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O
Hobbit
CAPÍTULO
I
Uma festa inesperada
NUMA
toca no chão vivia um hobbit. Não uma toca desagradável,
suja e úmida, cheia de restos de minhocas e com cheiro de
lodo; tampouco uma toca seca, vazia e arenosa, sem nada em que sentar
ou o que comer: era a toca de um hobbit, e isso quer dizer conforto.
A toca tinha uma porta perfeitamente redonda como uma escotilha,
pintada de verde, com uma maçaneta brilhante de latão
amarelo exatamente no centro. A porta se abria para um corredor
em forma de tubo, como um túnel: um túnel muito confortável,
sem fumaça, com paredes revestidas e com o chão ladrilhado
e atapetado, com cadeiras de madeira polida e montes e montes de
cabides para chapéus e casacos - o hobbit gostava de visitas.
O túnel descrevia um caminho cheio de curvas, afundando bastante,
mas não em linha reta, no flanco da colina - A Colina, como
todas as pessoas num raio de muitas milhas a chamavam -, e muitas
portinhas redondas se abriam ao longo dele, de um lado e do outro.
Nada de escadas para o hobbit: quartos, banheiros, adegas, despensas
(muitas delas), guarda-roupas (ele tinha salas inteiras destinadas
a roupas), cozinhas, salas de jantar, tudo ficava no mesmo andar,
e, na verdade, no mesmo corredor. Os melhores cômodos ficavam
todos do lado esquerdo (de quem entra), pois eram os únicos
que tinham janelas, janelas redondas e fundas, que davam para o
jardim e para as campinas além, que desciam até o
rio.
Esse hobbit era um hobbit muito abastado, e seu nome era Bolseiro.
Os Bolseiros viviam nas vizinhanças da Colina desde tempos
imemoriais, e as pessoas os consideravam muito respeitáveis,
não apenas porque em sua maioria eram ricos, mas também
porque nunca tinham tido nenhuma aventura ou feito qualquer coisa
inesperada: você podia saber o que um Bolseiro diria sobre
qualquer assunto sem ter o trabalho de perguntar a ele. Esta é
a história de como um Bolseiro teve uma aventura, e se viu
fazendo e dizendo coisas totalmente inesperadas. Ele pode ter perdido
o respeito dos seus vizinhos, mas ganhou - bem, vocês vão
ver se ele ganhou alguma coisa no final.
A mãe desse nosso hobbit - o que é um hobbit? Imagino
que os hobbits requeiram alguma descrição hoje em
dia, uma vez que se tornaram raros e esquivos diante das Pessoas
Grandes, como eles nos chamam. Eles são (ou eram) um povo
pequeno, com cerca de metade da nossa altura, e menores que os anões
barbados. Os hobbits não têm barba. Não possuem
nenhum ou quase nenhum poder mágico, com exceção
daquele tipo corriqueiro de mágica que os ajuda a desaparecer
silenciosa e rapidamente quando pessoas grandes e estúpidas
como vocês e eu se aproximam de modo desajeitado, fazendo
barulho como um bando de elefantes, que eles podem ouvir a mais
de uma milha de distância. Eles têm tendência
a serem gordos no abdome; vestem-se com cores vivas (principalmente
verde e amarelo), não usam sapatos porque seus pés
já têm uma sola natural semelhante a couro, e também
pêlos espessos e castanhos parecidos com os cabelos da cabeça
(que são encaracolados); têm dedos morenos, longos
e ágeis, rostos amigáveis, e dão gargalhadas
profundas e deliciosas (especialmente depois de jantarem, o que
fazem duas vezes por dia, quando podem). Agora vocês sabem
o suficiente para continuarmos. Como eu estava dizendo, a mãe
desse hobbit - isto é, de Bilbo Bolseiro - era a famosa Beladona
Tûk, uma das três notáveis filhas do Velho Tûk,
chefe dos hobbits que viviam do outro lado do Água, o pequeno
rio que passava ao pé da Colina. Freqüentemente se dizia
(em outras famílias) que muito tempo atrás um dos
ancestrais Tûk provavelmente se casara com uma fada. É
claro que isso era um absurdo, mas, ainda assim, com certeza havia
neles algo não de todo hobbitesco, e, de vez em quando, alguns
membros do clã Tûk saíam em busca de aventuras.
Desapareciam discretamente, e a família silenciava sobre
o assunto; mas permanecia o fato de que os Tûks não
eram tão respeitáveis como os Bolseiros, embora fossem
indubitavelmente mais ricos.
Não que Beladona Tûk tivesse tido qualquer aventura
depois de se tornar a Sra. Bungo Bolseiro. Bungo, o pai de Bilbo,
construiu para ela (e em parte com o dinheiro dela) a toca mais
luxuosa que jamais se pôde encontrar, quer sob a Colina, quer
acima da Colina, ou mesmo do outro lado do Água, e ali eles
permaneceram até o fim de seus dias. Ainda assim, é
provável que Bilbo, seu único filho, embora se parecesse
e se comportasse exatamente como uma segunda edição
de seu firme e tranqüilo pai, tivesse em sua constituição
alguma característica meio estranha do lado dos Tûk,
algo que estivesse apenas esperando uma oportunidade para se manifestar.
A oportunidade não apareceu até que Bilbo estivesse
adulto, com mais ou menos cinqüenta anos, vivendo na bonita
toca de hobbit construída por seu pai, e que eu acabei de
descrever para vocês. Na verdade, até que estivesse
totalmente acomodado na vida, pelo menos aparentemente.
Por um curioso acaso, numa manhã distante, na quietude do
mundo, quando havia menos barulho e mais verde, e quando os hobbits
eram ainda numerosos e prósperos, e Bilbo Bolseiro estava
parado à sua porta depois do desjejum, fumando um enorme
cachimbo de madeira que chegava quase até os lanudos dedos
dos seus pés (cuidadosamente escovados), Gandalf apareceu.
Gandalf! Se vocês tivessem ouvido apenas um quarto do que
eu já ouvi a respeito dele, e eu ouvi só um pouco
de tudo o que existe para ouvir, estariam preparados para qualquer
tipo de história surpreendente. Histórias e aventuras
brotavam por todo lado, onde quer que ele fosse, da maneira mais
extraordinária. Ele não passava por aquele caminho
sob a Colina havia muito tempo; na verdade, não passara por
ali desde que seu amigo, o Velho Tûk, morrera, e os hobbits
quase se haviam esquecido de seu aspecto. Estivera viajando, para
além da Colina e do outro lado do Água, cuidando de
seus próprios negócios, desde que eles todos eram
meninos e meninas hobbits.
Tudo o que Bilbo, sem suspeitar de nada, viu naquela manhã
foi um velho com um cajado. Usava um chapéu azul, alto e
pontudo, uma capa cinzenta comprida, um cachecol prateado sobre
o qual sua longa barba branca caía até abaixo da cintura,
e imensas botas pretas.
