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Quase 3 milhões de formandos no 2º grau estão neste momento se preparando para disputar os exames vestibulares. Pelo menos um terço desses adolescentes está matriculado em cursinhos para compensar as falhas de sua formação colegial. Às voltas com apostilas e pilhas de exercícios, dormem mal e enfrentam um stress violento. Pois bem. Esse inferno juvenil já tem remissão. "Acabou o vestibular." É com essa notícia para lá de boa que a Faculdade da Cidade, uma universidade privada carioca, abre o seu site na Internet. Em São Paulo, as Faculdades Metropolitanas Unidas seguem um caminho parecido e mesmo escolas públicas, como a Universidade Federal de Santa Maria e a Universidade de Brasília, UnB, já oferecem vagas segundo critérios que passam ao largo da crueldade do vestibular tradicional. O Ministério da Educação não tem a menor idéia de quantas escolas estão usando métodos novos de seleção de calouros. Também não quer saber, já que a Lei de Diretrizes e Bases aprovada em 1996 conferiu às universidades autonomia para definir como bem entenderem os critérios de admissão aos seus cursos. Isso é bom ou é ruim para o ensino superior? "Nem bom, nem ruim", diz Carlos Alberto Serpa, do Conselho Nacional de Educação. "Os bons alunos acabarão procurando as boas universidades e nelas ingressarão seja pela via de um vestibular, seja por qualquer outro critério", explica Serpa. Cursinho e decoreba O que assusta é que muitas faculdades de baixo nível aboliram o vestibular como um recurso a mais para atrair estudantes sem nenhuma condição de freqüentar um curso superior, num esquema "pagou-entrou". Seria uma forma de tentar cooptar clientes num momento em que 818 escolas particulares em todo o país disputam um mercado que parou de crescer já há alguns anos, fixando-se na casa dos 2 milhões de alunos. Antes, com a exigência de que todas as faculdades fizessem exames vestibulares, tinha-se a impressão de que havia algum crivo, por mínimo que fosse, para a entrada no 3º grau. Mas era só uma impressão, porque, na verdade, quem acabava entrando nessas arapucas era gente que não conseguia ser aprovada em nenhuma seleção séria. Não é aí que as coisas mudarão. O que o fim do vestibular tem de bom é que acabará com o horror e a desumanidade de submeter os jovens a um exame estúpido, que exige o domínio artificialíssimo sobre todo o conteúdo do 2º grau. Na prática, o que se faz é estimular a indústria dos cursinhos e a decoreba de equações e fórmulas. As respeitadíssimas universidades americanas da Califórnia, Harvard, Yale, ou o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que não têm vestibular, já mostraram o caminho. Seus alunos estão entre os melhores do mundo e são selecionados com base em entrevistas e avaliações de desempenho escolar no decorrer de todo o 2º grau.
A Universidade Federal de Santa Maria, do Rio Grande do Sul, e a UnB resolveram experimentar alternativas ao vestibular tradicional há dois anos. Tem sido um sucesso. Em vez da bateria única de testes no final do 2º grau, as duas universidades aplicam as provas em doses homeopáticas, ao final de cada ano letivo. Terminado o 1º, os colégios inscrevem seus alunos para testes a respeito do currículo desse ano. Findos o 2º e o 3º, o mesmo procedimento se repete. Somadas as notas obtidas ao longo dos três anos, os alunos são classificados. Entram na faculdade os primeiros colocados. Na Federal de Santa Maria, 20% das vagas são preenchidas segundo esse critério. Na UnB, a avaliação no decorrer do 2º grau responde pelo ingresso de 25% dos alunos. Esse método permite que o estudante avalie o ensino que está recebendo durante o 2º grau. "O programa tem um importante papel educacional, porque o aluno do ensino médio acaba cobrando mais do professor", diz Ricardo Gauche, coordenador do Programa de Interação com o Ensino Médio da Universidade de Brasília. As federais de Uberlândia e do Maranhão e as estaduais de Montes Claros e do Pará já iniciaram processos semelhantes. "Verificamos as deficiências dos alunos em determinadas disciplinas e mandamos relatórios à direção dos colégios, que podem aperfeiçoar o conteúdo", explica o professor Dario Trevisan, presidente da Comissão Permanente do Vestibular da Federal de Santa Maria. Segundo o professor, não há diferença de rendimento entre os alunos que ingressaram na universidade pelo vestibular tradicional e aqueles que fizeram exames durante o curso. Cristiano Lopes, 18 anos, do 2º semestre de engenharia elétrica na Federal de Santa Maria, curso que teve 8,85 candidatos por vaga no vestibular de 1998, é prova disso. Estudou em escola pública e entrou na universidade por intermédio do método alternativo. "As provas são bastante difíceis, mas como é exigido o conteúdo de apenas um ano, fica mais fácil estudar e a pressão é menor", diz. Fotos 3 por 4 e bate-papo Outra tentativa de eliminação do exame vestibular é a que a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro inaugurará neste ano. A idéia é simples. A PUC resolveu aproveitar os resultados do Exame Nacional de Ensino Médio, que foi promovido em agosto pelo Ministério da Educação. Alunos provenientes do 2º grau com média 7 no exame do MEC se inscrevem em um dos 26 cursos da PUC. Naqueles muito procurados, entra o critério classificatório. Alunos com melhor desempenho no exame do MEC garantem a vaga. Os outros continuam passando pelo funil do vestibular comum. Escolas menos tradicionais também vêm inovando na hora de selecionar os novos calouros. Há dois anos, a Universidade São Marcos, de São Paulo, apenas exige dos candidatos a apresentação do histórico escolar do 2º grau. Os donos dos melhores históricos, diz Paulo Sérgio Lopes de Araújo, pró-reitor de graduação, são admitidos. A clientela selecionada por esse critério é fraca. Também era fraca quando havia o vestibular. Tanto que a direção da escola decidiu oferecer cursos de reforço de português e matemática com o conteúdo do 2º grau. "Sem isso, os novos alunos não conseguiriam acompanhar as aulas", reconhece o pró-reitor. A Faculdade de Belas Artes, também de São Paulo, aceita completar as vagas que sobrarem do vestibular comum com um critério muito original: o candidato apresenta duas fotos 3 por 4, paga 30 reais e bate um papo com um professor. "É para ver se o aluno tem mesmo interesse no curso", diz Jethero Cardoso de Miranda, coordenador do curso de decoração de interiores. Aprovado, o calouro se mantém na faculdade, caso desembolse de 500 a 700 reais por mês. Sempre haverá quem pague.
Com reportagem
de Rodrigo Cardoso, de São Paulo,
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