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De Veludo Cotelê e Jeans, de David Sedaris (tradução de Sergio Flaksman; Companhia das Letras; 248 páginas; 40 reais) – O humorista David Sedaris fez fama nos Estados Unidos com uma série de programas de rádio. Neles, Sedaris narrava suas desventuras como elfo numa promoção de Natal da loja Macy's. Desde então, tornou-se uma celebridade radiofônica e colaborador freqüente de revistas como Esquire e The New Yorker. De Veludo Cotelê e Jeans reúne crônicas autobiográficas em que o autor revisita todos os papelões por que passou na infância e na adolescência. Sua família, de origem grega, é vista de uma perspectiva ao mesmo tempo afetuosa e cáustica. Sedaris tem lá seu parentesco com Woody Allen: faz humor a partir da própria humilhação.

Leia trecho

Deixa nevar

Em Binghamton, no estado de Nova York, nevava o inverno todo, e, embora eu fosse muito novo quando deixamos a cidade, lembrava-me da neve em imensas pilhas e usava essa lembrança como prova de que a Carolina do Norte não passava, na melhor das hipóteses, de um estabelecimento de terceira. A pouca neve geralmente se dissolvia uma ou duas horas depois de cair no solo, e você ficava lá, de casaco impermeável e luvas grossas nada convincentes, fabricando um boneco encaroçado feito basicamente de lama. Pretos de Neve, era o nome que dávamos a eles.

No inverno em que eu estava na quinta série nós finalmente tivemos sorte. Caiu neve, e pela primeira vez em anos ela se acumulou. As aulas foram suspensas, e dois dias depois tornamos a ter sorte. Foram mais de vinte centímetros de neve, e em vez de derreter ela congelou. No quinto dia dessas nossas férias, minha mãe teve um ligeiro ataque. Nossa presença impossibilitava a vida secreta que ela levava durante o horário escolar, e quando não agüentou mais ela nos pôs para fora de casa. Não foi um pedido delicado, mas praticamente uma expulsão. "Fora da porra da minha casa", foi o que ela disse.

Lembramos que a casa também era nossa, mas ela abriu a porta da frente e nos empurrou para a entrada de carros. "E fiquem aí, do lado de fora!", gritou.

Minhas irmãs e eu descemos a ladeira e fomos andar de trenó com outras crianças das redondezas. Dali a algumas horas voltamos para casa, e nos surpreendemos ao descobrir a porta ainda trancada. "Ora, não é possível", foi o que dissemos. Tocamos a campainha, e como ninguém atendeu fomos até a janela. Lá estava mamãe, na cozinha, vendo televisão. Normalmente ela esperava até as cinco horas para começar a beber, mas nos últimos dias vinha abrindo uma exceção. A bebida não contava se você tomasse uma xícara de café depois de cada copo de vinho, de maneira que ela tinha tanto uma taça quanto uma caneca pousadas à sua frente no balcão.

"Ei!", gritamos. "Abra a porta. Somos nós." Batemos no vidro da janela. Sem olhar na nossa direção, ela tornou a encher a taça e saiu da cozinha.

"Que escrota", disse minha irmã Lisa. Tornamos a bater e bater, e depois de esperar muito tempo por alguma resposta de mamãe demos a volta na casa e começamos a atirar bolas de neve na janela do quarto dela. "Você vai ver, quando papai chegar em casa!", gritamos, e a única resposta dela foi fechar as cortinas. Estava começando a escurecer, e à medida que a temperatura ia caindo nos ocorreu que podíamos acabar morrendo. Era uma coisa que devia acontecer mesmo. Mães egoístas resolviam ficar sozinhas em casa e seus filhos eram descobertos anos mais tarde, como mastodontes aprisionados em blocos de gelo.

Minha irmã Gretchen sugeriu que ligássemos para papai, mas nenhum de nós sabia o telefone dele, e o mais provável era que ele não fizesse nada mesmo. Ele só tinha saído para trabalhar a fim de fugir da mamãe, e somando o tempo mais o mau humor dela, ele ainda podia levar muitas horas, ou até dias, até voltar para casa.

"Um de nós podia ser atropelado", disse eu. "Assim os dois iam aprender." Imaginei Gretchen com a vida por um fio, enquanto meus pais andavam de um lado para outro pelos corredores do Rex Hospital, arrependidos do seu descuido. Era de fato a solução perfeita. Com Gretchen fora do caminho, nós, os restantes, ficaríamos mais valorizados, e ainda teríamos um pouco mais de espaço para viver. "Gretchen, vá se deitar no meio da rua."

"Manda a Amy ir", disse ela.

Amy, por sua vez, passou a bola para Tiffany, que era a mais nova e não tinha uma idéia clara da morte. "É igual a ir dormir", dissemos a ela. "Só que você vai para uma cama com dossel."

Coitadinha da Tiffany. Ela aceitava fazer qualquer coisa em troca de um pouco de afeto. Bastava chamá-la de Tiff que você conseguia qualquer coisa dela: o dinheiro que ela ganhava para a semana, seu jantar, todo o conteúdo da sua cesta de ovos de Páscoa. Sua ansiedade de agradar era absoluta e declarada. Quando lhe pedimos que se deitasse no meio da rua, a única pergunta que ela fez foi: "Onde?".

Escolhemos um trecho plano e tranqüilo entre duas ladeiras, um lugar onde era quase obrigatório os motoristas derraparem e perderem o controle do carro. Ela assumiu sua posição, uma garotinha de seis anos com seu casaco cor de manteiga, e nós todos ficamos reunidos na calçada para assistir. O primeiro carro que apareceu foi o de um vizinho, outro originário do Norte, que tinha envolvido os pneus em correntes e conseguiu frear a mais ou menos um metro do corpo da nossa irmã. "É uma pessoa?", perguntou ele.

"Mais ou menos", respondeu Lisa. Ela explicou que estávamos trancados do lado de fora de casa, e embora o homem tenha dado a impressão de aceitar nossa explicação, julgando que era razoável, estou mais ou menos convencido de que foi ele quem nos denunciou. Outro carro passou e em seguida vimos mamãe, uma figura ofegante, despontando no alto da ladeira com passos desajeitados. Ela não estava de calça, e suas pernas estavam enterradas na neve até as canelas. Queríamos mandá-la de volta para casa, expulsá-la da natureza da mesma forma como ela nos expulsara da casa, mas era difícil ficar com raiva de uma pessoa com aparência tão deplorável.

"Você está de chinelo?", perguntou Lisa, e em resposta mamãe levantou um pé descalço. "Estava de chinelo", disse ela. "Quer dizer, é verdade, eu estava, há mais ou menos um minuto."

Era assim que as coisas se passavam. Num momento ela nos trancava fora da nossa própria casa e no outro estávamos cavando na neve, procurando seu chinelo esquerdo. "Ah, deixem para lá", disse ela. "Daqui a uns dias ele aparece." Gretchen enrolou o pé da minha mãe com o gorro. Lisa prendeu o gorro com o cachecol e, cercando-a bem de perto por todos os lados, tomamos o caminho de volta para casa.

 


 
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