- Bom dia! - disse Bilbo, sinceramente. O sol brilhava, e a grama
estava muito verde. Mas Gandalf lançou-lhe um olhar por baixo
de suas longas e espessas sobrancelhas, que se projetavam da sombra
da aba do chapéu.
- O que você quer dizer com isso? - perguntou ele. - Está
me desejando um bom dia, ou quer dizer que o dia está bom,
não importa que eu queira ou não, ou quer dizer que
você se sente bem neste dia, ou que este é um dia para
se estar bem?
- Tudo isso de uma vez - disse Bilbo. - E uma manhã muito
agradável para fumar um cachimbo ao ar livre, além
disso. Se você tiver um cachimbo com você, sente-se
e tome um pouco do meu fumo! Não há pressa, temos
o dia todo pela frente! - E então Bilbo se sentou numa cadeira
à sua porta, cruzou as pernas e soprou um belo anel de fumaça
cinzento que se ergueu no ar sem se desmanchar e foi flutuando sobre
a Colina.
- Muito bonito! - disse Gandalf. - Mas eu não tenho tempo
para soprar anéis de fumaça esta manhã. Estou
procurando alguém para participar de uma aventura que estou
organizando, e está muito difícil achar alguém.
- Acho que sim, por estes lados! Nós somos gente simples
e acomodada, e eu não gosto de aventuras. São desagradáveis
e desconfortáveis! Fazem com que você se atrase para
o jantar! Não consigo imaginar o que as pessoas vêem
nelas - disse o nosso Sr. Bolseiro, colocando um polegar atrás
dos suspensórios e soprando outro anel de fumaça ainda
maior. Depois pegou sua correspondência matinal e começou
a lê-la, fingindo não prestar mais atenção
ao velho. Havia decidido que não era do tipo que o agradava
e queria que ele fosse embora. Mas o velho não se mexeu.
Ficou parado, apoiando-se no seu cajado, observando o hobbit sem
dizer nada, até que Bilbo se sentiu meio embaraçado,
e até um pouco contrariado.
- Bom dia! - disse ele finalmente. - Nós não queremos
aventuras por aqui, obrigado! Você podia tentar além
da Colina ou do outro lado do Água. - Com isso quis dizer
que a conversa estava terminada.
- Você usa Bom dia para um monte de coisas! - disse Gandalf.
- Agora está querendo dizer que quer se livrar de mim e que
o dia não ficará bom até que eu vá embora.
- De jeito nenhum, de jeito nenhum, caro senhor! Deixe-me ver, acho
que não sei o seu nome.
- Sim, sim, meu caro senhor, e eu sei o seu, Sr. Bilbo Bolseiro.
E você sabe o meu nome, embora não se lembre de que
ele se refere a mim. Eu sou Gandalf, e Gandalf significa eu! E pensar
que eu viveria para escutar um "Bom dia" do filho de Beladona
Tûk como se fosse um simples mascate que bate de porta em
porta!
- Gandalf, Gandalf! Puxa vida! Não o mago errante que deu
ao Velho Tûk um par de abotoaduras de diamante que se abotoavam
e nunca se soltavam até que fosse ordenado? Não o
camarada que costumava contar histórias maravilhosas nas
festas, sobre dragões, orcs e gigantes e sobre resgates de
princesas e sobre a sorte inesperada de filhos de viúvas?
Não o homem que costumava fazer fogos de artifício
especialmente maravilhosos! Eu me lembro deles! O Velho Tûk
costumava soltá-los na véspera do Solstício
de Verão. Esplêndido! Eles subiam como grandes lírios
e bocas-de-leão e laburnos de fogo, ficavam no céu
durante todo o entardecer! - Vocês já devem ter notado
que o Sr. Bolseiro não era tão prosaico como queria
acreditar que fosse, e também que gostava muito de flores.
- Ora, ora! - continuou ele. - Não o Gandalf que foi responsável
por tantos moços e moças tranqüilos partirem
em loucas aventuras? Qualquer coisa, desde subir em árvores
até visitar elfos, ou navegar em navios, navegar para outras
praias! Puxa! A vida costumava ser muito interessan... quero dizer,
você costumava perturbar muito as coisas por estas bandas
naquela época. Eu peço desculpas, mas não imaginava
que ainda estava na ativa.
- Onde mais eu poderia estar? - disse o mago. - De qualquer forma,
estou satisfeito em saber que você se lembra de alguma coisa
a meu respeito. Parece que a lembrança dos meus fogos de
artifício, pelo menos, lhe é agradável, e isto
já é alguma coisa. Mas, em memória do seu velho
avô Tûk e de sua mãe Beladona, darei o que você
me pediu.
- Peço desculpas, mas não pedi nada!
- Você pediu sim, duas vezes agora. Desculpas. Está
desculpado. Na verdade, vou muito além disso, vou mandá-lo
nessa aventura. Muito divertido para mim, muito bom para você...
e lucrativo também, muito provavelmente, se você conseguir
chegar até o fim.
- Sinto muito! Eu não quero aventuras, muito obrigado. Hoje
não. Bom dia! Mas, por favor, venha tomar chá, a qualquer
hora que quiser! Por que não amanhã? Venha amanhã!
Até logo! - Com isso o hobbit se virou e entrou por sua porta
redonda e verde e a fechou o mais rápido que era possível
sem parecer rude. Afinal de contas, magos são magos.
- Por que raios eu o convidei para o chá!? - perguntou para
si mesmo, enquanto ia para a despensa. Tinha acabado de tomar o
desjejum, mas achou que um pedaço de bolo ou dois, e um gole
de alguma coisa, lhe fariam bem depois do susto.
Enquanto isso, Gandalf ainda estava parado do lado de fora da porta,
rindo muito, mas sem fazer ruído. Depois de uns instantes
ele se levantou, e com o cravo de seu cajado riscou um sinal estranho
na bela porta verde da toca do hobbit. Depois foi embora, mais ou
menos no momento em que Bilbo estava terminando o seu segundo pedaço
de bolo e começando a pensar que se havia safado muito bem
das aventuras.
No dia seguinte, quase havia esquecido Gandalf. Ele não se
lembrava muito bem das coisas, a não ser que as anotasse
em sua Agenda de Compromissos. Assim: Gandalf - Chá, Quarta-Feira.
No dia anterior tinha ficado muito agitado para fazer qualquer coisa
desse tipo.
Um pouco antes da hora do chá, um tremendo toque soou na
campainha da porta da frente, e então ele se lembrou! Apressou-se
e colocou a chaleira no fogo, pôs na mesa outra xícara
e outro pires, um ou dois pedaços de bolo a mais, e correu
para a porta.
- Desculpe por fazê-lo esperar! - ia dizer, quando viu que
não era realmente Gandalf. Era um anão com uma barba
azul enfiada num cinto de ouro, e olhos muito brilhantes sob seu
capuz verde escuro. Assim que Bilbo abriu ele se enfiou porta adentro,
como se fosse esperado.
