A febre de aprender inglês

Num país com um pedaço bilíngüe, já se faz
exame de língua até em concurso público

Paulo Moreira Leite

Fotomontagem de Pepe Casals sobre fotos de: Claudio Rossi/Eugenio Savio/
Renan Cepeda/Antonio Milena
Na rua: "O brasileiro descobriu que aprender a
falar inglês é tão necessário quanto saber trabalhar
com computador"

Quem desembarca na Suécia, Noruega ou Holanda descobre países bilíngües onde, além da língua materna, todo mundo fala inglês — do caixa de banco ao motorista de táxi. Num movimento desigual e silencioso, um pedaço do Brasil começa a viver esta situação. Encarando o português das escolas públicas, a maioria dos brasileiros sobrevive longe de qualquer idioma parecido com o inglês. Mas uma fatia cada vez mais numerosa da população já deixou a condição de monoglota para pais e avós. Somando cursos especializados, aulas particulares e programas de treinamento de empresas, calcula-se que cerca de 20 milhões de brasileiros estudam inglês atualmente. Sem falar em milhares de estabelecimentos independentes, apenas as escolas que funcionam pelo sistema de franquia chegam a 3150, com gigantes como a carioca CCAA, com 700 unidades, e a paulista Fisk, com 566. Língua globalizada, requisito para um número cada vez maior de bons empregos, o inglês é pedido em concursos públicos e chega a ser ensinado para operários de fábrica.

"O brasileiro descobriu que aprender inglês é tão necessário como conhecer informática", afirma Lizika Goldchleger, da Cultura Inglesa. Fundada há 64 anos, com mais de 40 escolas no país, a Cultura abriga uma massa de 120.000 alunos. As matrículas têm crescido 10% ao ano, ritmo que, se fosse mantido regularmente, permitiria duplicar esse número a cada sete anos. Fundada nos anos 60, com trinta alunos, a Associação Alumni, de São Paulo, hoje tem mais de 5.000. Com 57 anos de existência, o Interamericano, de Curitiba, possui 4.300 alunos. É o mesmo quadro da década passada. A diferença é que hoje a capital do Paraná tem cinqüenta escolas de inglês. Antes possuía dez. No Nordeste, a evolução é semelhante. No bairro de Boa Viagem, no Recife, é possível encontrar sete escolas de inglês numa área de 1 quilômetro quadrado.



Da esquerda para a direita: em Brasília, funcionários do Banco do Brasil convocados a estudar inglês; coral de estudantes em Cacoal, Rondônia: "Só não abrimos uma segunda escola porque faltam bons professores"; em São Paulo, executivos em preparativos para tentar um mestrado nos Estados Unidos
Foto: Ana Araujo/Foto: Claudio Rossi  

Falar de escolas onde crianças estudam inglês com 3 anos de idade é confundir a cereja com o bolo. Da classe média para cima, só não estuda quem não pode — as famílias até tiram os filhos da escola privada, mas guardam o que podem para o inglês. A maioria das crianças se matricula aos 11 anos, após a alfabetização em português, mas é cada vez mais comum começar aos 7. Na juventude, fazer intercâmbio como forma de se aperfeiçoar não é programa de famílias ricas, mas de quem pode comprar pacotes a prestação. "Intercâmbio vai virar a Disney dos adolescentes: todo mundo acha que tem direito a fazer isso ao menos uma vez na vida", diz Isabel Maia, do English Learning Centre, do Recife. Há sete anos sua escola mandava treze alunos por ano para intercâmbio no exterior. Hoje manda mais de 100. "Minha filha foi estudar na Inglaterra e encontrou tanto brasileiro que tinha de tomar cuidado para não falar português", conta Maria Helena Abrahão, da Associação dos Professores de Língua Inglesa do Estado de São Paulo. Em Londres existem escolas tão freqüentadas por brasileiros que se recomenda aos interessados fazer um levantamento prévio para evitar surpresas. Uma pesquisa em 28 escolas inglesas mostra que, entre estudantes de diversas nacionalidades que aprendem a língua naquele país, os brasileiros só ficam atrás do Japão. Nos Estados Unidos estão em quarto lugar.

