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Cocaína,
de vários autores (Casa da Palavra; 152 páginas;
34,90 reais) – A despeito do que o título possa sugerir,
esse livro não faz a defesa – nem a crítica – das
drogas. É uma coletânea de textos do fim do século
XIX e início do XX sobre os então chamados "vícios
elegantes": cocaína, morfina e ópio. Organizada pela
professora de literatura Beatriz Resende, da Universidade Federal
do Rio de Janeiro, traz crônicas, poemas e excertos de romances
de figuras como Olavo Bilac, João do Rio, Lima Barreto e
Manuel Bandeira – e de autores populares à época mas
hoje esquecidos, como Benjamin Constallat. Alguns alertam contra
os perigos dos narcóticos, enquanto outros exaltam as suas
delícias. É um curioso painel de um período
em que a cocaína era vendida em farmácias – e recomendada
até para crianças.
Leia
trecho
Enervadas
Chrysanthème
1922
Mas,
Deus meu! Todas as minhas amigas são então como eu
umas "enervadas", porque me parecem vítimas dos
mesmos acessos que me martirizam ou me elevam ao sétimo céu!
A Maria Helena, que vive presa à saiazinha curta da Kate
Villela, é forçosamente o mesmo que eu, e Laura, sempre
irritada contra o pobre Luiz, e tão poucas vezes carinhosa
para ele, que se arruína em recepções, em teatros,
em toilletes para ela, tem de ser forçosamente também
uma "enervada". Não falo da Magdalena Fragoso,
porque esta, à força de ingerir cocaína, perde
a cabeça três ou quatro horas por dia, e, nesse estado
de excitação, manda vir o chauffeur para a
sala, chamalhe filho, irmão, dá-lhe todo o dinheiro
que possui e intitula-se bolchevista feroz.
Depois
de pensar muito tempo em todos esses fatos da nossa vida social,
revoltada contra o nome de "enervada", com que me sentenciou
o esbelto Maceu, perfumado a l’heure bleue de Coty, ergui-me
da poltrona, onde me afundava, e decidi que escreveria os sintomas
dessa moléstia, contra a qual me rebelo violentamente.
Se
me tivessem achado esgotada, neurastênica, com o fígado
congesto ou o rim mal colocado, eu choraria, temeria a morte e,
para impedir a sua vinda, numa covardia viscosa, ter-me-ia ajoelhado
aos pés de botas envernizadas do meu bonito e trescalante
doutor, mas "enervada", título com que ele agraciou
todos os meus desequilíbrios de moça da moda e da
época, obriga-me a alinhar, de ora em diante, em folhas de
papel, tudo o que se passa em mim e comigo, para que ele tenha a
certeza depois de que a medicina é uma ciência de intrujice,
de ignorância e de palavras sem alcance e sem sentido.
Sob
a influência desse desejo de provar a Maceu que ele não
entende nada de moléstias femininas e que não me impôs
nenhum terror com seu diagnóstico pomposo de "enervada",
saltei, como disse, lépida e viva da cadeira, corro à
mesa, e, diante de um mimoso papel de cartas, comprado para enviar
a Roberto as frases de amor que me brotam da mente, quando ouço
uma mórbida valsa lenta ou um fogoso tango americano e leio
alguns versos de Geraldy, principio a escrever a história
da minha moléstia, que penso não ser moléstia,
mas eflúvios de uma alma de mulher bem da sua época.
* *
*
A existência
corria para mim brilhantemente, embora eu tivesse de quando em vez
os meus momentos de fastio e de intensa fadiga d’alma.
Nesses
dias, encerrava-me no meu quarto, fechava todas as janelas e cortinas
e, no meu leito, abraçada a um úmido ramalhete de
rosas ou de cravos, eu cismava vagamente em mil coisas, ou simplesmente
modorrava de um modo doentio. Não pensava por enquanto na
morfina, que nos causa bebedeiras paradisíacas, nem na cocaína,
que, depois de uma ligeira exaltação, nos serve a
calma sem eternidade de uma morte aparente.
O mundo
e os seus deleites, o sofrimento com o seu cortejo lívido
de apreensões, desapareciam do meu cérebro nessas
ocasiões em que eu sentia o arrancamento ou uma fuga d’alma
fora do meu corpo. Jazia horas e horas atirada sobre o leito como
um manequim quebrado e, quando voltava a mim, os meus olhos erravam
atônitos e piscantes em torno do meu quarto luxuoso e perfumado,
que eu desconhecia um segundo.
