Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

Sábado, de Ian McEwan (tradução de Rubens Figueiredo; Companhia das Letras; 336 páginas; 35 reais) – Nesse romance indicado ao Booker Prize, o neurocirurgião Henry Perowne acorda cedo e, pela janela, vê um avião em chamas nos céus, o que julga ser um ato terrorista. Depois de descobrir que fora só um incidente sem conseqüências, ele retoma o curso normal de sua manhã de sábado – até que, ao sair de casa para jogar squash, ele se envolve numa batida de carro que pode ter conseqüências graves. Seguindo seu personagem por 24 horas, o inglês McEwan, autor de obras como Reparação, constrói uma história rica de percepções e de meditação, que aborda todos os aspectos da vida de um homem de meia-idade e tem a guerra no Iraque como pano de fundo.

Leia trecho

Por exemplo? Bem, por exemplo, o que significa ser um homem? Numa cidade. Num século. Em transição. Em uma massa. Transformado pela ciência. Sob o poder organizado. Sujeito a mecanismos de controle tremendos. Num estado decorrente da mecanização. Após o último fracasso das esperanças radicais. Numa sociedade que não era comunidade nenhuma e depreciava a pessoa. Em virtude do multiplicado poder dos números, que tornavam a pessoa desdenhável. Que consumia bilhões em despesas militares contra inimigos externos, mas não gastava para ter ordem dentro de casa. O que abriu caminho para a selvageria e a barbárie em suas próprias cidades grandes. Ao mesmo tempo, a pressão de milhões de pessoas que descobriram o que esforços e pensamentos unidos em comum acordo podem conquistar. Enquanto megatoneladas de água formam organismos no fundo dos oceanos. Enquanto as marés dão polimento às pedras. Enquanto os ventos escavam os rochedos. A beleza da supermaquinaria descortina uma vida nova para a humanidade inumerável. Você lhes negaria o direito de existir? Pediria a eles que trabalhassem e passassem fome, enquanto você desfruta Valores antiquados? Você — você mesmo é filho dessa massa e irmão de todo o resto. Ou então é um ingrato, um diletante, um idiota. Pronto, Herzog, pensou Herzog, já que você está pedindo um exemplo, aí está como são as coisas.
Saul Bellow, Herzog, 1964

 

Capítulo 1

Algumas horas antes do raiar do dia, Henry Perowne, um neurocirurgião, acorda e já se vê em movimento, empurrando as cobertas para trás, sentado, e logo se põe de pé. Não está claro, para ele, quando exatamente voltou à consciência, nem isso parece relevante. Nunca agiu assim antes, mas não está apreensivo, nem sequer ligeiramente surpreso, pois o movimento é fácil e agradável para as suas articulações, e sente uma força incomum nas costas e nas pernas. Fica parado onde está, de pé, nu, junto à cama — sempre dorme nu —, sente todo o seu porte ereto, ciente da respiração serena da esposa e do ar de inverno do seu quarto em contato com a pele. Também isso dá uma sensação agradável. Seu despertador de cabeceira marca três e quarenta. Ele não tem idéia do que está fazendo fora da cama: não tem nenhuma necessidade de se aliviar, nem se sente perturbado por algum sonho ou por alguma coisa do dia anterior, nem sequer pela situação geral do mundo. É como se, ali parado no escuro, ele houvesse se materializado do nada, tivesse se formado por inteiro, sem qualquer embaraço. Não se sente cansado, apesar da hora ou de seus trabalhos recentes, nem tem a consciência abalada por algum caso recente. De fato, está alerta e de mente vazia e inexplicavelmente animado. Sem tomar decisão alguma, sem nenhuma motivação, começa a mover-se rumo à janela mais próxima, das três que há no seu quarto, e experimenta em seus passos tamanha naturalidade e leveza que, de imediato, suspeita que está adormecido ou sonâmbulo. Se for isso, ficará decepcionado. Sonhos não lhe interessam; a possibilidade de que isso seja real é mais rica. E ele está inteiramente senhor de si, tem certeza disso, e sabe que o sono ficou para trás: conhecer a diferença entre isso e andar, conhecer a fronteira, é a essência da sanidade.

