Geral Cultura

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Aiatolás defendem o espancamento das mulheres
Cientistas criam cabra com gene de aranha
Os novos carros supereconômicos
Mitsubishi admite que escondeu defeitos em veículos
Cirurgias com microcortes e rápida recuperação
Deputado retira parte do estômago e perde 64 quilos
A superaspirina
Projeto quer proibir o uso de palavras estrangeiras
Encontrados restos da primeira casa de cunhar moedas
João Gordo
Planetários com efeitos especiais viram moda nos EUA
Roupas e bijuterias "made in favela" são exportadas
O assassinato da jornalista pelo diretor de redação
Homens e mulheres cada vez mais sozinhos

Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

O bom senso está on sale

Algumas observações sobre o projeto de lei
que proíbe o uso de palavras estrangeiras

João Gabriel de Lima

 
Reprodução/Keiju Kobayashi
Chegada de Cabral ao Brasil: se o deputado Aldo Rebelo fizesse parte da esquadra, o português não teria incorporado vocábulos do tupi-guarani

Cena de Laços de Família, novela das 8 da Globo. Miguel (Tony Ramos) recebe Capitu (Giovanna Antonelli) no Internet Café de sua livraria:

Capitu – O ordenador não funciona! E eu tenho de mandar uma mensagem urgente! Preciso entrar em contato com minha agente de viagens para programar uma caminhada no mato.

Miguel – Calma. Deixe-me pegar o rato.

Capitu – Ufa, deu certo! Obrigada, Miguel. Preciso correr agora porque combinei com amigos de ir a um espetáculo de canto metralhado.

Se você não entendeu nada, aí está a tradução: "ordenador" é computador. "Caminhada no mato" é trekking. "Rato" é mouse. "Canto metralhado" é rap. O diálogo esdrúxulo entre os dois personagens do folhetim é obviamente fictício. Não é impossível, no entanto, que um dia o autor Manoel Carlos seja obrigado a escrever algo parecido. Basta que o Congresso aprove o projeto de lei nº 1676, de autoria do deputado Aldo Rebelo, do PC do B de São Paulo. Nesse caso, os brasileiros estarão proibidos de usar termos em outras línguas na comunicação oficial, na mídia escrita, radiofônica e televisiva, na publicidade e no comércio. Rebelo propôs até uma multa para quem insistir nos estrangeirismos: 1.300 a 4.000 Ufirs para pessoa física e 4.000 a 13.000 Ufirs para pessoa jurídica. Em reais, as penas variariam entre 1 300 e 14.000 reais, aproximadamente.

O projeto é fruto de uma idéia fora do lugar (mais uma): a de que o português falado no Brasil estaria ameaçado de extinção, assim como o mico-leão-dourado ou a arara-azul. Repete-se no terreno do idioma a mesma lengalenga que se desenrola no campo da economia. A invasão do inglês (o avanço do neoliberalismo) resultaria na derrocada da nossa inculta e bela língua (a empresa nacional). Para ilustrar essa tese, seus defensores sempre utilizam o mesmo e surrado exemplo: cartazes de lojas de shopping centers (ops, centros comerciais). Está certo que os abusos beiram o ridículo. Entre eles, estampar nas vitrines "sale" e "50% off" em vez de "liquidação" e "50% de desconto". No entanto, multar um lojista por uma caipirice que depõe unicamente contra ele próprio é um exagero. Seria mais ou menos como cobrar uma pena pecuniária (gostou dessa, Rebelo?) de pagodeiros a cada erro de gramática que cometem.

Para os especialistas, o projeto mostra total ignorância do fenômeno lingüístico. "Um idioma evolui quando entra em contato com outros, e só alguém que não entende nada do assunto pode achar que é possível bloquear esse intercâmbio", diz o professor John Robert Schmitz, americano naturalizado brasileiro, que leciona lingüística aplicada na Universidade de Campinas. É normal que uma língua se nutra de outras. Também é comum – e fato antigo – que os vocábulos a atravessar fronteiras venham, em geral, de uma cultura dominante. Até o início do século XX, era o francês o responsável pela maior parte das palavras ditas internacionais. Agora, essa primazia pertence ao inglês. A tal ponto que nem os esforços da Academia Francesa de Letras impediram que os conterrâneos de Gustave Flaubert adotassem o termo "weekend" para fim de semana.