Pendurou a capa com capuz no cabide mais próximo e: - Dwalin,
às suas ordens! - disse ele, fazendo uma grande reverência.
- Bilbo Bolseiro às suas! - disse o hobbit, surpreso demais
para perguntar qualquer coisa no momento. Quando o silêncio
que se seguiu tornou-se incômodo, ele acrescentou: - Estava
quase na hora do meu chá; por favor, venha e sirva-se. -
Talvez ele tenha sido um pouco seco, mas suas intenções
eram gentis. E o que vocês fariam, se um anão aparecesse
sem ser convidado em sua casa, e pendurasse suas coisas no seu corredor
sem uma palavra de explicação?
Não fazia muito tempo que eles estavam à mesa, na
verdade, mal tinham chegado ao terceiro pedaço de bolo, quando
veio um toque ainda mais alto da campainha.
- Com licença - disse o hobbit, e foi até a porta.
- Então, finalmente você chegou! - Era o que ele ia
dizer para Gandalf desta vez. Mas não era Gandalf. Em vez
dele, ali estava na entrada um anão que parecia muito velho,
com uma barba branca e um capuz vermelho, que também pulou
para dentro assim que a porta foi aberta, como se tivesse sido convidado.
- Vejo que já começaram a chegar - disse ele quando
viu pendurado o capuz verde de Dwalin. Pendurou o seu perto do outro,
e: - Balin, às suas ordens - disse, com a mão sobre
o peito.
- Obrigado! - disse Bilbo, ofegante. Não era a coisa certa
para dizer, mas o já começaram a chegar o agitara
muito. Ele gostava de visitas, mas gostava de conhecê-las
antes que chegassem, e preferia convidá-las por sua própria
conta. Teve um pensamento horrível de que o bolo poderia
não ser suficiente e então ele, como anfitrião,
que sabia de sua obrigação e se resignava a ela apesar
do sofrimento, poderia ter de ficar sem.
- Entre e tome um pouco de chá! - conseguiu dizer, depois
de respirar fundo.
- Um pouco de cerveja me cairia melhor, se não lhe fizer
diferença, meu bom senhor - disse Balin, agitando a barba
branca. - Mas eu não recuso um pouco de bolo... bolo de sementes,
se você tiver.
- Um monte! - Bilbo se viu respondendo, para sua própria
surpresa; e se viu também correndo até a adega para
encher uma caneca de cerveja, e depois para a despensa para pegar
dois belos e redondos bolos de sementes que fizera aquela tarde
para petiscar depois do jantar.
Quando voltou, Balin e Dwalin estavam conversando à mesa
como velhos amigos (na verdade, eles eram irmãos). Bilbo
arriou a cerveja e o bolo com um baque na mesa diante deles, quando
veio um toque forte da campainha de novo, e depois outro toque.
"Gandalf, com certeza, desta vez", pensou ele, enquanto
arfava ao longo do corredor. Mas não era. Eram mais dois
anões, ambos com capuzes azuis, cintos de prata e barbas
amarelas; e cada um deles carregava um saco de ferramentas e uma
pá. Quando saltaram para dentro, assim que a porta começou
a se abrir, Bilbo não ficou nem um pouco surpreso.
- Em que posso ajudá-los, meus anões? - disse ele.
- Kili, às suas ordens! - disse o primeiro. - E Fili! - acrescentou
o segundo, e ambos retiraram seus capuzes azuis e fizeram reverência.
- Às suas ordens, e de sua família - respondeu Bilbo,
lembrando-se das boas maneiras desta vez.
- Dwalin e Balin já estão aqui, pelo que vejo - disse
Kili. - Vamos nos juntar à multidão!
"Multidão!", pensou o Sr. Bolseiro. "Isso
não soa bem. Realmente preciso me sentar um pouco e colocar
a cabeça no lugar, e tomar alguma coisa." Ele só
tinha tomado um gole - no canto, enquanto os quatro anões
se sentavam em volta da mesa, e conversavam sobre minas e ouro e
problemas com os orcs, e as depredações de dragões,
e um monte de outras coisas que ele não entendia, e não
queria entender, porque soavam aventureiras demais - quando dingue-lingue-dongue-longue,
sua campainha tocou novamente, como se algum menino-hobbit travesso
estivesse tentando arrancá-la fora.
- Alguém está à porta! - disse ele, piscando.
- Pelo som, eu diria que uns quatro - disse Fili. - Além
disso, nós os vimos vindo atrás de nós ao longe.
O pobrezinho do hobbit sentou-se no corredor e colocou as mãos
na cabeça, querendo saber o que havia acontecido e o que
iria acontecer, e se eles todos iriam ficar para o jantar. Então
a campainha tocou outra vez, mais alto que nunca, e ele correu para
a porta. Não eram quatro no fim das contas, eram CINCO. Um
outro anão juntara-se aos quatro enquanto ele estivera cismando
no corredor. Mal havia girado a maçaneta e estavam todos
dentro, fazendo reverências e dizendo "às suas
ordens" um após o outro. Dori, Nori, Ori, Oin e Gloin
eram seus nomes; e logo dois capuzes roxos, um cinza, um marrom
e um branco estavam pendurados nos cabides, e eles marcharam para
a frente com suas mãos largas enfiadas em seus cintos de
ouro e prata para se juntarem aos demais. Aquilo já quase
se transformara numa multidão. Alguns pediram cerveja clara,
outros pediram cerveja escura, e um deles pediu café, e todos
pediram bolo, o que manteve o hobbit ocupado por um bom tempo.
Um grande bule de café acabava de ser levado ao fogo, os
bolos de sementes tinham acabado, e os anões estavam começando
uma rodada de bolinhos amanteigados, quando veio uma batida forte.
Não um toque de campainha, mas um grande ratatá na
bela porta verde do hobbit. Alguém estava batendo com um
cajado!
Bilbo correu pelo corredor, muito zangado e totalmente desnorteado
e desconcertado - era a mais estapafúrdia quarta-feira de
que ele se lembrava. Abriu a porta com um solavanco e todos caíram
para dentro, um em cima do outro. Mais anões, mais quatro!
E Gandalf estava atrás, inclinando-se sobre seu cajado e
rindo. Tinha feito um estrago razoável na superfície
da bela porta; a propósito, também tinha feito desaparecer
o sinal secreto que deixara nela na manhã anterior.
- Cuidado! Cuidado! - disse ele. - Não é do seu feitio,
Bilbo, deixar amigos esperando no capacho, e depois abrir a porta
como uma espingarda de pressão! Deixe-me apresentar Bifur,
Bofur, Bombur e, especialmente, Thorin!
