Eu
S/A, de Max Barry (tradução de Alves Calado; Record; 352
páginas; 39,90 reais) Em Eu S/A, o australiano Max Barry
fala de um futuro próximo dominado pelas grandes empresas multinacionais.
Mas nada aqui é para ser levado a sério: trata-se de uma sátira
escrachada do mundo corporativo. Os despersonalizados funcionários das
companhias são até obrigados a adotar marcas como sobrenome. É
o caso de Hack Nike, ambicioso mas ingênuo vendedor da grande indústria
de artigos esportivos. Para promover um novo e caríssimo tênis produzido
pela Nike, Hack tem de participar de um plano de marketing muito agressivo, que
envolve até o assassinato de jovens como peça publicitária.
E é então que ele começa a ser investigado pela detetive
Jeniffer Governo.
Leia
trecho PRIMEIRA
PARTE Nike Hack
ouviu falar em Jennifer Governo pela primeira vez junto ao bebedouro. Só
estava ali porque o do seu andar não tinha água; o Jurídico
iria cair sobre a Fontes da Natureza como uma tonelada de merda, pode apostar.
Hack era funcionário da Distribuição de Merchandising. Isso
significava que quando a Nike fazia um punhado de cartazes, bonés ou toalhas
de praia Hack tinha de mandá-los ao lugar certo. Além disso, se
alguém reclamasse da falta de cartazes, bonés ou toalhas de praia,
Hack tinha de atender ao telefonema. Não era tão empolgante como
antigamente. É
uma calamidade disse um homem perto do bebedouro. Faltam quatro
dias para o lançamento, e Jennifer Governo está pegando no meu pé. Meu
Deus disse seu companheiro. Deve ser um saco. Significa
que temos de andar rápido. Ele olhou para Hack, que estava enchendo seu
copo. Ei, você. Hack
levantou os olhos. Os dois estavam sorrindo como se ele fosse um igual mas,
claro, Hack estava no andar errado. Eles não sabiam que ele era apenas
um funcionário do Merch. Oi. Não
vi você aqui antes disse o cara da calamidade. É novo? Não.
Trabalho no Merch. Ah.
O nariz dele torceu. Nosso
bebedouro está vazio. Hack se virou rapidamente para ir embora. Ei,
espere disse o executivo. Você já fez algum trabalho de marketing? Ahn...
disse ele, sem saber se era uma piada. Não. Os
dois executivos se entreolharam. O cara da calamidade deu de ombros. Depois
eles estenderam a mão. Eu
sou John Nike, Agente de Marketing de Guerrilha, Produtos Novos. E
eu sou John Nike, vice-presidente de Marketing, Produtos Novos disse o outro
executivo. Hack
Nike disse Hack, apertando a mão deles. Hack,
eu tenho o poder de tomar decisões de contratação de empregados
de nível médio disse o vice-presidente John. Está interessado
num trabalho? Num...
Ele sentiu a garganta ficar apertada. Trabalho de marketing? A
continuidade será avaliada caso a caso, claro disse o outro John. Hack
começou a chorar. Pronto
disse um John, entregando um lenço. Está se sentindo melhor? Hack
confirmou com a cabeça, sentindo vergonha. Desculpe. Ei,
não fique preocupado com isso disse o vice-presidente John. Mudança
de carreira pode ser uma coisa muito bem-sucedida. Li isso em algum lugar. Aqui
está a papelada. O outro John lhe entregou uma caneta e um maço
de papéis. Na primeira página estava escrito contrato para realização
de serviço, e as outras eram em letras muito pequenas para serem lidas. Querem
que eu assine isso agora? indagou Hack, hesitante. Não
precisa se preocupar. São só os acordos usuais relativos a não-realização
e não-revelação. É,
mas... Hoje
em dia as empresas estavam ficando muito mais duras nos contratos de trabalho;
Hack tinha ouvido histórias. Na Adidas, se um cara largasse o trabalho
e o substituto dele não fosse tão competente, eles o processavam
por perdas de lucros. Hack,
precisamos de alguém que possa tomar decisões rápidas. Alguém
que tenha pique. Alguém
que possa realizar coisas. Com um mínimo de embromação. Se
não é o seu estilo... vamos esquecer esta conversa. Sem problema.
Você continua no Merchandising. O
vice-presidente John estendeu a mão para pegar o contrato de volta. Posso
assinar agora disse Hack, segurando com mais força. Isso
é totalmente com você disse o outro John. Em seguida ocupou a cadeira
ao lado de Hack, cruzou as pernas e pousou as mãos sobre elas, sorrindo.
