Marcelo Zocchio
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Ao
lidar com os problemas da educação nos
dias de hoje, os especialistas
se concentram
num processo essencial: o estímulo e o
reforço da auto-estima das crianças
Aida
Veiga
Peça
para um pai ou uma mãe bem informados listar os problemas
que as crianças enfrentam hoje, aquele tipo de agrura
no passado raramente relacionada ao universo infantil, e a
resposta é impressionante: drogas, bebida, depressão,
obesidade, distúrbios alimentares graves. Pior, a lista
é fruto não apenas da paranóia paterna
mas também da dura realidade. Segundo um levantamento
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 70%
dos jovens e adolescentes paulistas em idade escolar tomam
bebida alcoólica em algum momento. Uma pesquisa feita
em dezesseis cidades brasileiras mostra que 58% dos garotos
e garotas de 12 a 14 anos fizeram uso de drogas pelo menos
uma vez na vida. A Sociedade Brasileira de Pediatria aponta
a obesidade como um mal que já afeta 15% das crianças
no país. Por estimativa da Organização
Mundial de Saúde, 20% dos adolescentes sofrem de depressão.
Cada um desses problemas tem origem em fatores complexos,
que vão desde aspectos genéticos até
o nível de vida da comunidade. Um elemento, no entanto,
permeia todos eles: a baixa auto-estima. Médicos e
psicólogos cada vez mais identificam uma série
de aflições comportamentais nesse sentimento
de que não se é bom o suficiente, ou pior, "não
presta", "não vale", "não merece". Um exemplo
extremo: a introdução à bebida ou às
drogas. "Quem tem uma boa auto-estima vai ser capaz de dizer
não, porque não teme perder o apoio do grupo",
avalia Tania Zagury, educadora da Universidade Federal do
Rio de Janeiro, especializada em adolescentes. "Mas, se a
criança for insegura, não vai resistir ao primeiro
'filhinho da mamãe' acaba cedendo."
Os estudos que avaliam a importância da auto-estima
no bom desenvolvimento das crianças proliferam nos
países desenvolvidos, onde os problemas básicos
já foram resolvidos e é possível se concentrar
nas angústias da alma. No começo deste ano,
pesquisadores da Universidade Harvard concluíram que,
na dolorosa seara da anorexia e da bulimia, os distúrbios
alimentares mais graves, a baixa auto-estima é um requisito
essencial para a evolução da doença:
toda menina obcecada em emagrecer age assim porque não
se acha bonita e, se não é bonita, não
vai conseguir arranjar amigos e namorados. No fim de junho,
especialistas do mundo inteiro participaram em San Francisco,
Califórnia, do congresso "Como preparar a juventude
para o século XXI", no qual o tema central foi justamente
o papel da auto-estima. "Cerca de 30% dos jovens americanos
não se tornam cidadãos produtivos porque não
se sentem bem consigo mesmos", afirma Robert Reasoner, autor
do livro Auto-Estima e Juventude O que Dizem as
Pesquisas. "Quem conhece e valoriza suas qualidades e
confia nelas tem menos probabilidade de pertencer a esse grupo."
Difícil
equilíbrio Auto-estima é, numa definição
simplificada, o que a pessoa sente em relação
a si mesma. Quando positiva, significa que ela se tem em boa
conta, acredita que os outros gostam dela e confia em sua
habilidade de lidar com desafios. Quando negativa, acha que
não merece o amor de ninguém porque não
sabe fazer nada direito, podendo vir a se tornar excessivamente
tímida e sem iniciativa ou, no extremo oposto, se rebelar
contra tudo e todos. Freud, no começo do século,
foi o primeiro a teorizar que amor-próprio, o nome
antigo do mesmo sentimento, é obrigatório em
uma existência satisfatória. Solidificá-lo
faz parte do processo de aprendizagem de vida. Nas crianças
que vêm ao mundo com o essencial o amor materno
, esse processo caminha bem no primeiro ano de vida,
quando a mãe que é mãe, com seu olhar
coruja, faz o bebê se sentir o foco de todo o afeto
do mundo. Na fase seguinte, do desenvolvimento motor, ocasião
em que a criança começa a dar os primeiros passos,
aos carinhos e cuidados soma-se a necessidade daquele "muito
bem", o cumprimento obrigatório a tarefas como comer
sozinha e amarrar os sapatos. Na segunda infância, o
cimento da auto-estima é o sucesso na escola, que não
é sinônimo de notas altas, mas sim da percepção
de que é capaz de aprender, de se sentir estimulada
e de ter prazer nas descobertas. A moçada gosta de
si mesma se tiver amigos e se sentir que é querida
pelos colegas.
