Sábado,
de Ian McEwan (tradução de Rubens Figueiredo; Companhia
das Letras; 336 páginas; 35 reais) Nesse romance indicado ao Booker
Prize, o neurocirurgião Henry Perowne acorda cedo e, pela janela, vê
um avião em chamas nos céus, o que julga ser um ato terrorista.
Depois de descobrir que fora só um incidente sem conseqüências,
ele retoma o curso normal de sua manhã de sábado até
que, ao sair de casa para jogar squash, ele se envolve numa batida de carro que
pode ter conseqüências graves. Seguindo seu personagem por 24 horas,
o inglês McEwan, autor de obras como Reparação, constrói
uma história rica de percepções e de meditação,
que aborda todos os aspectos da vida de um homem de meia-idade e tem a guerra
no Iraque como pano de fundo.
Leia
trecho Por
exemplo? Bem, por exemplo, o que significa ser um homem? Numa cidade. Num século.
Em transição. Em uma massa. Transformado pela ciência. Sob
o poder organizado. Sujeito a mecanismos de controle tremendos. Num estado decorrente
da mecanização. Após o último fracasso das esperanças
radicais. Numa sociedade que não era comunidade nenhuma e depreciava a
pessoa. Em virtude do multiplicado poder dos números, que tornavam a pessoa
desdenhável. Que consumia bilhões em despesas militares contra inimigos
externos, mas não gastava para ter ordem dentro de casa. O que abriu caminho
para a selvageria e a barbárie em suas próprias cidades grandes.
Ao mesmo tempo, a pressão de milhões de pessoas que descobriram
o que esforços e pensamentos unidos em comum acordo podem conquistar. Enquanto
megatoneladas de água formam organismos no fundo dos oceanos. Enquanto
as marés dão polimento às pedras. Enquanto os ventos escavam
os rochedos. A beleza da supermaquinaria descortina uma vida nova para a humanidade
inumerável. Você lhes negaria o direito de existir? Pediria a eles
que trabalhassem e passassem fome, enquanto você desfruta Valores antiquados?
Você — você mesmo é filho dessa massa e irmão de todo
o resto. Ou então é um ingrato, um diletante, um idiota. Pronto,
Herzog, pensou Herzog, já que você está pedindo um exemplo,
aí está como são as coisas. Saul
Bellow, Herzog, 1964 Capítulo
1 Algumas
horas antes do raiar do dia, Henry Perowne, um neurocirurgião, acorda e
já se vê em movimento, empurrando as cobertas para trás, sentado,
e logo se põe de pé. Não está claro, para ele, quando
exatamente voltou à consciência, nem isso parece relevante. Nunca
agiu assim antes, mas não está apreensivo, nem sequer ligeiramente
surpreso, pois o movimento é fácil e agradável para as suas
articulações, e sente uma força incomum nas costas e nas
pernas. Fica parado onde está, de pé, nu, junto à cama —
sempre dorme nu —, sente todo o seu porte ereto, ciente da respiração
serena da esposa e do ar de inverno do seu quarto em contato com a pele. Também
isso dá uma sensação agradável. Seu despertador de
cabeceira marca três e quarenta. Ele não tem idéia do que
está fazendo fora da cama: não tem nenhuma necessidade de se aliviar,
nem se sente perturbado por algum sonho ou por alguma coisa do dia anterior, nem
sequer pela situação geral do mundo. É como se, ali parado
no escuro, ele houvesse se materializado do nada, tivesse se formado por inteiro,
sem qualquer embaraço. Não se sente cansado, apesar da hora ou de
seus trabalhos recentes, nem tem a consciência abalada por algum caso recente.
