Contos
para Ler na Cama, Contos para Ler em Viagem e
Contos para Ler Ouvindo Música, de vários autores
(Record; 139, 125 e 167 páginas; 26,90 reais cada volume) Um dos
maiores talentos surgidos na literatura brasileira nos últimos anos, o
paranaense Miguel Sanches Neto teve uma idéia original ao organizar essas
antologias. A coleção sugere leituras que combinam com atividades
cotidianas e seus textos guardam relação estreita com os
temas de cada livro. O mote de Contos para Ler na Cama, que inclui autores
como o baiano João Ubaldo Ribeiro e o mineiro Rubem Fonseca, é o
erotismo. Contos para Ler em Viagem e Contos para Ler Ouvindo Música
cujos títulos são auto-explicativos reúnem
desde o carioca Sérgio Sant'Anna até o gaúcho Luis Fernando
Verissimo.
Leia
trecho Mi
Buenos Aires querido Cíntia Moscovich Talvez
uma das vistas mais encantadoras para quem chega seja a que se tem onde as avenidas
Santa Fé e 9 de Julio se beijam. A 9 de Julio, la más ancha del
mundo, deve ser atravessada em três estágios, com pausas junto aos
semáforos instalados nos canteiros centrais, deixando passar o corso de
carros e ônibus. Nas épocas de infância, quando meu pai reunia
toda a família para visitar la gran ciudad, atravessar a 9 de Julio equivalia
a ter acesso às delícias da confeitaria Jockey Club e a testemunhar
procissões de Ford Falcon. Todos rotos. Por razões obscuras, as
mesmas que fazem, ainda hoje, rodar os Falcons, houve-se por bem batizar com nomes
distintos as duas pistas que correm flanqueando o leito principal da avenida 9
de Julio: a Carlos Pellegrini, de um lado e, em oposição, a Cerrito.
Os três estágios que devem ser obedecidos pelos pedestres correspondem,
por força de lógica, a estas divisões mui arbitrárias
ou que, contam os mais velhos, corresponderiam aos antigos nomes de ruas que ali
existiam e cujos prédios foram aniquilados para facilitar o escoamento
da civilização. Quien lo puede decir? Para o visitante, o melhor
é considerar o conjunto como um todo homogêneo e perigoso. A avenida
9 de Julio, a que tem nome e dois sobrenomes. A mais larga do mundo. Como
o ônibus vinha pela avenida de comércio caro e, sobretudo, de prédios
veneráveis que é a Santa Fé, dei meia-volta e enterrei os
olhos na janela, me preparando para o momento nervoso e urgente. As duas noivas
beijaram-se e o obelisco da 9 de Julio, para festejar, apareceu em fulgor branco
no fundo para, logo depois, se esfumar numa imagem varrida. Um beijo roubado.
A familiaridade com a concupiscência dessas ruas e avenidas sempre me foi
essencial para entender a alma portenha. E a familiaridade com a concupiscência
de seus habitantes também. Naquela
semana não haveria nem tempo nem ânimo para as incursões turísticas.
Portanto, tratei de me contentar com a visão do encontro amoroso a que
tivera direito na chegada e a me dedicar em tempo integral ao curso ministrado
na Faculdade de Medicina. Era uma terça-feira, e eu já havia passado
o dia inteiro com pipetas, tubos de ensaio, bicos de Bunsen, microscópios,
um computador meio maluco e um lio de prosódias. Tudo o que eu mais desejava
era um bife de chorizo com papas naturales na parilla al carbón perto do
hotel. Ai, que eu me morria por um bife de chorizo, a posta de carne alta, contornada
por uma faixa de gordura, as marcas da grelha barradas a fogo. Todas as pessoas
que trabalharam até aquela hora no departamento de microbiologia estavam
exaustas, e o maior desgaste fora causado, sem dúvida, pelas três
línguas faladas no decorrer do dia — o português, o espanhol e o
derivado capenga dessas duas, o portunhol. As duas colegas brasileiras que estavam
comigo e tentavam se fazer entender naquilo de pedir un-pueco-de-cueca-cuela-en-un-cuepo
tinham outros planos. Queriam porque queriam assistir a um show de tango. Elas
que me perdoassem, mas show de tango só dali a vinte encarnações.
