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Da educação brasileira já se disse quase tudo ela é uma chaga nacional, a vergonha do país, o fator que condena os brasileiros à miséria. E isso tudo, infelizmente, ainda é verdade, segundo dez entre dez especialistas no assunto. A boa notícia é que não ficará assim por muito tempo. Dentro de quatro a cinco anos, o Brasil estará colhendo os bons resultados de uma verdadeira revolução silenciosa que está mudando a cara do ensino fundamental, que vai da 1ª à 8ª série. Trata-se de um universo enorme: são 34 milhões de alunos, 1,4 milhão de professores e cerca de 200.000 escolas, a esmagadora maioria no setor público. Entre essa massa, a política educacional do governo deu um belo salto, ganhou dinamismo e já começa a fazer algumas diferenças. "A política educacional de hoje é a mais consistente das últimas décadas", diz o professor Claudio de Moura Castro, que está na galeria dos mais respeitados especialistas em educação do país. "É a primeira vez na história que se vê uma gestão de educação como essa", festeja o pedagogo João Batista de Araújo, que dá consultoria educacional a cinco Estados.
Caçador de idéias O Estado brasileiro é pródigo em gastar muito, mas aplica mal o dinheiro. Em nações como o Brasil, a ONU recomenda gasto de pelo menos 250 reais por aluno ao ano e o país está acima desse patamar. Em relação ao PIB, o gasto brasileiro também não faz feio. É igual ao da Espanha ou Portugal, e bem superior ao de países como Argentina e Chile, onde o nível educacional da população é muito mais alto que o brasileiro. O mérito do Fundão foi racionalizar esses gastos e, com isso, corrigir enormes distorções. Antes, o dinheiro era distribuído aos Estados e municípios sem levar em conta o número de alunos matriculados na rede pública. O efeito disso é que a prefeitura de Bragança Paulista, interior de São Paulo, que tem apenas 224 alunos na sua rede municipal, recebia uma bolada tal que podia aplicar até 17.000 reais por aluno, valor tão enorme que não encontra paralelo nem nas economias mais ricas do planeta. Já a prefeitura de Porto de Moz, cidade nos confins do Pará, recebia 50 reais por aluno. Com o Fundão, a diferença de investimento entre o aluno da rede municipal de Bragança Paulista e o de Porto de Moz vai cair substancialmente. Com isso, 2 bilhões de reais vão trocar de mãos, corrigindo excesso de um lado e escassez de outro. À frente do ministério desde o início do governo, o ministro Paulo Renato Souza virou um caçador de boas idéias, no Brasil e no exterior. O próprio Fundão é uma idéia que o célebre educador Anísio Teixeira já defendia nos idos da década de 50. A diferença é que, de lá para cá, dois ministros resolveram pôr em prática as boas idéias. O primeiro foi Murílio Hingel, ministro da Educação no governo de Itamar Franco, cujo trabalho é elogiado pelos especialistas. O segundo foi o ministro Paulo Renato. Na sua gestão, ele se empenhou em recolher as boas iniciativas e orientar os Estados para que as adotem. Do Maranhão, trouxe a idéia das "classes de aceleração", usadas no combate à repetência. No Paraná, descobriu a experiência dos "ciclos de alfabetização", que acabam com as séries. Com a experiência de Goiás, aplicou mudança radical na distribuição de merenda o MEC deixou de centralizá-la, entregando o dinheiro na mão dos diretores das escolas. Em Minas, viu como estava dando certo a descentralização geral de recursos, e não apenas da merenda. O programa TV-Escola, que colocará aparelhos de TV, videocassetes e antenas parabólicas em 50 000 escolas, foi inspirado numa experiência desenvolvida na Inglaterra e no México.