Esmagadas,
moribundas, as flores destilavam um aroma estranho, um aroma de
esquife, e perdiam-se entre as rendas da minha coxa e entre as pregas
do meu peignoir. Era como se tornasse a mim depois de um
desmaio e, juro-lhes, que nunca me achei tão linda como após
esses três estados mórbidos a que eu me entregava com
uma delícia inconsciente e um temor em que havia o receio
de não mais voltar à vida.
Quando
lassa, com uma leve dor nas fontes e o corpo entorpecido como se
tivesse sofrido uma flagelação, eu me erguia dentre
os travesseiros, o meu primeiro cuidado era abrir largamente as
venezianas que pediam a entrada da luz de fora e mirar-me no grande
espelho que defrontava a minha cama. Em geral esses meus acessos
atacavam-me no meio do dia, após noites consecutivas de danças,
tardes de recepções extensas em que eu recebera palavras
de amor, sem que elas ecoassem no meu espírito ou no meu
organismo. Eu adorava os aromas fortes, as músicas ardentes,
os vinhos doces, e sob o domínio desses venenos que se intrometiam
pelas minhas narinas, pelos meus ouvidos e pelas minhas entranhas,
eu me sentia capaz de tudo, nova Antéia surgida de todas
essas
capitosas
sensações. No langor dos tangos, ao calor do perfume
destilado pela minha própria transpiração ou
pela do meu companheiro, ao som das harmonias sensuais e tendo ainda
na garganta o sabor ardente do champagne, eu me imaginava
em países irreais, apaixonada brutalmente por aquele homem
que eu mal vira e que rodopiava comigo,
atento
somente aos passos sábios da dança moderna. Cessava
a música, o aroma fugia à quebra dos movimentos, o
vinho deixava de exercer a sua ação e eu, envergonhada,
tornava a adquirir a minha personalidade de moça da moda
que também é moça de família. Ah! Se
aos homens adivinhassem o que se passa no íntimo das raparigas
com quem dançam, as cenas seriam ainda mais escandalosas
do que já o são.
* *
*
Os
dias iam passando em visitas, idas aos cinemas, em pequenas reuniões
na nossa velha casa pintada e arranjada de novo e para as quais
eu convidava as minhas antigas amigas e outras mais recentes, que,
alegres e pressurosas, corriam ao meu chamado. Por esse tempo conheci
a histérica Laura Ferraz, uma exibitiva criatura, cheia de
caprichos e irritações, manejando, nas suas águas,
a triste figura do infeliz marido continuamente
à
cata de negociatas louches, de "cavações",
pronto sempre para morder os outros e contando-lhes para isso uma
série de mentiras e de falsidades de todos os tamanhos. Aliás,
ele não pôde manter por longo tempo este gênero
de vida e um breve dia fugiu com um dinheiro alheio, abandonando
a mulher que entrou a ter amantes e a proceder
com
estes como procedera com o esposo. Como tivesse sido desdenhada,
Laura achava-se no direito pleno de narrar livremente as suas palpitações
amorosas, que, como os dias de uma semana, se seguiam sem se parecerem.
Uma manhã ela cantava a cor azul de uns olhos de homem, a
doçura dessa mirada, o encanto que ela exerce sobre o organismo
feminino.
Oito dias não eram decorridos e já o olhar negro de
um outro cavalheiro enxotava para bem longe dessa mulher volúvel
o sugestivo olhar cerúleo que ela celebrara com tanto entusiasmo
e impudor.
Logo
depois entrou na minha vida a Magdalena Fragoso, bela, de uma beleza
de flor doente. Principiava a picar-se com a morfina, a que sucedeu
logo a cocaína. Quando me foi apresentada, ela estava no
período da excitação febril, demonstrada pela
chama dos seus olhos circundados de olheiras e pela gelidez das
suas mãos perfumadas que
terminavam
em dedos trêmulos. Magdalena interessou-me muito e uma noite
que Julio saíra, ela me induziu a deixar-me picar pela sua
seringuinha de Pravaz que continha o veneno que ela tanto apreciava.
