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É
fácil entender por que a garotada anda grudada no computador.
A web se tornou um enorme parque de diversões digital. As
iscas são tentadoras: gibis virtuais, trailers de filmes,
histórias animadas, rádios, novelinhas e até
noticiário infantil, sem contar os jogos, muitos jogos. Na
rede, os heróis da TV e das revistinhas em papel ganham vida
multimídia sons, movimentos e brilho. Melhor de tudo
é que estão à disposição a qualquer
momento e quase de graça. É aí que começa
a confusão e é também onde devem entrar os
pais. O que uma criança pode e não pode fazer na internet?
O que é bom e o que não é? "Os pais têm
papel fundamental nessa orientação, tanto para ajudá-los
a navegar quanto para ensiná-los a selecionar bom conteúdo",
diz a pedagoga Silvia Fichmann, especialista em tecnologia aplicada
à educação e coordenadora das equipes consultivas
da Escola do Futuro da Universidade de São Paulo (USP).
Os jogos de encaixe, labirinto, quebra-cabeças de peças
grandes e liga-pontos são encontrados em abundância
na internet e altamente recomendados para essa faixa etária.
O melhor da história é que, se praticadas no computador,
essas atividades tendem a apurar a percepção visual,
a orientação espacial e a coordenação
combinada dos olhos e das mãos. Para se ter uma idéia
da importância desse tipo de estímulo, é o desenvolvimento
da percepção visual, por exemplo, que permitirá
à criança diferenciar o "b" do "d" na fase de alfabetização.
Já a orientação espacial e a coordenação
de olhos e mãos permitem que uma pessoa na fase adulta saiba
onde estacionou o carro depois de passear num shopping center e
seja capaz de colocar uma colher de açúcar no bocal
estreito de uma mamadeira sem fazer sujeira. É claro que
essas habilidades podem ser desenvolvidas de outras maneiras, como
ocorria antes da internet, mas os recursos da rede tendem a apurá-las.
Quando a criança pilota o computador utilizando o mouse e
a tela, é uma operação complexa de relacionamentos
que se estabelece. Uma coisa é riscar o papel com o lápis
ou montar um jogo de encaixes, onde tudo está fisicamente
em contato. Outra é controlar objetos representados na tela,
movimentando o mouse sobre um suporte que está em outro plano.
As crianças rapidamente descobrem essas relações
e comandam a seta do mouse com maestria.
Stéfano deu os primeiros passos na web aos 7 anos, com a ajuda do pai, e hoje é o principal usuário do computador da casa, gastando cerca de uma hora e meia todos os dias na rede, tempo que inclui pesquisas escolares. Os pais falam com orgulho do interesse do filho pela internet, mas ficam atentos às demais atividades do garoto. "A internet não é tudo. Dizemos a ele para ler livros e revistas reais e praticar esportes", diz o pai, Ricardo Arpassy. Esse tipo de atitude é importante. "A internet não pode substituir brincadeiras como o futebol, a amarelinha ou o esconde-esconde", afirma Lídia Weber, psicóloga e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR). "É com o grupo que eles aprendem a negociar, dividir, perdoar, fazer amigos e a expor suas opiniões." Lídia ressalta, porém, o que considera um dos aspectos positivos da internet para o desenvolvimento infantil o estímulo ao pensamento não linear. "A criança depara com situações em que tem de saber selecionar o que quer. Por exemplo, quando encontra um hiperlink que a leva a outras páginas da internet. Nessa exploração, ela tem de desenvolver a capacidade de comandar o pensamento, saber avançar pelas páginas e voltar ao ponto de origem. É um exercício que ensina a lidar com as variações do mundo." Dos 10 aos 12 anos, com a alfabetização mais avançada, é comum que as crianças passem a ter mais interesse em se comunicar com outras. Nessa fase, começam as ondas de cartões virtuais, e-mails, ICQ e salas de bate-papo. "É aí que mora o perigo", diz Silvia Fichmann. "Esse é o momento em que os pais têm de prestar mais atenção." Na internet não há como saber se, do outro lado da linha, são realmente crianças que estão participando de um bate-papo. A velha orientação de não falar com estranhos continua valendo nesse bosque virtual. O espaço é outro, mas a criança continua tendo de ser preservada e protegida. Os pais precisam orientá-la a não dar informações pessoais, como o endereço de casa ou da escola, e jamais comunicar números de documentos ou de cartões de crédito. Proibir não é uma boa solução, até porque privaria as crianças de utilizar esse meio que, além de estimular a integração com outras da mesma idade, contribui para o desenvolvimento da comunicação escrita. O ideal, recomendam os educadores, é que elas participem de chats em que há mediadores e sejam promovidos por instituições conhecidas, como escolas, associações ou programas de televisão, por exemplo. É preciso também cuidar de outro perigo. "Os chats e os jogos podem até levar ao vício", diz a psicóloga Lídia Weber. O problema costuma ser desencadeado quando a criança está passando por crises de auto-estima, de relacionamento com os colegas, pais, ou quando simplesmente não tem com quem sair. Ela pode querer testar sua capacidade de fazer amigos virtualmente e daí se prender a esse tipo de relacionamento, perdendo o interesse por relações reais. É preciso limitar o uso do computador, especialmente se o pai percebe que a criança começa a cometer exageros. Se ela recusa convites para festas e para brincar com os amigos porque está na internet, fique alerta. Há casos em que a prática também começa a justificar menos horas de sono e atrapalha até os estudos. Esse tipo de comportamento exagerado pode ser um indício de que algo vai mal. "Não há como estabelecer o tempo ideal de permanência de uma criança na internet, mas existe uma regra geral: elas devem ter atividades diversificadas", ensina Yves De La Taille, do Instituto de Psicologia da USP. "Devem ter tempo de brincar com os amigos, ler livros, praticar esportes, ver televisão e fazer as tarefas de casa." O equilíbrio é uma das condições essenciais para uma vida saudável. Na opinião do psicólogo, embora seja recomendável que todas as crianças tomem contato com essa nova forma de comunicação, é preciso ter em conta que os meios eletrônicos, como a internet e a televisão, são muito individualizantes. Geralmente transmitem muita informação, mas dão pouco espaço para as pessoas se expressarem. Por isso, os pais devem sempre estimulá-las ao diálogo, perguntando tanto sobre as pesquisas quanto sobre as brincadeiras que fizeram na rede. "Elaboramos melhor o conhecimento quando temos de explicá-lo", diz De La Taille. O estímulo para que as crianças caiam na rede com tudo deve continuar crescente, com a criação de novos endereços e opções de atividades. Os provedores de conteúdo têm grande interesse nisso, porque perceberam rapidamente que as crianças são uma força econômica. "Embora não sejam donas do dinheiro, elas influenciam as compras da família", diz Sérgio Rodrigues Ferreirinho, gerente do ZipKids, canal infantil do portal Zip-Net.
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