Clube das
AAA
O
segredo do sucesso das melhores
faculdades do Brasil, que, de tão boas,
fazem bonito no exterior

Paula
Autran e Vladimir Netto
A melhor
universidade é pública, tem mais de cinqüenta
anos, reúne em seu corpo docente uma grande concentração
de mestres e doutores, privilegia a pesquisa e abriga alunos do
2º grau que cursaram, em boa parte dos casos, escolas particulares.
Segundo o provão, esse é o perfil padrão da
boa faculdade brasileira. São 71 as escolas de ponta, agraciadas
com a nota A no teste. A maior parte dessas escolas fica na Região
Sudeste, mas a Região Sul é a que tem o melhor desempenho
porcentual. Entre as faculdades de primeira linha, uma lista ainda
mais seletiva, com dezenove escolas, teve direito a um triplo A
em função da qualificação e do regime
de trabalho dos professores. Oito delas ficam em São Paulo.
"O provão só confirma que o Brasil dispõe
de algumas escolas que deveriam ser consideradas hors-concours",
diz o ministro Paulo Renato Souza, da Educação.
Fundada
em 1911, a escola de engenharia da Universidade Federal de Minas
Gerais é uma das mais tradicionais do Brasil. Avaliado com
três A no provão, o curso de engenharia civil é
o carro-chefe. Ali, tudo parece funcionar bem. Dos 260 professores,
100 são mestres e 120, doutores todos com um micro
na mesa de trabalho. Há mais 350 terminais à disposição
dos alunos e 150 nos setores administrativos. São 700 micros
ligados em rede, a maioria com acesso à Internet. "Não
existe nada assim no país", informa o diretor da escola,
Aécio Lira. O Instituto Tecnológico de Aeronáutica,
outra AAA de engenharia, é das escolas mais disputadas no
vestibular. Para conseguir uma vaga ali, é preciso vencer
outros 36 candidatos. Todos os aprovados ganham bolsas para estudar
e vivem nos alojamentos da faculdade, pagando apenas 50 reais mensais
pelas acomodações e pelo plano de saúde. Detalhe:
há aulas com apenas dezesseis alunos em sala. "É
como se tivéssemos aulas particulares", orgulha-se José
Penoff, de 25 anos, que faz o 4º ano.
A
escola de administração da Universidade Federal Rural
do Rio de Janeiro, também AAA, diferencia-se no mercado local
porque é a única no Estado a oferecer dupla habilitação:
administração de empresas e administração
pública. "A gente não alcançou este resultado
no provão à toa", diz Maria Luisa Mendes Teixeira,
professora da Rural. Na Faculdade de Direito da Universidade de
São Paulo, outra triplo A, um dos carros-chefe é o
departamento jurídico, que atende a 3 000 causas por ano
e emprega 75 estagiários. Um destaque é a biblioteca
com 325 000 volumes, que enche os olhos. Escola triplo A, a engenharia
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul tem seu forte na pesquisa.
"Estamos implantando um processo de qualidade total com o objetivo
de tornar a escola a melhor do país, dentro de oito anos",
diz Jarbas Milititsky, o diretor. A faculdade tem 38 laboratórios,
sendo um deles, o de mecânica dos solos, uma referência
internacional.
Pública
é melhor As escolas descritas acima têm
um padrão de ensino invejável, mas infelizmente formam
um time mais do que pequenino. As cinco só comportam 6 000
alunos. Estima-se que as dezenove escolas AAA reúnam não
mais do que 20 000 alunos, e as 71 faculdades A não mais
do que 60 000 um nada no mar de universitários brasileiros.
Fazem parte da lista das escolas A 47 faculdades públicas
e, para espanto do governo, 24 particulares. Esse resultado é
o exemplo acabado de que a iniciativa privada tem condições
de tocar cursos sérios. "É evidente que as universidades
públicas estão muito à frente das particulares",
diz o reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Paulo Gomes.
"A avaliação global mostra que, nas universidades
públicas, o corpo docente é mais capacitado e o regime
integral de dedicação também é mais
freqüente. Mas a avaliação vai nos ajudar a derrubar
essa cerca e colocá-la entre as boas e as ruins", declara.
Na Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo,
a FGV, triplo A de administração, os alunos pagam
entre 600 e 750 reais por mês para estudar. Em troca, estudam
na melhor escola do país na sua área. Além
de professores altamente especializados (dos 250 professores, 214
são mestres ou doutores) e de um sistema de computadores
de última geração, os alunos têm à
sua disposição um "laboratório de casos".
