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O eterno estudante
Engana-se quem acha que a vida de estudante chega
ao fim com a formatura. O diploma garante
apenas o primeiro emprego. A permanência no mercado dependerá
de reciclagem constante
Tatiana Americano
André Penner

Brasileiros na Wharton Business School: MBA funciona como antídoto
num mundo em que mais da metade da força de trabalho
está empregada em funções que não
existiam dez anos atrás |
O
publicitário Ulisses Mendes Soares, gerente de produtos da
AIG Seguros, é um eterno insatisfeito com sua formação.
Desde que se graduou pela Universidade Federal de Minas Gerais,
fez dois cursos de pós-graduação, um em marketing
e outro em finanças, concluiu dois cursos de idiomas no exterior
e tem planos para um master in business administration nos Estados
Unidos. Apesar do que sua preocupação em estudar pode
insinuar, Soares, de 28 anos, não está preocupado
em manter o emprego que conseguiu recentemente. Seu propósito
vai além. Ele quer estar empregável. Em outras palavras,
quer qualificar-se e atualizar-se para o dia em que for demitido
ou decidir pedir demissão. E, caso isso não ocorra,
estará se credenciando a ocupar os postos mais disputados
da companhia em que trabalha.
A maior parte dos jovens que deixam a faculdade acredita que se
tornará apta a encontrar um bom emprego apenas fazendo um
curso de computação. Erro imperdoável esse.
Só integrará aquela minoria com rendimentos acima
da média quem conseguir copiar o estilo Soares de vida. É
como se existissem dois hemisférios no planeta Emprego. De
um lado, estão os profissionais que sabem muito e são
literalmente caçados pelas empresas. De outro, todos os demais.
Ou seja, aqueles que até têm trabalho (por enquanto),
mas não garantiram a obtenção de uma nova vaga
em caso de demissão. Em geral, a empregabilidade só
costuma preocupar quem sofreu algum sismo na vida profissional,
como a perda do emprego, a promoção preterida. O certo
é se movimentar já, como forma de evitar surpresas
desagradáveis.
Ricardo Benichio

Não
se recomenda a ninguém que
estude feito maluco, sob pena
de transformar a vida num
pesadelo. Além de estudar, o
publicitário Soares arruma tempo
para praticar mergulho, ir
ao cinema e ao teatro, namorar,
ler, sair com os amigos |
Nos Estados Unidos, mais da metade da força de trabalho está
empregada em funções que não existiam dez anos
atrás. Numa economia com características mais americanas
que européias, como a brasileira, o mesmo vai acontecer no
mercado local. Se o país começar a crescer a taxas
de 4% ou 5% ao ano, o processo de substituição de
tecnologia causará uma onda de desemprego tecnológico,
compensado pela geração de uma leva de novos postos.
Ganha quem conseguir adaptar-se à mudança. A empregabilidade
envolve uma discussão relativamente chata porque já
foi difícil (e extremamente cansativo) estudar durante quinze
anos. Em seguida, veio a luta pelo primeiro emprego, que também
é uma pedreira. Quando parecia ser possível respirar
um pouco, o mercado avisa que vai selecionar quem se recicla e mandar
embora os outros. Os especialistas em recursos humanos estão
acostumados com uma natural reação de desânimo
por parte dos jovens, que ficam com a impressão de que aqueles
anos de estudo pouco ou nada valeram. Para quem cair na tentação
de pensar assim, um alerta: conceitos de gestão e de administração
e técnicas de venda superam-se tão rapidamente quanto
a tecnologia. Valores em voga há dez ou quinze anos hoje
parecem ser tão envelhecidos quanto escrever farmácia
com "ph".
Investir na reciclagem significa possuir disciplina e bom senso
para montar uma agenda razoável. Não se recomenda
a ninguém que estude feito maluco, sob pena de ficar estressado
e transformar a vida num pesadelo. Novamente se deve observar o
caso do publicitário Soares. Além de estudar, ele
arruma tempo para praticar mergulho, ir ao cinema e ao teatro, namorar,
ler, sair com os amigos. Tão importante quanto desenvolver
habilidades objetivas, quem se recicla passa um recado muito positivo
para as companhias. Como o bem maior do capitalismo na virada do
século é o conhecimento, aquele que estuda avisa ao
mercado que continua ávido por conhecer e inovar. "Um empregado
que não se aprimora está dizendo à empresa
que não tem ambição", afirma Dárcio
Crespi, sócio da Heidrick & Struggles, consultoria internacional
especializada em recrutamento de executivos. "E pessoas estacionadas
não têm mais espaço na economia."
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