outro John. — Eles são capazes de usar qualquer coisa.

— É uma desgraça. De qualquer modo, Hack, acho que você entendeu. Esta é uma campanha de arrasar quarteirão.

— Nem fale em campanha de ponta — disse o outro John. — Ela define o que é ponta.

— Hmm... — disse Hack. Em seguida engoliu em seco. — Isso não é meio... ilegal?

— Ele quer saber se é ilegal — disse o outro John, achando divertido. — Você é engraçado, Hack, é ilegal matar pessoas sem o consentimento delas, é muito ilegal.

O vice-presidente John disse:

— Mas a questão é a seguinte: quanto custa? Mesmo que sejamos descobertos, queimamos alguns milhões em custos jurídicos, recebemos multa de mais alguns milhões... e o resultado é que ainda estaremos bem na frente.

Hack tinha uma pergunta que não queria fazer.

— Então... esse contrato... o que ele diz que eu devo fazer?

O John ao seu lado cruzou as mãos.

— Bem, Hack, nós explicamos o plano de negócios. O que queremos que você faça é...

— Executá-lo — disse o vice-presidente John.

 McDonald’s

Até parar na frente delas, Hayley não tinha notado quantas de suas colegas de turma estavam louras. Aquilo ali parecia uma praia. Ela havia perdido a virada da moda. Teria de ir correndo a um cabeleireiro depois da escola.

— Quando estiver pronta — disse o professor.

Hayley olhou para os cartões de anotações e respirou fundo.

— Por que amo os Estados Unidos, escrito por Hayley McDonald’s. Os Estados Unidos são o maior grupo de países do mundo porque nós temos liberdade. Em países como a França, onde o governo não é privatizado, ainda se precisa pagar impostos e fazer o que o governo manda, um saco. Nos países dos Estados Unidos respeitamos os direitos individuais e deixamos as pessoas fazer o que querem.

O professor anotou algo em sua pasta de papel. As escolas patrocinadas pelo McDonald’s eram pão-duras. Nas escolas Pepsi todo mundo tinha notebook. E os uniformes eram muito melhores. Era difícil ser maneiro com os Arcos Dourados nas costas.

— Antes dos países dos Estados Unidos abolirem os impostos, se você não tivesse emprego, o governo pegava dinheiro dos trabalhadores e dava a você. Tipo assim, quanto mais inútil você fosse, mais dinheiro ganhava.

Nenhuma reação dos colegas de turma. Nem o professor riu. Hayley ficou surpresa: tinha achado que aquilo era de matar de rir.

— Mas agora os Estados Unidos têm todas as melhores empresas e todo o dinheiro porque todo mundo trabalha e o Governo não pode gastar dinheiro em coisas estúpidas como propaganda, eleições e leis novas. Ele simplesmente impede as pessoas de roubar ou de machucar umas às outras, e todo o resto é feito pelo setor privado, que todo mundo sabe que é mais eficiente. — Ela olhou para suas anotações; é, era isso. — Finalmente gostaria de dizer que os Estados Unidos são o maior grupo de países do mundo e que tenho orgulho de viver nos Territórios Australianos dos Estados Unidos!

Aplausos esparsos. Era o oitavo trabalho deste período: Hayley achou que estava ficando mais difícil provocar entusiasmo pelo capitalizmo. Foi para o seu lugar.

— Espere aí — disse o professor. — Tenho algumas perguntas.

— Ah.

— Há algum aspecto positivo nos impostos?

Ela relaxou: uma pergunta fácil.

— Algumas pessoas acham que o imposto é bom porque dá dinheiro a gente que não tem. Mas essas pessoas devem ser preguiçosas ou estúpidas, então por que deveriam ganhar o dinheiro dos outros? Obviamente, a resposta é não.

O professor piscou. Fez uma anotação. Devia ter sido uma resposta impressionante, pensou Hayley.

— E a justiça social?

— O quê?

— É justo que algumas pessoas sejam ricas enquanto outras não têm nada?

Ela balançou de um pé para o outro. Estava lembrando: esse professor tinha uma queda pelos pobres. Vivia falando deles.

— Hmm... é, é justo. Porque se eu estudar muito para uma prova e tirar dez, e Emily não estudar e fracassar — interesse renovado por parte da turma; Emily levantou as sobrancelhas louras —, não é justo tirar alguns pontos meus e dar para ela, é?