- Às suas ordens! - disseram Bifur, Bofur e Bombur parados
em fila. Penduraram dois capuzes amarelos e um verde-claro, e também
um azul-celeste com uma longa borla prateada. Este último
pertencia a Thorin, um anão enormemente importante, na verdade
ninguém menos que Thorin Escudo de Carvalho em pessoa, que
não estava de modo algum satisfeito por ter caído
sobre o capacho de Bilbo como uma fruta madura, com Bifur, Bofur
e Bombur em cima dele. Para começo de conversa, Bombur era
imensamente gordo e pesado. Na verdade, Thorin era muito altivo,
e não disse nada sobre estar às ordens, mas o pobre
Sr. Bolseiro disse tantas vezes que sentia muito que finalmente
ele resmungou um "não tem problema" e parou de
franzir a testa.
- Agora estamos todos aqui! - disse Gandalf, olhando para a fileira
de treze capuzes, capuzes de festa, removíveis, da melhor
qualidade, e seu próprio chapéu, pendurados nos cabides.
- Que reunião alegre! Espero que tenha sobrado alguma coisa
para os atrasados comerem e beberem! O que é isso? Chá!
Não, obrigado! Um pouco de vinho tinto para mim, eu acho.
- Para mim também - disse Thorin.
- E geléia de framboesa e torta de maçã - disse
Bifur.
- E pastelão de carne com queijo - disse Bofur.
- E torta de carne de porco com salada - disse Bombur.
- E mais bolo, e cerveja clara, e café, se não se
incomoda - disseram os outros anões através da porta.
- Sirva também alguns ovos, meu bom rapaz! - disse Gandalf
para ele ouvir, enquanto o hobbit se esbaforia para as despensas.
- E traga também a salada de galinha com picles.
"Parece que ele sabe tanto sobre o conteúdo das minhas
despensas quanto eu", pensou o Sr. Bolseiro, que estava se
sentindo positivamente aturdido e começava a se perguntar
se a mais infame das aventuras não tinha vindo parar exatamente
dentro de sua casa. Na hora em que tinha acabado de pegar todas
as garrafas e comidas e facas e garfos e copos e pratos e colheres
e coisas empilhadas em grandes bandejas, já estava ficando
com muito calor, e com o rosto vermelho, e zangado.
- Raios partam esses anões! - disse em voz alta. - Por que
eles não vêm dar uma ajuda? - Dito e feito! Lá
estavam Balin e Dwalin na porta da cozinha, e Fili e Kili atrás
deles, e antes que o hobbit pudesse dizer faca eles tinham arrebatado
as bandejas e um par de mesinhas para a sala e arrumado tudo de
novo.
Gandalf sentou-se à cabeceira, com todos os anões
em volta: e Bilbo se sentou num banquinho ao lado do fogo, mordiscando
um biscoito (estava totalmente sem apetite) e tentando fingir que
tudo aquilo era perfeitamente normal e nada parecido com uma aventura.
Os anões foram comendo e comendo, e conversando e conversando,
e o tempo passou. Finalmente eles afastaram as suas cadeiras, e
Bilbo foi retirar os pratos e copos.
- Imagino que vocês todos vão ficar para o jantar?
- disse ele, com sua voz mais educada e calma.
- É claro! - disse Thorin. - E até depois disso. Não
devemos terminar até muito tarde, e precisamos de um pouco
de música primeiro. Agora vamos limpar tudo!
Então os doze anões - não Thorin, ele era importante
demais e ficou conversando com Gandalf - puseram-se imediatamente
de pé, e fizeram grandes pilhas com todas as coisas. E foram,
sem esperar por bandejas, equilibrando colunas de pratos, cada uma
com uma garrafa no topo, em uma única mão, enquanto
o hobbit corria atrás deles quase gemendo de pavor: "Por
favor, tenham cuidado" e "por favor, não se incomodem,
eu posso cuidar disso!". Mas os anões apenas começaram
a cantar:
Copos
trincados e pratos partidos!
Facas cegas, colheres dobradas!
É isso que em Bilbo causa gemidos -
Garrafas em cacos e rolhas queimadas!
Pise
em gordura, corte a toalha!
Sobre o tapete jogue os ossinhos!
O leite entornado no chão se coalha!
Em cada porta há manchas de vinho!
Jogue
esta louça em água fervente;
Soque bastante com este bastão;
Se nada quebrar, por mais que se tente,
Faça rolar, rolar pelo chão!
Isso
é o que Bilbo Bolseiro detesta!
Cuidado! Cuidado com os pratos da festa!
E
é claro que eles não fizeram nenhuma dessas coisas
terríveis, e que tudo estava limpo e guardado a salvo com
a rapidez de um relâmpago, enquanto o hobbit ficava dando
voltas e voltas na cozinha tentando ver o que eles estavam fazendo.
Depois voltaram e encontraram Thorin com os pés sobre a guarda
da lareira, fumando um cachimbo. Estava soprando os maiores anéis
de fumaça, e onde quer que ordenasse que os anéis
fossem, eles iam - para cima da chaminé, para baixo da mesa,
ou dando voltas no forro; mas onde quer que um anel fosse, não
era rápido o suficiente para escapar de Gandalf. Pop! Ele
enviava um anel de fumaça menor do seu pequeno cachimbo de
barro direto no meio de cada um dos anéis de Thorin. Então
o anel de fumaça de Gandalf ficava verde e voltava para flutuar
sobre a cabeça do mago. Já havia uma nuvem deles sobre
a sua cabeça, e na luz fraca aquilo o deixava estranho e
misterioso. Bilbo estava quieto, olhando - adorava anéis
de fumaça -, e então ficou vermelho ao pensar em como
se orgulhara dos anéis de fumaça que tinha soprado
no vento sobre a Colina.
- Agora, um pouco de música! - disse Thorin. - Tragam os
instrumentos!
Kili e Fili correram até seus sacos e trouxeram pequenas
rabecas; Dori, Nori e Ori tiraram flautas de algum lugar em seus
casacos; Bombur trouxe um tambor do corredor; Bifur e Bofur saíram
também, e voltaram com clarinetas que haviam deixado entre
as bengalas. Dwalin e Balin disseram: "Com licença,
deixei a minha na varanda!". "Traga a minha também!",
disse Thorin. Voltaram com violas tão grandes como eles próprios
e com a harpa de Thorin embrulhada num pano verde. Era uma bonita
harpa dourada, e quando Thorin a dedilhou a música irrompeu
imediatamente, tão repentina e doce que Bilbo esqueceu todo
o resto, e foi levado para terras escuras sob luas estranhas, lugares
distantes do Água e muito distantes de sua toca de hobbit
sob a Colina.
A escuridão entrava na sala pela pequena janela que se abria
na encosta da Colina; a luz do fogo tremia - era abril - e, ainda
assim, continuavam tocando, enquanto a sombra da barba de Gandalf
se agitava contra a parede.
A escuridão encheu toda a sala, o fogo se extinguiu, as sombras
se perderam e, ainda assim, continuaram tocando. E, de repente,
primeiro um, e depois outro, começaram a cantar enquanto
tocavam, o canto grave dos anões das profundezas de seus
antigos lares; e este é como um fragmento de sua canção,
se é que pode ser como uma de suas canções
sem a sua música.