Os dois John tinham sorrisos bons, notou Hack. Ele imaginou que todo mundo no
Marketing era assim. Os rostos também eram bem parecidos. Só aqui
embaixo. Hack
assinou. E
ali também disse o outro John. E na próxima página...
e uma aqui. E ali. É
bom ter você a bordo, Hack. O vice-presidente John pegou o contrato, abriu
uma gaveta e o largou lá dentro. Bom. O que sabe sobre os Nike Mercury? Hack
piscou. É
o nosso último produto. Eu não vi um par, mas... ouvi dizer que
é fantástico. Os
John sorriram. Começamos
a vender os Mercury há seis meses. Sabe quantos pares já vendemos? Hack
balançou a cabeça. Cada par custava milhares de dólares,
mas isso não impediria as pessoas de comprá-los. Eram os tênis
mais maneiros do mundo. Um
milhão? Duzentos. Duzentos
milhões? Não.
Duzentos pares. O
nosso John aqui disse o outro John foi pioneiro no conceito de marketing por
recusa de vender produtos. Isso deixa o mercado louco. E
agora está na hora de tirar proveito. Na sexta-feira vamos jogar quatrocentos
mil pares no mercado a dois mil e meio cada. O
que... já que eles custam... quanto mesmo? Oitenta
e cinco. Já
que eles custam oitenta e cinco dólares para ser fabricados, nos dá
um lucro bruto de aproximadamente um bilhão de dólares. Ele olhou
para o vice-presidente John. É uma campanha brilhante. Na
verdade não passa de bom senso disse John. Mas o negócio é
o seguinte, Hack; se as pessoas perceberem que cada shopping center do país
tem os Mercury, vamos perder todo o prestígio que nos deu tanto trabalho
para montar. Estou certo? Está.
Hack esperava parecer confiante. Realmente não entendia de marketing. Então
sabe o que vamos fazer? Ele
balançou a cabeça. Vamos
atirar neles disse o vice-presidente John. Vamos matar todos os que comprarem
um par. Silêncio. O
quê? perguntou Hack. O
outro John disse: Bem,
não todo mundo, obviamente. Achamos que só temos de apagar... o
que foi que decidimos? Cinco? Dez
disse o vice-presidente John. Para segurança. Certo.
Apagamos dez clientes, fazemos com que pareça coisa de garotos do gueto
e teremos a credibilidade das ruas entrando sem parar. Aposto que vamos acabar
com o estoque em vinte e quatro horas. Me
lembro que a gente sempre podia contar com aqueles garotos de rua para matar algumas
pessoas para pegar os últimos Nike disse o vice-presidente John. Agora
as pessoas são mortas por Reeboks, Adidas... até por tênis
sem marca, pelo amor de Deus. Os
guetos não têm mais nenhum sentido de moda disse o outro John.
Eles são capazes de usar qualquer coisa. É
uma desgraça. De qualquer modo, Hack, acho que você entendeu. Esta
é uma campanha de arrasar quarteirão. Nem
fale em campanha de ponta disse o outro John. Ela define o que é
ponta. Hmm...
disse Hack. Em seguida engoliu em seco. Isso não é meio... ilegal? Ele
quer saber se é ilegal disse o outro John, achando divertido. Você
é engraçado, Hack, é ilegal matar pessoas sem o consentimento
delas, é muito ilegal. O
vice-presidente John disse: Mas
a questão é a seguinte: quanto custa? Mesmo que sejamos descobertos,
queimamos alguns milhões em custos jurídicos, recebemos multa de
mais alguns milhões... e o resultado é que ainda estaremos bem na
frente. Hack
tinha uma pergunta que não queria fazer. Então...
esse contrato... o que ele diz que eu devo fazer? O
John ao seu lado cruzou as mãos. Bem,
Hack, nós explicamos o plano de negócios. O que queremos que você
faça é... Executá-lo
disse o vice-presidente John. McDonalds Até
parar na frente delas, Hayley não tinha notado quantas de suas colegas
de turma estavam louras. Aquilo ali parecia uma praia. Ela havia perdido a virada
da moda. Teria de ir correndo a um cabeleireiro depois da escola. Quando
estiver pronta disse o professor. Hayley
olhou para os cartões de anotações e respirou fundo. Por
que amo os Estados Unidos, escrito por Hayley McDonalds. Os Estados Unidos
são o maior grupo de países do mundo porque nós temos liberdade.
Em países como a França, onde o governo não é privatizado,
ainda se precisa pagar impostos e fazer o que o governo manda, um saco. Nos países
dos Estados Unidos respeitamos os direitos individuais e deixamos as pessoas fazer
o que querem. O
professor anotou algo em sua pasta de papel. As escolas patrocinadas pelo McDonalds
eram pão-duras. Nas escolas Pepsi todo mundo tinha notebook. E os uniformes
eram muito melhores. Era difícil ser maneiro com os Arcos Dourados nas
costas. Antes
dos países dos Estados Unidos abolirem os impostos, se você não
tivesse emprego, o governo pegava dinheiro dos trabalhadores e dava a você.
