Canudo esquisito
Universidades ampliam oportunidades
com
cursos pouco ortodoxos, como pilotagem
Eduardo Nunomura
Liane Neves
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| Aula de simulação
de vôo do curso de pilotagem de aviões
da PUC-RS: emprego garantido |
"Quiro... o quê?" A família de Flávia
Giambastiani nunca tinha ouvido falar da carreira
para a qual a moça havia marcado um "x" no
formulário do vestibular. A estudante de 24
anos precisou provar ao pai, químico, e à
mãe, professora, a existência do curso
universitário de quiropraxia, técnica
de massagem para ajuste da postura desenvolvida no
final do século XIX com base em antigos tratados
greco-romanos. Flávia integra a primeira classe
de trinta alunos do curso pioneiro de graduação
em quiropraxia, aberto neste ano pela Universidade
Anhembi Morumbi, em São Paulo. Essa é
uma das dezenas de novas carreiras universitárias
que começaram a ser oferecidas desde 1996,
quando o governo federal deu maior autonomia às
escolas de ensino superior para a criação
de cursos acadêmicos. Apenas nos dois primeiros
anos, as quase 900 instituições brasileiras
criaram 39 cursos pioneiros. Há para todos
os gostos, de engenharia de informações
a terapias alternativas, como acupuntura, massoterapia,
ioga e alimentação natural.
Adriana Lorete
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| Brenda, aluna de
terapias naturais: "Dizem que estou maluca" |
A abundância de oferta surpreende, porque os
brasileiros estão habituados a ver a faculdade,
sobretudo, como a porta de acesso a profissões
regulamentadas por lei. Os novos cursos preparam para
atividades que podem ser exercidas sem a obrigatoriedade
de formação superior, como corretagem
de imóveis e acupuntura. A vantagem para quem
faz a faculdade é um aprendizado de melhor
qualidade do que aquele encontrado nos cursos livres
ou oferecidos pelas entidades de classe. Isso não
apenas forma profissionais mais bem preparados como
também abre portas no mercado de trabalho.
Dos 178 pilotos já formados pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUC-RS), 175 foram contratados por grandes empresas.
O curso de ciências aeronáuticas foi
criado em 1993 em convênio com a Varig, dura
três anos e inclui 2.640
horas de aulas teóricas e 250 de práticas.
É mais que o dobro do treinamento teórico
exigido pela legislação para a formação
de um piloto. Cursos universitários de pilotagem
já existem em Goiás, Minas Gerais, São
Paulo e, desde este ano, no Rio de Janeiro.
Ricardo Benichio
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| Estudantes de quiropraxia:
classe pioneira |
Como ocorre com a pilotagem, a maioria das novidades
universitárias foi criada em sintonia com a
demanda do mercado de trabalho, cada vez mais exigente
em relação à qualidade da mão-de-obra.
A Universidade do Planalto Catarinense abriu há
dois anos o curso de tecnologia da madeira. As madeireiras
da região de Lages, onde se localiza a universidade,
sofrem com a escassez de gente capacitada a trabalhar
com madeira para exportação do
corte da árvore ao transporte do produto. A
primeira turma de 25 alunos forma-se neste ano, e
os formandos estão sendo disputados pelas empresas
locais. Algumas das novas carreiras são especializações
em cursos tradicionais. É o caso da engenharia
de telecomunicações, que prepara profissionais
para um dos setores mais dinâmicos da economia.
No ano passado, a Universidade Bandeirante de São
Paulo criou sua primeira turma, com noventa alunos.
"Estamos seguindo os mesmos passos de países
como os Estados Unidos, onde há profissões
que ninguém imagina", afirma Eduardo Najjar,
diretor da Associação Brasileira de
Recursos Humanos. "Lá, é possível
encontrar curso superior até para artista plástico
especializado em madeiras."
Cursos de interesses específicos são
realmente comuns nos Estados Unidos. A diferença
é que os estudantes americanos só escolhem
a carreira depois de freqüentar de dois a quatro
anos de um curso básico, de formação
generalista. Os brasileiros precisam escolher o ramo
especializado já no momento do vestibular.
O risco é a opção por uma área
de limites tão estreitos que já esteja
obsoleta na hora do diploma. É o caso do curso
de graduação em webmaster, atualmente
nos planos de várias instituições.
Webmaster é o profissional que desenvolve páginas
eletrônicas para a internet. Como a tecnologia
é recente e passa por transformações
aceleradas, ninguém garante que a função
será a mesma dentro de três ou quatro
anos. "Cursos com um perfil de treinamento específico
demais não garantem uma formação
adequada a um mercado de trabalho dinâmico",
adverte Elizabeth Balbachevsky, especialista em políticas
educacionais da Universidade de São Paulo.
Em sua opinião, um estudante que queira dedicar-se
às terapias naturais correrá menor risco
se cursar antes fisioterapia ou medicina, deixando
a especialização para depois. O vestibular
é uma espécie de aposta na profissão
do futuro e, desse ponto de vista, só
o tempo dirá se investir num modismo foi bom
negócio. Aos 20 anos, a carioca Brenda Braz
da Silva integra a primeira turma do recém-criado
curso de terapias naturais da Universidade Estácio
de Sá, no Rio. As disciplinas soariam melhor
numa festa bicho grilo do que na universidade: cristais,
cromoterapia, reiki, feng shui, do-in, shantala, hipnose
e shiatsu. Preço do curso: 300 reais por mês.
"Algumas pessoas dizem que estou maluca e perdendo
meu tempo", diz a futura acupunturista. "Mas profissões
hoje tradicionais começaram dessa forma."
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