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Edição 1 697 - 25 de abril de 2001
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Claudio de Moura Castro

As máquinas
de ensinar

"Ao pensar nos próximos passos para nossa
educação, os especialistas deveriam
prestar
mais atenção
nos êxitos brasileiros do que nas
falsas promessas tecnológicas
vindas de um
mundo
desenvolvido"


Ilustração Ale Setti


Os arautos da modernidade repetidamente anunciam a nova tecnologia que fará a revolução definitiva no ensino. Assim foi com o disco, o rádio, o cinema, o gravador de som, a televisão e as canhestras "máquinas de ensinar". Agora, entram em cena o computador e a internet. Infelizmente, há muitos túmulos e poucos monumentos. Poucas tecnologias foram realmente adotadas de forma generalizada. Só funcionaram mesmo o mimeógrafo, o retroprojetor e o xerox, adorados pelos professores. Curioso, o homem gera engenhos e entretenimentos diabolicamente imaginativos, mas nada disso chega à educação para desbancar o humilde quadro-negro (só mudou a cor, ficou verde).

Pela perspectiva dos países ricos, praticamente nada sobreviveu. Mas o entusiasmo persiste e brotam novas engenhocas, ungidas ao árduo papel de salvadoras da educação. O computador já vai ficando para trás. A novidade de plantão é a internet.

Nós, caudatários das modas internacionais, com leve atraso repetimos a mesma cantilena e hoje colocamos todos os nossos parcos ovos no balaio da internet. Mas nessa área, curiosamente, o mundo tropical tem algumas lições a oferecer. Há extraordinários e bem-sucedidos experimentos com o uso do rádio na educação. O Brasil já teve o Projeto Minerva. Guatemala e Bolívia têm programas de matemática interativa pelo rádio, com avaliações ótimas e ao preço de 1 dólar por aluno/ano. O rádio pode ser velho e fora de moda, mas com custo ridiculamente baixo gera bons resultados.

A televisão educativa americana nunca decolou e hoje é considerada obsoleta. Os canais educativos a cabo mostram uma imagem feia e granulada de professores recitando aulas monocórdias na frente de uma câmara fixa. É voz corrente, presenciamos o ocaso dessas tecnologias da imagem. Sobram apenas os vídeos que são usados no treinamento profissional, mas não na educação.

Mas alto lá! Há dois países na contramão. Ambos são grandes e suficientemente pobres para ter enormes contingentes de jovens além do alcance das escolas. Ambos têm uma televisão de nível internacional, pois são grandes exportadores de telenovelas. E ambos usam a competência gerada por essa televisão para produzir programas educativos de esplêndida qualidade.

Brasil e México aplicaram a qualidade da imagem televisiva de padrão comercial para fazer programas educativos, coisa que os países ricos jamais tentaram (exceto na pré-escola). Entre a Telesecundaria mexicana, o Telecurso 2000 e a TV Escola, estamos diante de produtos inovadores e de grande impacto social. Programas como esses mostram que o anúncio da morte da TV/vídeo é prematuro. Vão bem, obrigado, nestas paragens tropicais.

A internet e a web são, antes de tudo, condutoras da palavra escrita. As cores e os movimentos são pura decoração e a largura de banda possível no futuro imediato nos condena a imagens trêmulas e diminutas na telinha do computador. Ao fim e ao cabo, são tecnologias para quem sabe ler com desenvoltura. Lamentavelmente, esse não é o caso de vastas porções de nosso povo.

Para clientelas menos educadas, o carisma humano de um grande professor ou de um ator profissional tem um magnetismo inexistente na internet. Um ator de novela no Telecurso 2000 traz uma mensagem infinitamente mais forte que a página escrita. Uma aula na televisão, preparada com competência e amplos recursos, às vezes é melhor do que a melhor aula ao vivo. Mas é sempre melhor que a aula improvisada, ou sua ausência.

A internet tem seu lugar e não há como desmerecer esse fabuloso instrumento. Mas, em um país onde a maioria não opera confortavelmente com a palavra escrita, a imagem do vídeo e da televisão se converteu em poderoso instrumento de educação popular. Ao pensar nos próximos passos para nossa educação, os especialistas deveriam prestar mais atenção nos êxitos brasileiros do que nas falsas promessas tecnológicas vindas de um mundo desenvolvido que abandona a televisão na educação sem jamais haver aprendido a usá-la.

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)


 
   
   
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