E ambas,
deitadas sobre o meu fofo leito conjugal, entregamo-nos ao doce
veneno que nos levou ao país de Morfeu, dando-me a mim uns
sonhos tremendos, que findaram em náuseas incoercíveis.
Magdalena surgiu desse estranho sono como de um banho de leite e
nunca a sua pele me pareceu mais branca e a sua formosura mais inquietadora.
Hoje
ela desdenha a morfina, que apelida de brinquedo para crianças,
entregando-se toda à formidável cocaína, que
a transforma num ser fora do mundo da razão.
Maria
Helena visitava-me também algumas vezes, sempre angustiada,
convulsionada de ciúmes, queixosa contra alguma amiga do
seu peito que não correspondera bem ao seu afeto. Inaugurara
uma vestimenta masculina, que lhe dava uns ares de adolescente insexuado
e cortara os escuros cabelos que se enrolavam em torno do seu pescoço
fino e alvo.
Um
dia, via-a chorar e falar em lysol, com os olhos coriscantes, faces
cortadas de lagrimas ardentes, porque a eleita da sua afeição
lhe mentira e fôra pegada em flagrante num falso que mostrava
desamor e desinteresse. Não a compreendi, mas consolei-a
com meiguice, pedindolhe não se agarrasse tanto às
criaturas que não mereciam o seu carinho.
Ela
me respondeu, abanando a cabecinha onde as curtas madeixas flutuavam,
cheirando a rosa:
— Tu
não me podes entender, querida! És tão diferente
de mim!
E,
efetivamente, eu não a entendia.
Margarida
também não me abandonava. Casara-se com o primo que
a amava desde o colégio e, mais gorda ainda, pela promessa
do filho que lhe ocupava o ventre fecundo, ela mostrava-me sempre
a mesma amizade e a mesma solicitude. Eu lhe vira duas vezes o marido,
soberbo rapaz de trinta anos, forte, corado e trabalhador como um
verdadeiro
homem.
Margarida dizia-me sempre quando nós falávamos dele:
— Tu
não podes avaliar de como Carlos é alegre e equilibrado!
Aqui, na companhia de vocês, ele parece tímido e acanhado,
quando não o é nunca. Mas também vocês
só falam em amores, em cocaínas, em tangos, em moléstias...
*
* *
Roberto
Toledo, o mais famoso advogado criminalista, ofereceu-me o seu amor
e eu o aceitei. Entretanto, essa natureza forte e observadora não
se curvou ao meu governo.
Delicadamente,
ele me retirou a seringa de Pravaz, o vidro da morfina e modificou
o meu modo de encarar as cenas do mundo. Foi a seu pedido que chamei
o delicioso Maceu Pedrosa e que me deixei examinar por ele. Eu estou
mentindo. Ele não me rogou exatamente que chamasse este perfumado
sacerdote de doenças femininas: ele aconselhou chamasse o
sério e arguto dr. Armando Lins, profissional de
moléstias
nervosas. Mas esse Armando Lins é tão feio e o outro
é tão bonito que não hesitei. Aliás,
Roberto está em S. Paulo há uma semana e ignora que
eu o tenha feito. No isolamento da minha casa, sem a presença
dele e sobretudo muito fraca de corpo e inquieta d’alma, eu principiei
a traçar essas linhas que lhe explicarão melhor quem
eu sou, se eu morrer, e que infelizmente provarão ao meu
suave e elegante médico que ele tem razão. "Eu
sou uma enervada, quero dizer, uma criatura sem vontade própria,
joguete das suas sensações, incapaz de realmente sentir,
sem objetivos e sem idéias, e de corpo e alma doentes, que
lhe servem falsos anseios e lhe indicam falsos caminhos. Enfim,
ente
prejudicial a si próprio e aos outros."
Quando
Roberto chegar, talvez eu continue a escrever. Não mais será,
porém, para contentar ao dr. Maceu, médico perfumado
à l’heure bleue, de Coty, mas, sim, no desejo de bem
estudar o meu íntimo que, afinal, nesse drainage a
que o submeti, surgiu mais leviano que cruel.
As
linhas que se seguem serão, pois, as minhas memórias
modernas.
* *
*
Junho
de 1918.
Deixei
passar alguns dias antes de recomeçar a escrever. O meu estado
de corpo e d’alma era péssimo. Hoje faz uma manhã
brumosa, melancólica, séria como um rosto estreitamente
velado do qual não se enxergue bem a verdadeira expressão.
