|
Gênio
Obsessivo, de Barbara Goldsmith (tradução
de Ivo Korytowski; Companhia das Letras; 224 páginas; 36,50
reais) – Vencedora de dois prêmios Nobel, em 1903 e 1911,
a cientista franco-polonesa Marie Curie (1867-1934) é considerada
uma heroína tanto da ciência quanto da emancipação
feminina – e com justiça. Foi a primeira mulher a ocupar
uma cátedra de ciências na Universidade Sorbonne, em
Paris, e suas pesquisas em radioatividade (que acabaram causando
sua morte) são pioneiras. A biografia breve da historiadora
americana Barbara Goldsmith traça um retrato íntimo
de Marie. Einstein certa vez disse que ela era "muito inteligente,
mas fria como um arenque". De fato, a obstinação aparece
como o principal traço de caráter dessa pesquisadora,
que praticamente vivia em seu laboratório.
Leia
trecho
CAPÍTULO
2
"ENFRENTEI
TUDO AQUILO HONESTAMENTE"
Aos
dezesseis anos, Manya retornou a Varsóvia. Sua postura perfeita
e sua pele de porcelana realçada por olhos castanhos intensos
revelavam a beldade que se tornaria. O professor Sklodowski havia
desistido do internato, aceitado um emprego inferior e mudado para
um apartamento menor. Embora insípida e desconfortável,
a moradia oferecia privacidade. Conquanto o pai de Manya pregasse
a igualdade entre os sexos na educação, o pouco dinheiro
de que dispunha servia para pagar a formação médica
de Jozef. De qualquer modo, a Universidade de Varsóvia não
aceitava mulheres. Mesmo assim, Manya e a irmã mais velha
Bronya acalentavam sonhos. Sonhos grandiosos. Aos dezoito anos,
Bronya assumira o papel de sua mãe, mas sonhava em ser médica,
como o irmão. Manya queria ser cientista ou pelo menos tornar-se
"alguém", designando com essa palavra uma pessoa
de importância para o mundo. Ela continuou se educando e lia
ciência, política e literatura. Com a morte da mãe,
perdera grande parte da fé religiosa, e copiou num caderno
da escola uma passagem do ataque de Max Nordau à impostura
institucional dentro da Igreja. Quando o filho de uma prima nasceu
morto, ela escreveu:
Se
fosse possível dizer, com resignação cristã,
"Foi Deus quem quis, e seja feita a Sua vontade!",
metade da terrível amargura desapareceria. [...] Vejo
quão felizes são as pessoas que acreditam nessas
explicações. Mas, por estranho que pareça,
quanto mais eu reconheço quão afortunadas elas
são, menos consigo entender a sua fé, e menos
capaz me sinto de compartilhar de sua felicidade. No que me
diz respeito, eu jamais deveria contribuir voluntariamente para
a perda da fé de uma pessoa. Que cada um mantenha sua
própria fé, contanto que seja sincera. Apenas
a hipocrisia me irrita — e ela é tão disseminada
como é rara a fé verdadeira. [...] Odeio a hipocrisia.
Manya
adorara a Polônia com o ardor de uma criança, mas agora
suas visões haviam serenado para uma posição
mais intelectual. Auguste Comte, filósofo francês que
vivera o caos que sucedeu a Revolução Francesa e o
reinado de Napoleão, introduziu o termo positivismo
em reação ao então popular estudo abstrato
da filosofia clássica. Ciência e tecnologia começavam
a transformar a sociedade, e Comte rejeitou a mentalidade teórica
em favor de uma filosofia positiva nova que propunha a melhoria
da sociedade pela imposição de métodos verificáveis
por observação empírica. Sua filosofia preconizava
que os grupos governantes conduzissem os povos a um futuro mais
promissor. Ele acreditava que melhorar a educação
e a consciência moral de uma pessoa melhoraria a própria
sociedade.
Depois
que Comte morreu de câncer, em 1857, outros filósofos
adaptaram as rigorosas visões dele às suas próprias
necessidades. Na Polônia, o positivismo assumiu a forma de
oposição às proibições da Igreja.
Embora Comte não tivesse defendido os direitos das mulheres,
a igualdade sexual e a emancipação feminina, os positivistas
poloneses adotaram essas causas e encontraram na filosofia de Comte
um meio de afirmar o nacionalismo sem derramamento de sangue desnecessário.
Preconizaram a educação de trabalhadores e camponeses
nas tradições, na língua e na história
polonesas, mantendo assim acesa a chama do nacionalismo até
que os opressores russos pudessem ser expulsos. Os positivistas
poloneses reconheciam que essa abordagem não violenta poderia
levar anos e defendiam paciência e dedicação
para atingir suas metas. Tudo isso atraiu Manya, que mais tarde
escreveu: "Continuo acreditando que as idéias [positivistas]
que nos inspiraram então são o único caminho
para o verdadeiro progresso social. Não se pode esperar construir
um mundo melhor sem melhorar os indivíduos". Além
disso, na carreira científica que se seguiria, ela acreditava,
assim como os positivistas, que todas as afirmações
e conclusões deveriam ser "respaldadas por indícios
que possam ser verificados". Essa crença substituiu
a religião em sua vida e tornou-se uma das chaves para o
seu sucesso.
No
ano em que Manya se formou no ginásio, um positivista polonês
fundou uma academia clandestina para a educação superior
das mulheres, e dentro de um ano havia atraído mais de duzentas,
que se reuniam secretamente. Após alguns meses, foram descobertos
pelos russos, e a maioria dos professores foi exilada. O castigo
serviu de desafio. Nos três anos seguintes, a academia passou
a ser conhecida como Universidade Voadora, com mais de mil mulheres
matriculadas, entre elas Manya e Bronya. Nas aulas, elas conviviam
com mulheres de idéias semelhantes, inclusive várias
que se tornaram viúvas no levante de 1863 e agora administravam
responsavelmente as propriedades e empresas da família, bem
como com as que valorizavam a educação superior e
sonhavam em ir para universidades estrangeiras que aceitassem mulheres.
Um dos cursos era ministrado em casa da solidária ex-diretora
de Manya, Jadwiga Sikorska. Outros eram realizados em instituições
conhecidas por toda a Varsóvia. As autoridades russas devem
ter tomado conhecimento daquilo, mas a academia tornara-se grande
demais para ser eliminada à força sem constrangimento.
E, de qualquer maneira, o que as mulheres conseguiriam fazer?
Bronya
e Manya sabiam que teriam de se sustentar. Elas se tornaram professoras
particulares, enquanto continuavam estudando na Universidade Voadora.
Começaram dando aulas na própria casa ou percorrendo
longas distâncias através de Varsóvia para lecionar
a alunos relutantes ou preguiçosos, por meio rublo a hora.
No primeiro ano, ganharam tão pouco que Manya procurou um
emprego de governanta em Varsóvia. Ela foi contratada por
uma família de novos-ricos que gastava liberalmente em ostentações
de riqueza, mas tratava mal e miseravelmente os empregados. Como
uma filha da classe Szlachta, Manya conservava seus sentimentos
de amor-próprio e superioridade intelectual. Seus patrões
a acharam arrogante. Com humor irônico, ela escreveu que a
dona da casa "estava exatamente tão empolgada comigo
como eu com ela. Nós nos entendíamos maravilhosamente".
E também observou: "Não se deve entrar em contato
com pessoas que foram desmoralizadas pela riqueza". Três
meses depois ela pediu demissão. "Não consegui
mais agüentar aquilo."
|