Terapia ocupacional – É curioso imaginar como seria a implantação do projeto de lei nº 1676. Primeira questão: quem elaboraria o "índex" das palavras proibidas? Em seu projeto, Aldo Rebelo sugere que seja a Academia Brasileira de Letras. Sempre que um termo estrangeiro fosse posto em circulação, a ABL teria noventa dias para encontrar um equivalente em português. Seria uma ótima terapia ocupacional para os velhinhos, mas leva a outra questão. E se, investidos de sanha purificadora, os imortais resolvessem banir também anglicismos, galicismos e outras palavras originárias de outras línguas? Já se tentou fazer isso algumas vezes no Brasil. No final do século XIX, por exemplo, o latinista carioca Antônio de Castro Lopes publicou o livro Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis, no qual denunciava os estrangeirismos e propunha alternativas em português. Se suas idéias fossem adotadas, hoje em dia Romário jogaria ludopédio, e não futebol. No frio, as pessoas usariam focale, e não cachecol. E, antes de dormir, acenderiam o lucivelo, nunca um abajur.

Um cenário radical como esse daria trabalho. Para evitar graves prejuízos financeiros, roteiristas de TV, publicitários e até jornalistas se veriam obrigados a instalar em seus computadores chips (ooooops!) que apitassem sempre que um estrangeirismo fosse digitado. Façamos um teste. Não apenas repórteres (péin! É um anglicismo) padeceriam, mas também os empresários (péin! A palavra vem do italiano) de comunicação, porque para estes últimos as multas envolveriam algarismos (péin! Origem persa) ainda mais elevados. Articulistas de grande bagagem (péin! Galicismo) cultural (péin! Germanismo) teriam de renegar a erudição de alfarrábio (péin! Origem árabe), apesar de sua ojeriza (péin! Espanholismo) a palavras de uso vulgar.

Pensando bem, é melhor desligar o chip. Ele não pararia de tocar. Todos os exemplos acima foram tirados do Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, obra de referência publicada pelo estudioso Antenor Nascentes em 1932. Ele teve a paciência de contar as palavras portuguesas vindas de outros idiomas para constatar como elas enriqueceram a língua a longo prazo. Hoje, a última flor do Lácio tem pelo menos 20% de termos emprestados de línguas estrangeiras (veja quadro). Se fossem bloqueadas na origem, o português atual seria sem dúvida mais pobre. Faça-se o seguinte exercício: como falaríamos hoje se, na esquadra de Cabral, houvesse um Aldo Rebelo que proibisse a utilização de termos em tupi-guarani? Em vez de batizar bairros e cidades com belos e sonoros nomes de origem indígena, os brasileiros teriam de traduzi-los para o português. Os paulistanos não iriam mais correr no Ibirapuera, e sim exercitar-se no "Parque Madeira Podre". E o ipanemense Vinicius de Moraes teria como musa uma certa "garota da Água Ruim".

Péin, péin, péin – O professor Schmitz lembra que propostas xenófobas no campo dos idiomas costumam coincidir, ao longo da História, com mentalidades autoritárias. "Foi assim no nazismo e no fascismo. A ditadura de Franco na Espanha tinha como arma de opressão a tentativa de impor o purismo castelhano sobre os dialetos regionais", diz. Aldo Rebelo parece não se incomodar muito com autoritarismos. Afinal, durante muito tempo ele apoiou a ditadura albanesa, que era considerada um modelo pela agremiação política à qual pertence, o Partido Comunista do Brasil (péin! péin! péin!). Epa! O que disparou o alarme? Ah, sim: "comunista" vem de "comuna", palavra que Antenor Nascentes relaciona como galicismo. Espera-se que, em nome da coerência, Rebelo concorde também em mudar o nome do partido no qual milita.

 

 
Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco

 
 
voltar



VEJA on-line | VEJA Educação
copyright © 2001 - Editora Abril S.A. - todos os direitos reservados