Ponto de vista

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Claudio de Moura Castro

Origens da riqueza americana

"A criatividade de uma nação está ligada à capacidade
de pensar e teorizar – o que requer uma boa educação
– e, daí, partir para o inventar e, depois, ir até as últimas
conseqüências no fazer"


Ilustração Ale Setti


Descemos o pedregal que leva ao Escalante Canyon, no Estado de Utah, Estados Unidos, junto com os cavalos que levavam nossas mochilas para o fundo do esplêndido desfiladeiro. À frente ia Grant, o dono da empresa de turismo-aventura, seguido de Berkeley, magro, alto, barba de duas semanas, bem para lá dos 60 – um Sancho Pança com cara de Dom Quixote. Além da função de tropeiro, no acampamento ele fazia de tudo: trazia água, limpava a mesa e lavava os pratos. Falava com sotaque de caubói e massacrava a gramática, mas era sempre divertido e bem-humorado. Gostava desse trabalho ocasional de guia cavalariço. Trabalhava também como carpinteiro na construção civil.

Mas, lá pelo segundo dia, de sua barraca vinha o som de uma flauta doce. Visitando ruínas dos índios anasazis, discorreu longamente sobre sua possível convivência com a tribo dos freemonts, o que deduzia da temática inconsistente dos petróglifos.

Na conversa, deixava escapar pensamentos que não eram de caubói. A fala saltava de quando em vez para um registro culto. Perplexo, sondei suas origens e desfez-se o mistério.

Vinha guiando seu Porsche quando bateu em uma pedra. O incidente foi a gota d'água em sua carreira. Por pirraça, trabalhou no dia seguinte de jeans, sendo repreendido pelo presidente da empresa. Era o que faltava para demitir-se da posição de gerente de projetos do setor aeroespacial, interrompendo uma bem-sucedida carreira de engenheiro mecânico na área militar. Havia trabalhado no centro de armamentos da Marinha, na Boeing e na Lockheed, sempre em projetos de ponta, como o Sky Lab. Passou a uma cervejaria, mas saiu quando lhe sugeriram que cortasse o cabelo mais curto.

Comprou terra em um fim de mundo. Ali vive com seus cavalos e cachorros, trazendo água de 10 quilômetros de distância. Nos 3 quilômetros que separam a casa da estrada, nem sempre passa carro.

Como estudante, já havia feito biscates construindo lareiras. Voltou a essa tarefa. Daí passou a estudar técnicas de construção e conservação do adobe, a experimentar com projetos de casas hexagonais e sistemas passivos de controle térmico. Constrói casas por encomenda. Sozinho desenha as plantas, lança as fundações, alça paredes de adobe, constrói o telhado, o madeiramento e a hidráulica.

Obteve um contrato com o serviço de parques para restaurar ruínas dos índios da região. Aprofundou então seus conhecimentos de arqueologia. Paralelamente, faz desenhos a ponta de lápis, aquarelas e peças de madeira, tudo vendido em galerias de arte.

A carreira de Berkeley pode ser vista de duas ópticas. Uma é a do pitoresco, do executivo que virou hippie. A outra ilustra um perfil humano que está na essência da pujança americana. Os inventores do passado e as grandes erupções da informática têm por trás o mesmo perfil multifacetado, tal como demonstrado por muitos estudos. Berkeley é a versão que não sai no jornal.

É o uso das mãos por gente superlativamente bem-educada (anátema para um latino!). É a ponte da ciência para o fazer com as próprias mãos. É praticar as artes plásticas e lidar com tecnologia. É viver a mais rústica e desconfortável das vidas e ler profusamente. É ter motocicleta e preocupar-se com o meio ambiente. É pairar em uma classe social indefinida (lavador de pratos ou executivo?).

A criatividade de uma nação está ligada a essa capacidade de pensar e teorizar – o que requer uma boa educação – e, daí, partir para o inventar e, depois, ir até as últimas conseqüências no fazer. E isso tudo operando em vários registros intelectuais e disciplinares, fazendo as pontes entre uns e outros. Na tradição da sociedade americana, como em nenhuma outra, cria-se espaço para tais perfis, dando-lhes as oportunidades de pôr em prática seus pequenos e grandes sonhos. Mas, acima de tudo, a fonte de sua riqueza está tanto nos inventores-empresários conhecidos quanto nos Berkeley desconhecidos.

 

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)

 

 
Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco

 
 
voltar



VEJA on-line | VEJA Educação
copyright © 2001 - Editora Abril S.A. - todos os direitos reservados