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O
Dia em que Getúlio Matou Allende e Outras Novelas do Poder,
de
Flávio Tavares (Record; 336 páginas; 41,90 reais)
Apesar da palavra "novela" no título, este não
é um livro de ficção, mas uma coletânea
de memórias jornalísticas. O jornalista gaúcho
Flávio Tavares traça o perfil de várias figuras
históricas do século XX, como Getúlio Vargas,
Juan Perón, Salvador Allende, Che Guevara e Charles de Gaulle.
Tavares lembra os encontros que teve com alguns desses personagens.
Ou conta o que soube deles por outras fontes como um soldado
que participou da "caçada" a Che Guevara na Bolívia.
O autor narra suas histórias com certa liberdade ficcional.
Chega até a revelar os pensamentos que Getúlio Vargas
teria tido antes de cometer o suicídio.
Leia
trecho
Capítulo
I
O ESPELHO
1
Nunca
consegui pronunciar direito o nome dessa avenida de Xangai que naquele
setembro de 1954 estava repleta de bicicletas-táxi, nas quais
um chinês de calças curtas bordeando as canelas pedalava
sem cessar, com fôlego de tigre, puxando um carrinho para
transportar passageiros - um de cada vez - de um lado a outro da
cidade imensa. Há muito haviam sido abolidos os veículos
de tração humana - símbolo urbano da velha
China feudal - nos quais um homem corria em carreira, como um cavalo,
para transportar outro homem puxando uma carrocinha. Agora, no quinto
ano da revolução comunista, aqueles homens-mulas -
os coolies - tinham desaparecido, e essa versão humanizada
(ou bicicleteada) que substituía o antigo rick-sha, dava
às ruas o aspecto de um imenso formigueiro movido a pedais.
Nessa
Xangai, então a cidade mais populosa do mundo, as calçadas
eram marés de gente ordenadamente indo e vindo às
pressas, mas sem qualquer encontrão, sem que ninguém
esbarrasse em ninguém, numa avalanche humana que nos desviava
o interesse de todas as outras coisas e tornava difícil decorar
nomes de ruas ou, até mesmo, observar aqueles edifícios
altos construídos pelos ingleses no estilo dos arranha-céus
de Nova York dos anos 30. Lembro-me, no entanto, até hoje,
do borborinho e da cara de surpresa e susto que provoquei ao meu
redor, na calçada atopetada de gente, quando gritei alto,
duas ou três vezes seguidas:
-
Senador! Ei, senador, senador!
Na
China não se grita, muito menos numa língua estranha,
e centenas ou milhares de pessoas viraram-se em minha direção
indagando-me com o espanto do rosto. Era como se a China Popular
inteira me encurralasse ali, apenas por eu ter pronunciado três
palavras num idioma que eles não entendiam e com um som que
eles não identificavam ou até jamais haviam ouvido.
Aglomerados e misturados entre si, aqueles chineses pareciam iguais,
saídos todos de um mesmo ventre, e, além disso, se
vestiam da mesma forma: homens e mulheres de túnicas e calças
compridas em brim azul-celeste, as cores das próprias nuvens
caminhantes sobre a Porta da Paz Celestial que nós tínhamos
conhecido em Pequim dias antes. Cada um era o espelho do outro e,
ao serem centenas ou milhares, pareciam milhões.
Compreendi,
então, que - frente àquele turbilhão informe
- teria de gritar de novo até mesmo para me desvencilhar
do próprio espanto ou para vencer a perplexa multidão
na rua. Alonguei a frase e repeti ainda mais alto:
-
Senador, senador do Chile!
Creio
que a expressão "Chile" o fez despertar, porque,
só então, o casal estancou o passo lá adiante
na calçada e, surpreso ou inquieto no início, logo
sorridente, o homem abriu os braços enquanto a mulher permanecia
imóvel, petrificada pelo inesperado.
-
Compañero brasileño, qué sorpresa! - gritou
em resposta Salvador Allende, que naquele 1954 beirava os 46 anos
de idade.
Dias
antes, eu o havia conhecido na refeição da manhã
no hotel em Pequim, naquela babel de idiomas estranhos - árabe,
hindi, vietnamita, javanês, tcheco, alemão, russo,
sueco ou inglês - em que ouvir espanhol ou francês já
nos identificava como parentes próximos, quase irmãos.
O idioma espanhol deu-nos uma intimidade imediata em meio àqueles
sons extravagantes, desconhecidos ou distantes. E nos fez próximos.
Ser
entendido e poder entender aproxima até mesmo na casa paterna,
quanto mais na China da metade do século XX, onde a língua
local nos condenava a um isolamento e a uma incompreensão
que nem os gestos educados e o sorriso dos seus habitantes tinham
condições de superar. Quando um chinês nos sorria
era possível entendê-lo em profundidade, tal qual quando
se escondia ou fugia de nós. Mas quando algum deles nos dizia
qualquer coisa, não sabíamos se indagava ou afagava
ou protestava. Os intérpretes (jovens chineses que falavam
perfeitamente o francês e o inglês) eram impecáveis
e salvavam sempre as situações, até mesmo as
mais embaraçosas, mas falar através deles era uma
forma distante e indireta de estabelecer contacto. Tudo virava postiço,
a naturalidade se perdia e o diálogo deixava de existir,
pois sem o dinamismo da pergunta e resposta, tudo se assemelhava
a um monólogo a dois.
2
A
mesma compreensão idiomática, que até hoje
sela a amizade fácil dos turistas da mesma língua
que se conhecem no estrangeiro e se fazem íntimos em dois
minutos, abriu-nos as portas com Allende. Ele também estava
isolado pelo idioma e nos necessitava tanto quanto nós o
necessitávamos para sentir-se livre do educado jugo lingüístico
dos intérpretes. Salvador Allende Gossens era o vice-presidente
do Senado do Chile e, ainda mais loquaz que sua mulher, dona Horten-sia,
já no primeiro encontro conversou muito e perguntou pouco.
Afinal, ele era senador socialista, um político, há
dois meses percorria a China, num programa destinado a autoridades,
e pouco teria a ser informado por mim ou pelos outros fedelhos de
apenas 20 anos de idade, como eu, que lá estávamos
como estudantes, por sermos "líderes estudantis",
convidados para as festas do 5° aniversário da Revolução
Chinesa, a 1° de outubro, dali a uns dias.
Mais
para ser gentil do que, de fato, por interessar-se, perguntou sobre
o que havia ocorrido exatamente no Rio de Janeiro dias antes, no
final de agosto, quando o Brasil estivera nas manchetes dos jornais
pelos quatro cantos do mundo. Ele soubera apenas fragmentos difusos
e, em verdade, nada havia entendido, pois estava no norte da China
e os intérpretes lhe haviam lido jornais regionais, parcos
em notícias da distante América Latina, que apenas
mencionavam sobre "morte e conflito político no Brasil".
-
O Presidente Getúlio Vargas suicidou-se com um tiro no coração,
em pleno palácio, no fragor de uma crise política
- expliquei, contando-lhe o pouco que sabia da tragédia daquela
manhã de 24 de agosto no Rio, lido em Moscou no Izvestia
e no Pravda, mas que era uma torrente comparado ao parcimonioso
quase-nada divulgado nos jornais chineses. E lhe recheei o apetite
falando sobre o governo de Getúlio, dando-lhe minha versão
sobre quem era e como era.
Afinal,
eu tinha saído do Rio de Janeiro a 19 de agosto, apenas cinco
dias antes do suicídio, num clima de tensão em que
boa parte da capital parecia insurgir-se contra o Presidente da
República. Defendê-lo, ou até mesmo entendê-lo,
tornara-se difícil inclusive para os getulistas (aquela gente
simples e correta do povo, que o reverenciava e o amava), face à
maré de denúncias que a hábil audácia
do jornalista Carlos Lacerda, como porta-voz da direita liberal,
jogava ao ar contra ele. "O Palácio do Catete é
um mar de lama!", esbravejava Lacerda pelo rádio, pela
televisão e pelos jornais, parodiando o próprio Getúlio
e empilhando adjetivos para esbofetear não só o Presidente
mas, muito mais ainda, a sua guarda pessoal chefiada por Gregório
Fortunato. Esse negro espadaúdo e alto, vindo lá das
campinas fronteiriças do sul do Brasil, acompanhava Getúlio
desde o final dos anos 30 e, com os ombros e a mirada, protegia
o chefe, o amado chefe. Sim, pois Getúlio era amado por milhões
e tão amado quanto odiado por outros milhões.
Em
1930, chefe duma revolução popular e antioligárquica,
chegou ao Palácio do Catete de botas e farda de soldado da
Brigada gaú-cha, charuto entre os dedos. Depois foi Presidente
e, mais tarde, ditador durante oito anos. Nesses tempos, os áulicos
e aduladores o haviam cegado e era como se ele, o todo-poderoso
"Chefe da Nação", houvesse passado aqueles
anos ofuscado pelas luzes que o faziam- o centro e núcleo
de tudo. Agora, a partir de 1951, nesses anos de Presidente constitucional
em plena democracia, "o Velho" despontava com vigor e
concepções novas e, criticado pelos conservadores
e pela esquerda, abocanhara idéias socializantes. Mas continuava
sendo uma raposa e deve ter-se suicidado para tentar salvar-se,
ao descobrir que estava rodeado pelo precipício.
Allende
escutava. Agora, porém - acrescentei -, havia algo novo.
O Izvestia que o intérprete russo leu em voz alta na Universidade
de Moscou na manhã de 25 de agosto de 1954 estampava um curioso
e surpreendente detalhe sobre o suicídio: Getúlio
deixara uma carta-testamento na qual acusava o imperialismo de boicotar
seu governo e se queixava da voracidade do capital internacional.
De longe ou de perto, isso soava pouco verossímil. Então,
Getúlio era antiimperialista e anticapitalista, e nós,
os antiimperialistas e críticos do capitalismo, não
o sabíamos?
Eu
estava literalmente surpreso e desconfiava desses detalhes da carta
de despedida, que soavam como "inflados" pelos soviéticos,
e, adivinhando que Allende - como todo bom socialista - tivesse
divergências com os comunistas, disse-lhe sem mais rodeios:
-
Trata-se de uma informação de Montevidéu, da
agência sovié-tica Tass, e, assim, deve ser tomada
com cuidado e cautela; não sei se é verdadeira!
-
Sim, sim, entendo; mas não inventariam
- respondeu
Allende, pensativo, deixando as reticências no ar.
3
Salvador
Allende ouvia-me quase sem indagar nessa manhã em que nos
conhecemos no hotel em Pequim. Era comum, naqueles anos, que os
latino-americanos nada soubessem do Brasil nem se interessassem
por saber. No entanto, eu não relatava ali apenas parte da
História política do Brasil, mas um drama de poder
e morte, tingido pelo sangue de quem fora o agente e o paciente
da mesma ação, e, apesar do mutismo, os olhos do senador
Allende brilhavam de atenção.
Getúlio
se matara pelo jogo do poder e por tudo poder, num gesto político
no exercício de sua inteireza de líder, acima inclusive
do cidadão comum. Não era como aqueles milionários
honestos mas decrépitos que se dão um tiro ao não
poderem "honrar" uma duplicata num banco, muito menos
como aqueles pobres-diabos que se enforcam enlouquecidos pelo ciúme
no topo dos problemas conjugais, ou dos que se decapitam sob as
rodas de um trem, arruinados pela queda da Bolsa.
Os
fatos que desembocaram no suicídio de Getúlio pareciam
urdidos numa trama shakespeareana do século XX, um golpe
palaciano de novo tipo, com as intrigas e as traições
cruzando-se pelas torres do castelo. O poder é que o matara.
-
Mas por que Vargas não enfrentou os seus acusadores? - foi
a única pergunta de Allende.
Não
soube responder. Poderia ter-lhe dito que por estar cansado e idoso
ou, enfadado do poder, por ter-se convencido da propaganda dos adversários
e acabar sendo derrotado por ela, ao assimilar as verdades e as
mentiras como uma cousa só. Poderia ter-lhe dito que, assim,
na solidão do topo do poder passou a acreditar-se débil,
ou percebeu que estava envolvido numa teia que só era forte
porque o aprisionava mas que, em tudo o mais, era fraca, incapaz
de o sustentar
Naqueles tempos, porém, eu pouco sabia
do mundo interior que late dentro do bicho-gente que somos todos
nós, era um mocinho quase imberbe e pouco conhecia da vida.
Dei-lhe
uma "explicação político-ideológica",
tão ao gosto da época e do pedantismo de um rapazote
de 20 anos, dizendo-lhe que Getúlio dirigia o povo mas não
confiava na capacidade do povo, pois não era um revolucionário
nem pretendia uma revolução, "mas apenas tirar
de cima um problema, ainda que com honra". Respondi bem ao
gosto da política e o senador gostou. Tanto gostou que exclamou:
-
Muy bien! Como Balmaceda en Chile!
Aprendi
ali, no restaurante do hotel, que o Chile também tivera um
Presidente-suicida, José Manuel Balmaceda, que - deposto
e refugiado numa embaixada - matou-se no dia em que deveria concluir
seu mandato, no distante final do século XIX. Mas Salvador
Allende não parecia dar maior importância ao fato e
só o citou rapidamente, numa pausa da minha conversação,
que ele seguia atento, os olhos fitos nos meus gestos e palavras,
interessando-se pelos detalhes ou me levando a esclarecer nomes
e situações. Pensativo mas franco, confessou-me que
estava descobrindo Getúlio Vargas naquele momento, nos intervalos
entre o chá e as massas tipo spaghetti do desjejum pequinês.
Pela morte de Vargas ele descobria a vida de Vargas.
Depois
disso, encontramo-nos outras três ou quatro vezes, à
hora do jantar, e ele indagava, sempre, se eu sabia algo mais "del
Presidente Vargas". Como vice-presidente do Senado do Chile,
Allende era a mais alta personalidade latino-americana presente
na China naqueles dias que antecediam a festa do 1° de Outubro.
De fato, seu cargo de vice-presidente do Senado não era determinante
nos destinos do Chile, mas ele era o líder do único
partido socialista importante e de peso na América Latina
e seu programa de visitas era diferente do nosso. Raras vezes íamos
aos mesmos lugares. Ele desfrutava do programa oficial das "autoridades"
e já fora recebido até pelo Primeiro-Ministro Chu
En-lai, em audiência privada, e aguardava por Mao Tse-tung.
De
minha parte, como presidente da União Estadual de Estudantes
do Rio Grande do Sul, até então eu não tinha
ido além do prefeito de Pequim, que nos contou do lixo secular
que as tropas comunistas encontraram na cidade ao triunfar a revolução:
"Lixo de 200 ou 300 anos, acumulado como montanhas que tapavam
becos e ruas."
4
No
dia em que saímos de Pequim não vi o casal Allende
no chá matinal. Não me surpreenderia se os encontrasse,
depois, nas montanhas ou nos lagos de Hang Chow, um povoado pequeno
e tão aprazível que seus habitantes (desabituados
dos rostos ocidentais) saíam das casas e nos olhavam boquiabertos
e surpresos, indagando-se sobre o buraco da terra do qual teríamos
surgido. Descobrir Salvador Allende e dona Hortensia, porém,
naquela avenida de Xangai, em meio a uma enchente humana entrecortada
por milhares de bicicletas-táxi que iam e vinham, tinha o
significado de uma aventura completa em que o inesperado funciona
como destino.
Ao dar meia-volta na calçada e me reconhecer, ele abriu os
braços enquanto eu corria em sua direção e
assim ficou, imóvel. Allende era um cavalheiro na acepção
total do termo e só se moveu para indicar-me com a palma
aberta da mão que, primeiro, eu cumprimentasse dona Hortensia,
ou Tencha, como a chamava. Logo, abraçamo-nos, contamos uns
aos outros sobre o que fazíamos, na conversa típica
de turistas assombrados com o que viam naquela terra que era um
planeta à parte.
Continuamos
a caminhar e passamos diante das cozinhas de rua em que centenas
e centenas de pessoas, acocoradas, educadamente devoravam potes
de arroz, um após o outro, como se quisessem compensar numa
única refeição o que os seus pais, avós
e bisavós jamais haviam comido antes, durante séculos.
Aquilo era um outro mundo e toda a nossa atenção se
desviava para aquele mundo. Mesmo vestidos à ocidental, de
fatiota e gravata, não sentíamos sequer o calor brutal
do verão de Xangai: nossos olhos, nossa mente, tudo em nossa
percepção se concentrava nesses refeitórios
a céu aberto, no espetáculo da fome saciada naqueles
intermináveis potes de arroz com palitos, à beira
da calçada.
Mas
eis que num momento, com um puxão no casaco, o senador Allende
me toca para dizer-me baixinho:
-
Me impresionó lo del suicidio. Não me sai da cabeça
a história de Vargas!
O
mês de setembro de 1954 esgotou-se rapidamente e, na volta
a Pequim, a festa nacional chinesa do 1° de Outubro nos separou:
Allende ficou no palanque destinado às "autoridades"
e nós no outro lado, entre os "convidados", em
ótimo lugar, mas distanciados.
Daí
em diante, não nos vimos mais.
5
Exatos
19 anos mais tarde, a distância era outra e imensa mas, paradoxalmente,
nos fazia mais próximos naquela manhã de 11 de setembro
de 1973 em que os aviões e os tanques bombardeavam o Palácio
de la Moneda, em Santiago, e ele - Presidente do Chile, em traje
civil e capacete militar à cabeça - disparava a metralhadora
para resistir ao ultraje. Na Cidade do México, no hemisfério
norte, a milhares de quilômetros, pelos teletipos do jornal
acompanhei todos os passos do golpe militar no Chile, se é
que se pode seguir à distância um fato perturbador
que nos dilacera a alma. (Além disso, eu era um brasileiro
exilado político no México, e tudo me sensibilizava
ainda mais.)
Naquele
dia, cheguei ao Excelsior às 6 da manhã para preparar
a página internacional da edição vespertina
do jornal e me deparei com o golpe em pleno andamento. No Chile
eram duas horas a mais e, assim, tudo corria com uma rapidez inalcançável.
Ao sair para almoçar, o golpe já estava consumado
e as notícias sobre Allende eram confusas: dizia-se que ele
saíra do Chile num avião preparado pelos golpistas
exclusivamente para evacuá-lo do país. Seu paradeiro
era incerto. "Virá ao México", pensamos
todos. (O Presidente mexicano Luis Echeverría nada tinha
de socialista mas se tornara um amigo leal e correto de Allende,
e o socorrera várias- vezes em momentos difíceis para
o Chile. E agora, no infortúnio, se dispunha a recebê-lo.)
Voltei
ao jornal no meio da tarde e encontrei Salvador Allende numa radiofoto
transmitida de Santiago do Chile, metralhadora em punho no palácio
presidencial, encaminhando-se às janelas para responder aos
ataques. O capacete militar à cabeça dava-lhe um aspecto
diferente mas, de imediato, reconheci aqueles olhos: tinham o mesmo
brilho inquieto e extravagante dos olhos com que ele me fitou, 19
anos antes, no hotel de Pequim, quando eu lhe contei do suicídio
de Getúlio Vargas. Um brilho profundo de retina entreaberta,
como buscando decifrar o mundo com a mirada, dizendo com o olhar
que estava vivo. Um brilho que permanecia na radiofoto transmitida
pelos ares e não se esvaía sequer na imprecisão
do papel fotográfico.
Estávamos
em setembro de 1973, mas aqueles olhos eu conhecia de setembro de
1954. E, com aqueles olhos na consciência do inconsciente,
li os despachos das agências internacionais de notícias
informando que Allende tinha se suicidado no sofá da ante-sala
do seu gabinete, disparando-se com a metralhadora que lhe presenteou
Fidel Castro, ao perceber que a resistência havia chegado
ao fim. Fui um dos três redatores que prepararam a edição
do Excelsior do dia seguinte sobre o golpe no Chile, com um título
ao largo de oito colunas, na primeira página, informando
sobre o suicídio de Allende.
Nunca
pus em dúvida a versão oficial do suicídio,
difundida pelos golpistas. Mesmo quando, anos mais tarde, começou
a tomar força a possibilidade do assassinato, foi-me impossível
admitir que Allende se expusesse a ser morto pelo capitãozinho
que comandou a invasão do palácio presidencial. Ser
varado pelas balas de um militar de terceira, que recebera a ordem
de assaltar a sede do poder, seria humilhante, não estava
à altura de Allende. Alguém como ele não se
deixaria matar pelo invasor, que lhe usurpava o poder unicamente
por ser mais afeito às armas e ter pontaria mais precisa.
Um romântico como ele jamais se entregaria. Nem jamais reconheceria,
em vida, que fora derrotado. Só o suicídio poderia
salvá-lo. Só o suicídio, no bojo da resistência,
o fazia vitorioso no topo da derrota.
Anos
mais tarde, ouvi a gravação do derradeiro discurso
de Allende, transmitido pelo rádio já quando as bombas
caíam sobre o palácio, e ali estava a chave de tudo:
ele se despedia e proclamava que não o encontrariam vivo.
Sem o dizer, anunciava o suicídio ou que, armas na mão,
resistiria até o fim, até que o exterminassem.
Mais
do que tudo, porém, aquele brilho nos olhos na manhã
de setembro de 1954 no hotel em Pequim, quando o suicídio
de Getúlio Vargas deu-lhe o sentido de que só o sacrifício
eterniza o poder, é o que - até hoje - me dá
a certeza interior de que Salvador Allende disparou contra si mesmo.
Na manhã de 11 de setembro de 1973, seus olhos tinham o mesmo
brilho de expectativa e de volúpia pelo desafio. O desafio
de que cada qual desenha e executa o próprio destino.
Mas
que o espelho do destino está à nossa frente.
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