O resultado de tanto esforço é que, nos vestibulares, a quantidade de alunos bem preparados tornou-se tão grande que todo cuidado é pouco. Quem vai mal no inglês perde pontos que dificilmente será capaz de recuperar em outras provas. Na Universidade de São Paulo, a maior do país, o idioma é requisito para iniciar qualquer pós-graduação. Na Fundação Getúlio Vargas, também. Não é difícil encontrar professores que, mesmo vivendo no Brasil, produzem artigos em inglês para quebrar o isolamento da língua portuguesa. Fundada há quinze anos, a melhor revista brasileira de medicina e biologia chama-se Brazilian Journal e é campeã de citações na América Latina — só com artigos em inglês, claro. "Nos laboratórios, falamos português porque é mais confortável", explica um dos editores, Sergio Ferreira. "Mas inglês é nossa língua de trabalho."

Nos Estados Unidos, 6.000 brasileiros estão matriculados em cursos de nível superior, a maioria de pós-graduação. Entre os latino-americanos, esse número só perde para o México e, com as exceções de sempre, supera com folga o contingente de pós-graduandos da maioria das universidades brasileiras. No ano passado, perto de 7.000 brasileiros prestaram o Toefl, abreviatura de Teste de Proficiência em Inglês como Língua Estrangeira, indispensável para estudar numa universidade americana. Foi um recorde, mas os dados da temporada de 1998-1999 indicam um novo aumento. Em Curitiba a projeção é de crescimento de 50% e em São Paulo, de 100%. Na área de administração de empresas a evolução é gigantesca. Há quinze anos os brasileiros matriculados nas dez melhores faculdades americanas para fazer um mestrado, o célebre MBA, não passavam de 25. Hoje são 250. Aconselhando quem ambiciona uma vaga nessas escolas, empresas de recursos humanos não param de acolher novos candidatos. Uma delas, a MBA Empresarial, preparou trinta alunos em 1996, sessenta em 1997 e 110 em 1998. "A procura está explodindo", afirma Ricardo Betti, um dos sócios da empresa.

Duas gerações atrás, o brasileiro que sabia inglês era a minoria das minorias. A segunda língua da pessoa instruída era o francês, agora abolido dos exames do Itamaraty e até dos vestibulares da Universidade de São Paulo, o que não deixa de ser uma mudança e tanto. A USP foi fundada, em 1934, por uma missão de professores recrutados em Paris. Eles não falavam português e davam aulas na língua de Racine. Há trinta anos os jovens ouviam os Beatles e os Rolling Stones e adoravam as novidades da contracultura americana, mas a familiaridade com o inglês é bem mais recente. Veio com a Internet e a abertura da economia, os imensos investimentos externos, o aumento da importação e da exportação. O inglês aparece nos anúncios do comércio de luxo e também em boas livrarias, onde é obrigatório possuir uma seção de importados. A Cultura, de São Paulo, traz 4 toneladas de livros por semana. Há dez anos, importava 1 tonelada. O grosso das vendas de importados não é de poesia, ficção ou filosofia — mas de livro didático, que vence os demais numa proporção de cinqüenta para um. "É o mercado de quem está aprendendo uma língua", afirma Alexandre Martins Fontes, editor e importador. O Brasil bilíngüe é um edifício construído pelo ensino privado e começa na classe média. Mas quem imagina que só se aprende inglês no topo da pirâmide precisa reavaliar a própria falta de imaginação.

Crianças em aula:
a maioria começa a
aprender aos 11,
logo após se alfabetizar
em português
Fotos: Claudio Rossi  

O Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, Senac, oferece aulas a bom preço. Com empresas de porte médio e comércio sem charme, Pirituba é um típico bairro classe C de São Paulo. Há dez anos, havia ali uma única escola de inglês, da rede Fisk. Hoje, são cinco. Uma das mais recentes, a Skill, reúne 250 alunos, a maioria entre 13 e 25 anos. "As pessoas descobriram que não dá para deixar para depois", diz sua diretora, Marisa Maciel Gonçalves. Entre os alunos, encontram-se dois gerentes, uma secretária e uma recepcionista — funcionários de uma metalúrgica. Conforme a diretora, pela Skill passou até um motorista de táxi, interessado em atrair turistas no Aeroporto Internacional de Guarulhos.

Também não faltam estudantes em Cacoal, a 500 quilômetros de Porto Velho, em Rondônia. Cacoal tem 80.000 habitantes, ruas de terra e duas escolas de inglês. Com 230 alunos, teatrinho e coral para animar as aulas, a Cultura de Cacoal abre suas portas mesmo aos sábados, para moradores das cidades vizinhas que só podem estudar nos fins de semana. Há vinte anos no ramo, a diretora Denise da Silva explica: "Nosso problema não é falta de alunos, mas de professores. Se fosse possível encontrar gente bem formada, já teríamos uma segunda escola". A falta de bons professores transforma um diploma respeitado num troféu valioso. Na Universidade de São Paulo, entrar no curso de inglês é tão difícil quanto conseguir uma vaga em psicologia e três vezes mais difícil que em ciências sociais e história. Com as atividades criadas pela internacionalização da economia, serviços de intérprete e tradutor tornaram-se procurados como nunca.