O quarto é grande e bem arrumado. Enquanto desliza pelo quarto, com uma facilidade quase cômica, a perspectiva de a experiência chegar ao fim lhe dá uma tristeza súbita, em seguida a idéia desaparece. Ele está junto à janela do centro, puxa para trás, com cuidado, as venezianas altas, de madeira, de modo a não acordar Rosalind. Nisso, ele é tanto egoísta quanto solícito. Não deseja que lhe perguntem o que está acontecendo — que resposta poderia dar, e por que abrir mão deste momento para tentar uma resposta? Abre a segunda veneziana, deixando que ela toque sua concertina na dobradiça, e levanta silenciosamente a janela de guilhotina. É muito mais alta do que ele, mas corre com facilidade para cima, içada por seu oculto contrapeso de chumbo. A pele se enrijece quando o ar de fevereiro se derrama à sua volta, mas ele não se sente incomodado pelo frio. Do segundo andar, encara a noite, a cidade, em sua gélida luz branca, as árvores esqueléticas na praça e, nove metros abaixo, a cerca negra, com pontas de flecha, semelhante a uma fileira de lanças. A temperatura é de um ou dois graus negativos e o ar está claro. O brilho da iluminação da rua não encobriu inteiramente todas as estrelas; acima da fachada do Regency, do outro lado da praça, pendem restos de constelações no céu do sul. Essa fachada, em especial, é uma reconstrução, um pastiche — o Fitzrovia dos tempos da guerra levou umas bombas da Luftwaffe — e, bem na frente, fica a Torre dos Correios, oficial e deprimente durante o dia, mas à noite semi-oculta e iluminada com decência, um destemido monumento em honra a dias mais otimistas.

E agora, que dias são estes? Desconcertantes e assustadores, é como ele os avalia, em geral, quando tira um tempo da sua jornada semanal para pensar. Mas não sente isso, agora. Inclina-se para a frente, apóia seu peso na palma das mãos sobre o peitoril, exultante com o vazio e a nitidez do cenário. Sua visão — sempre boa — parece ter se aguçado. Vê as pedras de malacacheta do calçamento cintilarem na praça só de pedestres, os excrementos de pombo endurecidos pelo frio e pela distância, de modo a ganharem um aspecto quase belo, como borrifos de neve. Ele gosta da simetria dos postes negros de ferro fundido e de suas sombras, cada vez mais escuras, e da treliça das sarjetas de paralelepípedo. As latas de lixo abarrotadas sugerem antes fartura do que escassez; os bancos vazios dispostos ao redor dos jardins circulares parecem aguardar com benevolência o seu trânsito diário — multidões de alegres funcionários em intervalo de almoço, os rapazes solenes e estudiosos da pensão indiana, amantes em discretos arroubos ou crises, os traficantes de drogas no crepúsculo, a velha senhora arruinada, com seus clamores desvairados e lancinantes. Vá embora daqui! — ela vai gritar, horas a fio, e guinchar de modo estridente, semelhante a um pássaro do pântano ou uma criatura do zoológico.

Ali parado, tão imune ao frio como uma estátua de mármore, olhando na direção da rua Charlotte, na direção de uma inacabada mixórdia de fachadas, andaimes e telhados inclinados, Henry acha que a cidade é um sucesso, uma invenção genial, uma obra-prima biológica — milhões de pessoas que formigam em torno das conquistas de séculos, acumuladas e dispostas em camadas, como em redor de um recife de coral, e dormem, trabalham, divertem-se, em harmonia, na maior parte das vezes, e quase todas com o desejo de que dê certo. E a própria esquina de Perowne, um triunfo da proporção congruente; a praça perfeita, traçada por Robert Adam, que abarca um perfeito círculo de jardim — um sonho do século XVIII, banhado e cingido pela modernidade, pela iluminação da rua, por cima, e, por baixo, por cabos de fibra óptica e por água doce e fria, que corre em canos subterrâneos, e pelo esgoto, levado para longe, num instante de esquecimento.