Problemas concretos ou teóricos envolvendo empresas são
colocados para os alunos resolverem. É um expediente usado
nas melhores escolas do mundo. A Universidade do Texas promove competições
internacionais de casos. No ano passado, a FGV ganhou o terceiro
lugar. "A escola nasceu com referencial de Primeiro Mundo",
gaba-se o professor Alain Florent Stempfer.
Como
foram analisadas 404 escolas privadas e 212 públicas, vê-se
que o grau de excelência do ensino do governo continua imbatível.
Uma de cada quatro escolas públicas tirou A na avaliação.
Entre as particulares, apenas uma em cada dezessete conseguiu tal
feito. A diferença só não é maior por
conta do boicote. Quase cinqüenta cursos públicos não
tiraram nota alguma ou foram carimbados com E em função
do protesto. Ninguém duvida que escolas como a engenharia
da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o direito da Federal
da Bahia e a administração da Federal da Paraíba,
três desgraças do provão, acertariam mais de
80% do teste, tirando A, se quisessem.
Quando
uma escola ruim quer atrair alunos, emboneca o prédio, cuida
do jardim, pinta as paredes, coloca catracas e câmaras de
vídeo, enfim, investe na aparência. Com uma ou outra
exceção, vale dizer que os bons cursos do país
funcionam em instalações horrendas. O curso de engenharia
da Universidade Federal do Ceará, triplo A, funciona há
trinta anos num edifício com paredes gastas e sujas, carteiras
antigas e salas pequenas. Criado em 1976, o curso de engenharia
da Universidade Estadual de Maringá é pobre. Um exemplo
dessa precariedade: a faculdade tem apenas doze computadores, incluindo
dois que servem à administração. Os outros
dez são disputados a tapa por professores e alunos. Apenas
um deles tem instalado um programa de desenho técnico necessário
para a elaboração de projetos complexos. O aluno José
Andrey Cestraro, do 5o ano, conta que para utilizá-lo já
teve de marcar visita ao laboratório para um sábado,
às 4 horas da manhã. "Nossas condições
físicas são mesmo muito precárias", comenta
o professor Luiz de Carvalho, chefe do departamento de engenharia
civil. Ainda assim, a faculdade conseguiu um triplo A.
Rede
de convênios Na maior parte das boas escolas de
administração e engenharia, os alunos e professores
se organizam em empresas para prestar consultoria ao mercado, arrecadar
dinheiro e assim equipar o curso ou complementar o salário
dos professores. "Como é que eu vou pegar um profissional
que ganha 7 000 reais por mês e convencê-lo a dedicar-se
à universidade pagando apenas 1 500 reais? Eu tenho de dar
mais, e isso eu consigo com as atividades externas que complementam
a renda do professor", informa João Carlos da Cunha,
chefe do departamento de administração da Universidade
Federal do Paraná. A escola de engenharia civil da Universidade
Federal Fluminense montou uma bem trançada rede de convênios
que aumenta e muito a sua receita anual. "Não
podemos viver apenas de verbas do governo. Por isso fomos buscar
recursos lá fora", explica o diretor do centro tecnológico
da universidade, Heitor Luiz Soares Moura. Neste ano, a escola,
que tem um orçamento de 200 000 reais, levantou outros 400
000 através dos convênios.
Em
alguns casos, a consultoria está tornando o ensino público
muito atraente. Na Universidade de Brasília, uma das melhores
escolas de administração do país, agraciada
com um triplo A no provão, um grupo de professores montou
há quatro anos uma fundação para prestar serviços
ao mercado. Só no ano passado, a fundação faturou
2 milhões de reais. Nos três últimos anos, o
dinheiro permitiu a aquisição de três laboratórios
de informática, quatro máquinas de xerox, videocassetes,
televisores e retroprojetores. Foram reformadas todas as salas da
pós-graduação com cadeiras acolchoadas e equipamentos
de multimídia, além da contratação de
doze profissionais da área de apoio. Dos quarenta professores
do curso, trinta trabalham hoje na fundação e fizeram
seu salário dobrar de 2.500 para 5.000 reais por mês.
"A qualidade total passa por uma boa remuneração",
diz o professor Roque Magno de Oliveira, da UnB.
O
vice-governador de Minas Gerais, Walfrido Mares Guia, empresário
do ramo da educação, acha que as melhores escolas
não fazem bonito apenas em território nacional. "Já
temos hoje no Brasil algumas das melhores universidades do mundo.
Nossos professores estão cada vez mais bem qualificados.
O número de mestres e doutores e de cursos de pós-graduação
aumenta a cada dia no país", avalia. O professor Claudio
de Moura Castro, peso pesado da área, pondera que o provão
deve ser comemorado, mas quem tirou A deve pensar em vez de apenas
festejar. "Os alunos que tiraram A na prova não devem
deitar sobre os louros da vitória. Quem falou que esse teste
indica exatamente aquilo que um engenheiro, administrador ou advogado
deve saber para ser um profissional de qualidade?"