As duas podiam ir, havia, por baixo, umas trinta casas de espetáculos,
podiam pegar um táxi, podiam contratar os serviços de guia-leva-e-traz,
podiam fazer o que quisessem e o que bem lhes aprouvesse. Eu é que não
ia. — Mas
nós não falamos espanhol — argumentou uma delas. E
alguém precisava falar espanhol para ir a um show de tango? Tentei explicar
que não havia mistério, os táxis eram confiáveis,
os serviços de transporte das casas noturnas eram eficientes. Tudo se pode
fazer em Buenos Aires, desde que com cuidado. Como em qualquer capital. O que
não se pode, por exemplo, é fazer o cooper às duas da manhã
nos bosques de Palermo, como não se pode fazer o mesmo no Parcão
em Porto Alegre, no Parque Ibirapuera em São Paulo, no Central Park em
Nova York ou no Bois de Boulogne em Paris. Expliquei e expliquei. Mesmo diante
da argumentação além-fronteiras, que surpreendeu até
a mim, as duas me assaltaram com a mais baixa das extorsões: — E
o prazer da companhia? Foi
o tempo de um banho e lá estávamos dentro do táxi, rumo a
Santelmo. Havia me instalado no banco dianteiro, ao lado do motorista, e, assim,
pude acompanhar o trajeto com atenção, desde a frente do hotel,
na Maipu. O carro negro-amarillo nos afastava das cercanias da Córdoba,
da Lavalle e da Corrientes, deixando para trás, sem alarde, as zonas mais
familiares. Ninguém ignora que o Sul principia do outro lado da Rivadavia.
As duas moças desconsideraram aquela fronteira mágica, instituída
pela fantasia, e, sem aviso, entramos todos no Sur, o secreto miolo de Buenos
Aires, que não tem nada a ver com o centro pomposo mostrado aos turistas. La
Ventana, a janela. Logo à entrada, o cartaz anunciava la prestigiosa cantante
Maria del Carmen con su voz maravillosa. Eu, que herdei de meu pai a certeza de
que depois de Virginia Luque tudo o mais era boludez, me dispus a pagar para ver.
Não falei nada para as companheiras, mesmo porque elas nem olharam o cartel.
Jantamos alguma coisa insossa, bem cobrada, era certo. A garrafa de vinho ainda
ficou na mesa. Observei a turistada com as roupas habituais e com o falatório
em tom de berreiro. Todos esperavam o espetáculo. Por achar oco o propósito,
não avisei às minhas amigas que a maior atração ainda
acontecia nas mesas da platéia. Bocejei justo quando os movimentos do palco
se iniciaram. O
primeiro a tomar lugar foi o bandoneonista, um sujeito de idade vaga mas ao qual,
com certa margem de acerto, pude atribuir uns trinta anos de tango. Vieram o violinista
e o pianista, todos com a mesma idade imprecisa, todos com ternos pretos, camisas
brancas, gravatas encarnadas, os cabelos abotoados de gomalina e verniz nos sapatos
de bico fino. Cada um, a seu tempo, saudou o público com uma reverência
curta e cansada. O pianista, depois dum rodopio na banqueta, instalou os dedos
sobre as teclas. O violinista escorou o queixo na preciosa caixa de madeira, tomou
o arco e encostou-o nas cordas. Todos no aguardo de alguma senha secreta. O bandoneonista
colocou um trapo sobre a perna e apoiou ali o fole, calçando o punho esquerdo
na correia junto aos botões. Com a mão oposta, acompanhada de um
meneio de cabeça — a senha secreta que nem tão secreta era —, convidou
os parceiros para o tango. O pé direito dele e do violinista marcaram o
compasso binário. O bandoneón soprou, enchendo a sala de plangência.
