UNIVERSITÁRIO
 

Ensino precário

Como funcionam asescolas que
tiraram as pioresnotas na avaliação

Daniel Nunes Gonçalves e Karina Pastore

O bonito prédio de dois andares das Faculdades de Administração, Ciências Econômicas e Ciências Contábeis de Guaratinguetá, no interior paulista, pintado de um azul e branco imaculado, é um lugar aprazível para o estudo. A Universidade de Fortaleza, Unifor, no Ceará, é cercada por jardins arborizados. A Universidade Tiradentes, Unit, em Aracaju, Sergipe, gastou 6 milhões de reais para construir dois prédios de três andares. São edifícios modernos, bem iluminados. Na semana passada, a Sociedade Unificada de Ensino Superior Augusto Motta, Suam, no Rio de Janeiro, inaugurou um shopping center, com 35 lojas e restaurantes. Guaratinguetá, Unifor, Unit e Suam merecem nota 10 no quesito instalações. No provão, no entanto, seus alunos e professores amargaram notas D ou E. O curso de administração da faculdade paulista e o de direito de Aracaju, Fortaleza e Rio de Janeiro estão entre os piores do país. Entram no rol das 91 escolas de administração, 52 de direito e 27 de engenharia civil cujos fomandos não conseguiram acertar mais de 30% da prova.

Ao aplicar o provão, o governo não pretendia apontar as melhores faculdades. Queria, sim, expor as piores, estudá-las, averiguar no que consiste, concretamente, a sua ruindade. Eis algumas pistas. O curso de administração da Faculdade de Ciências Humanas de Ivaiporã, no Paraná, só funciona à noite. Isso porque nem prédio próprio tem. Durante o dia, as salas são usadas pelas crianças e adolescentes do Colégio Panamericano. Na faculdade de administração da Universidade do Contestado, em Curitibanos, Santa Catarina, o professor de estatística tem o título de mestre. Só que ele é veterinário e sua tese de mestrado é sobre reprodução animal. "Eu não entendo nada de administração nem de ciências contábeis", confessa Nilton Drissen de Farias, 38 anos. Na semana passada, a atração do teatro da Faculdade de Ciências Econômicas de Guaratinguetá era um show de strip-tease da atriz Zilda Mayo, intitulado Nua na Platéia. O pior do ensino está concentrado nas escolas particulares. As seis escolas brindadas com o triplo E são privadas — cinco de administração e uma de direito. Há várias escolas públicas entre as 170 que tiraram D ou E no provão, mas a grande maioria tirou nota baixa por conta do boicote da UNE. Em função do protesto, o provão considerou abaixo da média cursos de engenharia com boa reputação, como o da Politécnica da USP e o da Universidade Federal de Alagoas.

Função — O ensino superior tem sido nos últimos vinte anos uma porta aberta à malandragem. Há cursos de final de semana, escolas caça-níqueis de vestibular, mas uma avaliação ruim no provão deve ser tomada como um alerta, não uma condenação. Até porque, muitas dessas faculdades D ou E cumprem uma função social da maior relevância. É o caso do curso de administração de Ivaiporã. Não há outra alternativa num raio de 130 quilômetros. Em Guaratinguetá, o curso de administração é medíocre, mas é uma das raras opções de ensino superior para cidades 80 quilômetros distantes dali. A maioria de seus alunos não almeja alçar vôos acadêmicos. Não se imagina executivo de uma multinacional. Aos 26 anos, Márcia Maria de Castro é operadora de telemarketing. Cursa o último ano de administração em Guaratinguetá. Mora em Lorena e viaja todos os dias uma hora de ônibus para estudar. Ao se formar, quer montar uma pequena fábrica de lingerie na cidade. Listada entre as piores escolas de direito, com D, a Unit, em Aracaju, fez bonito no exame que interessa, o da Ordem dos Advogados do Brasil. Em agosto de 1996, dos 36 inscritos, 28 foram aprovados. Catorze haviam sido formados pela Universidade Federal de Sergipe, doze pela Unit.

