Edição 1 651 -31/5/2000

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Queimamos os livros?

"Não se pode esperar que, largado à sua
própria
iniciativa, atropelado por mil
compromissos,
preparado precariamente,
cada professor reinvente a pedagogia
em seu cotidiano"

Ale Setti


Já se propôs uma grande fogueira para os livros didáticos. Jamais consegui saber se o conselho foi seguido por alguém. Mas examinando recentemente alguns livros, por áridos e desinteressantes que são, até que me invadem sanhas incendiárias.

O movimento construtivista se rebela contra os livros didáticos e contra o empacotamento do saber no currículo que "transforma o professor em mero executante e atribui à indústria editorial a faculdade de modelar as conotações epistêmicas, psicológicas e metodológicas do currículo real, uniformizando a atividade educativa". Para eles, "a experiência do aluno é que conta ... enfatizando o conhecimento como criação...".

Não poderia estar mais de acordo com esta última idéia: não importa o que se ensina, mas o que o aluno aprende. Portanto, o aluno deverá ser o centro do processo. Só empaco na minha compreensão do pensamento construtivista quando desemboca em uma situação em que o professor tem de fazer o aluno construir o seu conhecimento com mínimo auxílio de livros e outros materiais didáticos. Nesse momento, no meu pobre entender, o construtivismo descarrilha.

Pensemos no seguinte: o professor, na sua devoção de levar o aluno a construir o seu conhecimento, descobre um problema prático, uma tarefa ou um exemplo que conduz seus alunos a entrar em um processo mental e emocional que induz ao aprendizado. Ora, se deu certo, ele irá repetir o problema no ano seguinte. Poderá também sugerir a seus colegas que usem o mesmo problema ou método. Por que, então, se deu certo para esse professor e seus colegas, não poderá ser descrito em um livro para que todos tenham a possibilidade de repetir esse exemplo ou experimento criativo? A rigidez não vem de botar no livro, de ser prático e concreto, mas de uma maneira estreita e equivocada de fazê-lo.

É nesse ponto que tomo um caminho diferente. Quero livros melhores, que ajudem mais o professor, e não queimá-los na pira sagrada. O papel tanto aceita a imbecilidade e a chatice quanto o convite às grandes aventuras do intelecto. Os grandes ensinamentos da Bíblia, do Corão e do Buda estão escritos.

O professor tem de ser ajudado com os melhores materiais escritos, com o mais elevado nível de detalhes possível, com a maior riqueza de apoios. Não se pode esperar que, largado à sua própria iniciativa, atropelado por mil compromissos, preparado precariamente, cada professor reinvente a pedagogia em seu cotidiano. Aqueles que pertencerem à seleta casta dos que podem fazê-lo andarão sozinhos. A vasta maioria só pode agradecer o apoio de bons materiais, que ajudam nas minudências do cotidiano, ao invés de pontificar com teorias grandiosas.

É interessante verificar o grande êxito dessa outra tendência, chamada de "ensino estruturado". Por mais de meio século, o Senai detalhou minuciosamente as suas séries metódicas. A Escuela Nueva da Colômbia, também baseada em materiais mastigadinhos, traz para os alunos de escolas rurais (em que opera o programa) desempenho superior ao urbano, um resultado surpreendente. O Telecurso 2000, que funciona muito bem, obrigado, baseia-se em uma forte estruturação do aprendizado. O bem-sucedido Acelera Brasil (do Instituto Ayrton Senna) detalha a cada momento o que vão fazer os alunos. Em uma avaliação recente dos programas de apoio ao ensino financiados pelo governo federal americano, descobriu-se que aqueles que deixavam escolas e professores fazer o que bem entendiam mostraram piores resultados do que os programas em que havia muito mais orientação e estrutura – apesar de mais da metade dos professores de 1º e 2º graus terem mestrado.

Portanto, fogueira para os livros chatos e mortos. Mas que sejam substituídos por outros em que as idéias criativas e geniais sejam bem detalhadas e empacotadas. Viva o construtivismo empacotado!

 

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)

 

 
 
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