Reconheci os três acordes iniciais: Mi Buenos Aires Querido. Ah,
depois de Virginia Luque, quem se atreveria? Maria
del Carmen entrou no pequeno palco agarrada ao microfone, demorando-se, como convinha,
nos is de mi e de querido. Foi no i de querido que consegui
apreciá-la melhor. A sílaba se alongou num falsete que, confesso,
como quase tudo confessarei, me atou os sentidos. O piano e o bandoneón
tremeram em novo pranto, seguidos com rigor pelo violino, e os três prepararam
um colchão para que Maria del Carmen se esbaldasse. Cuando yo te vuelva
a ver, e colocou-se, finalmente, na marcação de honra, no meio
do palco, lambida pelo facho de luz. O fôlego se me foi, a vida se me veio,
e pensei que aquela deusa nascera para os trinados. Os cabelos nigérrimos
presos por um largo pente, o vestido escarlate escorregando pelo corpo esbelto,
as pernas de pura carne entrevistas nas largas fendas laterais, cobertas pelo
sutil das meias negras, os pés arrematados por sapatos de tacos altos.
El farolito de la calle en que naci fue sentinela de sus promesas de amor.
A mão direita empunhava o microfone junto à boca, a mão esquerda
se espalmava, dramática, perto do rosto. Preciosa, escorregando pelo palco,
chibatando o ar com o fio do microfone, revolvendo a dor portenha de todos os
tempos. No habrá más penas ni olvido. Outra vez, o i de olvido
se perpetuou e, quando o ar se esgotou, largou os dois braços na frente
do corpo e dobrou-se ao meio, antecipando o agradecimento às palmas que
viriam. A platéia aplaudiu. Não contive o impulso e me pus de pé,
bradando minha admiração: — Bravo,
Carmencita! Carmencita
procurou, com a mão em pala para se proteger do holofote, a fonte de tão
calorosa saudação. Estiquei os dois braços e ofereci minha
minúscula e solitária ovação. As duas colegas me puxaram
de volta para a cadeira, o que eu estava pensando?, e que intimidade era aquela
com a cantora? Me servi do vinho. As duas não sabiam que estávamos
no Sur, tierra querida, ancestral de todas as paixões. As duas não
entendiam mais do que protozoários num microscópio. A virtuose
sussurrou buenas noches no microfone e apresentou os companheiros da típica.
Eu não conseguia tirar os olhos daquela diva e, muito menos, a mão
do copo. Carmencita, Carmencita. Uma vez mais, um facho de luz, agora amarelo,
dourou a cantante. Las tardecitas de Buenos Aires tienen ese que se yo, viste?
Não, ela não faria isso, depois de Amelita Baltar, quem mais cantaria
a Balada para un loco? Salgo de casa por Arenales, lo de siempre en
la calle y en mi. Sim, ela se atirava na balada, trapezista em salto mortal
sem rede e a única segurança que lhe cabia era a queixa do bandoneón.
Piazzollava. Cheguei a me esquecer do vinho e me embebedei dela. Mais quatro números
e se curvava com mesura, dividindo os aplausos com os músicos. Não
me levantei com medo do reproche das minhas amigas, se bem que, tinha certeza,
Carmencita merecia um outro bravo que eu pudesse lhe dar. As luzes se acenderam
para que os trabalhos da cozinha não cessassem. Não acreditei quando
a vi caminhando em minha direção. — Me
vas a invitar a una copa? Claro
que eu lhe pagava uma bebida, barris, tonéis do que ela quisesse. Fez sinal
com a mão branca, apontando para a garrafa de vinho. Providenciei outra
cadeira, outro cálice e outra garrafa, sob o olhar de estupefação
de minhas companheiras. Carmencita sentou-se a meu lado, acendeu um cigarro e
debruçou os grandes peitos sobre a mesa, soltando uma baforada em minha
direção. Desviei o olhar do decote, fingindo que me esquivava da
fumaça. Puxei assunto, disse-lhe o quanto eu e minhas colegas havíamos
desfrutado. Muchíssimas gracias, ela respondeu, como se estivesse acostumada
a lisonjas. E, como eu necessitasse conversar, contei a Carmencita — eu podia
chamá-la assim, não podia? — do curso que estava fazendo, da minha
paixão pelos bonairenses e, principalmente, como eu me impressionara pelo
que ouvira. Ela, modesta, disse que era uma tontería compará-la
a Virginia Luque ou a Amelita Baltar. Ah, mas eu sabia que nem Virginia, nem Amelita,
nem Libertad, nem Eladia, nem ninguém tinha aquela fúria no olhar.