Antes, o MEC era o centro dos grande projetos, onde geralmente só se pensava em construir escolas. Agora, o trabalho vai a detalhes como sugerir inovações para o resto do Brasil e zelar pela execução das propostas. Exemplo: fazer avaliação de livros didáticos. Antes, pensava-se em Ciacs monumentais, as escolas de 1 milhão de dólares do governo Collor, mas não se examinava o material que o aluno lia. Em 1996, o MEC montou uma comissão para analisar os livros. De cada quatro, três continham absurdos. Diziam que o presidente do país ainda era José Sarney, que o pulmão é um músculo e que o Brasil tem apenas 23 Estados. No ano passado, a situação já era melhor dois de cada quatro livros foram rejeitados. Durante anos, imaginou-se que o problema do ensino no Brasil fosse a falta de escola. Até mesmo o programa da campanha eleitoral do presidente Fernando Henrique, o Mãos à Obra, Brasil, estimava que 4 milhões de crianças estavam fora da escola por falta de vaga. Ao montar um eficiente instituto de estatísticas, considerado o melhor da América Latina, o MEC descobriu que esse não era o problema. Em 1996, o Brasil tinha 28,5 milhões de jovens de 7 a 14 anos, faixa etária na qual o estudo é obrigatório. E o país tinha 33,1 milhões de alunos matriculados. Bastou esse dado para chegar à conclusão de que o grande gargalo da educação no país, na verdade, era outro a repetência. Com diagnóstico mais preciso, o governo pôde pensar em políticas mais adequadas. Constatou-se a dificuldade, por exemplo, de alfabetizar um repetente de 14 anos com frases do tipo "Ivo viu a uva". Daí, cresceu a idéia de estimular as "classes de aceleração" do Maranhão, onde os alunos têm material didático próprio para sua idade. Neste ano, mais de 500 000 alunos participarão de projetos desse tipo. É um ataque ao coração do problema. Um problema tão grande que o país gasta, em média, cerca de 2,5 bilhões de reais por ano com repetentes.
Atraso de décadas Nas últimas décadas, a educação no Brasil passou por um tremendo avanço. Na época em que se faziam elogios rasgados à escola pública, ela funcionava apenas nas grandes capitais e seu público era uma elite restrita. Em 1960, só metade das crianças em idade escolar conseguia pôr os pés numa sala de aula. Na década seguinte, as escolas espalharam-se pelo interior do país, a educação tornou-se acessível para uma massa mais ampla, mas toda a expansão deu-se sem nenhuma preocupação com a qualidade do ensino. Nessa época, o governo privilegiava o ensino universitário, que atendia uma fatia minúscula da população menos de 1%. Não era malvadeza do governo militar desse período. A prioridade à universidade se explica pelo projeto de país que os militares tinham em mente um país auto-suficiente em relação ao mercado externo, capaz de atender sozinho a suas necessidades. "Era um caminho coerente com o modelo de desenvolvimento fechado", diz o ministro Paulo Renato. "Não havia concorrência e precisávamos desenvolver tecnologias agrícolas, de telecomunicações, de combustível."
Como esse modelo econômico desabou, a educação no Brasil ficou suspensa no ar voltada para algo que não existe mais. Enquanto o Brasil só tinha olhos para a universidade, a Coréia do Sul, por exemplo, lutava duramente para superar sua deficiência de ensino básico. Em 1953, só 13% dos coreanos eram alfabetizados. Hoje, quase 100% estão matriculados no ensino fundamental e cerca de 75% completam o ensino médio, o antigo 2º grau. O Brasil, no início dos anos 50, estava muito melhor que a Coréia. Metade da população brasileira sabia ler e escrever, mas, de lá para cá, o país fez muito menos que a Coréia. Com a estratégia de priorizar o ensino fundamental, o governo está apenas tentando superar um atraso de trinta anos. "O Brasil fez uma opção equivocada ao priorizar o ensino superior", diz a secretária de Educação de São Paulo, professora Rose Neubauer. "Estamos corrigindo um erro histórico." O dinamismo do MEC de hoje só é comparável ao dos tempos do governo João Goulart. Naquela época, o país debatia o tema da educação e se preocupava com a qualidade do ensino. A diferença é que, no governo de Jango, a educação era uma pauta política. "Falava-se na reforma universitária, na educação de jovens e adultos e nas reformas de base. A atenção à educação se explicava pela luta política da época", afirma o sociólogo Celso Beisiegel, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Agora, a discussão ficou mais técnica. As iniciativas do Ministério da Educação têm sido bem recebidas. Na essência, há certo consenso de que o MEC está no caminho correto. As críticas mais duras são voltadas para o ensino universitário, que vem sofrendo sangria de cérebros. A maioria das instituições federais de ensino está em greve. Os professores, sem aumento há três anos, pedem reajuste de 48%. Há outros gargalos a ser vencidos, mesmo porque a herança brasileira no campo da educação é péssima. "O fator mais importante é que as mudanças estão caminhando na direção certa", diz o professor Claudio de Moura Castro. |