Observador habitual de seus próprios estados de ânimo, ele se interroga sobre essa euforia contínua e deformante. Talvez, no nível molecular, tenha ocorrido um acidente químico enquanto ele dormia — algo como uma bandeja de drinques derramada, o que forçou receptores da família da dopamina a iniciar uma agradável cascata de fenômenos intracelulares; ou é a perspectiva de um sábado, ou a conseqüência paradoxal de uma fadiga extrema. É verdade, ele terminou a semana num estado de esgotamento incomum. Voltou para casa e a encontrou vazia, deitou-se na banheira com um livro, satisfeito por não ter de falar com ninguém. Fora sua filha Daisy, intelectual até demais, que lhe enviara uma biografia de Darwin que, por sua vez, tinha algo a ver com um romance de Conrad que ela queria que ele lesse, e que ele ainda não havia começado — os afazeres de um marujo, por mais moralmente fecundos que fossem, não tinham grande interesse para ele. De alguns anos para cá, Daisy tem se dedicado ao que acredita ser a assombrosa ignorância do pai, orienta a sua educação literária e o repreende pelo gosto rasteiro e pela insensibilidade. Daisy tem certa razão — direto do ensino médio para a faculdade de medicina e, daí, para as horas de trabalho estafante do médico em início de carreira, e logo em seguida a concentração total no aprendizado da neurocirurgia, e ao mesmo tempo as obrigações de pai participante —, durante quinze anos, ele mal tocou num livro que não fosse de medicina. De outro lado, acha que viu o bastante de morte, de coragem, de medo e de sofrimento para abastecer meia dúzia de literaturas. Mesmo assim, ele se sujeita às listas de leitura da filha — é o seu meio de manter-se em contato enquanto ela se afasta da família rumo a uma insondável vida de mulher adulta, em um subúrbio de Paris; hoje à noite ela estará em casa pela primeira vez em seis meses — outro motivo para a euforia.

Ele estava atrasado nas tarefas de Daisy. Enquanto controlava com o dedo do pé a ocasional entrada de água quente na banheira, lia de maneira turva um relato sobre o fervor de Darwin para concluir a redação de A origem das espécies e um resumo das páginas de conclusão, acrescentadas nas edições posteriores. Ao mesmo tempo, ouvia as notícias no rádio. O imperturbável sr. Blix fizera mais um discurso na ONU — havia a impressão geral de que ele demolira os argumentos a favor da guerra. Em seguida, certo de que não havia assimilado absolutamente nada, Perowne desligou o rádio, voltou às páginas anteriores e releu. Às vezes, essa biografia lhe inspirava uma agradável nostalgia de uma Inglaterra verdejante, amável, com veículos puxados a cavalo; de outras vezes, sentia-se ligeiramente desolado ao ver como uma vida inteira podia ser contida em poucas centenas de páginas — engarrafada, como chutney feito em casa. E ao ver como uma existência podia facilmente desaparecer completamente, com suas ambições, sua rede de familiares e de amigos, tudo aquilo que ela tratava com mais carinho e que lhe pertencia da maneira mais sólida. Mais tarde, estirou-se na cama para pensar no seu jantar e não se lembrou de mais nada. Rosalind deve ter puxado as cobertas sobre ele, quando chegou do serviço. Deve ter beijado o marido. Aos quarenta e oito anos de idade, dormia profundamente às nove e meia de uma noite de sexta-feira — isto é a vida profissional moderna. Ele trabalha muito, todos à sua volta trabalham muito e, nessa semana, ele foi exigido mais ainda, por causa de uma onda de gripe na equipe do hospital — sua lista de cirurgias foi duas vezes maior do que o costume.