De fato, está alerta e de mente vazia e inexplicavelmente animado. Sem
tomar decisão alguma, sem nenhuma motivação, começa
a mover-se rumo à janela mais próxima, das três que há
no seu quarto, e experimenta em seus passos tamanha naturalidade e leveza que,
de imediato, suspeita que está adormecido ou sonâmbulo. Se for isso,
ficará decepcionado. Sonhos não lhe interessam; a possibilidade
de que isso seja real é mais rica. E ele está inteiramente senhor
de si, tem certeza disso, e sabe que o sono ficou para trás: conhecer a
diferença entre isso e andar, conhecer a fronteira, é a essência
da sanidade. O
quarto é grande e bem arrumado. Enquanto desliza pelo quarto, com uma facilidade
quase cômica, a perspectiva de a experiência chegar ao fim lhe dá
uma tristeza súbita, em seguida a idéia desaparece. Ele está
junto à janela do centro, puxa para trás, com cuidado, as venezianas
altas, de madeira, de modo a não acordar Rosalind. Nisso, ele é
tanto egoísta quanto solícito. Não deseja que lhe perguntem
o que está acontecendo — que resposta poderia dar, e por que abrir mão
deste momento para tentar uma resposta? Abre a segunda veneziana, deixando que
ela toque sua concertina na dobradiça, e levanta silenciosamente a janela
de guilhotina. É muito mais alta do que ele, mas corre com facilidade para
cima, içada por seu oculto contrapeso de chumbo. A pele se enrijece quando
o ar de fevereiro se derrama à sua volta, mas ele não se sente incomodado
pelo frio. Do segundo andar, encara a noite, a cidade, em sua gélida luz
branca, as árvores esqueléticas na praça e, nove metros abaixo,
a cerca negra, com pontas de flecha, semelhante a uma fileira de lanças.
A temperatura é de um ou dois graus negativos e o ar está claro.
O brilho da iluminação da rua não encobriu inteiramente todas
as estrelas; acima da fachada do Regency, do outro lado da praça, pendem
restos de constelações no céu do sul. Essa fachada, em especial,
é uma reconstrução, um pastiche — o Fitzrovia dos tempos
da guerra levou umas bombas da Luftwaffe — e, bem na frente, fica a Torre dos
Correios, oficial e deprimente durante o dia, mas à noite semi-oculta e
iluminada com decência, um destemido monumento em honra a dias mais otimistas. E
agora, que dias são estes? Desconcertantes e assustadores, é como
ele os avalia, em geral, quando tira um tempo da sua jornada semanal para pensar.
Mas não sente isso, agora. Inclina-se para a frente, apóia seu peso
na palma das mãos sobre o peitoril, exultante com o vazio e a nitidez do
cenário. Sua visão — sempre boa — parece ter se aguçado.
Vê as pedras de malacacheta do calçamento cintilarem na praça
só de pedestres, os excrementos de pombo endurecidos pelo frio e pela distância,
de modo a ganharem um aspecto quase belo, como borrifos de neve. Ele gosta da
simetria dos postes negros de ferro fundido e de suas sombras, cada vez mais escuras,
e da treliça das sarjetas de paralelepípedo. As latas de lixo abarrotadas
sugerem antes fartura do que escassez; os bancos vazios dispostos ao redor dos
jardins circulares parecem aguardar com benevolência o seu trânsito
diário — multidões de alegres funcionários em intervalo de
almoço, os rapazes solenes e estudiosos da pensão indiana, amantes
em discretos arroubos ou crises, os traficantes de drogas no crepúsculo,
a velha senhora arruinada, com seus clamores desvairados e lancinantes. Vá
embora daqui! — ela vai gritar, horas a fio, e guinchar de modo estridente, semelhante
a um pássaro do pântano ou uma criatura do zoológico. Ali
parado, tão imune ao frio como uma estátua de mármore, olhando
na direção da rua Charlotte, na direção de uma inacabada
mixórdia de fachadas, andaimes e telhados inclinados, Henry acha que a
cidade é um sucesso, uma invenção genial, uma obra-prima
biológica — milhões de pessoas que formigam em torno das conquistas
de séculos, acumuladas e dispostas em camadas, como em redor de um recife
de coral, e dormem, trabalham, divertem-se, em harmonia, na maior parte das vezes,
e quase todas com o desejo de que dê certo. E a própria esquina de
Perowne, um triunfo da proporção congruente; a praça perfeita,
traçada por Robert Adam, que abarca um perfeito círculo de jardim
— um sonho do século XVIII, banhado e cingido pela modernidade, pela iluminação
da rua, por cima, e, por baixo, por cabos de fibra óptica e por água
doce e fria, que corre em canos subterrâneos, e pelo esgoto, levado para
longe, num instante de esquecimento. Observador
habitual de seus próprios estados de ânimo, ele se interroga sobre
essa euforia contínua e deformante. Talvez, no nível molecular,
tenha ocorrido um acidente químico enquanto ele dormia — algo como uma
bandeja de drinques derramada, o que forçou receptores da família
da dopamina a iniciar uma agradável cascata de fenômenos intracelulares;
ou é a perspectiva de um sábado, ou a conseqüência paradoxal
de uma fadiga extrema. É verdade, ele terminou a semana num estado de esgotamento
incomum. Voltou para casa e a encontrou vazia, deitou-se na banheira com um livro,
satisfeito por não ter de falar com ninguém. Fora sua filha Daisy,
intelectual até demais, que lhe enviara uma biografia de Darwin que, por
sua vez, tinha algo a ver com um romance de Conrad que ela queria que ele lesse,
e que ele ainda não havia começado — os afazeres de um marujo, por
mais moralmente fecundos que fossem, não tinham grande interesse para ele.