Anteontem,
à noite, tive uma crise tremenda de hipocondria, de desolação;
de histeria. Telefonei ao meigo dr. Maceu chamando-o, mas não
estava em casa... Foi melhor assim. Cheirei éter, não
tendo coragem para servir-me da morfina como lenitivo. Roberto proibiume
tão seriamente que não mais me envenenasse com esse
delicioso tóxico, que não ouso desobedecer-lhe. Sofri,
porém, como um cão, sofri no meu organismo que se
crispava todo e no meu espírito que se afundava num abismo
de impressões indefinidas. Mergulhei na cama, cujo docel
róseo aparecia-me como uma tampa de esquife e, cheirando
ora éter, ora rosas, o que me recordava o jovem sacerdote
de olhos místicos e boca profana, eu adormeci depois de uma
dispnéia atroz.
Se
Roberto estivesse no Rio falar-me-ia com aquela voz serena que tanto
me acalma e eu não necessitaria do esforço que gastei
para repousar.
Tentei
evocá-lo com o seu rosto moreno, os seus olhos nem pequenos
nem grandes, mas salpicados de pontos negros que se ajuntam formando
uma só mancha escura, quando ele se zanga. Procurei fazê-lo
surgir diante de mim com o seu porte alto e robusto de homem
são
e bem equilibrado que encara a existência com uma arena de
batalhas em que vencerá forçosamente. Mas, vaga e
longínqua, a sua imagem, assim sugestionada, não me
causou o menor efeito. Antes de recomeçar hoje a traçar
estas linhas, eu me debrucei à janela do meu sobradinho da
rua do Catete – porque eu vendi há dois anos a nossa bela
chácara sombria e fresca do Rio Comprido, que muitas emoções
me recordava, e habito agora o centro barulhento, ao qual desembocam
diversas ruas de nomes estranhos – e lancei em torno um olhar que
se alongou numa indagação que ficou sem resposta.
Por que tanto
movimento,
tanta agitação, tanta corrida pelas ruas, Deus meu?
Onde irá toda essa gente que, adornada, de olhar esgazeado
e face convulsiva, vai e vem nesses bondes que percorrem a todo
instante esses trilhos, num contínuo ruído de tímpanos,
num fustigante voltear de rodas? Algumas mulheres, que entrevisto
da minha veneziana meio cerrada pela cortina, vão certamente
ao amor, à sensação, ao beijo, e alguns homens,
quase todos crentes no poder do dinheiro para olvido de sua impotência
em amar, correm à sua conquista com as fisionomias severas,
os olhos aguçados de cobiça e mãos frementes
de ladrões sociais. Ambos serão decepcionados: o amor
e o dinheiro nunca dão o que prometem.
No
bairro da cocaína
Benjamin
Costallat
1924
Fui
andando em direção à rua da Glória,
com a Lapa, o centro preferido dos cocainômanos. Perto da
estátua de Pedro Álvares Cabral e do relógio,
algumas francesas sorriam, convidativas... Umas tomavam o bonde,
outras preferiam ficar mais perto de suas pensões.
Paradas,
por ali mesmo, elas esperavam a aventura imprevista, sonhando com
um coronel de algibeiras cheias...
Na
esquina de Conde de Lage com a rua da Glória estava o misterioso
automóvel de que eu já tinha notícia.
Todas
as noites, depois das dez horas, aquele Studebacker, de carrosserie
nova, acha-se imóvel na esquina da Conde de Lage, à
espera de um freguês hipotético que nunca aparece.
O estranho
táxi ali fica, a noite toda, até às primeiras
horas da manhã...
Eu
já sabia encontrá-lo.
O chaffeur,
perto do volante, pacificamente, fumava o seu cigarro.
Fui
a ele. Abri a porta do carro. Dei-lhe um endereço qualquer:
— Não
posso ir, não senhor. O carro está ocupado...
— Ah,
perdão...
Mas
foi o bastante para ver-lhe a fisionomia.
E o
chaffeur, como o "marítimo", tinha os mesmos
olhos febris e a mesma face pálida...
Como
no caso do homem do mictório, confirmava-se a denúncia
que eu havia recebido sobre o chaffeur, do carro misterioso
da esquina da rua Conde de Lage.
É
um carro que nunca aceita fregueses e que volta, todas as manhãs,
vazio como veio...