Graças a um bem dosado desdobramento em várias funções, ele conseguia fazer uma cirurgia importante numa sala de operações, supervisionar um médico estagiário em outra e ainda cumprir tarefas menores em uma terceira. Ele instruía dois neurocirurgiões estagiários, naquele momento — Sally Madden, que já estava quase habilitada e era plenamente confiável, e um estagiário de dois anos, Rodney Browne, da Guiana, talentoso, trabalhador, mas ainda inseguro. O consultor anestesista de Perowne, Jay Strauss, tinha a sua própria estagiária, Gita Syal. Por três dias, com Rodney sempre a seu lado, Perowne deslocou-se entre os três conjuntos de salas — o ruído dos seus saltos no piso lustroso do corredor e os diversos guinchos e grunhidos das portas de vaivém do centro cirúrgico soavam como um acompanhamento orquestral. A lista da sexta-feira era típica. Enquanto Sally fechava um paciente, Perowne seguiu para a sala vizinha, a fim de aliviar uma velha senhora da sua neuralgia trigeminal, o seu tique douloureux. Essas operações menores ainda conseguiam lhe dar prazer — ele gosta de ser rápido e preciso. Introduziu o dedo indicador enluvado no fundo da boca da velha senhora a fim de procurar o caminho, em seguida, com um olhar muito rápido para o intensificador de imagem, introduziu uma agulha comprida pelo lado de fora da bochecha da paciente, até alcançar o gânglio trigeminal. Jay veio da sala ao lado para ver como Gita trazia a velha senhora a um ligeiro estado de consciência. O estímulo elétrico da ponta da agulha causou um formigamento no rosto dela e, depois que ela confirmou, de modo sonolento, que a posição estava certa — Perowne havia acertado na primeira tentativa —, ela foi posta para dormir de novo, enquanto o nervo era "cozido" por meio de termocoagulação por ondas de rádio. O truque sutil consistia em eliminar a sua dor enquanto permitiam que a paciente tivesse a consciência de um leve toque — tudo feito em quinze minutos; três anos de sofrimento, de dor aguda e lancinante, estavam terminados.

Ele bloqueou o gargalo de um aneurisma na artéria cerebral média — era um verdadeiro mestre nessa arte — e fez a biópsia de um tumor no tálamo, região onde não é possível operar. O paciente, agora, era um tenista profissional de vinte e oito anos de idade, que já sofria aguda perda de memória. Quando Perowne retirou a agulha das profundezas do cérebro, pôde ver, num relance, que o tecido era anormal. Tinha pouca esperança na radioterapia e na quimioterapia. A confirmação veio num comunicado verbal do laboratório e, nessa mesma tarde, ele deu a notícia aos pais idosos do jovem paciente.

O caso seguinte era uma craniotomia para um meningioma numa paciente de cinqüenta e três anos de idade, diretora de uma escola primária. O tumor se alojava acima da camada motora, estava definido com nitidez e foi-se embora completamente, ante a sondagem do seu dissector Rhoton — um processo curativo total. Sally fechou essa paciente enquanto Perowne se dirigiu para a sala vizinha, a fim de cuidar de uma laminectomia lombar em vários níveis, num paciente obeso de quarenta e quatro anos, um jardineiro que trabalhava no Hyde Park. Ele abriu dez centímetros de gordura subcutânea, antes de conseguir expor as vértebras, e o homem, para dificultar ainda mais, oscilava sobre a mesa de operações toda vez que Perowne fazia uma pressão de cima para baixo, a fim de aparar o osso.

Para um velho amigo, um especialista em nariz, ouvido e garganta, Perowne abriu a cavidade auricular de um menino de sete anos — é engraçado como esses otorrinos têm medo de abrir seus próprios acessos difíceis. Perowne fez uma grande dobra retangular no osso, por trás do ouvido, o que lhe tomou não menos de uma hora, irritando Jay Strauss, que queria acelerar a lista de cirurgias da sua própria equipe. Por fim, o tumor ficou exposto ao microscópio cirúrgico — um pequeno neuroma acústico, alojado a apenas três milímetros da cóclea. Deixando que o seu amigo especialista fizesse ele mesmo a excisão, Perowne seguiu célere para mais um procedimento cirúrgico menor, que por sua vez lhe trouxe certa irritação — uma jovem espalhafatosa, com maneiras habitualmente exaltadas, queria que o seu estimulador raquidiano fosse virado para a frente. Ainda no mês anterior, ele o havia virado para trás, depois que ela reclamara que daquele jeito era desconfortável sentar. Agora, ela dizia que o estimulador não deixava que ela deitasse na cama. Ele fez uma longa incisão no abdômen da paciente e perdeu um tempo precioso, com os antebraços metidos até o cotovelo dentro dela, procurando o fio da bateria. Tinha certeza de que a paciente voltaria a ele, em pouco tempo.