De alguns anos para cá, Daisy tem se dedicado ao que acredita ser a assombrosa
ignorância do pai, orienta a sua educação literária
e o repreende pelo gosto rasteiro e pela insensibilidade. Daisy tem certa razão
— direto do ensino médio para a faculdade de medicina e, daí, para
as horas de trabalho estafante do médico em início de carreira,
e logo em seguida a concentração total no aprendizado da neurocirurgia,
e ao mesmo tempo as obrigações de pai participante —, durante quinze
anos, ele mal tocou num livro que não fosse de medicina. De outro lado,
acha que viu o bastante de morte, de coragem, de medo e de sofrimento para abastecer
meia dúzia de literaturas. Mesmo assim, ele se sujeita às listas
de leitura da filha — é o seu meio de manter-se em contato enquanto ela
se afasta da família rumo a uma insondável vida de mulher adulta,
em um subúrbio de Paris; hoje à noite ela estará em casa
pela primeira vez em seis meses — outro motivo para a euforia. Ele
estava atrasado nas tarefas de Daisy. Enquanto controlava com o dedo do pé
a ocasional entrada de água quente na banheira, lia de maneira turva um
relato sobre o fervor de Darwin para concluir a redação de A
origem das espécies e um resumo das páginas de conclusão,
acrescentadas nas edições posteriores. Ao mesmo tempo, ouvia as
notícias no rádio. O imperturbável sr. Blix fizera mais um
discurso na ONU — havia a impressão geral de que ele demolira os argumentos
a favor da guerra. Em seguida, certo de que não havia assimilado absolutamente
nada, Perowne desligou o rádio, voltou às páginas anteriores
e releu. Às vezes, essa biografia lhe inspirava uma agradável nostalgia
de uma Inglaterra verdejante, amável, com veículos puxados a cavalo;
de outras vezes, sentia-se ligeiramente desolado ao ver como uma vida inteira
podia ser contida em poucas centenas de páginas — engarrafada, como chutney
feito em casa. E ao ver como uma existência podia facilmente desaparecer
completamente, com suas ambições, sua rede de familiares e de amigos,
tudo aquilo que ela tratava com mais carinho e que lhe pertencia da maneira mais
sólida. Mais tarde, estirou-se na cama para pensar no seu jantar e não
se lembrou de mais nada. Rosalind deve ter puxado as cobertas sobre ele, quando
chegou do serviço. Deve ter beijado o marido. Aos quarenta e oito anos
de idade, dormia profundamente às nove e meia de uma noite de sexta-feira
— isto é a vida profissional moderna. Ele trabalha muito, todos à
sua volta trabalham muito e, nessa semana, ele foi exigido mais ainda, por causa
de uma onda de gripe na equipe do hospital — sua lista de cirurgias foi duas vezes
maior do que o costume. Graças
a um bem dosado desdobramento em várias funções, ele conseguia
fazer uma cirurgia importante numa sala de operações, supervisionar
um médico estagiário em outra e ainda cumprir tarefas menores em
uma terceira. Ele instruía dois neurocirurgiões estagiários,
naquele momento — Sally Madden, que já estava quase habilitada e era plenamente
confiável, e um estagiário de dois anos, Rodney Browne, da Guiana,
talentoso, trabalhador, mas ainda inseguro. O consultor anestesista de Perowne,
Jay Strauss, tinha a sua própria estagiária, Gita Syal. Por três
dias, com Rodney sempre a seu lado, Perowne deslocou-se entre os três conjuntos
de salas — o ruído dos seus saltos no piso lustroso do corredor e os diversos
guinchos e grunhidos das portas de vaivém do centro cirúrgico soavam
como um acompanhamento orquestral. A lista da sexta-feira era típica. Enquanto
Sally fechava um paciente, Perowne seguiu para a sala vizinha, a fim de aliviar
uma velha senhora da sua neuralgia trigeminal, o seu tique douloureux.