O professor franziu a testa. Hayley sentiu um clarão de pânico.

— Outra coisa, nos países que não fazem parte dos EUA eles querem que as pessoas sejam iguais, então se sua irmã nasceu cega, eles cegam você também, para igualar as coisas. Mas isso não é injusto? Eu preferiria ser americana a ser uma... pessoa da União Européia. — Ela deu um grande sorriso para a turma. Eles aplaudiram, com muito mais entusiasmo do que antes. Hayley acrescentou esperançosa: — Só isso?

— Só. Obrigado.

Alívio! Ela começou a andar. Um garoto bonito da terceira fila piscou para ela.

— Se bem, Hayley — disse o professor —, que na verdade não cegam pessoas nos países que não fazem parte dos EUA.

Hayley parou.

— Bom, isso é meio hipócrita, não é?

A turma aplaudiu. O professor abriu a boca e depois fechou. Hayley ocupou seu lugar. Falei e disse, pensou. Tinha se dado bem no teste.

 A Polícia

Hack estava no trânsito, mordendo as unhas. Não tinha sido um bom dia. Estava começando a pensar que ir ao marketing para um copo d’água foi o pior erro que já havia cometido.

Entrou numa rua lateral e estacionou seu Toyota. Ele chacoalhou com raiva e soltou uma nuvem de fumaça preta. Hack realmente precisava de um carro novo. Talvez, se esse serviço valesse a pena, ele poderia se mudar de St. Kilda. Poderia conseguir um apartamento com algum espaço, talvez um pouco de luz natural...

Balançou a cabeça com raiva. O que estava pensando? Ele não ia atirar em ninguém. Nem para ter um apartamento melhor.

Subiu a escada até o segundo andar e entrou. Violet estava sentada de pernas cruzadas no chão da sala, com o notebook no colo. Violet era sua namorada. Era a única pessoa sem emprego que ele já conhecera, sem contar os sem-teto que pediam dinheiro. Era uma empreendedora. Um dia Violet provavelmente seria rica: era inteligente e determinada. Às vezes Hack não entendia por que os dois estavam juntos.

Largou a pasta e tirou o paletó. A mesa estava coberta de contas. Hack não tinha barganhado muito bem em sua última avaliação de desempenho e isso realmente estava sendo ruim.

— Violet?

— Mmm?

— Podemos conversar?

— É importante?

— É.

Ela franziu a testa. Hack esperou. Violet não gostava de ser perturbada durante o trabalho. Não gostava de ser perturbada nunca. Era baixa, magra e tinha cabelos castanhos compridos, que a faziam parecer muito mais frágil do que era.

— O que é?

Ele se sentou no sofá.

— Eu fiz uma coisa estúpida.

— Ah, Hack, de novo, não.

Ultimamente Hack tinha errado uns dois retornos no caminho para casa: na terça-feira passada tinha entrado numa rua premium e perdido onze dólares em pedágio antes de achar uma saída.

— Não, foi uma coisa realmente estúpida.

— O que aconteceu?

— Bom, me ofereceram um trabalho... um trabalho de marketing...

— Isso é ótimo! Um dinheirinho extra seria ótimo para a gente...

— ... e assinei um contrato sem ler.

Pausa.

— Ah. Bom, pode ser que esteja tudo bem...

— Ele diz que eu devo matar pessoas. É uma espécie de campanha promocional. Eu tenho de... bem... matar dez pessoas.

Por um momento ela ficou quieta. Ele esperava que Violet não gritasse com ele.

— É melhor olhar o contrato.

Ele baixou a cabeça.

— Você não tem uma cópia?

— Não.

— Ah, Hack.

— Desculpe.

Violet mordeu o lábio.

— Bem, você não pode ir em frente com isso. O Governo não é tão idiota quanto as pessoas acham. Eles vão pegar você, com certeza. Mas, afinal de contas, você não sabe quais são as penalidades que há no contrato... Acho melhor procurar a Polícia.

— Verdade?

— Há uma delegacia na rua Chapel. Quando deveria... fazer a coisa?

— Na sexta.

— Acho melhor você ir. Agora.

— É. Está certa. — Ele pegou o paletó. — Obrigado, Violet.

— Por que esse tipo de coisa sempre acontece com você, Hack?

— Não sei. — Ele se sentiu emocionado. Fechou a porta cuidadosamente depois de sair.