É
apenas um ponto de venda de cocaína, conhecido pelos viciados.
E é
assim que o chaffeur – também cocainômano como
todos os vendedores de tóxico – sem gastar gasolina, faz
uma féria maior do que os seus colegas que rodam a noite
inteira com os seus carros...
* *
*
O bairro
da cocaína estava, naquele momento, em plena efervescência.
Dos
cafés da Lapa às pensões elegantes da Glória,
passando pelos becos nojentos da prostituição, o bairro
da cocaína vibrava de luzes, de risos de mulheres, de espasmos
humanos...
O bairro
da cocaína!
Botafogo,
Copacabana, avenida Atlântica, Santa Teresa, Leblon também
tomam cocaína. Até Madureira já está
contaminada...
Mas
a zona de irradiação do vício, a zona do comércio
miserável do terrível tóxico, é a Lapa
e a Glória.
Entre
dez meretrizes, nove são cocainômanas.
E a
zona de prostituição não podia deixar de ser
a zona do vício da "poeira" terrível.
Nos
clubs, nas alcovas das horizontais, nos cafés noturnos,
nas pensões chics, toda a Lapa e toda a Glória
tomam cocaína em suas noites lúbricas e inquietas.
O templo
mais concorrido dos viciados do "fubá mimoso" é
uma pensão, na praia da Glória, da parisiense Gaby.
Ali
os toxicômanos se reúnem.
E cheiram,
e aspiram pitadas de pó branco em companhia das mulheres...
Quando,
na sala de jantar da pensão chic, há algum
elemento estranho à confraria do vício, e um toxicômano
manifesta pela sua agitação a ânsia de tomar
uma prise de cocaína, Gaby oferece o seu quarto...
Quer
botar "pó-de-árroz"? Entre no meu quarto,
não faça cerimônia!...
Fazendo-me
passar, na pensão de Gaby, por um cocainômano – bastou-me
ter no bolso os meus vidrinhos Merk – compreendi a solidariedade
tremenda que existe entre os viciados.
Um
cocainômano para outro cocainômano é uma criatura
sagrada.
Só
por pensar que eu era um viciado, Gaby me distinguiu com mil amabilidades.
A cada instante me atirava olhares cúmplices e carinhosos.
Era
seu irmão de tóxico e, só por isso, eu podia
contar, com ela, para tudo.
E,
quando lhe dei dois dos meus vidrinhos – guardei um como lembrança!
– os seus olhos brilharam, olhando para a cocaína. E, toda
ela, dos pés à cabeça, teve um frêmito
de prazer diabólico!
Um
rico colar de pérolas lhe teria causado menos sensação.
O vidro
minúsculo de pó representa para o viciado o valor
de vários mundos.
Com
um grama do anestésico tem-se um cocainômano em completa
escravidão.
Para
conseguir o frasco do veneno, que lhe é mais caro do que
a própria vida, o viciado é capaz de todas as torpezas
e de todos os crimes.
Na
pensão de Gaby, aquelas criaturas estranhas e desconhecidas
entre si, ligadas pelo vínculo do mesmo terrível vício,
são mais unidas do que se pertencessem à mesma família.
Chamam-se
de "irmãos" e consideram-se como tais.
Se
faltar dinheiro ou "pó" a alguma delas, logo há
alguém da confraria que lhe vem em auxílio.
A classe
dos cocainômanos é a única classe absolutamente
solidária que eu conheço...
— Gaby!
Gaby!...
— Que
é, meu pobrezinho...
E um
viciado faz-lhe sinal, o clássico sinal aflito e desesperado
dos cocainômanos, esfregando as narinas com as costas da mão.
— Gaby!...
Gaby!...
— Sim,
meu pobrezinho... Já te dou...
Gaby,
que talvez negasse um pão a um pobre, precipita-se em socorro
de seu colega de tóxico, arranja-lhe custe o que custar a
"poeira fatal", e é capaz de todos os heroísmos
para satisfazer o seu vício e o vício dos outros...
Se
alguém estiver morrendo de fome, talvez Gaby não o
socorra com uma esmola.
Mas
se for de tóxico que alguém necessitar, Gaby será
capaz de vender a sua última toilette e a sua última
jóia.
Ela
é a sacerdotisa de uma nova religião – a cocaína!...
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