Edição 1 651 -31/5/2000

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Canudo esquisito

Universidades ampliam oportunidades com
cursos pouco ortodoxos, como pilotagem

Eduardo Nunomura

Liane Neves
Aula de simulação de vôo do curso de pilotagem de aviões da PUC-RS: emprego garantido


"Quiro... o quê?" A família de Flávia Giambastiani nunca tinha ouvido falar da carreira para a qual a moça havia marcado um "x" no formulário do vestibular. A estudante de 24 anos precisou provar ao pai, químico, e à mãe, professora, a existência do curso universitário de quiropraxia, técnica de massagem para ajuste da postura desenvolvida no final do século XIX com base em antigos tratados greco-romanos. Flávia integra a primeira classe de trinta alunos do curso pioneiro de graduação em quiropraxia, aberto neste ano pela Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo. Essa é uma das dezenas de novas carreiras universitárias que começaram a ser oferecidas desde 1996, quando o governo federal deu maior autonomia às escolas de ensino superior para a criação de cursos acadêmicos. Apenas nos dois primeiros anos, as quase 900 instituições brasileiras criaram 39 cursos pioneiros. Há para todos os gostos, de engenharia de informações a terapias alternativas, como acupuntura, massoterapia, ioga e alimentação natural.

Adriana Lorete
Brenda, aluna de terapias naturais: "Dizem que estou maluca"


A abundância de oferta surpreende, porque os brasileiros estão habituados a ver a faculdade, sobretudo, como a porta de acesso a profissões regulamentadas por lei. Os novos cursos preparam para atividades que podem ser exercidas sem a obrigatoriedade de formação superior, como corretagem de imóveis e acupuntura. A vantagem para quem faz a faculdade é um aprendizado de melhor qualidade do que aquele encontrado nos cursos livres ou oferecidos pelas entidades de classe. Isso não apenas forma profissionais mais bem preparados como também abre portas no mercado de trabalho. Dos 178 pilotos já formados pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), 175 foram contratados por grandes empresas. O curso de ciências aeronáuticas foi criado em 1993 em convênio com a Varig, dura três anos e inclui 2.640 horas de aulas teóricas e 250 de práticas. É mais que o dobro do treinamento teórico exigido pela legislação para a formação de um piloto. Cursos universitários de pilotagem já existem em Goiás, Minas Gerais, São Paulo e, desde este ano, no Rio de Janeiro.

Ricardo Benichio
Estudantes de quiropraxia: classe pioneira


Como ocorre com a pilotagem, a maioria das novidades universitárias foi criada em sintonia com a demanda do mercado de trabalho, cada vez mais exigente em relação à qualidade da mão-de-obra. A Universidade do Planalto Catarinense abriu há dois anos o curso de tecnologia da madeira. As madeireiras da região de Lages, onde se localiza a universidade, sofrem com a escassez de gente capacitada a trabalhar com madeira para exportação – do corte da árvore ao transporte do produto. A primeira turma de 25 alunos forma-se neste ano, e os formandos estão sendo disputados pelas empresas locais. Algumas das novas carreiras são especializações em cursos tradicionais. É o caso da engenharia de telecomunicações, que prepara profissionais para um dos setores mais dinâmicos da economia. No ano passado, a Universidade Bandeirante de São Paulo criou sua primeira turma, com noventa alunos. "Estamos seguindo os mesmos passos de países como os Estados Unidos, onde há profissões que ninguém imagina", afirma Eduardo Najjar, diretor da Associação Brasileira de Recursos Humanos. "Lá, é possível encontrar curso superior até para artista plástico especializado em madeiras."

Cursos de interesses específicos são realmente comuns nos Estados Unidos. A diferença é que os estudantes americanos só escolhem a carreira depois de freqüentar de dois a quatro anos de um curso básico, de formação generalista. Os brasileiros precisam escolher o ramo especializado já no momento do vestibular. O risco é a opção por uma área de limites tão estreitos que já esteja obsoleta na hora do diploma. É o caso do curso de graduação em webmaster, atualmente nos planos de várias instituições. Webmaster é o profissional que desenvolve páginas eletrônicas para a internet. Como a tecnologia é recente e passa por transformações aceleradas, ninguém garante que a função será a mesma dentro de três ou quatro anos. "Cursos com um perfil de treinamento específico demais não garantem uma formação adequada a um mercado de trabalho dinâmico", adverte Elizabeth Balbachevsky, especialista em políticas educacionais da Universidade de São Paulo. Em sua opinião, um estudante que queira dedicar-se às terapias naturais correrá menor risco se cursar antes fisioterapia ou medicina, deixando a especialização para depois. O vestibular é uma espécie de aposta na profissão do futuro – e, desse ponto de vista, só o tempo dirá se investir num modismo foi bom negócio. Aos 20 anos, a carioca Brenda Braz da Silva integra a primeira turma do recém-criado curso de terapias naturais da Universidade Estácio de Sá, no Rio. As disciplinas soariam melhor numa festa bicho grilo do que na universidade: cristais, cromoterapia, reiki, feng shui, do-in, shantala, hipnose e shiatsu. Preço do curso: 300 reais por mês. "Algumas pessoas dizem que estou maluca e perdendo meu tempo", diz a futura acupunturista. "Mas profissões hoje tradicionais começaram dessa forma."

 

Saiba mais
Da internet
  Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
  Universidade Anhembi-Morumbi
  Universidade do Planalto Catarinense
  Universidade Bandeirante de São Paulo
  Universidade Estácio de Sá

 

 


 
 
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