A delegacia ficava a poucos quarteirões; e quando apareceu ele começou a sentir esperança. O prédio era iluminado em néon azul, com POLÍCIA escrito em letras enormes e uma luz giratória em cima. Se alguém pudesse ajudá-lo a sair daquela situação, seria alguém que trabalhasse num lugar assim.

As portas se abriram deslizando e ele foi até a recepção. Uma mulher uniformizada — Hack não sabia se era policial de verdade ou só uma recepcionista obrigada a usar farda — sorriu. O sistema de som tocava a música dos anúncios deles na TV: "Every Breath You Take".

— Boa noite, em que posso ajudá-lo?

— Tenho uma coisa que gostaria de conversar com um policial, por favor.

— Posso perguntar a natureza do seu problema?

— Hmm. Fui contratado para matar alguém. Na verdade, algumas pessoas.

As sobrancelhas da recepcionista se levantaram minimamente, depois se acomodaram. Hack sentiu alívio. Não queria levar uma bronca da recepcionista.

— Sente-se, senhor. Um policial irá recebê-lo num instante.

Hack se deixou cair numa poltrona azul macia e esperou. Alguns minutos depois um policial apareceu e parou na sua frente. Hack ficou de pé.

— Sou o sargento Pearson Polícia — disse o homem. Em seguida apertou com firmeza a mão de Hack. — Por favor, me acompanhe.

Hack seguiu-o por um corredor com carpete macio até uma sala de reuniões pequena e de aparência profissional. Na parede havia fotos de policiais acompanhando criminosos para fora de prédios, diante de tribunais, e batendo na cabeça de manifestantes na frente de alguns prédios de corporações. Enquanto Pearson se sentava, Hack captou um vislumbre de algemas e um revólver.

— Qual é o seu problema? — Ele abriu um caderno.

Hack contou toda a história. Quando terminou, Pearson ficou quieto por longo tempo. Finalmente Hack não agüentou mais.

— O que o senhor acha?

Pearson juntou os dedos.

— Bom, aprecio que tenha vindo informar isso. Fez a coisa certa. Agora deixe-me dizer quais são suas opções. — Ele fechou o caderno e colocou de lado. — Primeiro, você pode ir em frente com esse contrato da Nike. Atirar em algumas pessoas. Nesse caso, o que faremos, se formos contratados pelo Governo ou pelos representantes de uma das vítimas, é tentar prendê-lo.

— Sim.

— E iríamos prendê-lo, Hack. Temos uma taxa de sucesso de oitenta e seis por cento. Com alguém como você, inexperiente, sem apoio, iríamos pegá-lo dentro de horas. Por isso recomendo com ênfase que não cumpra esse contrato.

— Eu sei. Deveria ter lido, mas...

— Segundo, você pode se recusar a cumpri-lo. Isso iria expô-lo a qualquer penalidade que esteja no contrato. E tenho certeza que não preciso dizer que elas podem ser grandes. Muito grandes.

Hack assentiu. Esperava que Pearson não tivesse acabado.

— Sua alternativa é a seguinte. — Pearson se inclinou para a frente. — Você nos subcontrata para os assassinatos. Nós cumprimos o seu contrato, a uma taxa muito competitiva. Como você provavelmente sabe, a partir dos nossos anúncios, sua identidade é totalmente protegida. Se o Governo vier atrás de nós, não é problema seu.

— Essa é minha única alternativa?

— Bom, se você tivesse uma cópia do contrato, eu lhe diria para falar com nosso departamento jurídico. Mas não tem, não é?

— Hmm, não. — Ele hesitou. — Quanto custaria para...

Pearson soprou o ar das bochechas.

— Depende. Você não precisa apagar indivíduos específicos, não é? Só pessoas que comprarem esses tais tênis Mercury.

— É.

— Bom, isso é mais barato. Podemos garantir que não apagaremos ninguém que tenha meios. Para... você sabe... vingança. E você precisa de dez presuntos, certo, de modo que há um desconto pela quantidade. Poderíamos fazer isso por, digamos, cento e cinqüenta.

— Cento e cinqüenta o quê?

— Mil. Cento e cinqüenta mil, Hack. O que acha?

Ele se sentiu desesperado.

— Sou funcionário do Merchandising, ganho trinta e três por ano...

— Qual é... — disse Pearson, parecendo dolorido. — Não me venha com essa.

