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Edição 1 740 - 27 de fevereiro de 2002
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O xerife de Harvard

O novo reitor da universidade
mais tradicional dos EUA deseja
consertar o que não está quebrado

Murilo Ramos

 

Porter Gifford
Graduação em Harvard: Summers quer os medalhões suando a camisa na sala de aula


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A entrevista concedida por Larry Summers a VEJA em 2000.

Já se disse que "Lawrence Summers está para a humildade assim como Madonna está para a castidade". Ele finge irritação, mas gosta, muito, da definição. Summers é um daqueles gênios acadêmicos difíceis de suportar dada sua capacidade de concentração, erudição e disposição para o trabalho. Quando tinha 28 anos, tornou-se o mais novo professor titular da universidade-símbolo da excelência do sistema escolar americano, Harvard. Agora, reitor da universidade aos 47 anos, Summers quer revolucioná-la. Entrar para a Universidade Harvard é um sonho de milhares de jovens em todo o mundo. A instituição, que completa 366 anos em 2002, é a mais antiga, tradicional e rica dos Estados Unidos. Por suas salas de aula passaram figuras memoráveis e poderosas. Entre elas, sete presidentes americanos, como John Kennedy e George W. Bush, e 38 ganhadores do Prêmio Nobel. Professores de renome mundial, como o cientista político Samuel Huntington e o economista Jeffrey Sachs, fazem parte de seu atual quadro docente. Suas aulas são dadas em anfiteatros e mesmerizam seus alunos. Ainda assim, Summers não está contente. "Ele quer consertar o que não está quebrado", dizem seus críticos, que não são poucos. E é isso mesmo.


Antes de aceitar o cargo de reitor de Harvard, há sete meses, Summers ocupou o cargo de secretário do Tesouro dos Estados Unidos. Firmou reputação de teimoso, professoral, intratável, mas altamente competente. Summers está forçando os acadêmicos a uma mudança de hábito. Está convencido de que a excelência que fez de Harvard o colosso educacional de hoje não é mais adequada para formar profissionais e pensadores para os tempos atuais. Tudo muito bem. Mas não se faz isso em Harvard sem enfrentar grossa resistência. Mas Summers, o severo, está comprando todas as brigas. Criticou sem rodeios um ícone da universidade, o professor Cornel West, especialista em direitos civis, admiradíssimo líder do movimento afro-americano. Summers não gostou de saber que West dedicava mais tempo a sua militância política que dando aulas. West gravou um CD de rap. Summers achou uma tolice. West montou um comitê político em sua sala em Harvard para promover a candidatura de um pastor negro. Summers mandou desmontá-lo. O professor Cornel West abriu o bico. Outros célebres estudiosos da universidade o apoiaram. Um deles pediu as contas e foi dar aulas na rival Princeton, que se reveza com Harvard no primeiro posto entre as melhores universidades americanas.

Muita coisa desagrada a Summers. Em especial, o fato de vigorar na universidade a cultura de que a avaliação do desempenho de alunos e professores é secundária. Summers se espantou com a quantidade de notas A. Metade dos alunos de Harvard foi agraciada por seus mestres com a nota máxima. Summers resolveu passar o prodígio a limpo. Fez a própria bateria de testes com um grupo selecionado de alunos, alguns deles de Cornel West, o campeão das notas máximas. Resultado: a turma não era tão boa quanto parecia. "Não discuto que em Harvard existem excelentes alunos, mas claramente a medalha de ouro não pode ser distribuída a todos, senão perde seu valor", diz o reitor. A questão é complexa. Summers foi acusado de querer na ultrapoliticamente correta Harvard o conceito áureo do capitalismo americano: "O vencedor fica com tudo". Entre outros fenômenos, essa ideologia explica o fato de que a diferença de salário entre os presidentes de empresa nos Estados Unidos e os diretores seja a mais alta do mundo. Summers pisou em outro calo ideológico dos estudantes mais liberais do sistema educacional mais liberal dos Estados Unidos. Ele elogiou os militares pelas vitórias alcançadas na luta contra o terror. Pelos estatutos de Harvard, os militares não podem sequer freqüentar o campus fardados.

Seria tudo mais fácil se os alunos e professores de Harvard fossem um grupo de desempenho mediano. São brilhantes. Ali só se entra com um currículo invejável. "É muito difícil montar um sistema de notas diferenciadas que não faça justiça a alunos muito inteligentes", diz José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Princeton que foi diretor da escola de economia da Universidade de Chicago. Summers não abre mão de modificar o sistema de notas. Outra frente de batalha que ele abriu também é muito polêmica. Ele quer os medalhões dando aulas na graduação – e não apenas dando seu show intelectual aos privilegiados alunos da pós-graduação. As aulas na graduação são dadas por assistentes. "Larry Summers tem razão, mas só em parte. Os melhores professores dedicam-se às pesquisas. Ao terem de dividir o tempo com as salas de aula, podem deixar de ganhar prêmios, como o Nobel, vitais para a saúde intelectual e a imagem da universidade", observa Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, que estudou em Harvard na década de 80.

