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ABORTO
 

Aborto químico

É aprovada nos Estados Unidos a venda
da pílula do aborto. Mas ela está
longe de ser uma simples aspirina

Ricardo Galhardo

Legalizado em 1973 nos Estados Unidos, o aborto é um dos alvos permanentes dos grupos conservadores cristãos. Na semana passada, eles realizaram mais uma vez passeatas inflamadas. Isso porque o FDA, a agência federal de controle de alimentos e remédios, liberou a venda no país da RU486, a pílula do aborto. A decisão foi tomada depois de doze longos anos de estudos sobre os seus efeitos no organismo da mulher. “RU486 é veneno de bebê”, gritam os descontentes. No campo oposto, as entidades de defesa do aborto não cabem em si de contentamento. Seus ativistas acreditam que a RU486 é a maior conquista feminina desde a invenção da pílula anticoncepcional.

Sem dúvida parece bem mais cômodo engolir um comprimido do que ter de ser submetida a uma operação. Mas o aborto químico não é assim tão simples. Antes de tomar a RU486, a mulher precisa fazer um ultra-som para saber se a gestação está em sua fase inicial — o que, para o FDA, equivale até à sétima semana. Em outros países, esse período pode se estender até a décima segunda. Se a resposta for positiva, a paciente toma a pílula, composta pela substância mifepristona, que bloqueia o hormônio progesterona, necessário ao bom andamento da gravidez. Sem a progesterona, o embrião é desalojado da parede do útero e expelido por meio de contrações. Nos Estados Unidos, a paciente ainda ingere uma segunda pílula, dois dias depois, constituída pela substância misoprostol, que causa mais contrações. No Brasil, ela se chama Cytotec. É uma forma de garantir que o feto foi mesmo eliminado do organismo. Todo o processo deve ser feito com acompanhamento médico. O FDA recomenda, ainda, que passadas duas semanas a mulher volte ao consultório do ginecologista, para realizar outro ultra-som e verificar se o aborto foi um sucesso. Ao contrário do que se pode imaginar, o aborto químico não é desprovido de dor. Na verdade, dói mais do que o cirúrgico. A paciente sente cólicas fortíssimas e não raro é acometida de náuseas, diarréia e hemorragias. Como é um quadro clínico muito semelhante ao de um parto normal, pode ser uma experiência sofrida também do ponto de vista psicológico.

Inventada em 1988, na França, a RU486 é hoje vendida em países onde a gravidez indesejada é tratada como problema de sáude pública. É o caso da própria França, Inglaterra, Espanha e de Portugal. Não deve ser confundida com a “pílula do dia seguinte”, que apenas impede que o óvulo seja fecundado ou, se isso acontecer, que ele se instale na parede do útero. Como no Brasil o aborto só é permitido em casos de estupro ou risco de vida para a mãe, e mesmo assim depois de uma longa batalha judicial, muitas mulheres usam o já citado Cytotec, originalmente criado para combater úlceras. Todos os anos são feitos 1,5 milhão de abortos no país. Uma em cada 1 000 pacientes morre. Ou porque foram operadas por médicos-açougueiros ou porque tomaram Cytotec sem nenhuma orientação e acabaram vítimas de infecções gravíssimas.


Gravidez interrompida

Como funcionam as pílulas do aborto

MÉTODOS
RU 486

MECANISMO DE AÇÃO
Neutraliza a ação da progesterona, essencial para o relaxamento da musculatura do útero, sem o qual a gravidez se torna inviável. Na ausência desse hormônio, os músculos se retraem, provocando o aborto

MÉTODOS
Cytotec

MECANISMO
Age diretamente nas fibras do músculo uterino. Sob o efeito do remédio, o útero sofre fortes contrações, a placenta se desloca e o organismo acaba por expelir o feto.

Fonte: Thomaz Gollop, professor da Universidade de São Paulo e diretor do Instituto de Medicina Fetal e Genética Humana

 
 
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