Tipo assim, quanto mais inútil você fosse, mais dinheiro ganhava. Nenhuma
reação dos colegas de turma. Nem o professor riu. Hayley ficou surpresa:
tinha achado que aquilo era de matar de rir. Mas
agora os Estados Unidos têm todas as melhores empresas e todo o dinheiro
porque todo mundo trabalha e o Governo não pode gastar dinheiro em coisas
estúpidas como propaganda, eleições e leis novas. Ele simplesmente
impede as pessoas de roubar ou de machucar umas às outras, e todo o resto
é feito pelo setor privado, que todo mundo sabe que é mais eficiente.
Ela olhou para suas anotações; é, era isso. Finalmente
gostaria de dizer que os Estados Unidos são o maior grupo de países
do mundo e que tenho orgulho de viver nos Territórios Australianos dos
Estados Unidos! Aplausos
esparsos. Era o oitavo trabalho deste período: Hayley achou que estava
ficando mais difícil provocar entusiasmo pelo capitalizmo. Foi para o seu
lugar. Espere
aí disse o professor. Tenho algumas perguntas. Ah. Há
algum aspecto positivo nos impostos? Ela
relaxou: uma pergunta fácil. Algumas
pessoas acham que o imposto é bom porque dá dinheiro a gente que
não tem. Mas essas pessoas devem ser preguiçosas ou estúpidas,
então por que deveriam ganhar o dinheiro dos outros? Obviamente, a resposta
é não. O
professor piscou. Fez uma anotação. Devia ter sido uma resposta
impressionante, pensou Hayley. E
a justiça social? O
quê? É
justo que algumas pessoas sejam ricas enquanto outras não têm nada? Ela
balançou de um pé para o outro. Estava lembrando: esse professor
tinha uma queda pelos pobres. Vivia falando deles. Hmm...
é, é justo. Porque se eu estudar muito para uma prova e tirar dez,
e Emily não estudar e fracassar interesse renovado por parte da turma;
Emily levantou as sobrancelhas louras , não é justo tirar alguns
pontos meus e dar para ela, é? O
professor franziu a testa. Hayley sentiu um clarão de pânico. Outra
coisa, nos países que não fazem parte dos EUA eles querem que as
pessoas sejam iguais, então se sua irmã nasceu cega, eles cegam
você também, para igualar as coisas. Mas isso não é
injusto? Eu preferiria ser americana a ser uma... pessoa da União Européia.
Ela deu um grande sorriso para a turma. Eles aplaudiram, com muito mais entusiasmo
do que antes. Hayley acrescentou esperançosa: Só isso? Só.
Obrigado. Alívio!
Ela começou a andar. Um garoto bonito da terceira fila piscou para ela. Se
bem, Hayley disse o professor , que na verdade não cegam pessoas nos
países que não fazem parte dos EUA. Hayley
parou. Bom,
isso é meio hipócrita, não é? A
turma aplaudiu. O professor abriu a boca e depois fechou. Hayley ocupou seu lugar.
Falei e disse, pensou. Tinha se dado bem no teste. A
Polícia Hack
estava no trânsito, mordendo as unhas. Não tinha sido um bom dia.
Estava começando a pensar que ir ao marketing para um copo dágua
foi o pior erro que já havia cometido. Entrou
numa rua lateral e estacionou seu Toyota. Ele chacoalhou com raiva e soltou uma
nuvem de fumaça preta. Hack realmente precisava de um carro novo. Talvez,
se esse serviço valesse a pena, ele poderia se mudar de St. Kilda. Poderia
conseguir um apartamento com algum espaço, talvez um pouco de luz natural... Balançou
a cabeça com raiva. O que estava pensando? Ele não ia atirar
em ninguém. Nem para ter um apartamento melhor. Subiu
a escada até o segundo andar e entrou. Violet estava sentada de pernas
cruzadas no chão da sala, com o notebook no colo. Violet era sua namorada.