"O mercado decide quem deve ser empregado", afirma Jouberto Uchoa de Mendonça, reitor da Unit. "O Ministério da Educação deve fiscalizar, mas não impedir a abertura de novos cursos nas instituições privadas", pondera Simon Schwartzman, presidente do IBGE. Sim, porque uma faculdade particular, com um ensino decente, é necessária. "No Brasil, tende-se a considerar um desastre todas as instituições de ensino sem vocação para a pesquisa", critica a professora do departamento de ciência política da USP Elizabeth Balbachevsky. "Muitas escolas funcionam como agente de desenvolvimento de suas regiões", diz a secretária de avaliação e informação educacional do MEC, Maria Helena Guimarães de Castro. Cautela, portanto. Não se deve crucificar as escolas E. O MEC pretende visitar as faculdades que tiraram as piores notas. Elas serão avaliadas por uma comissão de notáveis, que as ajudará a fixar metas e prazos para a definição de um projeto de desenvolvimento acadêmico. Se tais metas não forem cumpridas, a faculdade pode não ser recredenciada. Pelas novas regras impostas pelo MEC, as escolas terão de se recadastrar de cinco em cinco anos.

Ensino medíocre é problema em todo o mundo. Se não fosse problema, os Estados Unidos não se dariam ao trabalho anualmente de listar as melhores faculdades. Os donos das universidades particulares japonesas não contratariam instituições especializadas para avaliar seus cursos e sugerir mudanças. Talvez aqui o cenário seja pior. O Brasil enfrenta um problema de educação fundamental. As faculdades apontadas como as piores são as que recebem os estudantes de escolas ruins. O reflexo na qualidade do ensino superior é imediato. Quem visita a faculdade de Guaratinguetá pode assustar-se pela quantidade de alunos em sala de aula. Ali, 105 pessoas se espremem em clima de cursinho. Esse é outro mito que deve ser derrubado. "Tamanho de classe nada tem a ver com qualidade. A Universidade da Califórnia em Berkeley tem aulas com até 1000 alunos, e não consta que seja uma escola ruim", diz o professor Claudio de Moura Castro, consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

É um erro creditar a baixa qualidade do ensino superior no Brasil a um excesso de faculdades. O que acontece é exatamente o contrário. Há faculdade de menos no Brasil. Dos brasileiros entre 20 e 24 anos, apenas 12% cursam o ensino superior. Segundo especialistas, eles deveriam ser 30%. Em todo o Brasil, há cerca de 850 instituições de ensino superior, onde estudam 1,6 milhão de universitários. De cada 100 brasileiros, um é universitário. Nos Estados Unidos, a proporção é dezoito para um. De cada dez calouros das universidades brasileiras, só cinco se formam. Nos Estados Unidos, 75% recebem o diploma. Desde 1995, 4400 pedidos de abertura de escolas e cursos estão acumulados nas gavetas do ministério. O MEC já prepara um mutirão para resolver o problema. Como o Estado não tem recursos, a quase totalidade dessas faculdades será privada. E boa parte delas será D e E.

 

As piores

Houve escolas que não acertaram 30% da prova. São elas:

91 das 335 escolas de administração

Exemplos:

Faculdade de Ciências Econômicas (Guaratinguetá - SP)

Faculdade de Ciências Humanas de Ivaiporã (Ivaiporã - PR)

Faculdades Integradas de Ourinhos (Ourinhos - SP)

Unidades Integradas do Vale de Jacuí (Cachoeira do Sul - RS)

Universidade do Contestado - Curitibanos (Curitibanos - SC)

 

52 das 179 escolas de direito

Exemplos:

Centro de Ensino Superior do Amapá (Macapá - AP)

Universidade de Fortaleza (Fortaleza - CE)

Universidade Federal do Amapá (Macapá - AP)

 

27 das 102 escolas de engenharia

Exemplos:

Universidade de Passo Fundo (Passo Fundo - RS)

Universidade Federal da Paraíba (João Pessoa - PB)

Universidade Federal de Alagoas (Maceió - AL)

 

Com reportagem de Manoel Fernandes, de Salvador,
e Silvania Dal Bosco, do Recife

 
 
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