Atrás da escrivaninhaPaulo Renato
começou por baixo, mas
Considerado no Planalto como o ministro que só dá alegrias a Fernando Henrique, Paulo Renato Souza entrou no governo como júnior. Às vésperas da posse, apontado para o Planejamento, teve de desocupar a cadeira para José Serra se sentar em seu lugar e foi para a Educação para não ficar desempregado. Gaúcho de levar a cuia de chimarrão para toda parte, ele recebe amigos para o churrasco, mas desde uma cirurgia em que ganhou três pontes de safena e duas de mamária trocou a costela gorda pela picanha magra, toma seu copo de vinho, mas despediu-se do açúcar. Com 52 anos, três filhos crescidos, o ministro mantém a forma em corridas diárias em Brasília e, diz-se, faz um sucesso respeitável com o público feminino do governo. Em São Paulo, ele mora a menos de 1 quilômetro do apartamento de Fernando Henrique, em Higienópolis. Em sua casa, com móveis grandes e macios, a preocupação com o conforto é mais acentuada do que o cuidado no estilo. Fernando Henrique diz que Paulo Renato está provando, no ministério, que "é um verdadeiro homem público: tem a formação e a competência do acadêmico, a paciência e o gosto para conversar do político". A peculiaridade da convivência entre ambos é que, ao contrário de tucanos de maior antiguidade e calibre, Paulo Renato não se tornou ministro depois de ter sido amigo do presidente, numa relação de igual para igual, mas numa relação de discípulo e professor. Como estudante, ele se utilizou de trabalhos acadêmicos do sociólogo-presidente em teses universitárias. Quase duas décadas atrás, Paulo Renato fez um livrinho didático sobre empregos e salários que chegou a dez edições. Uma obra ambiciosa, Emprego, Salários e Pobreza, de 1979, impressiona pelo gosto em citar Karl Marx, o fundador do comunismo são dez citações em treze páginas. Como Fernando Henrique, quando se pergunta a Paulo Renato se ele se considera um homem de esquerda, a resposta é rápida: "Claro que sim". Antes de ser reitor da Universidade de Campinas, foi professor na Faculdade de Economia. Como ainda tinha cabelos quase inteiramente pretos, compunha o figurino de sindicalista agressivo com costeletas grossas e tufos desgrenhados. "Fui um dos fundadores da Andes", lembra, referindo-se ao sindicato dos professores universitários. Em Brasília, o ministro sabe brigar. Em três ocasiões a área econômica quis tomar-lhe um naco do orçamento. Ele foi à luta, encarando uma gritaria a portas fechadas que só parece estranha para quem imagina que discussão dentro do governo é igual a encontro de velhinhas em confeitaria. Na hora de mostrar o bíceps aos colegas, Paulo Renato é capaz de escrever cartas e até enviar gráficos ilustrativos ao presidente. Bem-sucedido até agora, já recuperou mesmo os 300 milhões de dólares que haviam sumido da merenda escolar após a tempestade asiática. Filho de um delegado de polícia que fez carreira no brizolismo e também como cartola do Grêmio, quando menino Paulo Renato era invejado em Porto Alegre porque assistia a jogo dentro do campo, sentado no banco de reservas. Ele foi morar no Chile, depois do AI-5, mas não porque precisasse fugir da polícia mas para conhecer os intelectuais de esquerda que ali lecionavam. Chegou com 23 anos de idade, a filha mais velha querendo colo e mamadeira e mesada de 100 dólares enviada pelo pai. Sobreviveu com sacrifício até que foi contratado pela Organização Internacional do Trabalho, com um bom salário e imunidade diplomática. Depois do golpe de Pinochet, passou a socorrer exilados. Paulo Renato dirigiu o Citroën que levou o professor Marco Aurélio Garcia, hoje assessor graduado de Luís Inácio Lula da Silva no PT, de sua casa até a Embaixada do Panamá com papéis falsos, também organizou a retirada do país do filho pequeno de Marco Aurélio, Leon. Em outra ocasião, numa cena cinematográfica, o atual ministro salvou a vida de uma militante ameaçada de morte jogando-a por cima do muro da Embaixada da Itália. Colocado num caldeirão de intrigas dos aliados do PFL, no começo do ano Paulo Renato foi lançado candidato à sucessão de Mário Covas e acabou ouvindo um pito presidencial. O ministro pretende ficar onde está até 2002 quando considera um direito natural disputar o Senado em São Paulo. Em busca de um lugar ao sol, dispõe do privilégio raríssimo de comparecer todas as sextas-feiras à Voz do Brasil, para responder a cartas de ouvintes. Ele é capaz de aparecer no hospital Albert Einstein, em São Paulo, dar uma aula inaugural para alunos de enfermagem às 9 da manhã e no dia seguinte falar a oficiais da Escola Superior de Guerra, no Rio de Janeiro. Para debater o Fundão com governadores, prefeitos e secretários, percorreu os 27 Estados brasileiros. Foram tantos encontros e viagens em tão pouco tempo que, após o último vôo, teve uma hemorragia no ouvido direito o tímpano não resistiu a tanta pressão na cabina. Paulo Moreira Leite |
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