Era a única pessoa sem emprego que ele já conhecera, sem contar
os sem-teto que pediam dinheiro. Era uma empreendedora. Um dia Violet provavelmente
seria rica: era inteligente e determinada. Às vezes Hack não entendia
por que os dois estavam juntos. Largou
a pasta e tirou o paletó. A mesa estava coberta de contas. Hack não
tinha barganhado muito bem em sua última avaliação de desempenho
e isso realmente estava sendo ruim. Violet? Mmm? Podemos
conversar? É
importante? É. Ela
franziu a testa. Hack esperou. Violet não gostava de ser perturbada durante
o trabalho. Não gostava de ser perturbada nunca. Era baixa, magra e tinha
cabelos castanhos compridos, que a faziam parecer muito mais frágil do
que era. O
que é? Ele
se sentou no sofá. Eu
fiz uma coisa estúpida. Ah,
Hack, de novo, não. Ultimamente
Hack tinha errado uns dois retornos no caminho para casa: na terça-feira
passada tinha entrado numa rua premium e perdido onze dólares em pedágio
antes de achar uma saída. Não,
foi uma coisa realmente estúpida. O
que aconteceu? Bom,
me ofereceram um trabalho... um trabalho de marketing... Isso
é ótimo! Um dinheirinho extra seria ótimo para a gente... ...
e assinei um contrato sem ler. Pausa. Ah.
Bom, pode ser que esteja tudo bem... Ele
diz que eu devo matar pessoas. É uma espécie de campanha promocional.
Eu tenho de... bem... matar dez pessoas. Por
um momento ela ficou quieta. Ele esperava que Violet não gritasse com ele. É
melhor olhar o contrato. Ele
baixou a cabeça. Você
não tem uma cópia? Não. Ah,
Hack. Desculpe. Violet
mordeu o lábio. Bem,
você não pode ir em frente com isso. O Governo não é
tão idiota quanto as pessoas acham. Eles vão pegar você, com
certeza. Mas, afinal de contas, você não sabe quais são as
penalidades que há no contrato... Acho melhor procurar a Polícia. Verdade? Há
uma delegacia na rua Chapel. Quando deveria... fazer a coisa? Na
sexta. Acho
melhor você ir. Agora. É.
Está certa. Ele pegou o paletó. Obrigado, Violet. Por
que esse tipo de coisa sempre acontece com você, Hack? Não
sei. Ele se sentiu emocionado. Fechou a porta cuidadosamente depois de sair. A
delegacia ficava a poucos quarteirões; e quando apareceu ele começou
a sentir esperança. O prédio era iluminado em néon azul,
com POLÍCIA escrito em letras enormes e uma luz giratória em cima.
Se alguém pudesse ajudá-lo a sair daquela situação,
seria alguém que trabalhasse num lugar assim. As
portas se abriram deslizando e ele foi até a recepção. Uma
mulher uniformizada Hack não sabia se era policial de verdade ou só
uma recepcionista obrigada a usar farda sorriu. O sistema de som tocava a música
dos anúncios deles na TV: "Every Breath You Take". Boa
noite, em que posso ajudá-lo? Tenho
uma coisa que gostaria de conversar com um policial, por favor. Posso
perguntar a natureza do seu problema? Hmm.
Fui contratado para matar alguém. Na verdade, algumas pessoas. As
sobrancelhas da recepcionista se levantaram minimamente, depois se acomodaram.
Hack sentiu alívio. Não queria levar uma bronca da recepcionista. Sente-se,
senhor. Um policial irá recebê-lo num instante. Hack
se deixou cair numa poltrona azul macia e esperou. Alguns minutos depois um policial
apareceu e parou na sua frente. Hack ficou de pé. Sou
o sargento Pearson Polícia disse o homem. Em seguida apertou com firmeza
a mão de Hack. Por favor, me acompanhe. Hack
seguiu-o por um corredor com carpete macio até uma sala de reuniões
pequena e de aparência profissional. Na parede havia fotos de policiais
acompanhando criminosos para fora de prédios, diante de tribunais, e batendo
na cabeça de manifestantes na frente de alguns prédios de corporações.
Enquanto Pearson se sentava, Hack captou um vislumbre de algemas e um revólver. Qual
é o seu problema? Ele abriu um caderno. Hack
contou toda a história. Quando terminou, Pearson ficou quieto por longo
tempo. Finalmente Hack não agüentou mais. O
que o senhor acha? Pearson
juntou os dedos. Bom,
aprecio que tenha vindo informar isso. Fez a coisa certa. Agora deixe-me dizer
quais são suas opções. Ele fechou o caderno e colocou de
lado. Primeiro, você pode ir em frente com esse contrato da Nike. Atirar
em algumas pessoas. Nesse caso, o que faremos, se formos contratados pelo Governo
ou pelos representantes de uma das vítimas, é tentar prendê-lo. Sim. E
iríamos prendê-lo, Hack. Temos uma taxa de sucesso de oitenta
e seis por cento. Com alguém como você, inexperiente, sem apoio,
iríamos pegá-lo dentro de horas. Por isso recomendo com ênfase
que não cumpra esse contrato. Eu
sei. Deveria ter lido, mas... Segundo,
você pode se recusar a cumpri-lo. Isso iria expô-lo a qualquer penalidade
que esteja no contrato. E tenho certeza que não preciso dizer que elas
podem ser grandes. Muito grandes. Hack
assentiu. Esperava que Pearson não tivesse acabado. Sua
alternativa é a seguinte. Pearson se inclinou para a frente. Você
nos subcontrata para os assassinatos. Nós cumprimos o seu contrato, a uma
taxa muito competitiva. Como você provavelmente sabe, a partir dos nossos
anúncios, sua identidade é totalmente protegida. Se o Governo vier
atrás de nós, não é problema seu. Essa
é minha única alternativa? Bom,
se você tivesse uma cópia do contrato, eu lhe diria para falar com
nosso departamento jurídico. Mas não tem, não é? Hmm,
não. Ele hesitou. Quanto custaria para... Pearson
soprou o ar das bochechas. Depende.