Fazer
avaliação de faculdades ou universidades é
um hábito internacional. O Canadá faz a sua, Inglaterra,
França e Estados Unidos, também. O objetivo das listas
de escolas é informar à sociedade quem está
bem e quem está mal. Nos Estados Unidos, os rankings são
divulgados anualmente e aguardados com ansiedade pelos pais e alunos
que querem decidir onde estudar. Ali qualquer lista séria
dá nota de zero a 100 a pelo menos 25 melhores escolas de
um determinado curso, consideradas mais de quinze variáveis.
Lá ninguém fala em conceitos A, B, C, D ou E para
esconder resultados. Estudar em Yale, a primeirona na lista das
melhores com nota 100, é, sem dúvida, o sonho de qualquer
americano que queira cursar direito. Mas ninguém está
com a sua carreira destruída se tiver de se formar pela Universidade
de Chicago, a 12ª na lista, com nota 95. No Brasil, quem gostaria
de estudar na 12ª escola de qualquer lista?
|
As
melhores
Das
616 faculdades de administração, direito e engenharia
civil, veja as melhores:
10
das 335 escolas de administração
Fundação Getúlio
Vargas (São Paulo - SP)
Unesp (Araraquara - SP)
Universidade de Brasília (Brasília
- DF)
Universidade de São Paulo (Ribeirão
Preto - SP)
Universidade de São Paulo (São
Paulo - SP)
Universidade Federal de Minas Gerais
(Belo Horizonte - MG)
Universidade Federal de Uberlândia
(Uberlândia - MG)
Universidade Federal do Espírito
Santo (Vitória - ES)
Universidade Federal do Paraná
(Curitiba - PR)
Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro (Seropédica - RJ)
Duas
das 179 escolas de direito
Unesp (Franca - SP)
Universidade de São Paulo (São
Paulo - SP)
7
das 102 escolas de engenharia
Instituto Tecnológico de Aeronáutica
(São José dos Campos - SP)
Unesp (Ilha Solteira - SP)
Universidade Estadual de Maringá
(Maringá - PR)
Universidade Federal de Minas Gerais
(Belo Horizonte - MG)
Universidade Federal do Ceará
(Fortaleza - CE)
Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (Porto Alegre - RS)
Universidade Federal Fluminense (Niterói
- RJ)
|
|
Mestres
em cabular
Daniel
Nunes
Gonçalves
Praga conhecida de todo estudante universitário, a falta de
professores às aulas agora pode ser quantificada. Pela análise
dos dados do provão, pode-se afirmar que 30% dos alunos de
engenharia e administração e 40% dos de direito demonstram
insatisfação com as faltas e os atrasos dos professores. “Esse
dado saltou aos olhos no provão e deveria servir de reflexão
para a direção das faculdades”, diz o ministro Paulo Renato
Souza. De fato, há poucas coisas piores no mundo acadêmico
que acordar às 6 e meia da manhã, ir à escola e nada de professor
na primeira aula. Nem na segunda. A rigor, nem seria preciso
o provão para saber isso. Mesmo numa escola de triplo A, como
a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, de há
muito os estudantes andam às voltas com professores cabuladores.
Em novembro passado, os alunos se queixaram à comissão de
graduação da escola, que baixou duas resoluções. Uma institui
uma lista de presença, na qual os alunos anotam o nome dos
professores que faltaram. A lista é apresentada à direção
a cada dois meses. A outra exige que o professor informe,
já no começo do curso, as aulas em que planeja faltar. Espera-se
que agora o problema seja sanado de vez. Há dois tipos de
faltas. Há os que atrasam, matando quinze ou vinte minutos
de cada aula, ou simplesmente não aparecem, deixando sessenta
ou setenta pessoas plantadas na sala de aula. Existem também
os que faltam com aviso prévio, em função de algum seminário
ou congresso. E isso pode ser bom, pois o professor está investindo
em sua formação e, por tabela, na de seus alunos. As faltas
são mais freqüentes nas universidades públicas, onde trabalham
professores mais renomados, que vivem participando de seminários.
Nas particulares, o problema é menor, pois os professores
são menos requisitados e ganham por hora. Uma aula a menos
dói no bolso. O problema, aqui, nem são as faltas, mas a apatia
da direção das escolas, que não pune quem some duas ou três
vezes por mês.
|
Com
reportagem de Franco Iacomini, de Curitiba,
Gerson Camarotti, de Brasilia, Ricardo Villela, de São
Paulo,
e José Edward, de Belo Horizonte
|