Summers quer preparar Harvard para o futuro. Mas há dúvidas sobre se ele tem o poder necessário. Summers é "presidente" da universidade. O presidente de Harvard tem funções um tanto diferentes das que exerce um "dean" ou "provost", mais parecidos com um reitor de universidade no Brasil. O presidente de Harvard tem menos poder administrativo. Ele não gerencia o orçamento da maioria das faculdades, que gastam como bem entendem suas verbas. Na área acadêmica, ele tem o poder efetivo de escolher os professores a ser promovidos internamente e poder de veto sobre os contratados. Nessa questão, Summers conseguiu abrir outra fonte de atritos. Vetou a contratação de dois professores de outras universidades porque eles tinham mais de 50 anos. "As contratações de Harvard serão baseadas agora no potencial de desempenho futuro do professor, e não na excelência de seu passado", diz Summers. Embora a oposição a ele seja cada dia mais ruidosa, para muitos em Harvard o estilo Summers é adequado à instituição. O último reitor, Neil Rudenstine, era um administrador de primeira que fez de Harvard a instituição educacional mais rica do planeta. Rudenstine não mexeu uma palha no funcionamento acadêmico de Harvard. "Existem muitas críticas em relação a Summers, mas acho que ele consegue enxergar como ninguém os reais problemas da universidade", afirma Andrew Reider, presidente da organização dos estudantes brasileiros de Harvard (HBO). Claramente Summers trabalha sobre uma máquina educativa que já funciona à beira da perfeição. "Lá foi o lugar onde aprendi a pensar de maneira clara e objetiva. Em Harvard você não copia a teoria dos outros, cria as suas", diz Stephen Kanitz, colunista de VEJA, que cursou economia em Harvard nos idos dos anos 70. Lawrence Summers está criando a dele: os melhores são apenas bons para Harvard.

 

TUDO EM NOME DA CIÊNCIA

Caldeirão fervilhante de agitação onde o espírito libertário, a obsessão politicamente correta e a pura e simples maluquice se fundem há décadas, a Universidade de Berkeley, na Califórnia, não podia deixar de ter, claro, seu curso de sexualidade. Aliás, dois – um da feminina, outro da masculina. Foi neste último que o caldo desandou. Na semana passada, o jornal da universidade, o Daily Californian, noticiou, com base em depoimentos de alunos, que o projeto final da turma de sexualidade masculina no semestre passado foi uma visita a um clube gay onde se pratica strip-tease. Lá, um monitor do curso, tomado de furor instrutivo, também tirou a roupa. Daí, quem quis foi para uma festa na casa de outro monitor, onde, além de fazerem sexo uns com os outros, no melhor espírito coletivo, os alunos se engajaram na seguinte brincadeirinha, sempre voluntária: iam ao banheiro, tiravam fotos de polaróide de seus órgãos genitais e punham numa pilha, sendo a pegadinha tentar, depois, unir a foto à pessoa. "Foi uma orgia", disse ao Californian a aluna Christy Kovacs.

O curso, em si, não causa o menor espanto em Berkeley. Faz parte dos chamados "de-cals" ("de" de democratic education, ou educação democrática; "cal", por ser o diminutivo normalmente empregado para a universidade), em que os próprios alunos montam e orientam cursos que valem pontos na graduação. O de sexualidade feminina quase só tem mulheres e é seriíssimo. Já no da masculina, a lista de presença divide-se meio a meio entre moças e rapazes. Da eclética lista de cursos "de-cal" fazem parte ainda blackjack (vinte-e-um, que ensina o jogo de cartas) e copwatch (no qual cidadãos de ânimo protestante aprendem a "reafirmar seus direitos com eficiência e segurança quando interagindo com a polícia", modalidade bastante requisitada na recente onda de manifestações antiglobalização).

Para os conservadores americanos, esse é o tipo de mentalidade excessivamente leniente que está corroendo a excelência acadêmica país afora. Para os liberais, é o caldo de cultura em que viceja a liberdade de pensamento que já produziu os dezoito prêmios Nobel conquistados pela universidade. Instada a dar explicações, a diretora do departamento de estudos da mulher, Caren Kaplan, responsável pelo curso, saiu-se com uma justificativa berkeleyniana: "Não policio seu conteúdo". Por via das dúvidas, mandou abrir um inquérito e suspendeu as aulas – até porque o currículo deste semestre prevê, como projeto final, outra visita ao tal clube gay.

 

   
   
   
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