Alexandre Tokitaka
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| De
dentro para fora: a criança que aprecia seu valor
convive bem com as outras |
Para os pais, achar a medida certa, na hora de estimular a
auto-estima, exige doses de bom senso e capacidade de discernimento,
entre tendências aparentemente contraditórias.
"Tivemos a fase do 'não', na qual o filho era adestrado,
através de limites rígidos, a fazer isso ou
aquilo", explica o psiquiatra paulista Içami Tiba,
especialista em crianças e adolescentes. "Depois veio
a reação, com o 'sim' para tudo. Agora, os pais
estão buscando o equilíbrio." Que ninguém
se iluda este difícil equilíbrio exige
habilidade de malabarista de circo. Pais superprotetores estimulam
nos filhos uma auto-imagem negativa: por um lado, acham que
não valem nada porque papai resolve tudo; por outro,
mal acostumados a ter o que querem de mão beijada,
exigem cada vez mais e, não sendo atendidos, se sentem
diminuídos, como se o mundo não gostasse mais
deles. Já pais obcecados com a performance dos filhos,
que exigem comportamento impecável e notas excelentes,
podem acabar sabotando-os. "Tímidos, em geral, têm
baixa apreciação de si porque seus pais, excessivamente
críticos, não lhes deram a segurança
de ser amados. Não se sentindo amados, eles não
se gostam", conclui Tiba.
Como se vê, o amor, explicitado de diferentes maneiras,
é fundamental na construção e manutenção
da auto-estima. Inclusive com os adolescentes, mergulhados
naquela fase arredia em que rejeitam carinhos físicos.
"Adolescente não aceita mais beijo de pai e colo de
mãe", diz Tania Zagury. "Mas o pai pode demonstrar
seu afeto de outras maneiras, até com um tapinha nas
costas. A mãe pode recebê-lo com um 'Que bom
que você chegou. Vai começar seu programa favorito'.
Importante é achar um jeito de mostrar carinho", aconselha.
Mas atenção: rasgar elogios a torto e a direito
pode desandar a receita. Quando for elogiar, dizem os especialistas,
é aconselhável evitar julgamentos de caráter.
Incentivos do tipo "Você é uma garota boazinha,
está se saindo muito bem, continue assim" criam ansiedade
e convidam à dependência, porque a menina tende
a achar que só será amada se fizer tudo conforme
o figurino. Preferível, no caso, é a apreciação
específica. Quando diz "Você arrumou todo o armário
e ficou fácil encontrar aquela roupa perdida", a mãe
leva a filha a concluir por si mesma que seu trabalho foi
reconhecido e que manter o armário arrumado tem suas
vantagens. Já quem parabeniza o filho por ter tirado
9 mas pede, em tom de brincadeira, que na próxima tire
10 pode estar criando uma pessoa insegura, incapaz de agradar
aos outros.
"Cabeça-de-vento"
Saber criticar é fundamental. Primeiro mandamento
da construção da auto-estima: toda e qualquer
crítica deve ser dirigida ao comportamento da criança,
nunca a ela própria. Quando o menino relapso nos estudos
ouve do pai "Você é um vagabundo, não
presta para nada", ele acredita e não se preocupa em
mudar de atitude. Se o comentário paterno fosse na
linha "Neste ano você não está estudando
nada, hein? Mas, se se esforçar, ainda dá para
passar", pode ter uma resposta muito mais positiva. Importante
na hora da bronca, insistem os especialistas, é descrever
o comportamento em questão (bater na irmãzinha,
quebrar uma promessa), demonstrar o que eles, pais, sentem
a respeito (raiva, decepção) e dizer, com todas
as letras, como reparar o erro. E nunca, jamais, passar um
sabão em público. "Nada derruba mais o moral,
a imagem de uma criança ou de um adolescente do que
criticá-los na frente de amigos ou familiares", diz
a psiquiatra infantil Sônia Friedrich.
Humilhar é proibido, tanto por meio da crítica
quanto da falta de respeito. Ninguém diz a uma visita
que ela é desajeitada porque derrubou o copo de vinho
no sofá. No entanto, todo pai e toda mãe são
capazes de soltar os cachorros se o responsável for
seu filho. Raros os pais que pedem por favor ou agradecem
ao rebento. Mais fácil a criança ouvir que é
uma peste porque largou a roupa no meio da sala ou uma cabeça-de-vento
porque esqueceu a chave de casa. Por outro lado, quando os
pais demonstram que estão atentos aos filhos e ao que
eles lhes contam, a imagem que o menino e a menina têm
de si cresce e se fortalece. Quando a criança está
começando a construir frases, a atitude do pai de querer
adivinhar o fim da história, para saber logo o que
aconteceu, é uma ducha de água fria. O mesmo
acontece quando a menina está contando em detalhes
o dia na escola e a mãe fica reclamando do trânsito.