— Sinto muito. — Sua visão ficou turva. Pela segunda vez num dia! Estava desmoronando.

— Olha, última oferta: cento e trinta. Você pode ir falar com a NRA, mas não vai conseguir nada melhor do que isso, garanto. E então, estamos combinados?

— Estamos. — Hack enxugou o rosto com raiva enquanto Pearson começava a esboçar o contrato.

 Mitsui

O despertador disse:

"... e boatos de grandes lucros. A Microsoft caiu para vinte e dois depois que a empresa anunciou que o atraso nos lançamentos iriam..."

Buy não conseguia respirar. Seu peito doía. Pensou: Estou tendo um ataque cardíaco! Depois se lembrou. Não. Não era ataque cardíaco.

Cambaleou até o banheiro e olhou no espelho. Seu rosto o encarou de volta. Não parecia impressionado.

— Sou uma pessoa fantástica — falou. — Hoje é um dia ótimo.

Grudado num canto do espelho havia um pedaço de papel. Nele estava escrito:

EU SOU UMA PESSOA FANTÁSTICA
HOJE É UM DIA ÓTIMO
CADA OBSTÁCULO É UMA OPORTUNIDADE

Era segunda-feira, 27 de outubro, portanto faltavam cinco dias de trabalho no ano financeiro da Corporação Mitsui. Buy era gerente de contas do Grupo de Contas Competitivas, Região Sul, o que significava que era corretor de ações, o que significava que era vendedor. Tinha uma quota de 4,2 milhões de dólares. Isso não tinha parecido problema depois de um primeiro trimestre notável e um sólido 2oT, mas no 3oT eles haviam feito reestruturação, tirando algumas contas dele, e o 4oT tinha sido terrível, uma catástrofe. Buy tinha cinco dias para arranjar meio milhão de dólares.

Tomou banho e foi até a sala de estar. Seu apartamento dava para o Jardim Botânico ExxonMobil, e, mais além, a cidade de Melbourne, EUA (Austrália). Passava um pouco das seis, e as torres de escritórios relampejavam em laranja ao sol do alvorecer. O céu era uma sólida vastidão azul. Buy tinha parado de vê-lo no 3oT.

Comeu torrada, que ajudou a descer com suco. Vestiu-se e pegou o elevador até o estacionamento, onde seu Jeep estava esperando. Os Jeeps eram os veículos mais seguros na estrada, Buy tinha lido; seguros para quem estava dentro do Jeep, pelo menos. Partiu rugindo para a rua.

As ruas baratas estavam engarrafadas, mesmo às seis e meia, mas ele só estava a quatro quarteirões de uma via expressa premium Bechtel, e isso significava oito pistas, dois dólares por quilômetro e sem limite de velocidade. Passou rapidamente por prédios de escritórios e fábricas com o ponteiro a 150km/h.

Entrou no estacionamento da Mitsui e pegou o elevador até o salão de cubículos no sexto andar. Os corretores não tinham propriamente salas, nem mesmo paredes acima da altura dos ombros, pelo menos não no setor de Contas Competitivas. Em seu primeiro ano aqui, Buy gostou disso, porque era fácil pedir ajuda a um colega. Agora ficava incomodado, pelo mesmo motivo.

Hamish, que fazia o turno da noite na mesa de Buy, estava tirando os fones de ouvido.

— Oi, Buy.

— Ei. — Hamish parecia relaxado e feliz. Buy sentiu um clarão de ciúme. — Como está o mercado?

— Mais nervoso ainda do que você. Pega leve, meu chapa. Vai chegar lá.

— É, eu sei. — Ele tentou parecer sincero. Hamish lhe deu um tapinha nas costas e saiu para o que, sem dúvida, seria um dia deitado no sofá assistindo ao futebol, ou de atividades igualmente casuais e sem estresse. Hamish tinha cumprido a quota há seis semanas, e Buy estava achando cada vez mais difícil não odiá-lo.

Buy sentou-se, plugou seu telefone de prender na cabeça e discou. Grudado em seu cubículo estava um bilhete que ele tinha escrito no 1oT:

SUCESSO = 500 TELEFONEMAS POR DIA

Olhou para aquilo enquanto o telefone do seu cliente tocava. Buy estava começando a achar que o sucesso era uma tremenda cagada.