Você não precisa apagar indivíduos específicos, não
é? Só pessoas que comprarem esses tais tênis Mercury. É. Bom,
isso é mais barato. Podemos garantir que não apagaremos ninguém
que tenha meios. Para... você sabe... vingança. E você precisa
de dez presuntos, certo, de modo que há um desconto pela quantidade. Poderíamos
fazer isso por, digamos, cento e cinqüenta. Cento
e cinqüenta o quê? Mil.
Cento e cinqüenta mil, Hack. O que acha? Ele
se sentiu desesperado. Sou
funcionário do Merchandising, ganho trinta e três por ano... Qual
é... disse Pearson, parecendo dolorido. Não me venha com essa. Sinto
muito. Sua visão ficou turva. Pela segunda vez num dia! Estava desmoronando. Olha,
última oferta: cento e trinta. Você pode ir falar com a NRA, mas
não vai conseguir nada melhor do que isso, garanto. E então, estamos
combinados? Estamos.
Hack enxugou o rosto com raiva enquanto Pearson começava a esboçar
o contrato. Mitsui O
despertador disse: "...
e boatos de grandes lucros. A Microsoft caiu para vinte e dois depois que a empresa
anunciou que o atraso nos lançamentos iriam..." Buy
não conseguia respirar. Seu peito doía. Pensou: Estou tendo um
ataque cardíaco! Depois se lembrou. Não. Não era ataque
cardíaco. Cambaleou
até o banheiro e olhou no espelho. Seu rosto o encarou de volta. Não
parecia impressionado. Sou
uma pessoa fantástica falou. Hoje é um dia ótimo. Grudado
num canto do espelho havia um pedaço de papel. Nele estava escrito: EU
SOU UMA PESSOA FANTÁSTICA HOJE É UM DIA ÓTIMO CADA
OBSTÁCULO É UMA OPORTUNIDADE Era
segunda-feira, 27 de outubro, portanto faltavam cinco dias de trabalho no ano
financeiro da Corporação Mitsui. Buy era gerente de contas do Grupo
de Contas Competitivas, Região Sul, o que significava que era corretor
de ações, o que significava que era vendedor. Tinha uma quota de
4,2 milhões de dólares. Isso não tinha parecido problema
depois de um primeiro trimestre notável e um sólido 2oT, mas no
3oT eles haviam feito reestruturação, tirando algumas contas dele,
e o 4oT tinha sido terrível, uma catástrofe. Buy tinha cinco
dias para arranjar meio milhão de dólares.
Tomou banho e foi até a sala de estar. Seu apartamento dava para o Jardim
Botânico ExxonMobil, e, mais além, a cidade de Melbourne, EUA (Austrália).
Passava um pouco das seis, e as torres de escritórios relampejavam em laranja
ao sol do alvorecer. O céu era uma sólida vastidão azul.
Buy tinha parado de vê-lo no 3oT. Comeu
torrada, que ajudou a descer com suco. Vestiu-se e pegou o elevador até
o estacionamento, onde seu Jeep estava esperando. Os Jeeps eram os veículos
mais seguros na estrada, Buy tinha lido; seguros para quem estava dentro do Jeep,
pelo menos. Partiu rugindo para a rua. As
ruas baratas estavam engarrafadas, mesmo às seis e meia, mas ele só
estava a quatro quarteirões de uma via expressa premium Bechtel, e isso
significava oito pistas, dois dólares por quilômetro e sem limite
de velocidade. Passou rapidamente por prédios de escritórios e fábricas
com o ponteiro a 150km/h. Entrou
no estacionamento da Mitsui e pegou o elevador até o salão de cubículos
no sexto andar. Os corretores não tinham propriamente salas, nem mesmo
paredes acima da altura dos ombros, pelo menos não no setor de Contas Competitivas.