Para
além das montanhas nebulosas, frias,
Adentrando cavernas, calabouços cravados,
Devemos partir antes de o sol surgir,
Em busca do pálido ouro encantado.
Operavam
encantos anões de outrora,
Ao som de martelo qual sino a soar
Na profundeza onde dorme a incerteza,
Em antros vazios sob penhascos do mar.
Para
o antigo rei e seu elfo senhor
Criaram tesouros de grã nomeada;
As pedras plasmaram, a luz captaram
Prendendo-a nas gemas do punho da espada.
Em
colares de prata eles juntaram
Estrelas floridas; fizeram coroas
De fogo-dragão e no mesmo cordão
Fundiram a luz do sol e da lua.
Para
além das montanhas nebulosas, frias,
Adentrando cavernas, calabouços perdidos,
Devemos partir antes de o sol surgir
Buscando tesouros há muito esquecidos.
Para
seu uso taças foram talhadas
E harpas de ouro. Onde ninguém mora
Jazeram perdidas e suas cantigas
Por homens e elfos não foram ouvidas.
Zumbiram
pinheiros sobre a montanha,
Uivaram os ventos em noites azuis.
O fogo vermelho queimava parelho,
As árvores-tochas em fachos de luz.
Tocaram
os sinos chovendo no vale,
Erguiam-se pálidos rostos ansiosos;
Irado o dragão feroz se insurgira
Arrasando casas e torres formosas.
Sob
a luz da lua fumavam montanhas;
Os anões ouviram a marcha final.
Fugiram do abrigo achando o inimigo
E sob seus pés a morte ao luar.
Para
além das montanhas nebulosas, frias,
Adentrando cavernas, calabouços perdidos
Devemos partir antes de o sol surgir,
Buscando tesouros há muito esquecidos.
Enquanto
eles cantavam, o hobbit sentiu agitar-se dentro de si o amor por
coisas belas feitas por mãos, com habilidade e com mágica,
um amor feroz e ciumento, o desejo dos corações dos
anões. Então alguma coisa dos Tûk despertou
no seu íntimo, e ele desejou ir ver as grandes montanhas,
e ouvir os pinheiros e as cachoeiras, explorar as cavernas e usar
uma espada ao invés de uma bengala. Olhou pela janela. As
estrelas apareciam num céu escuro sobre as árvores.
Pensou nas jóias dos anões brilhando em cavernas escuras.
De repente, na floresta além do Água uma chama surgiu
- provavelmente alguém acendendo uma fogueira - e ele pensou
em dragões saqueadores alojando-se em sua calma Colina e
transformando-a toda em chamas. Sentiu um tremor e muito rapidamente
voltou a ser o Sr. Bolseiro de Bolsão, Sob-a-Colina, novamente.
Levantou-se tremendo. Estava muito pouco disposto a ir buscar uma
lamparina, e muito disposto a fingir que ia fazê-lo e se esconder
atrás dos barris de cerveja na adega e não sair mais
de lá até que todos os anões tivessem ido embora.
De repente descobriu que toda a música e cantoria haviam
parado, e todos estavam olhando para ele com olhos que brilhavam
no escuro.
- Aonde você vai? - perguntou Thorin, num tom de quem parecia
estar adivinhando tudo sobre as disposições do hobbit.
- Que tal um pouco de luz? - disse Bilbo, como que pedindo desculpas.
- Nós gostamos do escuro - disseram todos os anões.
- Escuro para negócios escusos! Ainda há muitas horas
antes da alvorada.
- Claro! - disse Bilbo, sentando-se apressadamente. Não acertou
o banquinho e acabou se sentando na guarda da lareira, derrubando
o atiçador e a pá com muito barulho.
- Silêncio! - disse Gandalf. - Deixem Thorin falar! - E foi
assim que Thorin começou.
- Gandalf, anões e Sr. Bolseiro! Estamos reunidos na residência
de nosso amigo e companheiro de conspiração, este
mui excelente e audacioso hobbit. Que o pêlo de seus pés
jamais caia! Todos os elogios ao seu vinho e à sua cerveja!
- Parou para tomar fôlego e receber um polido comentário
do hobbit, mas os elogios haviam sido desperdiçados com o
pobre Bilbo Bolseiro, que estava fazendo muxoxos de protesto por
estar sendo chamado de audacioso e, pior de tudo, companheiro de
conspiração, embora não conseguisse emitir
nenhum som, de tão desconcertado que estava. E Thorin continuou:
- Estamos reunidos para discutir nossos planos, caminhos, meios,
política e estratégias. Deveremos, brevemente, antes
do nascer do dia, iniciar uma longa viagem, uma viagem da qual alguns
de nós, ou todos nós (com a exceção
de nosso amigo e conselheiro, o engenhoso mago Gandalf), talvez
nunca voltemos. Este é um momento solene. Nosso objetivo
é, pelo que entendo, bem conhecido por todos. Para o estimável
Sr. Bolseiro, e talvez para um ou dois dos anões mais jovens
(acho que estou certo em citar Kili e Fili, por exemplo), a situação
exata no momento parece exigir uma pequena e breve explicação...
Este era o estilo de Thorin. Ele era um anão importante.
Se lhe fosse permitido, provavelmente continuaria assim até
que estivesse sem fôlego, sem dizer a ninguém coisa
alguma que ainda não fosse conhecida. Mas ele foi rudemente
interrompido. O pobre Bilbo não podia suportar mais. Ao ouvir
talvez nunca voltemos, começou a sentir um grito agudo vindo
de seu interior, que logo irrompeu como o apito de uma locomotiva
saindo de um túnel. Todos os anões pularam, derrubando
a mesa. Gandalf acendeu uma luz azul na ponta de seu cajado mágico,
e nesse brilho de fogo de artifício podia-se ver o pobre
hobbit ajoelhado sobre o tapete da lareira, tremendo como gelatina
derretendo. Então caiu duro no chão, e ficou gritando
"atingido por um raio, atingido por um raio!" repetidas
vezes; e isso foi tudo que conseguiram arrancar dele por um longo
tempo. Então os anões o pegaram e o tiraram do caminho,
levando-o para o sofá da sala de visitas e deixando uma bebida
perto dele, e voltaram para seus negócios escusos.
- Sujeitinho impressionável - disse Gandalf, enquanto eles
se sentavam. - Tem uns acessos estranhos, mas é um dos melhores,
um dos melhores. Feroz como um dragão num aperto.
Se vocês alguma vez na vida já viram um dragão
num aperto, irão perceber que essa comparação
só podia ser uma licença poética quando aplicada
a qualquer hobbit, mesmo no caso do tio-bisavô do Velho Tûk,
Urratouro, que era tão grande (para um hobbit) que conseguia
montar um cavalo. Ele atacou os pelotões dos orcs de Monte
Gram, na Batalha dos Campos Verdes, e arrancou a cabeça de
seu rei Golfimbul com um taco de madeira. A cabeça voou pelos
ares cerca de cem jardas e caiu numa toca de coelho, e dessa maneira
a batalha foi vencida e ao mesmo tempo foi inventado o jogo de golfe.
