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Para aqueles que olham para a alta dos juros, ou para o movimento das bolsas de valores, atenção. O melhor investimento de longo prazo que se pode fazer hoje é a educação. Veja o que está acontecendo no Brasil. Com a taxa média de desemprego em 8%, o contingente dos brasileiros que estudaram apenas seis anos enfrenta uma taxa de desemprego maior, de 9%. Entre os que fizeram faculdade, o índice cai para a faixa dos 2%. E, incrível, ele é de apenas 1% entre os pós-graduados. É verdade que existem pessoas que construíram fortunas sem ter ido longe nos bancos escolares. O empreiteiro Sebastião Camargo e o banqueiro Amador Aguiar, fundador do Bradesco, são dois dos exemplos mais conhecidos no Brasil. Para a maioria das pessoas, contudo, estudar é crucial para determinar a posição e o salário que podem conquistar, e isso nunca foi tão verdadeiro quanto agora. A era da informação é implacável: joga para escanteio quem não tem instrução e coloca no ápice quem estuda mais. Exigente e seletivo, o mercado de trabalho está passando por um terremoto. Quer profissionais graduados, que falem inglês, entendam de computador e estejam atentos às mudanças. Todo esse investimento tem retorno certo. Um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, a pedido de VEJA, traçou um retrato preciso do que está acontecendo hoje no mundo do emprego. Esse levantamento comprova algo que até agora apenas se intuía pelo senso comum: quanto mais estuda, maior é a chance de uma pessoa conseguir emprego, ganhar mais e fazer carreira bem-sucedida (observe os quadros ao longo da página).
A análise foi feita com base em pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, com 1 milhão de pessoas, entre julho de 1997 e junho deste ano, em seis capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre e Recife). Por ela, verifica-se que as possibilidades de uma pessoa encontrar emprego dependem muito mais do que se imagina de sua escolaridade. O brasileiro que completou apenas o 1º grau ou ainda não concluiu o ensino médio tem chances pouco maiores que as de um analfabeto na hora de buscar colocação. Um entre dez brasileiros com esse nível de escolaridade está sem emprego. O problema se agrava porque nessa faixa estão também os jovens. Eles compõem atualmente o maior grupo etário da população brasileira e estão entrando pela primeira vez no mercado de trabalho. Enquanto isso, os brasileiros mais escolarizados vivem num país que lhes dá quase tanta segurança de firmar-se no emprego quanto os Estados Unidos, o Japão e a Inglaterra os países com as mais reduzidas taxas de desemprego do mundo.
A pesquisa do Ipea mostra que o maior índice de desemprego no Brasil está na faixa dos nove anos de escolaridade. Nela estão profissionais como auxiliares de escritório e bancários. São pessoas que já terminaram o 1º grau, mas ainda não completaram o 2º. Têm qualificação mediana e não precisam mais sujeitar-se ao subemprego dos analfabetos ou pouco escolarizados. Mas ainda não têm grau de especialização necessário para ocupar bons empregos, oferecidos para quem conquistou o diploma universitário ou fez pós-graduação. A prova de que a zona dos empregos intermediários está saturada são as filas na porta das empresas. Há um mês, a rede de lojas de desconto americana Wal-Mart abriu quatro novas lojas oferecendo 500 vagas em cada uma delas. A maior parte era para funções como vendedor, atendente e empacotador. Nos dois primeiros casos, exige-se o 2º grau. No terceiro, somente o 1º. Na Wal-Mart de São Paulo, formou-se uma homérica fila de candidatos, com 25.000 pessoas. Duas semanas mais tarde, em São José dos Campos, no interior paulista, perfilaram-se 10.000 pessoas.
Escolhida a área, o que se pede hoje no mercado é a alta especialização. Quem estudou bastante e foi além do diploma universitário está no melhor dos mundos. Isso é o que habilita os profissionais para onde está o filé mignon do mercado, como o ramo financeiro. É o caso de Alexandre Saigh, de 31 anos, executivo do Banco Patrimônio. Ele compõe a minoria da população com alta escolaridade e rendimentos muito acima da média. Pós-graduado em economia na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, Saigh estudou durante dezoito anos. Recebe um salário fixo de 10.000 reais por mês, sem contar sua participação nos lucros obtidos para o banco. "A bagagem acadêmica me abre muitas portas", afirma ele. Saigh foi disputado pelas quatro empresas para as quais enviou seu currículo. Escolheu o Patrimônio e cinco anos depois já era sócio do banco. Mesmo bem-sucedido, não pensa em parar de estudar. "Quero fazer mais especializações", diz. "Quem não fizer isso vira peça de antiquário." Áreas promissoras A maior parte dos jovens que deixam de estudar acredita que se tornará apta a encontrar um bom emprego apenas fazendo um curso de computação como os que se multiplicam no país. Isso não é verdade. "Estou procurando estágio desde maio", conta a estudante paulista Thaís Greco, de 18 anos, que faz o 3º ano do curso técnico de processamento de dados e já bateu inutilmente em várias portas. "É muito diferente o que se aprende na escola e o que é preciso na prática." A área de informática e a de telefonia são as mais promissoras, mas o que se pede não são pessoas que saibam apenas manusear um programa de texto para escrever boletins no computador. São administradores das redes de informática instaladas nas empresas, analistas de sistemas capazes de criar ou mudar a programação dos computadores, ou analistas de suporte, que ajudam a manter as redes funcionando. São também web designers, profissionais que criam as páginas na Internet, ou engenheiros de sistemas e produtos ligados às novas redes de telefonia celular. Para todos eles, não só o emprego estará quase garantido como há perspectivas de bons salários. Ainda mais se tiverem conhecimento do mercado e das pessoas que nele atuam e estiverem ligados às mudanças que ocorrem a seu redor. "Sozinha, a graduação não basta", diz a psicóloga e administradora de empresas Nielce Filetti, presidente da Associação Paulista de Recursos Humanos, que tem 2.000 cadastrados. "As empresas buscam o profissional com um perfil diferenciado."
Onde há vagas sobrando Os profissionais que sabem muito são literalmente caçados pelas empresas, que disputam avidamente a mão-de-obra mais qualificada. Só no setor de informática, estima-se que 50% das vagas não são preenchidas por falta de profissionais especializados. "Mesmo que a educação avance muito, será insuficiente para atender à demanda do mercado criada pelo progresso tecnológico", afirma o economista Ricardo Paes de Barros, um dos coordenadores do trabalho do Ipea. No mercado de telecomunicações também não existe mão-de-obra especializada para atender à oferta de empregos que estão surgindo. Avalia-se que para operar os 16,2 milhões de aparelhos celulares que serão colocados em operação nas bandas A e B, mais os novos telefones fixos, haverá a necessidade de contratar 300.000 pessoas para trabalhar nas centrais telefônicas, no fornecimento de peças ou na prestação de serviços aos clientes. "Corremos o risco de entrar em colapso por falta de gente para trabalhar", diz Antônio Enéas Reis, sócio de uma empresa de consultoria de recursos humanos do setor, a DPS. "Não haverá gente especializada nessa quantidade."
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