Solamente Carmencita. A
casa já se esvaziara e os garçons retiravam os restos da noite.
Minhas colegas insistiram para que fôssemos embora. Será que elas
não repararam que eu estava conversando com Carmencita? E daí que
o curso continuaria no dia seguinte? Elas podiam ir, havia uma fila de táxis
do lado de fora, eu garantia. As duas, que não entenderam o meu interesse
pela tangueira, resignaram-se e foram tentar um táxi no olho da rua e,
bons céus, longe de mim. Ficamos eu e Carmencita. Un ratito más
e tenemos que irnos, aconselhou, secando a terceira garrafa de vinho. Sim, eu
concordei, ficaríamos só um pouco mais. O pouco mais passou como
passa o tempo para os encantados. Assim, ela me convidou a tomar um café
com medias lunas. O
cortado no bolicho justo ao lado me refez do leve mareio. Ela compensou o desgaste
do espetáculo com dois pedaços de fainá, aqueles expostos
sobre o balcão, e mais um copo de vinho. Até as deusas tinham de
comer, ponderei, e, assim, não me importei com a ferocidade com que ela
se entregou à ceia. Fiz questão de pagar, enquanto Carmencita retocava
o batom no caballeros. O damas tinha o aviso de no funciona.
Saímos. Carmencita me conduzia pelas ruelas. O frio que vinha de todos
os cantos era quase insuportável e ela me abraçou, oferecendo abrigo.
Eu perdera a noção das horas, mas o claro cinzento do dia já
se anunciava. Chegamos ao portão de uma casa, velha como são as
casas do Sur. Sim, eu queria entrar. Mal fechou a porta e veio para um beijo,
me tragando na mesma volúpia com que castigava os mordentes. E, com a mesma
paixão com que entoava o tango, com a mesma lascívia das coxas no
bailado, com a mesma sofreguidão dos gestos junto ao rosto, com a mesma
luxúria da boca encarnada ao microfone, Carmencita me fez amor. Ela era
tudo o que seus olhos prometiam. No
dia seguinte, me atrasei para o curso. Minhas colegas queriam saber o que havia
acontecido. Não contei, não contaria jamás. Las tardecitas
de Buenos Aires tienen ese que se yo, viste? E, assim, às seis da tardinha,
saí correndo da faculdade, peguei o metrô e desci na 9 de Julio com
a Corrientes, ali, bem ali, na esquina zero. Caminhei, voei, do obelisco até
a Santa Fé, preferindo o lado da Carlos Pellegrini. Mais do que nunca em
minha vida, amei Buenos Aires e aquelas cercanias desesperadas, com a certeza
de que a cidade e seus pontos cardeais ensandecidos eram o centro de algum universo,
aquele que só então eu descobria. Na esquina onde as duas avenidas
se beijam, lá estava ela, hermosa, os cabelos revoando na sudestada, o
corpo oculto por um tapado gris. Ela correu para mim e reprisamos o beijo que
se dão as duas avenidas de meus encantos. A
9 de Julio se deitou febril para nossa marcha e, na esquina com a Lavalle, a confeitaria
Jockey Club nos lançou um olhar lúbrico. Apertei mais forte a mão
de Carmencita e atravessamos a 9 de Julio, parando, com cuidado, junto aos semáforos.
Ao fim, nos sentamos no Tortoni e pedimos dois cortados. Carmencita
de frente para mim e, às suas costas, a Rivadavia. |