Sim, às vezes é preciso ter paciência
de monge. O lado bom é saber que tudo de positivo se
reflete nos filhos. Em mais de um sentido. Em um estudo sobre
as raízes da imagem positiva, o americano Stanley Coopersmith
chegou à conclusão de que pais com auto-estima
em dia têm filhos que também apreciam saudavelmente
a si mesmos. Nada a ver com genes é pura observação.
Se os pais são pessoas felizes e independentes, cidadãos
que respeitam as regras sociais, investem em suas potencialidades
e crescem na profissão, respeitando os próprios
valores, os filhos terão um espelho para se mirar.
A importância que os educadores atribuem à auto-estima
é tal que a preocupação em cultivá-la
já produziu efeitos contrários. Na década
de 80, nos Estados Unidos, criaram-se comissões governamentais
com a missão de formular estratégias para aumentar
a auto-estima das crianças e dos adolescentes. Caiu-se,
como era de esperar, no exagero. Escolas em todo o país
passaram a colar cartazes e adesivos elogiosos por toda parte
e a orientar os professores a enaltecer sempre a criança,
por qualquer motivo, indiscriminadamente. Resultado: uma geração
incapaz de enfrentar um "não", viciada em elogio (ganhou
até nome, praise junkies). A tática foi
abandonada e agora ressuscita reformulada, com ênfase
na idéia da "auto-estima adquirida", resultado de atitudes
positivas, merecedoras de reconhecimento. Um caminho delicado,
mas não impossível. Pense nisso, da próxima
vez que se sentir tentado a gritar e a insultar seu filho
ainda que o erro seja, de fato, irritante, e a desculpa,
totalmente esfarrapada.
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"Criticar,
sim, mas nunca humilhar"
Aos
81 anos, o americano Berry Brazelton, um dos mais renomados
pediatras do mundo, esteve no Brasil na semana passada
e falou a VEJA:
Veja
Seu próximo livro, The Irreducible
Needs of Children, trata das principais necessidades
das crianças. Qual a importância da auto-estima?
Brazelton
Assim como necessita de amor e carinho, saúde
e educação, segurança e respeito,
toda criança precisa se sentir valorizada. Na
nossa sociedade, reconhecer o próprio valor,
gostar de si mesmo, é fundamental.
Veja
Como os pais podem ajudar?
Brazelton
É um erro achar que a auto-estima é construída
com base em elogios. Durante muitos anos, nós,
americanos, nos equivocamos ao acreditar que elogiar
a criança incondicionalmente faria dela um adulto
melhor. Ninguém engana as crianças. Elas
sabem o que têm de bom, o que fazem bem-feito.
Veja
O que fazer, então?
Brazelton A
criança precisa de respostas positivas para seus
atos, não de ficar ouvindo o quanto ela é
maravilhosa. Os pais devem dedicar tempo aos filhos,
conversar com eles, conhecê-los.
Veja
Tempo é um ingrediente raro em casas
em que pai e mãe trabalham fora. O senhor concorda
que é mais importante a qualidade do que a quantidade
de horas passadas em família?
Brazelton
Seria, se fosse um tempo realmente de qualidade. Mas
não adianta querer acumular naquela meia hora
antes do café da manhã e depois do jantar
tudo o que não dá para fazer com os filhos
no resto do dia. Importante é tempo livre, em
que se conversa sobre o que vem à cabeça.
Só assim a criança se sente à vontade
para falar de si mesma e, em troca, ser reconhecida.
Veja
Os pais podem criticar?
Brazelton
Podem
e devem, mas nunca humilhar, criticando na frente de
outras pessoas. O mesmo vale para os professores.
Veja
Uma palmadinha de vez em quando é admissível?
Brazelton
Sou totalmente contra. Quando bate, grita, acusa, ameaça,
o adulto não está nem ensinando nem educando.
Está desvalorizando o outro, destruindo qualquer
imagem positiva que ele tenha de si.
Veja
E a atitude oposta, de deixar a criança
fazer tudo o que lhe dá na cabeça?
Brazelton
É um grande erro. Impor limites é fundamental
na formação de uma imagem positiva. Sem
isso, o filho vai achar que os pais não se importam
com ele. Não existe nada pior.
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Ponto
a ponto
Avalie
a auto-estima de seu filho respondendo "normalmente",
"às vezes" ou "nunca" às perguntas abaixo
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