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Eles estão
aprendendo demais?
Alfabetização
precoce: mais
um sintoma do desespero dos
pais em criar um superfilho
Lia
Abbud
Ed Viggiani

Curso
de inglês, em São Paulo: turmas a partir de 3 anos |
O mercado
editorial nunca produziu tantos livros para crianças em idade
pré-escolar. Os anúncios das escolas de idiomas enfatizam
a utilidade de matricular os filhos quanto antes. Por que não
aos 4 ou aos 3 anos de idade? Segundo reza a cartilha tradicional
de alfabetização, as crianças deveriam estar
concentradas em aprender a ler e escrever somente a partir dos 7
anos de idade. Mas, como se vê, há um bombardeio pesado
no sentido de acelerar os ponteiros do relógio pedagógico.
A
alfabetização precoce tem rendido um grande bate-boca
entre os pesquisadores. Gente gabaritada chama a atenção
para certo exagero na dose e começa a suspeitar que toda
essa precocidade no aprendizado pode desajustar o relógio
biológico do desenvolvimento infantil. Desde o começo
do século XX, convencionou-se que os alunos devem aprender
a ler e escrever a partir dos 7 anos. Nessa fase, o cérebro
da criança já desenvolveu habilidades como o poder
de concentração e a coordenação visual
e motora, entre outras. Está preparado, portanto, para absorver
uma carga maior de ensinamento dentro da sala de aula. As escolas
que subverteram essa regra argumentam que, hoje, o mundo e as crianças
são muito diferentes. "Os alunos não são mais
inteligentes que os de antigamente, mas chegam à escola mais
cedo e estão expostos a uma quantidade maior de informações,
o que aguça numa idade mais precoce sua curiosidade pelas
letras", afirma Elisa Pereira, diretora pedagógica do Pueri
Domus, uma das melhores escolas de São Paulo. Segundo o raciocínio
da diretora, não faria sentido "congelar" o desenvolvimento
da criança durante dois anos se ela demonstra interesse pelos
livros.
Claudio Rossi

Aula
no colégio Pueri Domus: a maioria dos alunos aprende
a ler antes dos 7 anos |
O novo
sistema, de ler cada vez mais cedo, já é adotado em
escolas da Argentina, da Espanha e, numa escala mais reduzida, da
Inglaterra. Pedagogos dos Estados Unidos e de outros países
do Primeiro Mundo ainda não chegaram a um consenso sobre
a conveniência da mudança. No Brasil, há uma
divisão. A rede pública continua seguindo a regra
antiga, ou seja, alfabetização somente aos 7 anos
idade obrigatória para o ingresso dos alunos no 1º
ano do ensino fundamental. Já a maioria dos estabelecimentos
particulares resolveu antecipar o aprendizado do bê-á-bá.
As crianças de 5 ou 6 anos não recebem cartilhas,
muito menos são obrigadas a fazer provas para comprovar seus
avanços lingüísticos. O contato com o mundo das
letras ocorre na forma de brincadeiras na sala de aula, como escrever
com a ajuda da professora os ingredientes da receita de um bolo
ou colar numa cartolina as letras iniciais do nome do papai e da
mamãe. "Adoro gibis e já li cinqüenta livrinhos",
conta Mateus Kuhn Chedid, que acabou de completar 6 anos. Sua colega
de classe Maíra Prado Campos, da mesma idade, segue num ritmo
menos avançado: até agora, devorou dez obras infantis.
Segundo
os especialistas, existe uma hora certa para a criança desenvolver
cada habilidade. Esses períodos foram batizados de "janelas
de oportunidades". Na área da alfabetização,
os pesquisadores ainda não chegaram a um acordo. Os que defendem
a manutenção do sistema tradicional, ou seja, aos
7 anos, lembram que ainda não há estudos comprovando
possíveis benefícios da iniciação precoce.
Além disso, o colega da escola pública que tomou contato
com as letras aos 7 anos vai se desenvolver mais rapidamente nesse
campo, anulando rapidamente a suposta vantagem da criança
educada aos 5. "Nessa fase, é importante deixar algum espaço
livre na agenda da criança para que ela não faça
absolutamente nada. E muito espaço para ela brincar", afirma
Abram Topczewski, neuropediatra do Hospital Albert Einstein.
Os
menos radicais não vêem grandes problemas no processo
de alfabetização precoce, desde que seja guiado pelo
bom senso. Em primeiro lugar, é preciso que os pais reduzam
suas expectativas em relação a esse aprendizado. "Não
há motivos para achar que uma criança é problemática
só porque um colega está mais adiantado", afirma o
neuropediatra Mauro Muzkat, da Universidade Federal de São
Paulo. Em segundo, não é preciso aparecer com um livro
de gramática quando a criança surge com alguma dúvida.
As questões devem ser respondidas na medida certa, assim
como o estímulo à leitura nada de comprar livros
que tragam dificuldades maiores que aquelas com que a criança
está familiarizada. Por fim, é importante discutir
o assunto com a escola. Se os benefícios da leitura precoce
são duvidosos, os problemas provocados por uma iniciação
malconduzida já começam a aparecer nos consultórios
pediátricos. Nesses locais, são cada vez mais comuns
os casos de crianças que se queixam de dor de cabeça
ou têm dificuldade para se expressar. Segundo os especialistas,
são sintomas clássicos de stress causado pelo maior
problema do processo de formação dos pequenos. É
a superagenda, que contém escola, natação,
inglês, computação e a exagerada cobrança
dos pais em tentar garantir, desde cedo, um futuro melhor para os
filhos.
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A
hora certa
Segundo
a teoria das "janelas de oportunidade", existem
momentos em que o cérebro da criança está
pronto para adquirir com mais facilidade certos conhecimentos
e habilidades. Observe no quadro o que dizem as pesquisas
mais recentes sobre o assunto
ALFABETIZAÇÃO
Iniciava-se tradicionalmente aos 7 anos, mas algumas
escolas acreditam que aos 5 os alunos já estão
prontos para aprender a ler e escrever
LÍNGUA ESTRANGEIRA
Sabe-se hoje que até os 12 anos de idade a criança
é capaz de aprender com grande facilidade um idioma
estrangeiro
MATEMÁTICA
Conceitos lógico-matemáticos, como muito/pouco,
pequeno/grande, leve/pesado, mais/menos, devem ser desenvolvidos
até os 4 anos
MÚSICA
Especialistas acreditam que a fase entre os 3 e os 10
anos de idade é a mais indicada para começar
a tocar um instrumento
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