"O que está acontecendo hoje no Brasil ocorreu na década passada no Chile", diz Eduardo Antunovic, que dirige o braço brasileiro da Heidrick & Struggles, enxuta multinacional caça-talentos. A empresa tem 24 funcionários. Os dois que não falam inglês são o faxineiro e o boy. Das 45 vagas que preencheu no mercado de executivos, todos os selecionados possuíam inglês fluente, o que não é estranho em pessoas com a missão de receber visitantes estrangeiros e participar de negociações pesadas sem perder humor nem dinheiro. "Antes, a exigência de inglês não era para valer. Agora, a secretária bilíngüe tem de falar a língua mesmo, assim como o executivo tem de saber argumentar, discutir, dirigir reunião e até animar um jantar", afirma Eduardo Geraldini, gerente de recursos humanos de uma empresa do grupo Philips. Nos escalões inferiores as exigências também mudaram. Numa economia em que uma peça fabricada na Tailândia deve ser ajustada a outra produzida na Bolívia, o operário capaz de decifrar um manual de instruções e comunicar-se em língua estrangeira com um colega ao alcance do DDI tornou-se cada vez mais útil. A Philips possui 400 empregados em sua fábrica de lâmpadas em Mauá, no cinturão industrial de São Paulo. Ali, vinte operários de macacão azul estudam inglês por conta da empresa. São três aulas por semana, uma hora e meia de cada vez. No fim do curso, partirão em viagens de treinamento para Holanda, Polônia, Estados Unidos.

Curso na Philips:
operários da fábrica
estudam para poder
fazer treinamento
fora do país
Fotos: Claudio Rossi  

Há seis meses o inglês provocou uma mudança numa estatal que já foi o sonho de grande emprego para muitos brasileiros. Fundado no tempo em que dom João VI era príncipe regente, pela primeira vez em sua história o Banco do Brasil resolveu realizar um teste de inglês num concurso para a contratação de funcionários. "Essa é uma exigência dos tempos atuais", lembra Tarsilena Polisseni, assessora de recursos humanos. Além de subsidiar o ensino da língua para 1.000 entre seus 70.000 funcionários, o BB promove cursos dirigidos a necessidades específicas. Em Brasília, quatro turmas habituadas a negociar com empresas de cartão de crédito foram convocadas para um reforço. Em São Paulo, o pessoal da área de negócios internacionais foi chamado às aulas e, no Recife, quem cuida de câmbio terá um curso especial para receber turistas que vão à praia trocar dólares.

Essas mudanças podem dar a impressão de que o mercado de trabalho está fechado para quem só fala português. Não é nem poderia ser assim. Mesmo em empresas modernas, as vagas para as quais o inglês chega a ser indispensável raramente passam de 10%. Parece pouco — e é. O difícil é encontrar vagas promissoras, com bons salários, para quem só fala português. Viveiros de executivos de vários países, boa parte das multinacionais pouco liga para a língua da matriz, que pode ser francês, alemão ou holandês — o que se exige é o domínio do inglês, usado nas reuniões de trabalho. Mesmo na administração central do Banco Itaú, onde pulsa o coração da empresa, saber inglês é questão de vida ou morte em 25% dos casos. "Ninguém dispensa um funcionário apenas porque ele não é bom no idioma", alerta Antonio Jacinto Matias, diretor do banco. "Mas é uma questão de geração. Você nem precisa pedir inglês para os recém-formados que chegam: a maioria já vem sabendo." O inglês também está melhorando. A cada ano o Itaú patrocina cursos para 500 de seus 27.000 funcionários. Em dez anos, perto de 3.000 empregados foram diplomados, em estágios diversos. Há uma década, a maioria chegava ao banco com o padrão básico. Agora, vem no grau intermediário. "A fraqueza no inglês é um obstáculo a mais para a pessoa de 40 anos que procura emprego", afirma Vera Nibi, da Rainbow, escola que possui uma clientela que começa na Avenida Paulista, coração financeiro do país, e vai até Monte Dourado, na divisa do Pará com o Amapá, onde se leciona para técnicos de uma mineradora do grupo Caemi.

