UNIVERSITÁRIO
 

O rosto do ensino superior

Governo divulga o provão com a lista
das melhores e piores faculdades

Eduardo Oinegue

Depois de décadas trabalhando às cegas, finalmente o Ministério da Educação e Cultura, MEC, tem um retrato do ensino universitário nacional. A situação retratada é ruim. Das 616 faculdades de administração, direito e engenharia civil submetidas ao provão, no final do ano passado, quase um terço teve desempenho sofrível: seus alunos não acertaram 30% das questões propostas. Pior: as melhores faculdades representam apenas 11% das escolas pesquisadas. Quando se soma a qualificação dos professores e o regime de trabalho, o número de escolas de primeira grandeza cai para apenas 3% do total — uma a cada 32 escolas que fizeram o provão. Mais de um terço das faculdades tem corpo docente despreparado. Sobre o aluno, o provão mostra que ele tem hábitos de leitura pavorosos. A maior parte lê um ou dois livros por ano, no máximo.

Nesse primeiro provão, o Ministério da Educação escolheu as três carreiras universitárias que reúnem o maior número de alunos. Os cursos de administração, direito e engenharia civil são ministrados em 616 faculdades, que integram uma rede de 850 instituições de ensino superior existentes no Brasil. São também responsáveis por 55 000 dos 230 000 universitários que pegam o canudo anualmente. Cada escola recebeu três notas. Uma para o teste dos alunos do último ano, outra para a qualificação do corpo docente e uma terceira para o regime de trabalho dos professores. As notas, anunciadas por letras, variaram de E a A. As melhores escolas do país receberam um triplo A, como a Universidade de Brasília. As piores, como a Faculdade de Ciências Humanas de Ivaiporã, no Paraná, um triplo E. O destaque entre os formandos ficou com os alunos de direito, que acertaram 56% da prova.

"Graças ao provão, derrubamos alguns mitos", comemora o ministro Paulo Renato Souza, responsável pelo trabalho. "Um deles era que não existia faculdade particular boa no Brasil: pois existe, sim." De acordo com o provão, entre as 38 escolas de administração que tiraram A, dezenove são particulares. As escolas públicas, ainda assim, continuam a dar o banho de sempre. São públicas, por exemplo, as onze melhores escolas de engenharia do país. "O teste mostra que não existe relação direta entre corpo docente cheio de mestres e doutores e boas notas no provão", afirma o professor Cláudio Moura Castro, especialista em educação trabalhando no Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID. O corpo docente de direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, por exemplo, mereceu nota E do governo, mas os alunos tiraram A no teste.

Das 616 escolas avaliadas, 228 ganharam C. Ou seja, 37% das faculdades seriam medianas. Mas foi usado um critério, digamos, tucano. Para não comprar brigas com as faculdades, e evitar a constatação de que a educação universitária nacional é um desastre, o governo concedeu C a todas as escolas que acertaram entre 31% e 70% da prova. Brasília convencionou que um terço de acerto numa prova é o mesmo que dois terços. Essa é uma das falhas do provão que precisam ser corrigidas nos próximos anos, já que esse foi o primeiro passo para que o Brasil possa ter um anuário universitário reunindo informações sobre todas as faculdades. Como só dar notas não basta, o Ministério da Educação começa agora a visitar as setenta escolas E para identificar os problemas e buscar soluções. "Essa é a primeira tentativa de diagnóstico; não pode ser o juízo final das escolas que tiraram nota baixa", alerta Moura Castro.

 
 
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