Em seu primeiro ano aqui, Buy gostou disso, porque era fácil pedir ajuda
a um colega. Agora ficava incomodado, pelo mesmo motivo. Hamish,
que fazia o turno da noite na mesa de Buy, estava tirando os fones de ouvido. Oi,
Buy. Ei.
Hamish parecia relaxado e feliz. Buy sentiu um clarão de ciúme.
Como está o mercado? Mais
nervoso ainda do que você. Pega leve, meu chapa. Vai chegar lá. É,
eu sei. Ele tentou parecer sincero. Hamish lhe deu um tapinha nas costas e saiu
para o que, sem dúvida, seria um dia deitado no sofá assistindo
ao futebol, ou de atividades igualmente casuais e sem estresse. Hamish tinha cumprido
a quota há seis semanas, e Buy estava achando cada vez mais difícil
não odiá-lo. Buy
sentou-se, plugou seu telefone de prender na cabeça e discou. Grudado em
seu cubículo estava um bilhete que ele tinha escrito no 1oT: SUCESSO
= 500 TELEFONEMAS POR DIA Olhou
para aquilo enquanto o telefone do seu cliente tocava. Buy estava começando
a achar que o sucesso era uma tremenda cagada. Na
França ele não estaria numa situação assim. Claro,
na França ele não teria recebido o cheque de pagamento do ano passado,
de 347.000 dólares. Por isso tinha ido embora: a UE era um atoleiro socialista,
com impostos, desemprego e tudo público. Até recentemente Buy pensava
que se mudar para um país dos EUA era a melhor coisa que já fizera,
com a possível exceção de mudar seu nome de Jean-Paul. "Você
está falando com Michael Microsoft, gerente de projetos, Divisão
de Soluções Empresariais. Deixe seu recado e eu entro em contato
assim que puder." Buy
começou a falar sobre indicadores de mercado apontando para o aumento da
volatilidade, ao mesmo tempo que clicava o mouse nos e-mails. Havia uma mensagem
de um amigo que agora trabalhava para a US Alliance, um dos grandes programas
de lealdade dos clientes: Buy Um
padre e um corretor se encontraram nos Portões do Céu. São
Pedro deu uma harpa de ouro e um manto de seda ao corretor e o deixou entrar no
céu. Depois deu uma trombeta enferrujada e uns trapos velhos ao padre.
O padre disse: "Ei, por que o corretor ganhou a harpa e o manto?" E
São Pedro disse: "Porque, enquanto você pregava, as pessoas
dormiam. Mas os clientes dele... bem, eles rezavam. Sami P.S.
Acabamos de ultrapassar 200 milhões de sócios na US Alliance e estamos
para assinar com a NRA (ainda segredo). Mas acho que não é tão
empolgante quanto fazer negócios para a Mitsui, não é? Buy
olhou o relógio. Era meio-dia em L.A. Desligou-se da secretária
eletrônica de Michael Microsoft e discou. Sami
UA. Você
falou sério sobre a NRA? Buy!
Como vai? Você
não quer saber. É,
falei sério. Você não faz idéia de como as coisas estão
andando rápido aqui. Sabe
o que vai acontecer com o preço das ações da NRA se eles
assinarem com a US Alliance? Puxa,
não sei, Buy. Não sou mais corretor. Ele
sentiu um jorro de gratidão. Obrigado,
Sami. Espere.
Você não pode usar esta informação. É segredo
da empresa. Buy
fez uma pausa. Você
vai... Qual
é... disse Sami. Você sabe que eu tenho de dizer isso. Você
teve um ano duro, certo? Talvez as coisas dêem uma virada para você. Ele
desligou. Por
um segundo Buy ficou paralisado. Havia coisas demais que precisava fazer ao mesmo
tempo. Há quinze anos isso seria considerado uma transação
a partir de conhecimento sigiloso, mas esse conceito antiquado tinha desaparecido
há uma ou duas décadas, quando um número tão grande
de corretores estava fazendo isso que era impossível prender todos. Agora
era chamado de transação inteligente. Enfiou
o telefone debaixo do ouvido, apertou discagem automática 1 e começou
a digitar um e-mail. Jason
Mutual Unity. Estou
ligando porque você é o meu melhor cliente disse Buy. Tenho uma
informação que vai fazer um monte de gente ganhar um monte de dinheiro,
e quero que você seja uma delas. Ao mesmo tempo digitava: SE
QUER SURFAR UMA ONDA ME LIGUE AGORA Em
seguida arrastou toda a sua lista de clientes do campo de endereços e apertou
enviar. Buy,
eu acabo de sair do chuveiro. Diga
que você tem liquidez. O
que é que eu sou, um iniciante? Que empresa? National
Rifle Association. A
NRA? Eles estão na lista? Jason,
todo mundo está na lista. Não
sei... Eu teria de vender outra posição. Olha, vou lhe dizer uma
coisa, deixe comigo... Não
há tempo. Você sabe como isso é. O primeiro peixe que morder
a isca vai agitar os tubarões. Desculpe,
Buy. Nós não operamos assim. Ele
se ouviu dizer: Eu
abro mão da comissão. O
quê? Se
a ação não subir, eu como a comissão. Ele engoliu
em seco. Tinha bastante certeza de que não tinha permissão para
dizer isso. Tinha bastante certeza de que, se o preço das ações
da NRA caísse, a Mitsui iria demiti-lo e processá-lo. Me dê
pelo menos vinte milhões e eu só recebo a comissão se você
ganhar dinheiro. Está
falando sério? A
comissão sobre vinte milhões de dólares era de quatrocentos
mil. Ele pensou: 27 de outubro, 27 de outubro. Muito
sério. Bem,
porra disse Jason. Trato feito, meu chapa. Obrigado.