Essas operações menores ainda conseguiam lhe dar prazer — ele gosta
de ser rápido e preciso. Introduziu o dedo indicador enluvado no fundo
da boca da velha senhora a fim de procurar o caminho, em seguida, com um olhar
muito rápido para o intensificador de imagem, introduziu uma agulha comprida
pelo lado de fora da bochecha da paciente, até alcançar o gânglio
trigeminal. Jay veio da sala ao lado para ver como Gita trazia a velha senhora
a um ligeiro estado de consciência. O estímulo elétrico da
ponta da agulha causou um formigamento no rosto dela e, depois que ela confirmou,
de modo sonolento, que a posição estava certa — Perowne havia acertado
na primeira tentativa —, ela foi posta para dormir de novo, enquanto o nervo era
"cozido" por meio de termocoagulação por ondas de rádio.
O truque sutil consistia em eliminar a sua dor enquanto permitiam que a paciente
tivesse a consciência de um leve toque — tudo feito em quinze minutos; três
anos de sofrimento, de dor aguda e lancinante, estavam terminados. Ele
bloqueou o gargalo de um aneurisma na artéria cerebral média — era
um verdadeiro mestre nessa arte — e fez a biópsia de um tumor no tálamo,
região onde não é possível operar. O paciente, agora,
era um tenista profissional de vinte e oito anos de idade, que já sofria
aguda perda de memória. Quando Perowne retirou a agulha das profundezas
do cérebro, pôde ver, num relance, que o tecido era anormal. Tinha
pouca esperança na radioterapia e na quimioterapia. A confirmação
veio num comunicado verbal do laboratório e, nessa mesma tarde, ele deu
a notícia aos pais idosos do jovem paciente. O
caso seguinte era uma craniotomia para um meningioma numa paciente de cinqüenta
e três anos de idade, diretora de uma escola primária. O tumor se
alojava acima da camada motora, estava definido com nitidez e foi-se embora completamente,
ante a sondagem do seu dissector Rhoton — um processo curativo total. Sally fechou
essa paciente enquanto Perowne se dirigiu para a sala vizinha, a fim de cuidar
de uma laminectomia lombar em vários níveis, num paciente obeso
de quarenta e quatro anos, um jardineiro que trabalhava no Hyde Park. Ele abriu
dez centímetros de gordura subcutânea, antes de conseguir expor as
vértebras, e o homem, para dificultar ainda mais, oscilava sobre a mesa
de operações toda vez que Perowne fazia uma pressão de cima
para baixo, a fim de aparar o osso. Para
um velho amigo, um especialista em nariz, ouvido e garganta, Perowne abriu a cavidade
auricular de um menino de sete anos — é engraçado como esses otorrinos
têm medo de abrir seus próprios acessos difíceis. Perowne
fez uma grande dobra retangular no osso, por trás do ouvido, o que lhe
tomou não menos de uma hora, irritando Jay Strauss, que queria acelerar
a lista de cirurgias da sua própria equipe. Por fim, o tumor ficou exposto
ao microscópio cirúrgico — um pequeno neuroma acústico, alojado
a apenas três milímetros da cóclea. Deixando que o seu amigo
especialista fizesse ele mesmo a excisão, Perowne seguiu célere
para mais um procedimento cirúrgico menor, que por sua vez lhe trouxe certa
irritação — uma jovem espalhafatosa, com maneiras habitualmente
exaltadas, queria que o seu estimulador raquidiano fosse virado para a frente.
Ainda no mês anterior, ele o havia virado para trás, depois que ela
reclamara que daquele jeito era desconfortável sentar. Agora, ela dizia
que o estimulador não deixava que ela deitasse na cama. Ele fez uma longa
incisão no abdômen da paciente e perdeu um tempo precioso, com os
antebraços metidos até o cotovelo dentro dela, procurando o fio
da bateria. Tinha certeza de que a paciente voltaria a ele, em pouco tempo. No
almoço, comeu atum industrializado e um sanduíche de pepino com
uma garrafa de água mineral. Na cafeteria lotada, onde a torrada e a massa
feita em forno de microondas sempre lhe traziam à memória os odores
das principais salas de cirurgia, sentou-se ao lado de Heather, a querida sra.