Enquanto isso, entretanto, o descendente mais pacífico de
Urratouro estava voltando à vida na sala de visitas. Depois
de um momento e de uma bebida, arrastou-se nervosamente até
a porta da sala. Isto foi o que ouviu, Gloin falando: - "Hunf!"
- ou algum resmungo mais ou menos assim. - Você acha que ele
serve? Para Gandalf está tudo bem ficar falando da ferocidade
desse hobbit, mas um acesso desses numa hora de agitação
seria o suficiente para acordar o dragão e todos os seus
parentes, e matar a todos nós. Eu acho que o acesso pareceu
mais de medo do que de agitação! Na verdade, se não
fosse pelo sinal na porta, eu teria a certeza de que tinha chegado
na casa errada. Assim que bati os olhos nesse sujeitinho bufando
e esperneando no tapete, eu tive minhas dúvidas. Ele parece
mais um dono de armazém que um ladrão!
Então o Sr. Bolseiro girou a maçaneta e entrou. O
lado Tûk havia vencido. De repente sentiu que poderia ficar
sem comida ou descanso só para ser considerado feroz. Quanto
a sujeitinho bufando e esperneando no tapete, isso quase o fez ficar
realmente feroz. Muitas vezes no futuro a sua parte Bolseiro iria
se arrepender do que estava fazendo agora e ele diria a si mesmo:
"Bilbo, você foi um bobo; você caiu na armadilha
e meteu os pés pelas mãos."
- Desculpem - disse ele - se, por acaso, ouvi o que vocês
estavam dizendo. Não vou fingir que estou entendendo o que
disseram, ou a referência que fizeram a ladrões, mas
acho que estou certo em acreditar - isto é o que ele chamava
"defender sua dignidade" - que acham que eu não
sirvo. Eu vou lhes mostrar. Não tenho sinais na minha porta,
que foi pintada há uma semana, e tenho certeza de que vocês
vieram bater na casa errada. Assim que vi suas caras esquisitas
na porta, tive minhas dúvidas. Mas façam de conta
que esta é a casa certa. Digam-me o que vocês querem
que seja feito e vou tentar fazê-lo, mesmo que eu tenha de
andar daqui até o leste do leste e lutar contra os Homens-dragões
selvagens no Último Deserto. Eu tive um tio-tetravô,
Urratouro Tûk, que...
- É, sim, mas isso foi há muito tempo - disse Gloin.
- Eu estava falando de você. E garanto que existe um sinal
em sua porta... O sinal comum que usamos nesse negócio, ou
costumava ser assim. Ladrão procura por um bom emprego, com
grandes Emoções e uma boa Recompensa, geralmente é
assim que se anuncia. Você pode dizer Especialista em Caçadas
de Tesouro em vez de ladrão, se quiser. Alguns deles preferem.
Para nós é a mesma coisa. Gandalf nos disse que havia
um homem do tipo nestas redondezas procurando um emprego urgente,
e que ele tinha acertado um encontro aqui nesta quarta-feira, na
hora do chá.
- É claro que há um sinal - disse Gandalf. - Eu mesmo
o coloquei. Por razões muito boas. Vocês me pediram
para encontrar o décimo quarto homem para a sua expedição,
e eu escolhi o Sr. Bolseiro. Se alguém disser que escolhi
o homem errado, ou a casa errada, podem ficar em treze e com todo
o azar que quiserem, ou então vão voltar à
extração de carvão.
Ele franziu o cenho para Gloin com tanta raiva que o anão
afundou na cadeira; e quando Bilbo tentou abrir a boca para fazer
uma pergunta, ele se virou e franziu-lhe a testa levantando as sobrancelhas
espessas, e Bilbo fechou a boca imediatamente. - Assim está
bem - disse Gandalf. - Não vamos mais discutir. Eu escolhi
o Sr. Bolseiro e isto deve ser o suficiente para todos vocês.
Se eu digo que ele é um ladrão, isso é o que
ele é, ou será quando chegar a hora. Existe muito
mais nele do que vocês podem imaginar, e muito mais do que
ele mesmo possa ter idéia. Vocês vão (possivelmente)
viver para me agradecer um dia. Agora, Bilbo, meu rapaz, traga a
lamparina e vamos iluminar um pouco isto aqui.
Sobre a mesa, à luz de uma grande lamparina com um quebra-luz
vermelho, ele desenrolou um pergaminho muito parecido com um mapa.
- Isto foi feito por Thror, seu avô, Thorin - disse ele em
resposta às perguntas excitadas dos anões. - É
um mapa da Montanha.
- Acho que isso não vai ajudar muito - disse Thorin, desapontado,
depois de dar uma olhada. - Eu me lembro muito bem da Montanha e
das terras em volta dela. E eu sei onde fica a Floresta das Trevas,
e também o Urzal Seco, onde os grandes dragões se
reproduziam.
- Há um dragão marcado em vermelho na Montanha - disse
Balin -, mas vai ser fácil encontrá-lo sem isso aí,
se é que vamos conseguir chegar lá.
- Existe um ponto que vocês não notaram - disse o mago
-, e é a entrada secreta. Estão vendo a runa no lado
oeste, e a mão apontando para ela saindo das outras runas?
Isso marca uma passagem secreta para os Salões Inferiores.
(Olhem o mapa no início deste livro e lá verão
as runas em vermelho.)
- Pode ter sido secreta uma vez - disse Thorin -, mas como podemos
saber se ainda é secreta? O Velho Smaug viveu lá tempo
suficiente para descobrir qualquer coisa que se possa conhecer sobre
essas cavernas.
- Pode ser, mas ele não tem podido usá-la por muitos
e muitos anos.
- Por quê?
- Porque a passagem é muito pequena. "Cinco pés
de altura a porta, e três podem passar lado a lado",
dizem as runas, mas Smaug não passaria por um buraco desse
tamanho nem mesmo quando era um dragão jovem, e certamente
não depois de ter devorado tantos anões e homens de
Valle.
- Para mim parece um buraco bem grande - exclamou Bilbo (que não
tinha nenhuma experiência com dragões, mas apenas com
tocas de hobbits). Estava ficando entusiasmado e interessado de
novo, tanto que se esqueceu de manter a boca fechada. Adorava mapas,
e em seu corredor estava pendurado um bem grande da Região
Circunvizinha com todas as suas caminhadas favoritas marcadas com
tinta vermelha. - Como poderia uma porta tão grande ser mantida
em segredo para todas as pessoas de fora, com exceção
do dragão? - perguntou. Ele era apenas um pequeno hobbit,
vocês devem se lembrar.