No almoço, comeu atum industrializado e um sanduíche de pepino com uma garrafa de água mineral. Na cafeteria lotada, onde a torrada e a massa feita em forno de microondas sempre lhe traziam à memória os odores das principais salas de cirurgia, sentou-se ao lado de Heather, a querida sra. Cockney que ajuda a limpar as salas de cirurgia entre as operações. Ela lhe fez um relato da prisão do seu genro, por roubo com porte de arma, depois de ter sido erradamente apontado numa fila de reconhecimento na delegacia. Mas o álibi dele era perfeito — na hora do crime, estava no dentista, para extrair um dente de siso. Em outro local do salão de refeições, conversavam sobre a epidemia de gripe — uma enfermeira assistente de cirurgias e um médico estagiário no Departamento de Operações que trabalhava para Jay Strauss foram mandados de volta para casa, naquela manhã. Após quinze minutos, Perowne voltou ao trabalho. Enquanto Sally estava na sala vizinha abrindo, com uma broca, um furo no crânio de um velho, um supervisor de trânsito aposentado, para aliviar a pressão de um sangramento interno — um hematoma subdural crônico —, Perowne usava o equipamento mais recente do centro cirúrgico, um sistema computadorizado de direcionamento por imagem, a fim de ajudá-lo numa craniotomia para a ressecção de um glioma frontal posterior direito. Depois, deixou por conta de Rodney a abertura de mais um furo com a broca num subdural crônico.

O ápice da lista desse dia foi a retirada de um astrocitoma pilocítico de uma garota nigeriana de catorze anos, que morava em Brixton, com a tia e o tio, um vigário da Igreja Anglicana. O tumor era mais fácil de alcançar pela parte de trás da cabeça, por acesso infratentorial supracerebelar, com a paciente anestesiada em posição sentada. Isso, por sua vez, criava problemas especiais para Jay Strauss, pois havia a possibilidade de entrar ar numa veia, o que causaria embolia. Andrea Chapman era uma paciente problema, uma sobrinha problema. Chegara à Inglaterra aos doze anos — o consternado vigário e sua esposa mostraram a foto para Perowne —, uma garota baixinha, de vestido e de fitas no cabelo, com um sorriso tímido. Algo que a vida no campo, na zona rural do Norte da Nigéria, mantinha trancado dentro dela foi libertado, assim que ingressou na escola pública, em Brixton. Assimilou a música, as roupas, a fala, os valores — a rua. A moça tinha personalidade agressiva, admitiu o vigário, enquanto sua esposa tentava instalar a jovem na enfermaria. Sua sobrinha tomava drogas, bebia, roubava nas lojas, matava aula, detestava autoridade e "praguejava como um marujo da marinha mercante". Não seria o tumor que estava pressionando alguma parte do seu cérebro?

Perowne não podia proporcionar esse consolo. O tumor estava distante dos lobos frontais. Estava no fundo do vérmis cerebelar superior. Ela já sofrera dores de cabeça matinais, pontos cegos e ataxia — desequilíbrio. Tais sintomas não conseguiam dissipar a suspeita da garota de que seu estado era parte de um complô — o hospital, em conluio com os seus guardiões, a escola, a polícia — para reprimir suas noitadas nas boates. Poucas horas depois de internar-se, ela já estava em conflito com as enfermeiras, com a irmã de caridade e com uma paciente idosa que disse que não ia tolerar linguagem obscena. Perowne teve suas próprias dificuldades para explicar à jovem as agruras que a aguardavam. Mesmo quando Andrea não estava agitada, fingia falar como um cantor de rap na MTV, balançando a parte de cima do corpo, sentada na cama, fazendo movimentos circulares com a palma das mãos voltadas para baixo, acariciando o ar à sua frente, preparando-se para uma de suas explosões. Mas ele admirava o espírito da garota, os olhos escuros e ferozes, os dentes perfeitos e a desenvolta língua rosada, que açoitava a si mesma ao redor das palavras que formava. Ela sorria com júbilo, mesmo enquanto berrava numa fúria aparente, como se sentisse uma comichão ao ver de quanta coisa conseguia se safar sem ser punida. Coube a Jay Strauss, um americano com a cordialidade e a franqueza que ninguém mais podia reunir nesse hospital inglês, pôr a garota na linha.

