O joio
e o trigo
Sem
punir as faculdades ruins, o Provão vira
uma bússola do que há de melhor e pior no país
Na
semana passada, o Ministério da Educação
divulgou o resultado da quinta edição do Exame
Nacional de Cursos, o Provão. Para tomar o pulso das
universidades brasileiras, o governo avaliou 191.000
alunos de 2.888 cursos em dezoito
áreas diferentes, como direito, engenharia, medicina
e psicologia. Pela terceira vez consecutiva, 103 cursos foram
reprovados no teste e, agora, estão sob a ameaça
de ser fechados. É apenas uma ameaça, pois muitas
faculdades vivem no vermelho. O ministro da Educação
já chegou a recomendar o fechamento de meia dúzia
delas e, ainda assim, todas continuam na ativa. Desde 1996,
quando o Provão foi criado, o governo nunca conseguiu
pôr fim a um único curso. Conclusão: sem
punir as instituições ruins, o teste tem servido
apenas como uma indicação do que há de
melhor e pior no ensino superior no país o que,
em si, já é um dado positivo.
Conferindo-se os resultados, constata-se que o ensino superior
é majoritariamente mediano (veja
quadro) e que a elite é formada por
27 cursos nas três áreas direito, administração
e engenharia civil que já passaram pelas cinco
edições do Provão e obtiveram, em todos
os testes, o conceito máximo. Desses 27, dezessete
ficam na Região Sudeste, seis estão no Sul,
três no Nordeste e apenas um no Centro-Oeste. Do total,
dezenove cursos são oferecidos por universidades públicas
e apenas oito por instituições privadas, o que
comprova, pela enésima vez, a supremacia do ensino
superior público sobre o privado. Para essas faculdades
de alta qualidade, o Provão funciona como láurea
capaz de atestar os bons serviços prestados. Até
aquelas que não vão tão bem assim tentam
faturar. Na semana passada, o Centro Universitário
de Brasília (Uniceub) publicou anúncio de meia
página nos jornais da capital federal capitalizando
a avaliação: "Uniceub. Sucesso total no Provão
do MEC". Apesar da festa, só um de seus oito cursos
examinados, o de administração de empresas,
recebeu nota A na avaliação do ministério.
No mesmo anúncio, a instituição avisa
que "já tomou providências para melhorar as poucas
notas que não alcançaram o resultado esperado".
É
exatamente nesse tipo de reação que o governo
aposta quando divulga o resultado do Provão. No ano
passado, o teste apontou 131 cursos no vermelho e, no exame
de agora, metade deles, ou 52%, teve um desempenho melhor.
Sinal de que as faculdades, em sua maioria, estão mesmo
empenhadas em aprimorar seu ensino. "A exposição
pública e a ameaça de fechamento fazem com que
o ensino melhore", diz o ministro Paulo Renato Souza, da Educação.
Na verdade, a exposição pública é
que tem surtido efeito, pois a ameaça de encerramento
ainda não saiu do plano retórico. O rito é
o seguinte: o ministro recomenda a desativação,
que é analisada pelo Conselho Nacional de Educação
(CNE). Como os doze membros do CNE estão vinculados,
eles próprios, a universidades, costumam sempre dar
um jeitinho de trocar a dura punição do fechamento
por uma medida mais branda.
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