- De muitas maneiras - disse Gandalf. - Mas de que maneira esta
porta foi escondida nós não saberemos sem ir lá
verificar. Pelo que diz o mapa, posso adivinhar que existe uma porta
fechada, que foi feita de modo a se parecer exatamente com a encosta
da Montanha. Esse é geralmente o método dos anões...
Acho que é isso, não é?
- Certo - disse Thorin.
- E também - continuou Gandalf - esqueci de mencionar que
com o mapa havia uma chave, uma chave pequena e curiosa. Aqui está
ela! - disse ele, entregando a Thorin uma chave com uma haste longa
e dentes intricados, feita de prata. - Guarde-a em lugar seguro!
- Vou fazer isso - disse Thorin, e colocou a chave numa corrente
fina que pendia de seu pescoço, sob o casaco. - Agora as
chances parecem maiores. Essa notícia melhora muito as coisas.
Até agora não tínhamos uma idéia clara
do que fazer. Estávamos pensando em ir para o leste, com
o maior cuidado e silêncio possível, até o Lago
Comprido. Depois disso o problema iria começar...
- Muito antes disso, se é que sei alguma coisa sobre as estradas
que levam para o leste - interrompeu Gandalf.
- Nós poderíamos sair daqui, subindo ao longo do Rio
Corrente - continuou Thorin, sem prestar atenção -,
e assim até as ruínas de Valle, a velha cidade naquele
vale, sob a sombra da Montanha. Mas nenhum de nós gostou
da idéia do Portão Dianteiro. O rio vem exatamente
de dentro dele através do penhasco ao sul da Montanha, e
por ali também sai o dragão; muito freqüentemente,
a não ser que tenha mudado seus hábitos.
- Isso não adiantaria nada - disse o mago -, não sem
um Guerreiro valente, até um Herói. Eu tentei achar
um, mas os guerreiros estão ocupados lutando uns contra os
outros em terras distantes, e por estes lados os heróis são
raros, ou simplesmente impossíveis de encontrar. As espadas
nestas partes estão em sua maioria cegas, os machados são
usados para árvores, e os escudos como berços ou tampas
de pratos; e os dragões estão confortavelmente distantes
(e por isso são lendários). É por isso que
optei pelo roubo, especialmente quando me lembrei da existência
de uma porta lateral. E aqui está o nosso pequeno Bilbo Bolseiro,
o ladrão, o escolhido e eleito ladrão. Então
vamos continuar e fazer alguns planos.
- Então, muito bem - disse Thorin -, se o ladrão perito
nos der algumas idéias e sugestões. - Virou-se para
Bilbo, numa gentileza fingida.
- Primeiramente eu queria saber um pouco mais a respeito das coisas
- disse este, sentindo-se todo confuso e um pouco amedrontado, mas,
até o momento, determinado como um Tûk a ir adiante.
- Quero dizer, sobre o ouro e o dragão, e tudo o mais, e
como ele chegou até lá, e a quem ele pertence, e todo
o resto.
- Por minhas barbas! - disse Thorin - Você não viu
o mapa? E não ouviu nossa música? E não estamos
falando de tudo isso há horas?
- Mesmo assim, gostaria de tudo bem explicadinho - disse ele obstinadamente,
adotando sua atitude de negócios (geralmente reservada para
pessoas que tentavam tomar dinheiro emprestado dele), e fazendo
de tudo para parecer sábio e prudente e profissional e à
altura das recomendações de Gandalf. - Eu também
gostaria de saber sobre os riscos, despesas extras, o tempo necessário
e a remuneração, e tudo o mais. - Com isso ele queria
dizer: "O que vou ganhar com isso?" e "Vou voltar
vivo?"
- Muito bem - disse Thorin. - Há muito tempo, na época
de meu avô Thror, nossa família foi expulsa do extremo
norte, e voltou com toda sua riqueza e ferramentas para a Montanha
deste mapa. Ela fora descoberta pelo meu ancestral distante, Thrain,
o Velho, mas na época de Thror eles exploraram minas e fizeram
salões maiores e oficinas maiores também, e, além
disso, acho que encontraram uma grande quantidade de ouro, além
de muitas jóias. De qualquer modo, ficaram imensamente ricos
e famosos, e meu avô tornou-se Rei sob a Montanha novamente,
e era tratado com grande reverência pelos homens mortais,
que viviam no sul, e estavam se espalhando gradualmente ao longo
do Rio Corrente até o vale que fica à sombra da Montanha.
Naqueles dias, eles construíram a alegre cidade de Valle.
Reis costumavam mandar buscar nossos artífices, e recompensavam
muito bem até os menos habilidosos. Pais nos imploravam para
aceitar seus filhos como aprendizes, e nos pagavam regiamente, sobretudo
com suprimentos de comida, que nunca nos preocupávamos em
procurar ou cultivar para nosso uso. Esses foram dias felizes, e
os mais pobres de nós tinham dinheiro para gastar e emprestar,
e tempo para fazer coisas bonitas por puro prazer, sem falar dos
brinquedos mais mágicos e maravilhosos, do tipo que não
se encontra em lugar algum no mundo hoje em dia. Desse modo, os
salões de meu avô ficaram cheios de armaduras e jóias,
de esculturas e taças, e o mercado de brinquedos de Valle
era a maravilha do norte.
- Sem dúvida, foi isso que trouxe o dragão. Dragões
roubam jóias e ouro, você sabe, dos homens, dos elfos
e dos anões, onde quer que possam encontrá-los; e
guardam o que roubaram durante toda a sua vida (o que é praticamente
para sempre, a não ser que sejam mortos), e nunca usufruem
sequer um anel de latão. Na verdade, eles mal sabem distinguir
um trabalho bem feito de um trabalho ruim, embora tenham uma boa
noção do valor de mercado corrente; e não conseguem
fazer nada por si mesmos, nem sequer remendar uma escama solta de
suas armaduras. Havia muitos dragões no norte naquela época,
e o ouro estava provavelmente se tornando raro por lá, com
os anões indo para o sul ou sendo mortos, e com todo o tipo
de ermo e destruição geral que os dragões provocam,
indo de mal a pior. Havia um dragão especialmente ganancioso,
forte e mau, chamado Smaug. Um dia ele alçou vôo e
veio para o sul. O primeiro sinal dele que ouvimos foi um barulho
como um furacão vindo do norte, e os pinheiros das montanhas
chiando e estalando com o vento. Alguns dos anões por acaso
estavam do lado de fora (por sorte eu era um deles, um bom rapaz
aventureiro, naqueles dias, sempre andando por aí, e isso
salvou minha vida naquele dia) quando, de uma boa distância,
vimos o dragão pousar na montanha num jato de fogo. Então
ele desceu as encostas e, quando atingiu a floresta, ela se incendiou
inteira. Naquele momento todos os sinos estavam repicando em Valle
e os guerreiros estavam se armando. Os anões correram para
fora pelo seu grande portão, mas lá estava o dragão
à espera deles. Nenhum escapou por ali. O rio se ergueu em
vapor e um nevoeiro cobriu Valle, e no nevoeiro o dragão
avançou sobre eles e destruiu a maioria dos guerreiros; a
triste história de sempre, isso era muito comum naquela época.