Buy fechou os olhos. Seu peito ainda doía. Wal-Mart Achei
as apresentações de vocês uniformemente frustrantes disse
o professor. Estava encostado na mesa, de braços cruzados. Sempre que virava
a cabeça, seus óculos refletiam a luz do sol para Hayley, como se
estivesse lançando raios de desaprovação. Recomendo que
todos melhorem o nível de pensamento crítico. Começou
a andar entre as carteiras, largando papéis sobre elas. Hayley viu um D
e um F; um carinha de óculos recebeu um C-. Ela soltou o
ar. Isso não seria bom. Ouviu
um sussurro atrás e se virou. Três garotas estavam amontoadas. Quando
viram Hayley olhando, fecharam-se ainda mais. Um
papel pousou em sua mesa. Havia um monte de tinta vermelha, com palavras como
superficial. Embaixo: F. Hayley
levantou a mão. Por
que recebi um F por dizer que o capitalizmo é bom quando é
isso que todo mundo também diz? Não é justo. Hayley,
o que não é justo é nossa sociedade recompensar o egoísmo.
Isso não é justo. Então
mude-se para a China, pensou Hayley. O
senhor sabe que eu vou questionar essa nota. A
Comissão de Currículo da McDonalds não deixaria essa merda
assim, pode apostar seu rabo. Também
não acho justo disse um garoto à esquerda de Hayley. Meus pais
dizem que a gente precisa entender como o capitalizmo funciona para ir adiante.
Que o interesse pessoal é uma coisa boa. O senhor não deveria
estar nos preparando para o mundo real? Mercury
disse uma das garotas que estavam sussurrando. Hayley
se virou de novo. O
que disse sobre os Mercury? Elas
a olharam com o rosto impávido. A
Nike Town, no shopping, vai receber alguns Mercury. O
queixo de Hayley caiu. Está
falando sério? Graças
ao interesse pessoal disse o professor , é legal deixar uma pessoa
morrer de fome na rua enquanto você passa em seu Mercedes. Isso é
justo? Ouvimos
dizer que são cinco pares. Não
brinca! Quando? Hayley agarrou a carteira. Quando eles vão receber
os Mercury? Esta
noite. Às seis e meia. A garota olhou para as amigas. Quer se encontrar
com a gente lá? Ah,
quero! Ela
se sentiu fraca e enjoada ao mesmo tempo. Os Mercury custavam dois mil e quinhentos
dólares, e Hayley não tinha tanto dinheiro, mas podia pegar emprestado:
havia caixas eletrônicos no shopping. Valeria a pena; os Mercury não
eram apenas tênis maneiros; eram um investimento. Ela poderia vendê-los
no dia seguinte pelo dobro do preço, talvez mais. E se... e se ela conseguisse
dois pares? É
muito frustrante disse o professor que nenhum de vocês consiga enxergar
além do simples consumismo. Muito frustrante. Mercury,
pensou Hayley. Ah, meu Deus. NRA Billy
Bechtel fazia tanques. Grandes. Eles tinham esteiras, canhões na frente
e metralhadoras giratórias; eram impressionantes pra caralho, eram mesmo.