Na França ele não estaria numa situação assim. Claro, na França ele não teria recebido o cheque de pagamento do ano passado, de 347.000 dólares. Por isso tinha ido embora: a UE era um atoleiro socialista, com impostos, desemprego e tudo público. Até recentemente Buy pensava que se mudar para um país dos EUA era a melhor coisa que já fizera, com a possível exceção de mudar seu nome de Jean-Paul.

"Você está falando com Michael Microsoft, gerente de projetos, Divisão de Soluções Empresariais. Deixe seu recado e eu entro em contato assim que puder."

Buy começou a falar sobre indicadores de mercado apontando para o aumento da volatilidade, ao mesmo tempo que clicava o mouse nos e-mails. Havia uma mensagem de um amigo que agora trabalhava para a US Alliance, um dos grandes programas de lealdade dos clientes:

Buy

Um padre e um corretor se encontraram nos Portões do Céu. São Pedro deu uma harpa de ouro e um manto de seda ao corretor e o deixou entrar no céu. Depois deu uma trombeta enferrujada e uns trapos velhos ao padre. O padre disse: "Ei, por que o corretor ganhou a harpa e o manto?" E São Pedro disse: "Porque, enquanto você pregava, as pessoas dormiam. Mas os clientes dele... bem, eles rezavam.

— Sami

P.S. Acabamos de ultrapassar 200 milhões de sócios na US Alliance e estamos para assinar com a NRA (ainda segredo). Mas acho que não é tão empolgante quanto fazer negócios para a Mitsui, não é?

Buy olhou o relógio. Era meio-dia em L.A. Desligou-se da secretária eletrônica de Michael Microsoft e discou.

— Sami UA.

— Você falou sério sobre a NRA?

— Buy! Como vai?

— Você não quer saber.

— É, falei sério. Você não faz idéia de como as coisas estão andando rápido aqui.

— Sabe o que vai acontecer com o preço das ações da NRA se eles assinarem com a US Alliance?

— Puxa, não sei, Buy. Não sou mais corretor.

Ele sentiu um jorro de gratidão.

— Obrigado, Sami.

— Espere. Você não pode usar esta informação. É segredo da empresa.

Buy fez uma pausa.

— Você vai...

— Qual é... — disse Sami. — Você sabe que eu tenho de dizer isso. Você teve um ano duro, certo? Talvez as coisas dêem uma virada para você.

Ele desligou.

Por um segundo Buy ficou paralisado. Havia coisas demais que precisava fazer ao mesmo tempo. Há quinze anos isso seria considerado uma transação a partir de conhecimento sigiloso, mas esse conceito antiquado tinha desaparecido há uma ou duas décadas, quando um número tão grande de corretores estava fazendo isso que era impossível prender todos. Agora era chamado de transação inteligente.

Enfiou o telefone debaixo do ouvido, apertou discagem automática 1 e começou a digitar um e-mail.

— Jason Mutual Unity.

— Estou ligando porque você é o meu melhor cliente — disse Buy. — Tenho uma informação que vai fazer um monte de gente ganhar um monte de dinheiro, e quero que você seja uma delas. — Ao mesmo tempo digitava:

SE QUER SURFAR UMA ONDA
ME LIGUE AGORA

Em seguida arrastou toda a sua lista de clientes do campo de endereços e apertou enviar.

— Buy, eu acabo de sair do chuveiro.

— Diga que você tem liquidez.

— O que é que eu sou, um iniciante? Que empresa?

— National Rifle Association.

— A NRA? Eles estão na lista?

— Jason, todo mundo está na lista.

— Não sei... Eu teria de vender outra posição. Olha, vou lhe dizer uma coisa, deixe comigo...

— Não há tempo. Você sabe como isso é. O primeiro peixe que morder a isca vai agitar os tubarões.

— Desculpe, Buy. Nós não operamos assim.

Ele se ouviu dizer:

— Eu abro mão da comissão.

— O quê?

— Se a ação não subir, eu como a comissão. — Ele engoliu em seco. Tinha bastante certeza de que não tinha permissão para dizer isso. Tinha bastante certeza de que, se o preço das ações da NRA caísse, a Mitsui iria demiti-lo e processá-lo. — Me dê pelo menos vinte milhões e eu só recebo a comissão se você ganhar dinheiro.

— Está falando sério?

