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Inglês
vem de berço
Matricular
o bebê numa escola bilíngüe
ajuda a controlar a ansiedade dos pais,
mas nem sempre é bom para a criança

Kátia
Perin
Claudio Rossi

Aula
na escola Builders, em São Paulo: duplo aprendizado |
Deitado
na cama, durante a troca de fraldas, o pequeno Mariano começou
a brincar com os lenços umedecidos. A cada toalha que tirava
da caixa e jogava para o alto, repetia: "Up and down, up and down"
(para cima, para baixo). Ao ver a cena, os pais, Frederico e Maria
José Sanches de Oliveira, ficaram envaidecidos. Afinal, o
bebê de apenas 1 ano e 10 meses, que até então
só balbuciava papá e mamã, acabara de pronunciar
suas primeiras palavras em inglês. Matriculado recentemente
numa escola bilíngüe, em São Paulo, Mariano é
exemplo de uma tendência que passou a atrair famílias
brasileiras de classe média nos últimos anos. Pais
cada vez mais preocupados com a obrigatoriedade do inglês
no mercado de trabalho apostam suas expectativas e muitas de suas
economias no ensino precoce da língua. Acreditam que quanto
mais cedo a criança estiver em contato com o idioma, melhor.
Na pré-escola, ela vai aprender sem esforço, vai falar
sem sotaque e ainda poderá dedicar-se a uma terceira língua
mais tarde. "Quero que meu filho aprenda sem sofrimento, sem perceber",
diz Maria José, que é argentina e professora de espanhol
em empresas brasileiras.
O
número de escolas especializadas no ensino bilíngüe
cresce no mesmo ritmo da expectativa desses pais. Só em São
Paulo, hoje, há vinte estabelecimentos do gênero, onde
estão matriculadas cerca de 1.200
crianças em fase pré-escolar, segundo os dados da
Organização das Escolas Bilíngües de São
Paulo (OEB), fundada há um ano. Há dois anos, em todo
o Brasil, estimava-se que 25.000 estudantes
da pré-escola ao ensino médio freqüentassem escolas
de ensino bilíngüe. Esses estabelecimentos garantem
que, na primeira infância, o aprendizado é mais simples
porque passa principalmente pelo lado emocional e pela percepção
da criança. Ela ainda não domina os códigos
da linguagem, mas está atenta a gestos, cores, formas e noções
de espaço. Aprende brincando. "Até perto dos 3 anos,
a criança funciona como esponja e absorve tudo o que se passa
a sua volta, porque é essa a função do cérebro
nessa etapa", compara Márcia Plessmann, coordenadora pedagógica
da Escola Play Pen, pioneira de ensino inglês-português
em São Paulo.
De
acordo com Ana Paula Mustafá Mariutti, coordenadora-geral
da Builders, também de São Paulo, o inglês entra
cedo na vida dos alunos para aproveitar uma excelente fase do aprendizado.
Há uma diferença básica em relação
às escolas estrangeiras, nas quais o currículo está
voltado para o ensino do país de origem. Esses estabelecimentos
contam com o fato de que o estudante, muitas vezes, está
temporariamente no Brasil, por causa do trabalho de seus pais. "Nossa
proposta é de escola brasileira, voltada para filhos de brasileiros
que serão alfabetizados em português mas poderão
ter um inglês competente muito antes de outras crianças",
avalia Ana Paula. No programa didático para a faixa de 1
a 6 anos, a Builders, por exemplo, criou aulas semanais de cultura
brasileira, com cantigas em português, conceitos do folclore
nacional e comemorações de festas típicas.
O grande trunfo dessa idade pré-escolar é a curiosidade.
Os pais interessados em ensino bilíngüe devem saber,
entretanto, que, como toda novidade na área pedagógica,
o assunto desperta polêmica. "Essa preocupação
recente com o aprendizado do inglês na pré-escola é
exagerada", afirma o neurologista José Salomão Schwartzman.
"Não acho que traga algum benefício efetivo para a
criança." Numa direção semelhante, o pediatra
Gláucio José de Abreu acredita que aprender a língua-mãe
é o primeiro e indispensável passo para que a criança
sedimente conhecimentos posteriores. São argumentos que reforçam
a necessidade de que os pais não tomem uma decisão
de afogadilho e pesem bem os rumos a adotar na primeira infância
dos filhos.
Como
em tudo na vida, o melhor caminho é o bom senso (veja
quadro). Matricular uma criança numa escola
bilíngüe pode ser uma iniciativa positiva para sua formação,
desde que isso não resulte em sobrecarga de tarefas e tensão.
É um erro, por exemplo, exigir dela um grande esforço,
como uma tarefa cansativa e desagradável. Ou até mesmo
mostrar seus dotes em público, numa dessas exibições
de orgulho paterno. Pelo contrário, é preciso observar
se o filho está relaxado, se ele se diverte, brinca com os
colegas e gosta de ir à escola, ao mesmo tempo que apresenta
um desenvolvimento normal da linguagem, sem distúrbios aparentes
de aprendizado. "O fundamental é que esteja feliz, à
vontade, sem sinais de ansiedade, que pode prejudicá-lo mais
tarde", avalia o médico foniatra Mauro Spinelli.

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