Quando alguém perguntava o que Billy fazia para viver, ele dizia: "Sabe
a fábrica Bechtel Militar, perto de Abilene? Eu trabalho lá",
e olhava as sobrancelhas das pessoas subirem. Chegou ao ponto de Billy começar
a desejar que seu emprego fosse tão legal quanto parecia. O
serviço de Billy era verificar as chapas de aço para garantir que
não estivessem empenadas. Era assim: uma empilhadeira chegava e jogava
um monte de chapas em sua área, então Billy verificava com uma régua
de metal, depois vinha outra empilhadeira e levava embora. Se ele achasse alguma
torta, ela ia para uma pilha separada, e quando Billy aparecia para trabalhar
no dia seguinte a pilha tinha sumido. A maioria dos caras na Bechtel trabalhava
em equipes, mas Billy ficava sozinho. Ele estava pirando. Depois
de estar lá há alguns meses, deixou uma placa com um amassado na
ponta passar, só para ver o que aconteceria, mas nada aconteceu. Agora
alguém estava dirigindo um tanque que deixava entrar água da chuva,
pensou. Depois disso deixou passar uma placa quase dobrada ao meio, e um cara
da solda veio e gritou com ele. Passou
a fumar para poder ficar um tempo com os outros empregados, e foi ali que conheceu
os atiradores. Havia uns dez ou doze, e se encontravam três vezes por semana
depois do turno de trabalho. Você
deveria vir também disse um deles a Billy, olhando-o de cima a baixo.
Billy era jovem, louro e trabalhava um bocado. Vai se divertir. Então
Billy foi, e era divertido. Também descobriu que era bom de tiro.
Tinha caçado um pouco quando era garoto crescendo numa fazenda, mas depois
seu pai morreu e a mãe se mudou com eles para Dallas, e depois disso não
houve muita necessidade de atirar. Até agora, quando nos blocos dos fundos
da fábrica Bechtel Militar em Abilene, Billy ganhou o respeito e a admiração
dos colegas acertando alvos na forma de troncos humanos a uma distância
maior do que qualquer outro. As coisas ficaram boas. Às vezes até
os caras das empilhadeiras paravam para falar com ele. Veio
a má notícia. O capataz juntou todos no Barracão Um, em meio
aos andaimes e aos tanques meio montados, e um cara do Escritório Central,
um cara de terno, disse: Infelizmente,
devido às pressões nos custos... E houve um monte de papo sobre
concorrência, eficiência e como era doloroso para a gerência
tomar decisões duras. Mas o resumo, como todos os trabalhadores concordaram
depois, era: Agora vocês podem se foder. Billy estava desempregado. Eles
se reuniram na frente e ficaram parados, inseguros. Falaram mal da gerência
e se perguntaram o que iriam fazer agora; alguns falaram amargamente sobre os
dias em que havia sindicatos, quando merdas assim não eram toleradas. Um
dos atiradores deu um tapa no ombro de Billy e disse: E
você, campeão? O que vai fazer? Acho
que vou para algum lugar disse Billy, surpreendendo a si mesmo. Verdade, ele
tinha economizado o suficiente para tirar férias, e sempre quisera viajar
para fora do Texas, mas esse era um objetivo de longo prazo, do tipo que ele nunca
esperava realizar de verdade. Esse negócio de atirar havia realmente desenvolvido
sua confiança. Eu sempre quis esquiar, sabe? Talvez vá a algum
lugar para aprender a esquiar. O
homem deu uma gargalhada. Ei,
saca só! Billy the Kid vai esquiar! Os
homens em volta explodiram. Mãos bateram nas suas costas. Bom
pra você, Billy disse alguém, e mais alguém disse: Todo
mundo devia ir esquiar, porra! Eles acharam fantástico. Billy percebeu:
acharam que ele estava sacaneando a gerência da Bechtel. Para um trabalhador
de construção em Abilene, Texas, esquiar era quase tão exótico
quanto se possa imaginar. Era como ir à Disneylândia. É
isso aí, Billy the Kid disse o sujeito. Aprenda a esquiar. Ele
pensou em ir à Suécia, por causa das gatas. Imaginou semanas deslizando
em encostas brancas durante o dia e suaves curvas brancas à noite. Mas
a agente de viagens disse que era impossível trabalhar lá: a Suécia
era um país não-EUA. Billy não pôde crer. Nem pensava
que ainda existissem países assim. Ah,
claro disse a agente, uma garota que Billy tinha namorado no segundo grau. Ela
ainda mascava chiclete. Existem muitos. Na maioria, lugares aonde você
não vai querer ir, claro. Então,
aonde eu posso ir? Que
tal Cingapura? Cingapura é bem legal. Posso conseguir um preço ótimo... Cingapura,
não. Billy tinha quase certeza de que essa agência de viagens tinha
algum trato com Cingapura; eles tentavam convencer todo mundo a visitar o país.
Eu preciso de algum lugar com montanhas. Quero esquiar. Esquiar?
Os olhos dela se arregalaram. É. Uau.
Certo, então. Ela cutucou o computador. Bem, há o Alasca, que
fica lá no norte. E o Canadá, claro. Billy
esperava alguma coisa mais exótica. Alguma
coisa mais longe? Certo,
deixe-me ver. Billy esperou enquanto ela passava para outras telas. Quer ir
à Nova Zelândia? Onde? |