A comissão sobre vinte milhões de dólares era de quatrocentos mil. Ele pensou: 27 de outubro, 27 de outubro.

— Muito sério.

— Bem, porra — disse Jason. — Trato feito, meu chapa.

— Obrigado. — Buy fechou os olhos. Seu peito ainda doía.

 Wal-Mart

— Achei as apresentações de vocês uniformemente frustrantes — disse o professor. Estava encostado na mesa, de braços cruzados. Sempre que virava a cabeça, seus óculos refletiam a luz do sol para Hayley, como se estivesse lançando raios de desaprovação. — Recomendo que todos melhorem o nível de pensamento crítico.

Começou a andar entre as carteiras, largando papéis sobre elas. Hayley viu um D e um F; um carinha de óculos recebeu um C-. Ela soltou o ar. Isso não seria bom.

Ouviu um sussurro atrás e se virou. Três garotas estavam amontoadas. Quando viram Hayley olhando, fecharam-se ainda mais.

Um papel pousou em sua mesa. Havia um monte de tinta vermelha, com palavras como superficial. Embaixo: F.

Hayley levantou a mão.

— Por que recebi um F por dizer que o capitalizmo é bom quando é isso que todo mundo também diz? Não é justo.

— Hayley, o que não é justo é nossa sociedade recompensar o egoísmo. Isso não é justo.

Então mude-se para a China, pensou Hayley.

— O senhor sabe que eu vou questionar essa nota.

A Comissão de Currículo da McDonald’s não deixaria essa merda assim, pode apostar seu rabo.

— Também não acho justo — disse um garoto à esquerda de Hayley. — Meus pais dizem que a gente precisa entender como o capitalizmo funciona para ir adiante. Que o interesse pessoal é uma coisa boa. O senhor não deveria estar nos preparando para o mundo real?

— Mercury — disse uma das garotas que estavam sussurrando.

Hayley se virou de novo.

— O que disse sobre os Mercury?

Elas a olharam com o rosto impávido.

— A Nike Town, no shopping, vai receber alguns Mercury.

O queixo de Hayley caiu.

— Está falando sério?

— Graças ao interesse pessoal — disse o professor —, é legal deixar uma pessoa morrer de fome na rua enquanto você passa em seu Mercedes. Isso é justo?

— Ouvimos dizer que são cinco pares.

— Não brinca! Quando? — Hayley agarrou a carteira. — Quando eles vão receber os Mercury?

— Esta noite. Às seis e meia. — A garota olhou para as amigas. — Quer se encontrar com a gente lá?

— Ah, quero!

Ela se sentiu fraca e enjoada ao mesmo tempo. Os Mercury custavam dois mil e quinhentos dólares, e Hayley não tinha tanto dinheiro, mas podia pegar emprestado: havia caixas eletrônicos no shopping. Valeria a pena; os Mercury não eram apenas tênis maneiros; eram um investimento. Ela poderia vendê-los no dia seguinte pelo dobro do preço, talvez mais. E se... e se ela conseguisse dois pares?

— É muito frustrante — disse o professor — que nenhum de vocês consiga enxergar além do simples consumismo. Muito frustrante.

Mercury, pensou Hayley. Ah, meu Deus.

 NRA

Billy Bechtel fazia tanques. Grandes. Eles tinham esteiras, canhões na frente e metralhadoras giratórias; eram impressionantes pra caralho, eram mesmo. Quando alguém perguntava o que Billy fazia para viver, ele dizia: "Sabe a fábrica Bechtel Militar, perto de Abilene? Eu trabalho lá", e olhava as sobrancelhas das pessoas subirem. Chegou ao ponto de Billy começar a desejar que seu emprego fosse tão legal quanto parecia.

O serviço de Billy era verificar as chapas de aço para garantir que não estivessem empenadas. Era assim: uma empilhadeira chegava e jogava um monte de chapas em sua área, então Billy verificava com uma régua de metal, depois vinha outra empilhadeira e levava embora. Se ele achasse alguma torta, ela ia para uma pilha separada, e quando Billy aparecia para trabalhar no dia seguinte a pilha tinha sumido. A maioria dos caras na Bechtel trabalhava em equipes, mas Billy ficava sozinho. Ele estava pirando.