Depois voltou e se arrastou através do Portão Dianteiro
e saqueou todos os salões e alamedas, e túneis, becos,
adegas, mansões e corredores. Depois disso, não restaram
anões vivos no lado de dentro, e ele pegou toda a riqueza
deles para si. Provavelmente, pois esse é o jeito dos dragões,
empilhou tudo num grande monte bem no interior da montanha, e dorme
sobre ela como se fosse uma cama. Depois, passou a se arrastar para
fora do portão grande e vir à noite até Valle,
e levar embora pessoas, principalmente donzelas, para devorar, até
que Valle ficou arruinada, e todas as pessoas partiram ou morreram.
O que acontece lá agora não sei com certeza, mas não
acho que hoje em dia alguém viva em algum lugar mais próximo
da Montanha do que a extremidade do Lago Comprido.
- Os poucos de nós que estavam do lado de fora e bem afastados
sentaram-se e choraram escondidos, e amaldiçoaram Smaug;
e ali juntaram-se a nós inesperadamente meu pai e meu avô,
com as barbas chamuscadas. Eles pareciam muito soturnos, mas não
disseram quase nada. Quando perguntei como tinham conseguido sair,
disseram-me para fechar a boca e que no momento certo eu saberia.
Depois disso fomos embora, e tivemos de aprender a ganhar nossas
vidas da melhor maneira possível por esse mundo afora, muitas
vezes tendo de nos rebaixar e fazer o trabalho de ferreiros e até
de mineiros de carvão. Mas nunca nos esquecemos de nosso
tesouro roubado. E, mesmo agora, quando admito que temos algumas
reservas e não estamos tão pobres - nesse momento
Thorin passou a mão sobre a corrente de ouro em seu pescoço
-, nós ainda queremos o tesouro de volta, e fazer com que
nossas maldições caiam sobre Smaug, se pudermos.
- Eu sempre me perguntei sobre a fuga de meu pai e meu avô.
Vejo agora que deviam ter uma porta lateral particular que apenas
eles conheciam. Mas, ao que parece, fizeram um mapa, e eu gostaria
de saber como Gandalf se apoderou dele, e por que não chegou
às minhas mãos, às mãos do herdeiro
por direito.
- Eu não "me apoderei dele", o mapa me foi dado
- disse o mago. - Seu avô Thror foi morto, você se lembra,
nas minas de Moria por Azog, o Orc.
- Sim, maldito seja esse nome - disse Thorin.
- E seu pai Thrain foi-se embora no dia 21 de abril, fez cem anos
na última quinta-feira, e nunca mais foi visto desde então.
- É verdade, é verdade - disse Thorin.
- Bem, o seu pai me entregou isto para que o desse a você;
e se eu escolhi minha própria hora e meu próprio jeito
de entregá-lo, você não pode me culpar, considerando
a dificuldade que tive em encontrá-lo. Seu pai não
conseguia se lembrar do próprio nome quando me deu o papel,
e nunca me disse o seu; então, afinal, acho que devem me
elogiar e agradecer! Aqui está - disse ele, entregando o
mapa a Thorin.
- Não entendo - disse Thorin, e Bilbo sentiu que gostaria
de ter dito o mesmo. A explicação não parecia
explicar.
- Seu avô - disse o mago austera e lentamente - deu o mapa
a seu filho por segurança antes de partir para as minas de
Moria. Seu pai foi embora para tentar a sorte com o mapa depois
que seu avô foi morto, e teve muitas aventuras da pior espécie,
mas nunca conseguiu se aproximar da Montanha. Como ele chegou até
lá eu não sei, mas encontrei-o aprisionado nas masmorras
do Necromante.
- O que você estava fazendo lá? - perguntou Thorin,
com um arrepio, e todos os anões tremeram.
- Isso não importa para você. Eu estava descobrindo
coisas, como sempre, e era um negócio perigoso e desagradável.
Mesmo eu, Gandalf, escapei por pouco. Tentei salvar o seu pai, mas
era tarde demais. Ele estava fora de si e tinha se esquecido de
quase tudo, a não ser do mapa e da chave.
- Nós nos vingamos há muito tempo dos orcs de Moria
- disse Thorin. - Agora devemos pensar no Necromante.
- Não seja maluco! Ele é um inimigo acima dos poderes
de todos os anões juntos, se eles pudessem ser reunidos de
novo dos quatro cantos do mundo. A única coisa que seu pai
queria é que o filho dele lesse o mapa e usasse a chave.
O dragão e a Montanha são tarefas mais que grandes
para você.
- Escutem, escutem! - falou Bilbo, e acidentalmente falou alto.
- Escutar o quê? - todos disseram, virando-se de repente para
ele, que ficou tão atrapalhado que respondeu: - Escutem o
que eu tenho a dizer!
- O que é? - perguntaram eles.
- Bem, gostaria de dizer que vocês devem ir para o leste e
dar uma olhada no lugar. Afinal de contas, existe uma Porta Lateral,
e os dragões devem dormir de vez em quando, creio eu. Se
vocês ficarem sentados à porta tempo suficiente, acho
que vão pensar em alguma coisa. E, bem, eu não sei,
acho que conversamos muito para uma só noite, se vocês
entendem o que quero dizer. Que tal dormir, e acordar cedo, e tudo
o mais? Vou lhes oferecer um bom desjejum antes de partirem.
- Antes de partirmos, é o que você quer dizer, se não
me engano - disse Thorin. - Você não é o ladrão?
E sentar-se à porta não é o seu serviço,
sem falar em entrar pela porta? Mas concordo sobre a cama e o desjejum.
Eu gosto de seis ovos com presunto, quando vou começar uma
viagem: fritos, não cozidos na água, e espero que
você não rompa as gemas.
Depois que todos os outros fizeram seus pedidos sem nem um "por
favor" (o que deixou Bilbo muito irritado), eles se levantaram.
O hobbit teve de arrumar lugar para todos, e encheu todos os seus
quartos de hóspedes, e improvisou camas em cadeiras e sofás
antes de conseguir instalar todos eles e ir para sua caminha muito
cansado e não muito feliz. Uma coisa que decidiu foi não
acordar muito cedo para preparar o maldito desjejum de todos os
outros. A Tûkidade estava desaparecendo, e ele agora não
tinha muita certeza de que partiria em alguma viagem pela manhã.
Deitado em sua cama, podia ouvir Thorin ainda cantando baixinho
no melhor quarto, ao lado do dele.
Para
além das montanhas nebulosas, frias,
Adentrando cavernas, calabouços perdidos
Devemos partir antes de o sol surgir,
Buscando tesouros há muito esquecidos.
Bilbo
caiu no sono com aquilo em seus ouvidos, o que lhe proporcionou
sonhos muito desagradáveis. Já passava muito do nascer
do dia quando acordou.
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