O inglês da maioria dos brasileiros não é uma língua que lê poesia nem alimenta uma conversa descontraída. É errado comparar o Brasil a essas nações africanas onde uma elite minúscula conversa num dialeto internacional enquanto o grosso da população se utiliza de vários idiomas regionais. Mas nada obrigava o inglês do brasileiro a ser pior que o de países semelhantes, como Argentina ou Colômbia. Mas é. O defeito de origem encontra-se num local conhecido, o ensino público, que não oferece a milhões de pessoas uma boa base inicial. Numa decisão absurda, por mais de uma década o ensino de língua estrangeira deixou de ser obrigatório na rede pública, sendo rebaixado à categoria de atividade didática. Isso equivale ao seguinte: as escolas não eram obrigadas a ensinar inglês, quando o faziam os alunos não eram obrigados a marcar presença e, se compareciam, não eram ameaçados de reprovação. Na prática, o inglês tornou-se menos importante do que educação física, em que não se reprova ninguém, mas é possível perder o ano por faltas. Somente agora, com a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, se pode pensar numa melhoria. Pelo menos já é obrigatório ensinar uma língua estrangeira. Embora se aceite qualquer opção, como espanhol, francês e mesmo alemão, o inglês leva uma vantagem imensa e compreensível.

"A dificuldade é a formação dos professores", afirma Maria Helena Abrahão, que anima um programa de treinamento da Universidade Estadual Paulista, Unesp. A maioria dos mestres da rede pública se diplomou em faculdades de terceira mão, em que conseguia uma licenciatura sem muito esforço além do pagamento da mensalidade. Interessadas em investir num terreno que sempre trará retorno para suas atividades, algumas escolas privadas promovem cursos gratuitos para vitaminar o conhecimento dos professores. Examinando candidatos ao treinamento, a Cultura Inglesa descobriu que grande parte deles chegara ao fundo do poço — era preciso começar do básico. Esse dado ajuda a mostrar como é longo o caminho a percorrer pelos milhões de brasileiros sem dinheiro para um curso privado. Não deve, porém, esconder o imenso progresso ocorrido até aqui.

O maior avanço localiza-se no ensino instrumental, também chamado inglês para fins específicos. Destinado a ajudar uma pessoa a enfrentar situações de seu dia-a-dia, esse aprendizado foi criado na Europa, nos anos 50, para imigrantes árabes e turcos que tinham poucos meses para aprender o idioma dos países onde iriam trabalhar. No Brasil, o ensino instrumental foi adotado quando o mundo acadêmico se tornou incapaz de acompanhar o debate científico no resto do mundo. No final da década de 70, a professora Antonieta Alba Celani, da Pontifícia Universidade Católica, PUC, de São Paulo, coordenou uma revolução didática que envolveu dezenas de universidades e escolas técnicas, em que milhares de professores e alunos passaram a ensinar e aprender inglês com objetivos modestíssimos mas urgentíssimos: equipar-se para encarar as situações de sua vida profissional, como a leitura de textos e o acompanhamento de um debate.

Mercado em
alta: estudando
para ser intérprete

"O inglês mudou de função social", explica Antonieta Celani. "Era uma língua para eruditos, mas tornou-se um idioma necessário ao trabalho, aos negócios e à pesquisa. Não podia ser ensinado da mesma maneira." Pela via tradicional, uma pessoa gasta dois anos de estudo para completar o ciclo básico da língua — o que é ótimo para um adolescente que entrou para a escola na hora certa, mas impossível para quem foi atrás do tempo perdido. Concentrando o foco em sua atividade específica, uma pessoa pode ficar pronta para soltar as primeiras frases em quatro meses, ainda que tenha o vocabulário bastante reduzido e só possa manter diálogos bem simples. "Não estamos falando de uma receita milagrosa", lembra Antonieta Celani. "Mas todo mundo sabe que é mais fácil aprender conforme as próprias necessidades."

O avanço do inglês por tantos poros da sociedade sinaliza uma mudança cultural. O Brasil não está aprendendo uma segunda língua, mas se americanizando. Nas escolas de inglês, as crianças brasileiras comemoram o Halloween, a festa das bruxas. A mesma influência colocou o chapelão de caubói e a bota pontuda nos rodeios do interior e também instalou o rap nos conjuntos da juventude negra e pobre. Os milhares de estudantes que fazem pós-graduação nos Estados Unidos são a ponta econômica do Brasil. Ao retornar, boa parte deles terá à disposição os melhores postos, nas melhores empresas, para tomar as decisões mais influentes. Pode até parecer chocante, mas é uma tradição comum a nações com História semelhante à do Brasil, onde faz 40 graus no Natal, mas Papai Noel usa roupas próprias para o Pólo Norte.

