Edição 1 646 -26/4/2000

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Esses vão se dar bem

O momento é fabuloso para quem escolheu cursar a faculdade de engenharia de telecomunicações

André Santoro

 
Selmy Yassuda
Engenharia da UFF: por enquanto, não
falta emprego

Sair da faculdade com emprego garantido é um sonho distante para muitos estudantes, não para os engenheiros de telecomunicações. Pelo menos neste momento de transformações no setor, esses jovens estão com o futuro garantido. Desde a quebra do monopólio estatal, marcado pelo fim do sistema Telebrás, em 1998, as empresas de telecomunicações têm avançado com voracidade sobre os novos talentos que saem das faculdades. A estratégia se assemelha às utilizadas pelas companhias estrangeiras em relação aos formandos de grandes centros americanos como a Universidade Harvard ou o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Um mês antes da formatura, as empresas do setor pedem as listas dos alunos que estão prestes a se formar. Ninguém fica na mão. Só neste ano, apenas cinco grandes empresas de telefonia – Embratel, Intelig, ATL, Telefônica Celular e Vésper – estão abrindo vaga para mais 5.000 funcionários.

Nos últimos anos, a infra-estrutura em telecomunicações tornou-se tão importante para um país quanto a construção de estradas, empresas e aeroportos. O Brasil já assimilou essa filosofia. Em 2005, a previsão é de que o número de celulares ultrapasse a barreira dos 58 milhões de aparelhos, quase quatro vezes o número atual. Na telefonia fixa, a quantidade de linhas deve dobrar. As operadoras de televisão por assinatura também entram na estatística: a porcentagem de assinantes deverá quintuplicar até 2005. Só nos primeiros seis meses do ano passado houve 26 operações de fusão e aquisição envolvendo empresas de telecomunicações no Brasil, segundo pesquisa feita pela consultoria KPMG. Em breve, essa febre vai aumentar. A partir de 2002 o setor de telecomunicações será totalmente liberado à concorrência, como ocorreu nos Estados Unidos em 1996 e na Europa no ano passado. Estima-se que 64 bilhões de dólares serão despejados até 2006. Com tantos investimentos, as empresas vão precisar de ainda mais mão-de-obra.

A ebulição da economia nessa área vem elevando os salários dos profissionais de telecomunicações. Nos últimos meses, as remunerações cresceram em média 30%. De acordo com levantamento feito pela consultoria Foco Recursos Humanos, essa é a carreira que melhor remunera os profissionais iniciantes. Um engenheiro de telecomunicações recém-formado já sai ganhando algo em torno de 2.000 reais – bem mais do que recebe, em média, um advogado que acaba de deixar a faculdade (veja quadro). Detalhe: boa parte dos profissionais iniciantes consegue dobrar o salário em apenas dois ou três anos. Os que se destacam podem alcançar postos de gerência antes mesmo dos 30 anos, e é normal uma remuneração acima dos 15.000 reais. Leonardo Beltrão, ex-aluno do curso de engenharia em telecomunicações da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro, foi contratado dias após ter deixado a universidade. Agora ele compõe a equipe de engenheiros da Telefônica. Ganha 2.000 reais por mês. "Quando me matriculei no curso não havia muita perspectiva de emprego. Até os professores costumavam desestimular quem estava começando", diz ele.

A preocupação com a escolha da carreira ocorre quase sempre às vésperas do vestibular. Raros são os jovens que se preocupam em discutir o assunto com alguma antecedência. É por esse motivo que quase metade das pessoas que entram na faculdade desiste no meio do caminho. Existem apenas nove universidades reconhecidas pelo Ministério da Educação que preparam alunos para atuar no setor. Ou seja, as escolas superiores ainda dão ao curso de engenharia de telecomunicações o tratamento que o segmento merecia no Brasil da Telebrás, quando as pessoas não tinham telefone e, portanto, não havia necessidade de muita mão-de-obra. Além disso, os próprios estudantes ainda não acordaram totalmente para as oportunidades da carreira. No Instituto Militar de Engenharia, no Rio de Janeiro, o vestibular para engenharia de telecomunicações costuma atingir cinqüenta candidatos por vaga. Essa é uma procura apenas razoável para uma carreira que paga tão bem. O curso de fisioterapia da Universidade de São Paulo, por exemplo, tem quase o dobro de candidatos.

 
Bia Parreiras

A explosão de determinados setores da economia obedece a ciclos históricos. Até a década de 70, as carreiras mais procuradas eram medicina, direito e engenharia. Recentemente houve a explosão da odontologia e da informática. A própria engenharia passou por muitas fases. Primeiro predominou a engenharia civil, que esteve no auge durante o ciclo da urbanização, a partir dos anos 30. Depois, a engenharia elétrica e a mecânica, que viveram momentos de expansão durante a industrialização, a partir dos anos 50. Agora é a vez das telecomunicações.

 
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