Cockney que ajuda a limpar as salas de cirurgia entre as operações.
Ela lhe fez um relato da prisão do seu genro, por roubo com porte de arma,
depois de ter sido erradamente apontado numa fila de reconhecimento na delegacia.
Mas o álibi dele era perfeito — na hora do crime, estava no dentista, para
extrair um dente de siso. Em outro local do salão de refeições,
conversavam sobre a epidemia de gripe — uma enfermeira assistente de cirurgias
e um médico estagiário no Departamento de Operações
que trabalhava para Jay Strauss foram mandados de volta para casa, naquela manhã.
Após quinze minutos, Perowne voltou ao trabalho. Enquanto Sally estava
na sala vizinha abrindo, com uma broca, um furo no crânio de um velho, um
supervisor de trânsito aposentado, para aliviar a pressão de um sangramento
interno — um hematoma subdural crônico —, Perowne usava o equipamento mais
recente do centro cirúrgico, um sistema computadorizado de direcionamento
por imagem, a fim de ajudá-lo numa craniotomia para a ressecção
de um glioma frontal posterior direito. Depois, deixou por conta de Rodney a abertura
de mais um furo com a broca num subdural crônico. O
ápice da lista desse dia foi a retirada de um astrocitoma pilocítico
de uma garota nigeriana de catorze anos, que morava em Brixton, com a tia e o
tio, um vigário da Igreja Anglicana. O tumor era mais fácil de alcançar
pela parte de trás da cabeça, por acesso infratentorial supracerebelar,
com a paciente anestesiada em posição sentada. Isso, por sua vez,
criava problemas especiais para Jay Strauss, pois havia a possibilidade de entrar
ar numa veia, o que causaria embolia. Andrea Chapman era uma paciente problema,
uma sobrinha problema. Chegara à Inglaterra aos doze anos — o consternado
vigário e sua esposa mostraram a foto para Perowne —, uma garota baixinha,
de vestido e de fitas no cabelo, com um sorriso tímido. Algo que a vida
no campo, na zona rural do Norte da Nigéria, mantinha trancado dentro dela
foi libertado, assim que ingressou na escola pública, em Brixton. Assimilou
a música, as roupas, a fala, os valores — a rua. A moça tinha personalidade
agressiva, admitiu o vigário, enquanto sua esposa tentava instalar a jovem
na enfermaria. Sua sobrinha tomava drogas, bebia, roubava nas lojas, matava aula,
detestava autoridade e "praguejava como um marujo da marinha mercante".
Não seria o tumor que estava pressionando alguma parte do seu cérebro? Perowne
não podia proporcionar esse consolo. O tumor estava distante dos lobos
frontais. Estava no fundo do vérmis cerebelar superior. Ela já sofrera
dores de cabeça matinais, pontos cegos e ataxia — desequilíbrio.
Tais sintomas não conseguiam dissipar a suspeita da garota de que seu estado
era parte de um complô — o hospital, em conluio com os seus guardiões,
a escola, a polícia — para reprimir suas noitadas nas boates. Poucas horas
depois de internar-se, ela já estava em conflito com as enfermeiras, com
a irmã de caridade e com uma paciente idosa que disse que não ia
tolerar linguagem obscena. Perowne teve suas próprias dificuldades para
explicar à jovem as agruras que a aguardavam. Mesmo quando Andrea não
estava agitada, fingia falar como um cantor de rap na MTV, balançando
a parte de cima do corpo, sentada na cama, fazendo movimentos circulares com a
palma das mãos voltadas para baixo, acariciando o ar à sua frente,
preparando-se para uma de suas explosões. Mas ele admirava o espírito
da garota, os olhos escuros e ferozes, os dentes perfeitos e a desenvolta língua
rosada, que açoitava a si mesma ao redor das palavras que formava. Ela
sorria com júbilo, mesmo enquanto berrava numa fúria aparente, como
se sentisse uma comichão ao ver de quanta coisa conseguia se safar sem
ser punida. Coube a Jay Strauss, um americano com a cordialidade e a franqueza
que ninguém mais podia reunir nesse hospital inglês, pôr a
garota na linha. A
operação de Andrea durou cinco horas e correu bem. Ela foi posta
em posição sentada, com o fixador de cabeça preso a um quadro
à sua frente. Abrir a parte posterior da cabeça demandava um sério
cuidado em razão dos vasos que passavam logo abaixo do osso. Rodney se
debruçava ao lado de Perowne para irrigar a broca e cauterizar o sangramento
com o bipolar. Por fim, ficou exposto, o tentório — a tenda —, uma delicada,
pálida estrutura de beleza, como o pequeno rodopio de uma dançarina
coberta por um véu, onde a dura-máter se une e se separa de novo.