No início do século passado, a usina de idéias dos brasileiros influentes ficava em Portugal, na Universidade de Coimbra. Ali se formaram as personalidades decisivas da Independência. Mais tarde, a força francesa tornou-se clara e direta — tanto para cozinhar idéias positivistas que proclamaram a República como para fundar a USP, de onde saiu o atual presidente da República. No Brasil que chega ao século XXI é a influência das idéias em vigor nas universidades americanas que marca o horizonte — fenômeno que se verifica, em graus variados, também no Japão e na Alemanha, na Argentina e no México. Em nenhum desses lugares se aprende inglês por espírito de imitação — mas porque, sem conhecer essa língua, está cada vez mais difícil entender o que acontece no mundo.

Como é o inglês verde-amarelo

O inglês dos brasileiros possui traços próprios. "Como a maioria lê pouco, o vocabulário costuma ser pobre", afirma a professora Vera Nibi, da Rainbow. "Comparando com os alunos do Japão, a gramática dos nossos é mais fraca", salienta Beth Tomo, da Berlitz. "Os brasileiros falam inglês com um sotaque mais suave do que franceses e italianos", elogia Donald Occhiuzo, diretor da Associação Alumni. "Você percebe que são estrangeiros, mas tem mais dificuldade para identificar o país de origem." Para Mike Zafra, colombiano criado em Boston que há dezessete anos leciona no Brasil, a pronúncia do brasileiro enfrenta dificuldades naturais. "O inglês tem consoantes que não se pronunciam aqui", explica. Um exemplo é o "r", que americanos e ingleses articulam com a língua no céu da boca, produzindo um som que lembra o "r" dos habitantes do interior de São Paulo. "É preciso fazer exercícios para treinar determinados músculos da fala", observa Zafra. A maioria dos estudantes prefere ter aula com professores nativos, americanos em primeiro lugar, ingleses em segundo. Isso nem sempre é vantajoso. "Um professor brasileiro descobre mais depressa a dificuldade de seu aluno", afirma Vera Nibi.


Dando duro até tarde

Iolanda e os alunos:
o ânimo de aprender
é tão grande que o
grupo resolveu chegar
à escola uma hora e
meia mais cedo

Uma vez por semana, um grupo de estudantes do curso supletivo da Escola Municipal Monteiro Lobato, no bairro paulistano de Pirituba, reúne-se para aprender inglês. Um dos alunos trabalha na segurança da Evadin, uma empresa da área eletroeletrônica, outro vende planos de saúde da Amil e um terceiro ganha a vida como balconista de bar. O grupo tem duas mulheres. Uma delas é dona de um pequeno salão de beleza e a outra paga as contas no fim do mês como faz-tudo no escritório de uma pequena metalúrgica. Eles estudam com a professora Iolanda de Souza Luz, que, animada com a disposição da turma para aprender inglês, resolveu dar-lhes noventa minutos de aulas extras por semana. Com idade variando dos 20 aos 46 anos e salários entre 300 e 1.500 reais, eles fazem força para progredir. Chegam mais cedo à escola e são capazes de ficar acordados até 1 e meia da madrugada fazendo exercícios.

Ezequiel Nunes da Silva, 30 anos, é o que vende planos de saúde. "Às vezes perco clientes estrangeiros porque não consigo falar com eles." Outra dificuldade é que, no cotidiano da empresa, já surgiram palavras em inglês, cada vez mais comuns no jargão da administração, que ele não sabia o que queriam dizer. "Eu tinha de anotar num papel e depois perguntar", conta. Com 43 anos, mãe e avó, Maria Aparecida Martins, a funcionária da metalúrgica, sentiu necessidade de aprender inglês em casa: "Comprei eletrodomésticos e não sabia como colocá-los para funcionar pois está tudo escrito em inglês", diz. Outro receio é na hora de comprar uma roupa: "Adoro camiseta, mas me disseram que muitas delas têm palavrões. Como vou saber?" Dona do salão de beleza, Florisvaldina Santos da Silva, 46 anos, descobriu que era bom aprender inglês depois que se viu diante de um computador e não sabia como utilizá-lo. "Mas pior foi um dia em que apareceu uma inglesa para fazer o pé", lembra. "Foi um trabalhão até conseguir entender o que ela queria." Agente de segurança, Luís Carlos Gomes dos Santos, 34 anos, passou vexame na recepção quando apareceram visitantes estrangeiros e ele não tinha como responder a suas perguntas. "Sem um pouco de inglês fica difícil até brincar de videogame com meu filho", explica.




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