A operação de Andrea durou cinco horas e correu bem. Ela foi posta em posição sentada, com o fixador de cabeça preso a um quadro à sua frente. Abrir a parte posterior da cabeça demandava um sério cuidado em razão dos vasos que passavam logo abaixo do osso. Rodney se debruçava ao lado de Perowne para irrigar a broca e cauterizar o sangramento com o bipolar. Por fim, ficou exposto, o tentório — a tenda —, uma delicada, pálida estrutura de beleza, como o pequeno rodopio de uma dançarina coberta por um véu, onde a dura-máter se une e se separa de novo. Abaixo, fica o cerebelo. Ao cortar com cuidado, Perowne deixou que a gravidade sozinha puxasse o cerebelo para baixo — não houve necessidade de retrator — e foi possível ver até o fundo da região onde fica a glândula pineal, com o tumor que se estendia numa vasta massa vermelha, bem à frente. O astrocitoma estava bem definido e só havia infiltrado parcialmente o tecido em torno. Perowne conseguiu cortar quase todo ele sem danificar nenhuma região importante.

Deixou Rodney manobrar o microscópio e o sugador por vários minutos e deixou-o fechar a paciente. Perowne fez, ele mesmo, o curativo da cabeça e, quando enfim saiu da sala de cirurgia, não estava nem um pouco cansado. Operar nunca o fatiga — atarefado no mundo enclausurado da sua equipe cirúrgica, do centro cirúrgico e de seus procedimentos ordenados, e absorto pelos contornos vívidos das imagens do microscópio cirúrgico, enquanto caminha pelo corredor rumo a um local determinado, ele experimenta uma capacidade sobre-humana, mais semelhante a uma vontade ardente, de trabalhar.

Quanto ao resto da semana, as duas manhãs de clínica não exigiram mais do que o costumeiro. Ele é experiente demais para ficar abalado com a diversidade de sofrimentos que encontra — seu dever é ser útil. As rondas pela enfermaria e as várias reuniões semanais tampouco o fatigam. Era o serviço burocrático da tarde de sexta-feira que o derrubava, o estoque de requerimentos e de respostas a requerimentos, a sinopse de duas palestras, cartas para colegas e para editores, uma avaliação inacabada do trabalho de um colega, contribuições para iniciativas da administração, a mudança que o governo promovera na estrutura da lei de Custódia, e ainda outros preparativos para aulas. É preciso dar uma nova fisionomia — sempre há uma nova fisionomia — ao Plano de Emergência do hospital. Simples desastres de trem não são mais tudo o que se deve esperar, e palavras como "catástrofe" e "morte violenta em massa", "guerra química e biológica" e "ataque em grande escala" se tornaram amenas, ultimamente, por conta da repetição. No ano anterior, ele se deu conta da multiplicação de comissões e subcomissões, e de cadeias de comando que se estendiam por todo o hospital e para além dele, para além das hierarquias médicas, ascendendo até remotos patamares do Serviço Público Civil e, daí, até o Ministério do Interior.

Perowne ditou de maneira monótona e, muito tempo depois de sua secretária ter ido para casa, ficou digitando ele mesmo em seu escritório superaquecido, e do tamanho de uma caixa, no terceiro andar do hospital. O que o atrasou foi uma estranha falta de fluência. Ele se orgulha da rapidez e do estilo polido e retorcido. Nunca precisa parar para pensar — digitar e conceber são uma coisa só. Agora, está titubeando. E, embora o jargão profissional não o tivesse abandonado — é a sua segunda natureza —, sua prosa se acumulava de modo canhestro. Palavras isoladas pareciam objetos difíceis de manejar — bicicletas, espreguiçadeiras dobráveis, ganchos de pendurar casaco —, espalhados em seu caminho. Compunha uma frase na cabeça e depois a perdia na página, ou digitava na direção de um beco gramatical sem saída e, para sair dali, tinha de suar. Nem parou para pensar se tal fraqueza era a causa ou a conseqüência do cansaço. Era teimoso e obrigou-se a ir até o fim. Às oito da noite, concluiu o último de uma série de e-mails e levantou-se de sua escrivaninha, onde ficara curvado desde as quatro horas. A caminho da saída, visitou seus pacientes no CTI. Não havia nenhum problema, e Andrea estava indo bem — dormia, e todos os seus sinais vitais eram bons. Menos de meia hora depois, ele tinha voltado para casa, estava na banheira e, logo depois, dormiu.


 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio