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A Luz no Subsolo, de Lúcio Cardoso (Civilização Brasileira; 368 páginas; 45 reais) – Embora não esteja entre os nomes mais conhecidos da literatura brasileira do século XX, o mineiro Lúcio Cardoso (1912-1968) desbravou um filão importante: o dos romances introspectivos e carregados de tormento existencial. Numa época em que o regionalismo reinava absoluto no gosto do público e da crítica, ele costumava dizer que os melhores livros eram aqueles feitos com "o desespero e a alma doente do seu autor". Publicado em 1936 (e fora de catálogo havia quase três décadas), A Luz no Subsolo é seu terceiro romance. A trama gira em torno de um casal cuja rotina entra numa espiral de loucura com a chegada de uma empregada. Trata-se de um belo exemplo da obra um tanto sombria do autor.

Leia trecho do livro

Capítulo 1

Muito tempo, o braço apoiado à parede, hesitou, sentindo crescer rapidamente a sua inquietação. Quase aturdida, percebia que um absurdo desfalecimento se apossava dos seus nervos, ameaçando os seus movimentos e dando ao seu sangue um calor pesado, que o fazia correr mais devagar, com mais força, latejando por vezes como se fosse arrebentar as próprias veias. Do fundo, subia uma força que parecia atirá-la instantaneamente em direção à prima, mas esse mesmo movimento era perturbado por diversas outras sensações, desânimo, ansiedade, terror, que o aniquilavam quase ainda na sua origem. E ela permanecia ali, com a vaga consciência de que a manhã avançava, sem poder se libertar do seu receio e da sua timidez, se bem que tivesse a certeza de estar a razão do seu lado. Procurava justificar, apoiada neste sentimento, o porquê da sua perturbação, concedendo instintivamente a este fato um valor independente das suas emoções. Mas bastaria demorar um pouco o olhar nas coisas que a cercavam e sentiria que a lembrança dos seus últimos dias naquela casa, a suave pressão do hábito, eram o motivo que movia ocultamente todos esses sentimentos desencontrados. 0 momento da partida, do rompimento de todos os pequenos laços criados com o ambiente, transformava-se num sofrimento agudo. Como outras, como tantas tinham surgido e se apegado à sua vida para desaparecer depois, aquela casa desapareceria também - e quando, já bem distante desta época, alguma lembrança lhe despertasse o desejo de reviver os dias ainda próximos e já por tantos motivos vencendo os limites onde o passado estende a sua sombra gelada, sentiria que o velho casarão pesava apenas como pesa nestes velhos porões desabitados algum pobre móvel que já teve o seu tempo de glória e de riqueza. Além disso, só a penumbra que cria por detrás de tudo os cantos impenetráveis, onde se balança, movida pela brisa que sopra de uma fresta mal fechada, o tédio das aranhas sonolentas. Amava a sua prima. Previa com uma inesperada amargura o gesto de espanto que ela teria, quando avisasse que estava de partida. Decerto, com as sobrancelhas levemente enrugadas sobre os olhos cuja serenidade coisa alguma traía, perguntaria por que, o motivo que a tinha levado tão longe, ela que se julgava segura da sua amizade e não poupava um sorriso amável, quando descia pelo amanhecer. Então, tudo se complicaria. Na sua confusão, tinha esta cena realizada como qualquer coisa a que não cabe mais nenhuma sombra de dúvida - Deus do céu! - e não saberia fazer nada senão pensar nas vezes em que, no silêncio do seu quarto, chorara, a costura abandonada nos joelhos, sem encontrar nenhuma solução para aquilo, vendo que tudo se encaminhava para o derradeiro e definitivo recurso: partir... "oh! abandonar para sempre o lugar onde fui tão feliz! Não serei, durante a minha vida, mais do que a prima pobre, alguém sempre em trânsito de casa para casa?" - perguntava com o coração amargurado - e debruçava-se na mesinha nua, permanecia imóvel largos instantes, ouvindo as pancadas surdas do coração.


 
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