Abaixo, fica o cerebelo. Ao cortar com cuidado, Perowne deixou que a gravidade
sozinha puxasse o cerebelo para baixo — não houve necessidade de retrator
— e foi possível ver até o fundo da região onde fica a glândula
pineal, com o tumor que se estendia numa vasta massa vermelha, bem à frente.
O astrocitoma estava bem definido e só havia infiltrado parcialmente o
tecido em torno. Perowne conseguiu cortar quase todo ele sem danificar nenhuma
região importante. Deixou
Rodney manobrar o microscópio e o sugador por vários minutos e deixou-o
fechar a paciente. Perowne fez, ele mesmo, o curativo da cabeça e, quando
enfim saiu da sala de cirurgia, não estava nem um pouco cansado. Operar
nunca o fatiga — atarefado no mundo enclausurado da sua equipe cirúrgica,
do centro cirúrgico e de seus procedimentos ordenados, e absorto pelos
contornos vívidos das imagens do microscópio cirúrgico, enquanto
caminha pelo corredor rumo a um local determinado, ele experimenta uma capacidade
sobre-humana, mais semelhante a uma vontade ardente, de trabalhar. Quanto
ao resto da semana, as duas manhãs de clínica não exigiram
mais do que o costumeiro. Ele é experiente demais para ficar abalado com
a diversidade de sofrimentos que encontra — seu dever é ser útil.
As rondas pela enfermaria e as várias reuniões semanais tampouco
o fatigam. Era o serviço burocrático da tarde de sexta-feira que
o derrubava, o estoque de requerimentos e de respostas a requerimentos, a sinopse
de duas palestras, cartas para colegas e para editores, uma avaliação
inacabada do trabalho de um colega, contribuições para iniciativas
da administração, a mudança que o governo promovera na estrutura
da lei de Custódia, e ainda outros preparativos para aulas. É preciso
dar uma nova fisionomia — sempre há uma nova fisionomia — ao Plano de Emergência
do hospital. Simples desastres de trem não são mais tudo o que se
deve esperar, e palavras como "catástrofe" e "morte violenta
em massa", "guerra química e biológica" e "ataque
em grande escala" se tornaram amenas, ultimamente, por conta da repetição.
No ano anterior, ele se deu conta da multiplicação de comissões
e subcomissões, e de cadeias de comando que se estendiam por todo o hospital
e para além dele, para além das hierarquias médicas, ascendendo
até remotos patamares do Serviço Público Civil e, daí,
até o Ministério do Interior. Perowne
ditou de maneira monótona e, muito tempo depois de sua secretária
ter ido para casa, ficou digitando ele mesmo em seu escritório superaquecido,
e do tamanho de uma caixa, no terceiro andar do hospital. O que o atrasou foi
uma estranha falta de fluência. Ele se orgulha da rapidez e do estilo polido
e retorcido. Nunca precisa parar para pensar — digitar e conceber são uma
coisa só. Agora, está titubeando. E, embora o jargão profissional
não o tivesse abandonado — é a sua segunda natureza —, sua prosa
se acumulava de modo canhestro. Palavras isoladas pareciam objetos difíceis
de manejar — bicicletas, espreguiçadeiras dobráveis, ganchos de
pendurar casaco —, espalhados em seu caminho. Compunha uma frase na cabeça
e depois a perdia na página, ou digitava na direção de um
beco gramatical sem saída e, para sair dali, tinha de suar. Nem parou para
pensar se tal fraqueza era a causa ou a conseqüência do cansaço.
Era teimoso e obrigou-se a ir até o fim. Às oito da noite, concluiu
o último de uma série de e-mails e levantou-se de sua escrivaninha,
onde ficara curvado desde as quatro horas. A caminho da saída, visitou
seus pacientes no CTI. Não havia nenhum problema, e Andrea estava indo
bem — dormia, e todos os seus sinais vitais eram bons. Menos de meia hora depois,
ele tinha voltado para casa, estava na banheira e, logo depois, dormiu. |