O que
eles têm que
os outros não têm
Empresas
investem pesado na seleção
em busca dos executivos do futuro
Tatiana
Chiari
Ricardo Benichio
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| Os
recém-contratados da Ford, que vão receber
salário inicial de 2 400 reais: disputa por uma
vaga foi dez vezes mais dura que no mais concorrido dos
vestibulares |
Nos
últimos anos, as empresas passaram a encarar a contratação
de jovens recém-formados como uma questão estratégica
da maior importância. Isso transformou alguns processos
de recrutamento em funis muito mais estreitos que o dos vestibulares
mais concorridos. Na semana passada, a montadora Ford deu
início ao programa de trainee que teve a seleção
com o maior número de inscritos da história.
Foram 22.087 para pleitear trinta
vagas. Cada selecionado deixou para trás 735 pessoas.
A briga foi dez vezes mais dura que a registrada no vestibular
mais disputado do país, o de publicidade na Universidade
de São Paulo. O candidato da Ford precisava ter no
máximo 27 anos, dominar o inglês, ter curso superior
e demonstrar habilidade em informática. Como boa parte
dos candidatos atendia a esses pré-requisitos, os funcionários
de recrutamento da montadora foram obrigados a avaliar outras
qualidades para chegar à seleção final.
Nessa segunda fase da peneira, contaram pontos a capacidade
de comunicação, iniciativa e até mesmo
a auto-estima do candidato, atributos que estão sendo
bastante valorizados no mercado profissional.
Quem
não tem intimidade com o chamado "mercado" pode achar
estranho o empenho das empresas em contratar novatos. Não
seria mais prático recorrer a um quadro já formado
numa firma concorrente? Num primeiro momento, pode parecer
que tanto faz adotar esta ou aquela política, mas não
é bem assim. As companhias até "roubam" quadros
da concorrência com alguma freqüência, e
é exatamente por isso que cada uma faz o que pode para
reter os talentos que possui. Acontece que o funcionário
de outra empresa carrega consigo virtudes desejáveis
e uma lista de defeitos tanto aqueles desenvolvidos
durante sua carreira quanto outros adquiridos na concorrência.
Já o novato é um livro em branco, pronto para
assimilar as instruções sem contaminação.
Quando esse novato é bem formado, ele logo "pega o
serviço", como se dizia no passado, e passa a contribuir.
Num cenário de oito a dez anos, estará integrando
o chamado corpo gerencial da companhia e, se for bem-sucedido,
em vinte pode ocupar uma função na diretoria.
Não há nada mais estimulante. O salário
inicial de 2.000 reais pode chegar
a mais de 30.000.
Antonio Milena
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| Processo
de recrutamento: contam pontos o bom humor e a capacidade
de comunicação |
Não é à toa, portanto, que a Ford e todas
as grandes companhias investem no processo de seleção
de novatos. Um processo de recrutamento mal executado pode
deixar escapar pelas mãos da empresa um talento que
venha a ser contratado pela concorrência. É como
se, no futebol, o departamento responsável pelo time
juvenil do Palmeiras não prestasse atenção
no surgimento de um craque do padrão de Ronaldinho
e, por uma bobeada, ele acabasse se tornando a maior atração
(e fonte de lucros) do arqui-rival Corinthians. Se não
bastasse, ao escolher os trainees errados a empresa vai perder
produtividade e enfrentar problemas sérios no futuro,
quando descobrir que eles nunca terão capacidade para
ocupar um cargo de diretoria.
Todos os selecionados pela Ford vão passar por estágios
nas mais diversas áreas da companhia. No fim do mês,
embolsarão um salário de 2.400
reais. A expectativa da montadora é que a maioria deles
faça carreira na própria empresa e alcance,
a longo prazo, cargo executivo. Quem sabe algum repita o exemplo
dos atuais presidentes da Nestlé, Ricardo Gonçalves,
e da Gessy Lever, Vinicius Prianti, que começaram a
carreira como trainees nessas empresas e chegaram ao topo
da hierarquia. "Queremos que os recém-contratados continuem
na Ford por muito tempo e ajudem a pensar a empresa no futuro",
afirma Antônio Maciel Neto, presidente da montadora.
Os
"30 da Ford" reúnem aquilo que os especialistas chamam
de "um algo a mais". Todos eles ostentavam currículos
de primeira linha, mas foram alguns critérios subjetivos
que definiram sua contratação. O carioca Rodrigo
Cuesta, de 24 anos, chegou a fazer um curso de especialização
em Harvard. Apesar da pouca idade, ele tinha passagens por
dois bancos de investimentos. Em seu caso, contou ponto também
o fato de ter morado nos Estados Unidos e trabalhado como
garçom. Na avaliação da equipe de seleção,
a iniciativa revela sua capacidade de adaptação.
Outro fator decisivo é o senso de oportunidade dos
candidatos e a clareza ao expor suas ambições.
Foi o que aconteceu com o baiano Jorge Cavalcanti, 27 anos.
Formado em economia, não tinha um currículo
brilhante e seu inglês era apenas bom. O que impressionou
a equipe da Ford foi a segurança com a qual se expressou
nas dinâmicas de grupo. O mais difícil nos processos
de seleção com candidatos muito qualificados
é, sem dúvida, a parte final. É aquele
momento em que todo mundo parece estar no mesmo patamar: o
alto da pirâmide. Na Ford, na última etapa, sobraram
156 candidatos. "Todos ali poderiam ser efetivados", diz Renata
Mariani, da Across Recursos Humanos, contratada pela montadora
para o recrutamento. Nesse momento, as empresas contam com
regras muito subjetivas e os trainees contam apenas
com a sorte.
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