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Claudio de Moura Castro

Exportação sem pesquisa?

"Em pesquisa não se acerta sempre. Mas brandir algum fracasso e usá-lo para desacelerar ou parar o que está andando é matar a galinha dos ovos de ouro"

"Pesquisa e Desenvolvimento é importantíssimo, sempre soube disso", jactava-se o empresário. Até trabalhadores da Força Sindical já exigem do governo maiores investimentos em P&D. Para Hélio Barros – meu sócio no presente ensaio –, a sociedade brasileira já entendeu isso. Todavia, o investimento privado permanece tímido.

Mas os poucos que põem a mão no bolso nos surpreendem com resultados esplêndidos. Examinemos os principais produtos de nossa pauta de exportações. Vejam só: dos doze maiores, dez não seriam exportáveis – pelo menos nos mesmos níveis – sem os investimentos brasileiros de P&D feitos neles. E, quase sempre, a mão invisível recebeu a necessária ajuda do Estado.

A extração do minério de ferro usa tecnologia convencional, mas a peletização de aços finos foi fruto de P&D brasileira. O êxito da soja resulta de adaptações genéticas ao solo brasileiro, com a bela proeza de desenvolver um bichinho que mora na raiz da planta, fixando o nitrogênio. Sem isso, não haveria soja de cerrado. Avião é tecnologia concentrada, "made in Embraer". A pasta de madeira precisou de pesquisa séria para viabilizar o uso do eucalipto como matéria-prima. As vantagens comparativas dos automóveis nacionais resultam de avanços na engenharia de processo, em que o Brasil se tornou um inovador de peso. No aço, a P&D gerou muitos produtos novos (textura, proteção contra corrosão), garantindo exportações de mais qualidade.

O desleixo dos produtores de sapatos quase levou à ruína toda a indústria. Em boa medida, sua salvação passou por investimentos em tecnologia. Note-se também o êxito de mapear o genoma de um bicho que anda a destruir nossos laranjais. As exportações futuras de suco agradecem. Os maus exemplos são os produtos eletrônicos, setor em que não houve P&D, e o café, para o qual há muito pouca.

Mas, além dos primeiros doze produtos, há alguns velhos de roupa nova, como o açúcar e o álcool, hoje renovados nas variedades de cana, técnicas de produção e no uso de subprodutos (vinhoto e bagaço). Escapamos da alta do preço do petróleo por causa da P&D em tecnologia de exploração off-shore em águas profundas.

Um mau exemplo é o algodão, em que bobeamos ao deixar o bicudo devorar nossas plantações. Passamos de exportadores a importadores. Mas a Embrapa estuda um defensivo biológico de grande promessa, permitindo vislumbrar a volta das exportações.

Reconheçamos: há pesquisa boba, outras condenadas às prateleiras e muito desperdício. É preciso melhorar de mil maneiras a pesquisa, a disposição das empresas em investir e as políticas econômicas. Mas em pesquisa não se acerta sempre, nem nas praias tupinambás nem no Vale do Silício. Brandir algum fracasso e usá-lo para desacelerar ou parar o que está andando é matar a galinha dos ovos de ouro.

A ciência é uma plantinha frágil, e tecnologia com um sopro se desfaz. É dificílimo criar e facílimo destruir. A descontinuidade é fatal, desencorajando o setor produtivo, que já tende a ser assustado nessa área. Como regra, a P&D não prospera senão em países ricos. Os bons contra-exemplos vêm da Coréia, da qual temos muito a aprender. Mas até que o Brasil conseguiu alguma coisa nessa área. É muito pouco, diante das oportunidades perdidas, embora já salve nossa pauta de exportações.

Tecnologia não se justifica por ideais ou razões filosóficas. Trata-se de investimentos produtivos. Quem planta milho colhe mais do que plantou. País que planta tecnologia colhe muito mais do que investiu. A Embraer no ano 2000 faturou 5,6 bilhões de reais. O Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA), do qual a Embraer é filhote, gastou 43,6 milhões com seus alunos e pesquisas. Isso significa que com a receita de um ano, gerada por apenas um de seus filhotes, o CTA poderia operar pelos próximos 128 anos. P&D é mau negócio?

 

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)

 

 
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