Depois de estar lá há alguns meses, deixou uma placa com um amassado na ponta passar, só para ver o que aconteceria, mas nada aconteceu. Agora alguém estava dirigindo um tanque que deixava entrar água da chuva, pensou. Depois disso deixou passar uma placa quase dobrada ao meio, e um cara da solda veio e gritou com ele.

Passou a fumar para poder ficar um tempo com os outros empregados, e foi ali que conheceu os atiradores. Havia uns dez ou doze, e se encontravam três vezes por semana depois do turno de trabalho.

— Você deveria vir também — disse um deles a Billy, olhando-o de cima a baixo. Billy era jovem, louro e trabalhava um bocado. — Vai se divertir.

Então Billy foi, e era divertido. Também descobriu que era bom de tiro. Tinha caçado um pouco quando era garoto crescendo numa fazenda, mas depois seu pai morreu e a mãe se mudou com eles para Dallas, e depois disso não houve muita necessidade de atirar. Até agora, quando nos blocos dos fundos da fábrica Bechtel Militar em Abilene, Billy ganhou o respeito e a admiração dos colegas acertando alvos na forma de troncos humanos a uma distância maior do que qualquer outro. As coisas ficaram boas. Às vezes até os caras das empilhadeiras paravam para falar com ele.

Veio a má notícia. O capataz juntou todos no Barracão Um, em meio aos andaimes e aos tanques meio montados, e um cara do Escritório Central, um cara de terno, disse:

— Infelizmente, devido às pressões nos custos... — E houve um monte de papo sobre concorrência, eficiência e como era doloroso para a gerência tomar decisões duras. Mas o resumo, como todos os trabalhadores concordaram depois, era: Agora vocês podem se foder. Billy estava desempregado.

Eles se reuniram na frente e ficaram parados, inseguros. Falaram mal da gerência e se perguntaram o que iriam fazer agora; alguns falaram amargamente sobre os dias em que havia sindicatos, quando merdas assim não eram toleradas. Um dos atiradores deu um tapa no ombro de Billy e disse:

— E você, campeão? O que vai fazer?

— Acho que vou para algum lugar — disse Billy, surpreendendo a si mesmo. Verdade, ele tinha economizado o suficiente para tirar férias, e sempre quisera viajar para fora do Texas, mas esse era um objetivo de longo prazo, do tipo que ele nunca esperava realizar de verdade. Esse negócio de atirar havia realmente desenvolvido sua confiança. — Eu sempre quis esquiar, sabe? Talvez vá a algum lugar para aprender a esquiar.

O homem deu uma gargalhada.

— Ei, saca só! Billy the Kid vai esquiar!

Os homens em volta explodiram. Mãos bateram nas suas costas.

— Bom pra você, Billy — disse alguém, e mais alguém disse:

— Todo mundo devia ir esquiar, porra! — Eles acharam fantástico. Billy percebeu: acharam que ele estava sacaneando a gerência da Bechtel. Para um trabalhador de construção em Abilene, Texas, esquiar era quase tão exótico quanto se possa imaginar. Era como ir à Disneylândia.

— É isso aí, Billy the Kid — disse o sujeito. — Aprenda a esquiar.

Ele pensou em ir à Suécia, por causa das gatas. Imaginou semanas deslizando em encostas brancas durante o dia e suaves curvas brancas à noite. Mas a agente de viagens disse que era impossível trabalhar lá: a Suécia era um país não-EUA. Billy não pôde crer. Nem pensava que ainda existissem países assim.

— Ah, claro — disse a agente, uma garota que Billy tinha namorado no segundo grau. Ela ainda mascava chiclete. — Existem muitos. Na maioria, lugares aonde você não vai querer ir, claro.

— Então, aonde eu posso ir?

— Que tal Cingapura? Cingapura é bem legal. Posso conseguir um preço ótimo...

— Cingapura, não. — Billy tinha quase certeza de que essa agência de viagens tinha algum trato com Cingapura; eles tentavam convencer todo mundo a visitar o país. — Eu preciso de algum lugar com montanhas. Quero esquiar.

— Esquiar? — Os olhos dela se arregalaram.

— É.

— Uau. Certo, então. — Ela cutucou o computador. — Bem, há o Alasca, que fica lá no norte. E o Canadá, claro.

Billy esperava alguma coisa mais exótica.

— Alguma coisa mais longe?

— Certo, deixe-me ver. — Billy esperou enquanto ela passava para outras telas. — Quer ir à Nova Zelândia?

— Onde?


 
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